O Tuaregue

Certa vez, em um hotel desses que já conheceu melhores dias, encontrei uma estatueta. Era a de um cavaleiro berbere, um tuaregue que mantinha a atitude imponente, mesmo sem apresentar a parte de baixo da perna direita, que jazia na base, junto às patas traseiras do cavalo. Essa mutilação não fazia parte da concepção original do artista. Apenas aconteceu, por descuido e consequente queda acidental ou por uma guerra entre espíritos guerreiros. Estacionado entre dois andares da escadaria de emergência, aquele herói que cavalga solitário para o passado ganhou, nesse dia, uma testemunha solidária que agora o revela à luz.

Tuaregue é uma variação nominal de termos que podem designar morador de um jardim, salteador ou, em uma versão folclórica muito difundida, uma ligação à palavra tawariq — “abandonado por Deus“. De alguma maneira, esta imagem ganharia maior significado, se assim fosse.

Porém, o povo seminômade chama a si mesmo de Imazighen — “homens livres” ou “homens nobres”. De fato, esta representação o mostra em nobre e eterna liberdade congelada, como quando controlou as rotas de caravanas pelo deserto do Saara por centenas de anos. Aqui, o que o venceu — o acaso, o imobilismo ou o fantasma do quarto 102?

Fala Sobre O Falo

“Freud explica”, razoavelmente o comportamento dos adeptos da atual linha ideológica defendida pelo Ignominioso e sua gangue. O médico Victor Sorrentino (cirurgião plástico), amigo do presidente e defensor das teses estapafúrdias do controle da Pandemia de Covid-19 através das medidas cientificamente ineficazes propaladas pelo núcleo duro do Governo Federal, foi preso no Egito por assédio moral contra uma vendedora de papiros. Falando em português, para desconforto da moça que o atendia, “brincava”, como os meninos criados numa cultura machista fazem, versando sobre o tamanho e a dureza do artefato de papel. O vídeo foi gravado como se fosse um momento de descontração. Obrigado a pedir desculpas, está detido enquanto o seu caso é analisado pelas autoridades egípcias.

“Homens” sexistas como ele costumam se defender usando argumentos como a roupa que a mulher veste, o que o incentivaria realizar esse tipo de violência moral. A vendedora usava uma vestimenta tradicional em que só o rosto aparecia. A esposa do “doutor” veio à público defendê-lo declarando que “as pessoas veem maldade em tudo”. O que leva a outra constatação — muitas mulheres, além de vítimas, incorporam esse tipo de comportamento como “normal” — ou seja, uma norma sobre a qual não devemos discutir porque é próprio dos machos. Eu, como ser humano do gênero masculino, posso dizer que os homens também são vítimas desse sistema educacional e moral engendrado no bojo do Patriarcado, misturado a regramentos religiosos, ambos umbilicalmente unidos no desvirtuamento da nossa formação psíquico-social. 

Outra médica (pediatra), a Drª. Mayra Pinheiro — chamada de Capitã Cloroquina por defender o medicamento tanto para tratamento precoce como para a cura da Covid-19 — protagonizou piadas e “memes” ao ser inquirida sobre a avaliação de sua visita à FIOCRUZ quando, em vez de fazer colocações acerca das questões técnicas e de trabalho da centenária instituição, relatou sobre a presença “pênis” inflados à porta do Pavilhão Mourisco, tapetes com o rosto de Che Guevara, cartazes de “Lula Livre” e “Marielle vive”. A passagem sobre o símbolo fálico foi levantada na CPI sobre as ações e omissões do Governo Federal em relação à Pandemia e virou manchete em meio ao caos administrativo em que vive o País, em todos os aspectos. O mais triste é que médicos utilizaram a nebulização por cloroquina — um processo experimental a la Mengele — que levou várias pessoas à óbito, além de inúmeros casos relatados de pessoas internadas gravemente por terem se fiado da cloroquina em associação com a ivermectina como panaceia no tratamento precoce à Covid-19.

O sexo é um assunto candente, praticamente uma fixação, que atende as demandas comportamentais dos defensores da atual gestão. A defesa de um estilo de vida hipócrita, dado os aspectos nada virtuosos dos seus praticantes — pastores que, em nome de Deus — acabam por camuflar desvios moralmente condenáveis, envolvendo recursos financeiros e poder. O próprio Ignominioso, sob a “inocente” figura patronal do “tiozão do pavê”, solta frases de viés sexual a torto e à “direita”, sendo que a última é “sou ‘imorrível’, ‘imbrochável’ e também ‘incomível’”. Declaração feita diante do cercadinho do gado, sem máscara, pelo sujeito de cu virgem, mente e boca suja. Enquanto isso vem paulatinamente alicerçando as condições para um possível golpe de Estado.

A possível confusão do logotipo homenageando os 120 anos da FIOCRUZ com a figura de um falo pela doutora em questão e a insistência do seu chefe supremo em colocar certas questões através de citações envolvendo sexo em variações pervertidas me faz lembrar o que já li sobre a teoria de Freud que em 1905 lançou luz sobre as fases do nosso desenvolvimento psíquico intrinsecamente ligado à sexualidade. À época de sua publicação, a teoria freudiana sofreu críticas pela frente puritana e, mais tarde, por seus seguidores e pares, em relação a algumas questões contraditórias e estereotipadas. O que não invalida a sua importância e alcance. Ao contrário, demonstra riqueza ao chegar a nossos dias identificando tipos canhestros que cabem como exemplo das fases de desenvolvimento psíquico-mental-sexual a frente (e atrás) dos asseclas palacianos — pai, filhos e “espíritos santos” do (des)governo. São como crianças na praia brincando de construir e destruir castelos de areia, enquanto comparam o tamanho de seus pintinhos.

No entanto, para mim, essa não é a questão. Mas sim a demonização do caralho. Lembrando que “caralho”, termo da língua portuguesa usado para designar o membro viril masculino era, até a Contrarreforma, em meados do Século XVI, usado até em documentos oficiais. Encontra correspondente no castelhano carajo, no galego carallo e no catalão carall, sendo exclusivo das línguas românicas da Península Ibérica, não se encontrando em nenhuma outra, incluindo o basco. Caralho também designava a cesta no ponto mais alto possível das naus portuguesas onde ficava o marinheiro com a tarefa de observar o mar em torno das naves. Na história de Portugal dos descobrimentos, foi o marinheiro que estava no caralho o primeiro europeu a avistar o Brasil. Sintomático, não?

Em muitas culturas, o falo é simbolicamente objeto de culto por representar a procriação, ainda que quem venha a gerar a descendência seja a fêmea da espécie. Ao mesmo tempo, após se desenvolverem no útero materno, a grandíssima maioria dos seres humanos nascem pelo encontro dos gametas masculinos e femininos através da ejaculação e fecundação. Para isso, é intrinsicamente necessário que o órgão masculino esteja ereto, a demonstrar potência. Sendo que o intumescimento do pênis é eventualmente saudado como uma espécie de elogio ao atrativo da parceira ou do parceiro no ato sexual. Diferentemente de outros animais, que passam por épocas específicas de acasalamento, o estímulo nos seres humanos ocorre primeiro na mente. O poder de fantasiar quanto ao ato sexual pode ser tão ou mais prazeroso que o próprio, a depender de quem o sente, apesar de haver os que o pratiquem de forma automática. Como o sexo começa na cabeça e é gerador de prazer para além da procriação, não há impedimento — a não ser por questões pessoais e/ou religiosas — para que seja praticado por pessoas do mesmo gênero, por dois ou mais parceiros ao mesmo tempo.

No Patriarcado, tirante as questões quanto à mecânica do ato, ao transformar a ação reprodutiva em matéria de prazer, a mulher passa a ser vista como objeto de desejo por ser, justamente, a reprodutora da vida. Maior valor adquire caso tenha formas atraentes, variantes a depender do período, ligadas a características culturais. De forma abrangente, o prazer e sua busca solapam a organização social de tal modo que as religiões incorporaram sua interdição ou a restrição somente à procriação. Mais uma vez a mulher sofre o anátema por ser quem é e seu comportamento libertário passa a ser condenado. Tudo o que se desenvolveu a partir dos impedimentos moralistas ocasionou e causa muito mal à sociedade, como o uso do corpo como artigo mercantil. Bundas (cus), mamas, vaginas, “pau” ganharam a pecha de órgãos capazes de instabilizar a sociedade ao mesmo tempo que, como fonte de curiosidade mal resolvida, tornam-se caminho para perversões.

Contrário ao mandamento monogamista, tão caro e um tanto contraditório à postura comportamental ideal embandeirado por seus seguidores sectários, o Ignominioso gerou filhos de relações diferentes, algo perfeitamente afeito à característica do macho reprodutor que despersonaliza suas crias ao numerá-las em série. Assim como os males em série produzidos pelo Patriarcado e o ideário fascista, bases ideológicas de seu (des)governo.    

A Teoria da Sexualidade preconizada por Sigmund Freud e o desbravamento do entendimento de nossa intimidade mental revolucionou o mundo, mas não chegou a todos ainda por ter certa aparência sectária, concorrente, portanto, de outras religiões. Como antecipei, Freud pode e deve ser revisto em suas teses e posturas em muitos de seus tópicos, mas seu postulado consegue explicar muita coisa quanto ao subdesenvolvimento psíquico — infantilizado, mesmo — mas não menos perigoso, do grupo que tem levado o Brasil à encruzilhada macabra entre escolher o caminho para o precipício e consequente aniquilamento ou para o atraso puro e simples — social, político, econômico, educacional e institucional — da nossa nação.

BEDA / Saudade De Mim Em Você

Sim…
agora eu sei que acabou…
Tentamos,
mas já não dói tão gostosamente…
A ferida cicatrizou…
Quis voltar a ser aquele que a amou
(não que eu não a ame ainda),
apenas sei que aquele amor já não me pertence mais…
Sei que o meu egoísmo pôs tudo a perder….
Sei que ficarei a penar
a eterna saudade de mim em você…

Aquele Eu que a amava daquela maneira,
sentia-se confiante,
sentia-se amoroso,
sentia-se confidente,
sentia-se poderoso,
sentia-se como se o mundo lhe pertencesse…
E o seu (meu) mundo era você…

Eu, aquele, sentia-se expandir para fora dele
até abarcar toda a Vida e a Natureza…
Deus supremo,
ciente de seu poder,
esqueceu-se da fonte
que irradiava tamanha grandeza…
Ele, Eu, aquele,
esqueceu de você em si…

Então, algo se perdeu…
Eu me perdi…
Perdi você…
Quando se afastou, vociferei,
a tratei como uma rés que ferrei,
propriedade minha, que não se compartilha…
Que preferia ver morrer à mingua,
de fome e de sede…

Preferi feri-la com a minha língua…
a mesma língua que antes vivia a esquadrinhar
a sua pele inteira…
A ultrajá-la com a mesma boca que a beijava
e lhe repetia palavras de amor…
E aquele Eu mal entendia que o verdadeiro ato de possuir
é um movimento de doação…
Que eu antepunha a exauri-la com a minha paixão…

Talvez, um dia, eu a reencontre em mim…
Porém sei que você não será mais a mesma,
tanto quanto sei que não serei decerto aquele
que então se sentiu total,
que não se permitia saber que tanto amor,
sem entrega e reciprocidade,
torna-se pura masturbação,
velada veleidade
a causar imenso mal.

Foto por Blue Bird em Pexels.com

Alê Helga / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso
/ Adriana Aneli / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

Dias Piores Virão… *

Um dia, em 2016…

“Cheguei em casa do trabalho por volta da meia-noite. Esperei pelo noticiário para tentar entender o que estava acontecendo em nosso País. Corrupção pública e privada, crimes contra as pessoas, instituições falidas. Tentava entender porque a Bolsa, que estava em alta, com o dólar em baixa, no dia anterior, hoje (ontem, amanhã) reverteram as expectativas e os sentidos… Manipulação do mercado financeiro? O povo que se dane?

Dois dos meus sentidos deviam estar me enganando!… Mais e mais, senti o meu corpo afundar no sofá com o peso das informações… Não é caso de desvalidar os veículos de comunicação que as veiculam. Não se trata de matar os mensageiros apenas porque nos dão notícias ruins. Mas sim entender porque nós nos colocamos, como povo, nessa situação sem sentido e, aparentemente, sem uma solução ‘honesta’.

Para qualquer lado que formos, que Deus nos ajude!”

*Neste texto de 2016, se já prefigurava o resultado de um jogo perigoso iniciado dois ou três anos antes em que se estabeleceu a premissa de César, general e imperador romano, milhares de anos antes — dividir para dominar — estimulada por agentes políticos interessados em governar sobre os despojos resultantes. Essa cisão acabou em resultar no atual estado de penúria institucional e ética, somada à uma crise sanitária que nos marcará por gerações ou talvez nem tanto, dada a incapacidade do povo brasileiro de se lembrar sequer o que aconteceu no verão anterior. Isso não é sinal de cura, porém de incúria.

Ser Cereja

Que cereja o que Deus quiser!
Que assim cereja!
Quer tenha sido,
quer venha a ser,
quer cereja!
Hoje, acordei assim,
sendo cereja!
De vermelho translúcido,
uma frutinha!
Tão apetitosa, que me comi!

Foto por Bruno Scramgnon em Pexels.com