BEDA / Tudo Passa?

Por uma dessas coincidências estranhas, encontrei pelo meu caminho dois motociclistas que apresentavam uma tatuagem no pescoço escrito “Tudo Passa”. As duas estavam tatuadas abaixo dos capacetes de tal maneira que dava para lê-las claramente. Nas duas ocasiões, as li porque estava sentado no carona de veículo que me conduzia. Portanto, do lado esquerdo do motociclista. Cheguei a pensar que fosse o mesmo motociclista, mas os pontos de contato ocorreram em distâncias díspares. Um, na Marginal Pinheiros — de trânsito parado — e outro no meu bairro, na Zona Norte, igualmente.

Para não apostar que o que fosse coincidência parecesse uma espécie de mensagem enviada pelo Destino, imaginei que a frase fosse uma espécie de divisa que os motociclistas usassem como uma referência da profissão de entregadores de aplicativo. Eu mesmo a usava e a projetava mentalmente para conseguir superar os períodos de trabalho pesado quando era funcionário de uma banda atuando “roadie”. Mas o que poderia perguntar é: “o tempo passa?”. Seria como um rio em que me posiciono num ponto e o tempo seria como a água que passa por mim? Ou sou eu que apesar de estar parado passo pelo tempo? Quando eu passei pelos motociclistas me tornei o tempo instantâneo em que gravei a frase “tudo passa”? Ou passamos juntos pelo tempo em que o trânsito estava parado?

Devaneios… pelos quais passo. Quem passa pelo o que? O que eu aprendi é que o tempo como uma espécie de fotografia a qual pode se acessar a imagem não tem exatamente esse poder de eternizar o seu significado. Não apenas porque o observador é diferente um de outro. Além disso, por trás do que se vê, há os movimentos invisíveis, a verdade oculta, o fato real que a construiu. Disso, eu sei…

Foto por Domenico Adornato em Pexels.com

De Lírios E Outros Devaneios

Eu estava limpando a casa e organizando o lugar para que não parecesse tão bagunçado, deslocando objetos daqui para ali. Não sei se pelo meu trabalho profissional, sinto que o meu senso espacial é bem apurado. Consigo colocar sem muito pensar as coisas nos seus devidos lugares. Se houvesse um nome que poderia escolher para o que eu faço é o de aprovisionador efêmero — soluções precárias para momentos oportunos ou que costumo chamar de provisórias permanentes. É bem verdade que quase tudo é passageiro. Algumas coisas além de passageiras, são lindas. Como os lírios que floresceram aqui em casa. Não fosse esta imagem roubada, ficaria apenas o registro da minha memória — talvez a coisa mais fugaz que eu tenho.

Bom dia para você, rolinha, que decidiu fazer seu ninho no cacho de bananas quase no ponto de ser colhido! Escolheu bem o lugar – terá o que comer ao alcance do bico — para você e para seus filhotes. E por ter escolhido uma casa onde as pessoas respeitam a vida — perderemos às doces bananas, mas ganharemos lindas companhias…

Voltava, madrugada alta, e ao olhar para a direita, uma porção de água refletia luzes de barcos estacionados ao longo do horizonte sem fundo da noite. Achei por bem registrar o que queria o que fosse a cena do confronto do branco com o preto, oscilantes. Quando fui buscar as imagens, vi fogo sobre a água e um bastão luminoso como se fosse o cetro da Rainha D’Água emergindo contra a negritude. Mais um devaneio entre tantos…

A insônia não me impede de sonhar. As últimas luzes de ontem, então, brotam em plena madrugada, como planta irrigada por devaneios aquosos. A tarde se faz, tarde da noite quente, seca e escura. Assim, amanheço…

Por onde eu estava, passou uma noiva com o noivo, acompanhados por damas de honra, todos devidamente paramentados. Enquanto uma senhora sorriu e expressou que amava ver noivas, outra falou baixinho: “Que ridículo!”… Eu, que só achei a cena bonita, senti que qualquer coisa pode ofender a alguém quando a pessoa está de mal com a vida.

Tempo seco.
Vida umedecida.
Horizonte dividido
em céus.
Todos meus.
Cores sedentas.
Tarde emudecida.
Coração agradecido…

A nossa boa e saudosa Penélope tinha o mesmo hábito — onde quer que estivéssemos, se postava estrategicamente no meio do caminho. Atualmente, é a Dominic que se põe na passagem. E o que muitos de nós, seus cuidadores, fazemos? Nada. Passamos meio de lado ou por cima, com todo o cuidado para não atrapalharmos o descanso da inconveniente presença. Certo ou errado, é o meu comportamento.