BEDA / Filhos De Eva

Adão E Eva No Paraíso“, obra de Carlos Bastos (1954) / Acervo do Museu de Arte Sacra da UFBA

Solitários, em momentos de reflexão,
questionamo-nos sobre Deus e o Mundo
Revoltamo-nos contra a autoridade a fundo
de quem nos trouxe para a ribalta, o chão…

Todos nós, os dispersados filhos de Eva,
podemos nos ressentir da mulher primeva.
Perguntamo-nos, quando a dor sobrevém,
de onde ela teria aprendido a oferecer o amor de mãe,
se não o teve… Quando falhou ou ousou
a desafiar a soberania de seu Criador?

Não será nesse momento aprofundador
que os filhos mereceriam o Seu mais dileto amor?
O Seu distanciamento não seria a resposta de nosso dissabor?
Ou seria a melhor proposta do Pai educador —
“vá e aprenda a viver pela própria dor!”?

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Darlene Regina

BEDA / Parasitismo*

Paraisópolis, em 2014

Do alto do edifício onde estou, aqui no bairro do Morumbi, onde hospedo a minha dor particular, pode-se observar ao longe a comunidade de Paraisópolis encravada em uma clareira de pequenas construções simples entre prédios de condomínios de alto padrão.

Já estive pessoalmente na “fronteira” daquele lugar, para fazer um evento. Uma mesma rua serve de marco divisor entre dois “Brasis” – de um lado, apartamentos alojados em edifícios protegidos por muros altos e vida social organizada. De outro, casas construídas ao acaso, com a técnica do improviso emergencial, como se fossem pássaros que fazem o ninho com que encontram pelo caminho.

Que Brasil se perpetuará? Na atual estrutura civil, filha dileta das anteriores, creio que os dois – pois um necessita do outro – na construção de um famigerado comensalismo social aparente. Mas se observarmos melhor, configura-se em um portentoso parasitismo sobre os mais numerosos pelos de menor quantidade, donos de maior opulência, a qual os parasitados um dia sonham alcançar.

*Texto de 2014, revisto.

O BEDA é uma aventura compartilhada por: Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi

Projeto 52 Missivas / Antes Do Fim Do Mundo

Meu amor… saudade!

Dois anos sem nos ver, desde o fim do mundo. Em longas frases, digo coisas que apenas nós dois conhecemos. Você sabe que eu prezo o estilo mais prolixo. Mas aqui não quero testar a sua paciência. Assim como quando ao lhe falar começava com um assunto e terminava em outro. Tatibitate, sequer anunciava do que estivesse tratando. É que, na minha cabeça, eu converso consigo o tempo todo. Quando a minha voz sonorizava as palavras, era somente a continuação do que havia começado mentalmente. Muitas vezes me surpreendo por você não saber absolutamente tudo de mim. Esqueço que estamos apartados — no tempo e lugar.

Em março, completa dois anos em que namoramos, cantamos, mergulhamos em azul piscina, sempre com um golfinho a nos acompanhar. A areia lotada, deserta de gente que importava, a não ser nós dois. Cheios de paixão e amor.

Havia anúncios que os lugares iriam fechar. As praias ficariam inacessíveis. A pousada cerraria o portão. Vivíamos os últimos dias de um mundo antigo. Tínhamos alguns dias e nos amamos como vadios, em pé ou no catre, sabendo que as muralhas desabariam. Chegamos a ouvir as trombetas de Jericó. Desabamos suados e sorridentes, plenos de gozo. Amantes isolados de nós mesmos, deixamos de sonhar. Morte e quase morte a nos acompanhar. Choramos, brigamos, rimos e rumamos de volta para nossos lares.

Nunca mais voltamos a nos encontrar, a nos entregar, a nos perdermos… Meu mundo caiu e Maísa o cantou noites adentro. Dor de cotovelo. Sangue nos olhos. Lágrimas de sal. Beijos partidos. A faca da distância a cortar nossos corações. Continuo a conversar com a sua boca a centímetros de me abocanhar. A minha língua continua a sibilar como uma serpente a caminho da roseira. Apenas em imaginação. O rei sem o seu reinado. O jardineiro sem regar a rosa. Meu amor, que saudade! Será que um dia voltaremos a nos amar como antes do fim do mundo?

Participam: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

Imagem por brenoanp em Pexels.com

Projeto 52 Missivas / Eu Me Lembrei De Você, Em Mim / Memória De Sonhos Não Realizados

Dias desses, eu me lembrei de você, em mim… Mentira, eu lembro de você, de mim, de nós, todos os dias. E sabe o que é mais estranho?… Tenho saudade de nossos sonhos não realizados. Viveríamos à beira do mar, teríamos uma vida simples, criaríamos os nossos filhos, fossem eles adotados ou não. Formaríamos um vínculo eterno no tempo terrestre e além. Quando estava com você, sentia vontade de cantar. Músicas de Alceu Valença nos representavam. Lembra quando a conheci, numa tarde junto ao mar? Você olhava para o horizonte e quando cruzei com você, vi o azul do céu e do mar em seus olhos. Sem querer, falei baixinho ou apenas pensei, não sei: “la belle de jour…”. Você parece ter ouvido, sorriu e respondeu: “adoro essa música!”… Fiquei enrubescido… Você sorriu mais ainda: “você ficou vermelho! Que gracinha!”… E começamos a conversar. Percebi que seus olhos eram, na verdade, castanhos esverdeados, às vezes mais claros, às vezes menos, e que tinha a capacidade de resplandecer o sol, fundir o azul do céu e do mar, o verde da vegetação, avermelhar-se com os últimos raios do entardecer, como descobri ao ficarmos sentados em uma pedra, conversando, até anoitecer… Quando voltamos a nos encontrar, lhe cantei “Anunciação” porque a letra fazia todo o sentido. Na mesa do restaurante, eu me voltei assim que entrou pela porta. Brinquei: “eu escutei os seus sinais…” / “Sou tão barulhenta assim?” / “Não! O meu coração bateu tão forte que cheguei a ouvi-lo…”. Seus olhos furta-cores se expandiram e você me beijou. Ficamos juntos por maravilhosos dois anos, fazendo planos para o futuro, cantando músicas do Alceu, assistindo aos seus shows, saindo pela noite cantando “mar e sol… gira, gira, gira, gira, girassol…”, flores que teríamos no jardim de nossa casa à beira-mar, com as nossas roupas quarando no varal. Até que… algo aconteceu. Você parece ter despertado do nosso sonho. E disse que ele havia acabado. Simples assim… Não quis explicar, talvez não quisesse me magoar por dizer que não gostava mais de mim. Ou que se apaixonara por outro. Eu devia ter escutado as mensagens enviadas por seus olhares, ainda que a boca não se pronunciasse. Eles começaram a ficar nublados como a estação chuvosa. Mas do que valeria? A dor seria a mesma. Sei que tudo passou. Prefiro que seja assim. Será um sonho eterno, realizado somente em minha mente. Guardarei o seu olhar-sorriso-ladrão-de-corações em minha lembrança. Aquele sorriso que foi só para mim, aquelas cores que foram só minhas… Adeus, meu sonho!

Imagem: Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Participam:
Mariana Gouveia
Lunna Guedes

A Última Carta

“Meu amor,

foi muito bom reencontrá-la após tanto tempo afastados. Essa pandemia matou tanta gente… sobrevivemos fisicamente, mas acho que o que tivemos parece ter sido contaminado por algum vírus oportunista. Seria o da distância, o da palavra mal entendida, o do ciúme por termos ficado em casa com os nossos companheiros?

Duas semanas após voltarmos a trabalhar juntos presencialmente, eu a percebi lacônica, esquiva, tentando não ficar no mesmo lugar que eu. No refeitório, eu a vejo sorridente, falante, trocando palavras com amigas e colegas de trabalho. Sequer olha para mim… Eu me sinto quase se tivesse exalando o odor dos mendigos. E da maneira que tento chamar a sua atenção, não deixo de me sentir como um por mendigar um tostão de seu olhar por cima da máscara na chegada e na saída.

Tantos anos na empresa, se lembra como nos conhecemos? Você, na época era uma das secretárias do DP e me deu toda a atenção possível. Eu me senti distinguido, especial, mas nunca imaginaria que tivesse me visto de outra forma até conversamos sobre como desejávamos crescer na profissão, sobre os estudos e ambições. Quantas vezes eu quis estar a sós com você até aquele dia em que deu uma carona… Ao me deixar no Metrô, você me deu um beijo no rosto. Fiquei como um garoto que ganhou uma bola de futebol no Natal. Quer dizer, eu me senti dessa maneira porque você sabe como adoro futebol. Eu fiquei tão feliz!

Em vez de um e-mail afinal nem tinha um computador na época eu deixei uma carta no seu porta-luvas depois de outra carona. Sabia que punha ali a chave do apartamento e que a veria quando a pegasse. Nessa carta eu falava da minha devoção e de como a sua presença me afetava. Como eu a queria mais do que uma amiga e colega. Que o que eu sentia era muito maior do que o simples desejo de somente tê-la em meus braços. Na carta revelava como me sentia inseguro por não ser correspondido. Que estava mal por querê-la tanto apesar de sermos casados com outras pessoas. Que imaginava um futuro para nós dois juntos… mesmo sabendo que fosse quase impossível! Sabia que estava agindo como um garoto inexperiente, mas me permiti ser sincero e franco.

E foi isso que a cativou. Foi o que disse no dia seguinte. O mesmo da nossa primeira vez. E de quando nos apaixonamos intensamente. Quantas vezes conversamos sobre os nossos filhos, nos aconselhando mutualmente até em relação aos companheiros. Oferecendo palavras de consolo quando da morte de parentes ou doença nas famílias. E o sexo incrível que parecia ser sempre como na primeira vez. Depois de sete anos juntos, a pandemia nos separou. Não tínhamos mais desculpas para os nossos encontros, já que o trabalho havia se tornado apenas virtual. Aumentou a demanda pela atenção de nossos companheiros. Hotéis e restaurantes fechados. A preocupação para não contaminarmos a nós e às nossas famílias. As mensagens cada vez mais escassas…

Eu estou sofrendo muito, meu amor! Não suporto mais encontrá-la na empresa sem receber um olhar de reconhecimento. A sensação que eu tenho é de ser um cão sem dono. E não gosto nem um pouco da ideia de ser somente um colega de trabalho, tendo ciúme de cada homem com quem conversa. Estou deixando a empresa, deixando a sua vida. Já enviei uma carta de demissão ao Sr. Travis. Não se preocupe. Ficarei bem. Vou para outro Estado. A sua atitude me ajudou a decidir. Há um mês eu recebi uma proposta para dirigir a filial de outra empresa na mesma área de atuação que a nossa… Quer dizer, não é mais minha…

Você sempre disse que namorou bastante até se casar e que ficou amiga de todos os seus “ex”… Não serei um deles, não quero ser mais do que um amiguinho! Se não tem coragem de terminar definitivamente, eu tenho! Com muita dor! Esta é a segunda e a última carta que lhe escrevo. Você foi o grande amor da minha vida!

Adeus!”