Pecado Original*

PECADO ORIGINAL
Os originais de Pecado…

Como seria o diálogo entre Adão e Eva, diante do próprio assombro por terem descoberto o amor? De inocentes a pecadores em um átimo, os dois, tais quais quaisquer adolescentes, talvez até se revoltassem contra quem os criou…

Eva,
disseram que cometemos
um grande pecado…
Não vejo qual…
Não vejo onde…
Não vejo como…
Não vejo quando…
E, no entanto,
Nos acusam que nos foi dado a ver…

Adão,
pode ser que seja esse o nosso
grande pecado — que ao nos percebermos
tão expostos,
quiséssemos resguardar a nossa paixão
de olhares alheios,
assim como todos que encontram
algo precioso…

Eva,
se não for esse o pecado,
qual seria?…
O de nos conhecermos intimamente
a si mesmos e um ao outro?
Quem nos criou, nesse caso, talvez fosse o grande Pecador!
Pois todos percebem que fomos feitos
um para o outro!

Adão,
talvez o grande pecado
fosse tornar o nosso amor
tão original
a ponto de contrariar as regras
deste país edílico e passivo…
Mais do que isso, a minha intuição
me leva saber que cometemos
o pecado de amarmos
de modo diferente,
de modo mais completo,
amarmos além…

Eva,
ouvi dizer que nos colocarão
para fora de casa…
Por termos amado demais!…
Que nos farão sofrer…
Porque se conhecemos o prazer,
devemos conhecer a dor!
Que viveremos por nossa conta
e risco…que nos lançarão à vida!
Que, da inocência, deveremos
alcançar a maturidade…
Para um dia voltarmos,
finalmente, ao nosso lar…

Adão,
falam do nosso prazer
como se já o conhecêssemos…
Como se antes pudéssemos
diferenciá-lo da dor…
Desde que nos apaixonamos,
percebi que esse seria o nosso
caminho: saber o que é sofrer
para conhecermos o completo prazer!

*Pecado Original foi escrito há algum tempo. Há 35 anos ou mais… não sei ao certo. A Tânia estava fazendo uma limpeza e encontrou papéis com textos antigos, junto a outros mais recentes. Gostei do tema e, portanto, achei interessante expô-lo a público, naturalmente, editado, mas muito menos do que eu poderia imaginar.

O Vício

O Vício

Enxerguei a bituca sem filtro
grudada na soleira.
A peguei e a acendi.
À fumaça, o meu pulmão recebeu
como a uma querida amiga antiga,
nunca esquecida.

Morto de sede,
absorvi as últimas gotas do copo abandonado
na mesa do bar.
Me senti embalado pelo odor remanescente de álcool.
Todos os anos de abstinência que me impus
se desvaneceram sob o império do vício
nunca debelado.

Compartilhei da agulha do adicto solidário.
Inoculei para dentro das veias a dor
bela e mortal de se perder.
A invasão do mal me alegrou.
Finalmente, me senti o ser mais vivaz —
aquele que está à beira da morte.

O gosto de sangue,
vampiro retirado e arrependido,
arremeteu em minha boca —
voltei a sorver,
voltei a matar,
voltei a amar…
Bastou reencontrá-la…
Bastou beijá-la…

… 7, 8!

7, 8!
Giovanni Boldini, Dançarina Espanhola no Moulin Rouge

Éramos dois perdidos numa cidade suja.
Nossos caminhos se encontraram – bailarina-cerebrina e espectador-expectador…
Meus olhos a perseguirem seus passos nas esquinas-palcos.
Eu, um solitário, cercado de pessoas e afazeres,
fui beijado por ela em dia de Carnaval diante da porta do trabalho.
Ela brandiu o seu leque, fantasiada de espanhola;
eu, um espanhol fantasiado de ninguém, o roubei…
Apaixonado, atrapalhado, alucinado, amargurado, assustado,
me recusava a olhá-la nos olhos fugidios-furta-cores –
sabia que neles me perderia para sempre…
Ela me amou como sempre me conhecesse;
eu, como se nunca devesse tê-la encontrado – pecado em forma de mulher –
cristão-penitente me a me sentir condenado…

Este-eu-pobre-ridículo-homem-tempo-seco,
enquanto ela era tempestade – raios e trovões em dia claro de sol –
visão oscilante feito miragem de oásis no deserto;
nunca soube ou quis amá-la como deveria
e ela gostaria.
Preferi fugir para um lugar onde sentia frio e dor,
mais confortável do que é amar – ser enganado por meus sentidos – nunca ter certeza de onde estava ou se caminhava ou se flutuava
ou se estava a cair indefinidamente numa fossa abissal…
Consegui sobreviver à vida por ela ofertada.
Preferi passear comigo mesmo em confortável-estável-imutável-roda-gigante
num eterno domingo no parque da morte…
Nos deixamos por mensagens-rompantes-soluços-choros de criança,
sem adeus ou carta de despedida…

BEDA / Amor E Sangue

Amor E Sangue

Aquela parecia ser mais uma história como muitas outras que eu já lera em revistas ou livros ou já vira na televisão em filmes ou novelas. Eu era um garoto tímido que se entretinha a escrever poemas para amores sonhados e perfeitos, vividos em paisagens perfeitas, enquanto à minha frente escorria o esgoto a céu aberto na rua de periferia na qual morava.

A diferença é que, enquanto me divertia com o distanciamento seguro que mantinha dos contos de amores fictícios, houve uma época que passei a sentir dor física por amar. Como em um típico enredo juvenil, amava a uma colega de classe. A mais linda. Ou era o amor que a tornava mais linda. Eu amava cada gesto com o qual feria o ar e enchia o momento de beleza perante os meus olhos de garoto míope. Os seus olhos verdes se confundiam com a luz vestida de verde por causa das árvores do entorno do pátio da escola onde fazíamos o recreio. Quando os seus cabelos, à linha do ombro, brincavam com o vento, eu segurava a respiração ao ver os longos dedos de suas mãos tentando manter alinhados os fios castanhos do alto até as pontas, que terminavam em semicírculos naturais. A sua boca sorria por graça e de graça porque tudo era motivo de alegria naquela idade de descobertas.

Eu me admirava de como ninguém percebesse que tamanho encanto existisse e o mundo não parasse para vê-la passar. Ao mesmo tempo, a recusa em correr atrás da bola improvisada com papel, saco plástico e elástico com a qual eu e outros meninos jogávamos na quadra, no período entre as aulas, começou a gerar suspeitas entre os colegas. Obviamente, estava doente… Ou apaixonado. O que terminava por ser o mesmo, todo mundo o sabia, mesmo naquela idade. Só restava saber por quem. A tentativa em disfarçar o objeto de atenção talvez até soasse mais eloquente do que quisesse fazer entender. Porém, nem para o meu melhor amigo revelei o seu nome e o guardei tão secretamente que hoje não me lembro realmente qual fosse. O que torna a história ainda mais autoral, pois posso escolher qualquer um.

Contudo, essa história não foi totalmente platônica. Houve um momento de aproximação e sangue. Aconteceu o que era mais comum do que seria bom para a imagem de alguém que quisesse parecer forte, que o meu nariz começasse a sangrar. Sem mais, nem menos, lá estávamos nós, os alunos, reunidos para alguma atividade, quando, rubra como a minha vergonha, se deu a hemorragia. Colocava a cabeça para trás e quase me afogava com o grande fluxo do líquido de origem arterial que não cessava de vir à tona quando, no momento mais crítico, vejo, meio nebulosamente, pois tirara os óculos, a figura da minha amada, bem próxima do meu rosto.

“Olha”, disse, “pega isso!”

Ela, gentilmente, me oferecia um lenço branco, que eu quis recusar, alegando que o mancharia. Ela retorquiu que aquilo não tinha a menor importância e insistiu que o pegasse. Aceitei, meio envergonhado e, meia-hora depois, consegui fazer cessar o sangramento. Não me lembro direito como evoluiu o nosso relacionamento, mas o mais provável é que a minha vergonha por não poder devolver o lenço, manchado de vermelho paixão, impediu que eu fizesse algo a mais do que esperar que o ano letivo terminasse, deixando que o tempo se incumbisse que eu a esquecesse. O que se pode perceber que não aconteceu…

BEDA / Cabelos Brancos

Cabelos Brancos
Moça dos cabelos brancos,
caminhante por campos
de pecadores e santos…
São Paulos, Caetanos,
Andrés, Bernardos,
Vitos e Franciscos
a lhe desejarem,
enquanto salta entre nuvens macias
e palcos duros…
Dança a dança da vida
e da morte-norte-sorte
de todos nós.
Nunca será esquecida – viverá
pelos olhos-lembranças dos que lhes assistem,
aplaudem,
suspiram
ou invejam…
Moça dos cabelos brancos,
que eu possa lhe admirar os passos
mais uma vez…
Adivinhar os quereres
e lhe ofertar prazeres
simples e mundanos…
Beijar seus pés
subir às estrelas,
alcançar a luz,
fechar meus olhos
e gemer de dor
a perda de seu amor…