De mal a pior,
poderia se dizer ia a vida
da artista.
Apesar de muito chamada,
apesar de bela,
apesar de excelsa,
era uma fera
indomada,
mulher de lua.
Contrariada,
não se dava por vencida…
Não a venceu o amor,
não a venceu a dor,
não a venceu a vida…
Suspeitava que nem a morte
a venceria…
Quando se sentia aprisionada,
ainda que pelo conforto da alegria,
se rebelava e partia.
Em vez de sucesso,
queria acontecer no coração
das pessoas…
Cometer o ato perfeito e inesquecível.
Preferia o tempo virado –
raios e os trovões…
Gostava da porfia,
sua opção era pelo acaso,
a atraía a inconstância da estrada…
Se morresse assim,
se sentiria plena.
Maior que a flor – uma pétala…
Para ela,
viver era comer de cuia,
arrumar a mala e
atravessar a si mesma.
O último livro que me lembro de deixar de ler pelo meio foi “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery. O exemplar me foi ofertado por minha editora, Lunna Guedes e logo me apaixonei por sua narrativa. No entanto, assim como paixões que viajam para longe e deixam de participar de nossa vida diária, deixei de avistá-lo em determinado momento e devido a vários outros fatores, nunca mais retomei a sua leitura. Tenho impregnada em minha lembrança todos os traços das personagens, tramas e ambientes descritos que facilmente recomeçaria a conversar com ele, como se fosse aquele velho amigo com o qual retomamos o diálogo no ponto que fora interrompido anos antes, como se tivesse sido um dia antes. Ensaio essa ocasião tantas vezes que se tornou um hábito estranho.
Contudo o livro que abandonei por tempo indeterminado, até ter decidido retomá-lo definitivamente há poucos dias, quando fui questionado sobre meus projetos para 2019, foi o provisoriamente denominado “De Filho Para Pai – A Revolução Que Nunca Houve”. Decerto que ninguém ouviu falar dele. Ainda está em elaboração. Eu sou o autor. Comecei a escrevê-lo há alguns anos, não sei ao certo quantos. Um trecho aqui, outro ali. Eu me colocava diante do computador como se atirasse como uma metralhadora ou preenchia uma folha em branco com garranchos que tinha dificuldade em decifrar devido à raiva que impunha à escrita. Estava absorvido pelo processo. Até que começou a doer demais. Não consegui continuar…
Tema principal que estrutura o romance, em um movimento tão lento quanto interminável, a relação com o meu pai se deteriorou definitivamente. Até que, fisicamente, ele passou. Mas nunca me deixará de me acompanhar. Supostamente não restou nada que pudesse ser reerguido das cinzas. Além disso, Fênix mora longe do fosso que joguei nossa história. Mas pretendo restituí-la com toda a paixão que puder colocar nessa composição. Sofrerei, porque terei que reencarnar todas as minhas contradições e ficar diante do ídolo com os pés de barro – do qual fui gerado, carrego a herança e a carga pesada – em grande parte por mim repudiadas, ainda que reconhecidas como o melhor que ele poderia me ofertar.
O desejo de retomar a escritura d’A Revolução é o capítulo mais importante do meu Livro pessoal, porque é atual, apesar de discorrer sobre a antiguidade dos relacionamentos entre seres com papéis definidos antes de nascermos – pai e filho. Um livro que já escrevi em sangue, lágrimas, ferro e fogo, mas não li devidamente no espaço mental. Colocá-lo no papel – um material eterno – talvez faça com que redefina meu percurso. Espero não o abandonar no meio do caminho…
O dia frio e úmido destoava da sensação que o corpo de Thiago sentia – ar tão abafado que as mãos estavam molhadas – como se tivesse sob um sol escaldante. No entanto, corria a noite… Sabia que sua febre não era puramente física. Don Diego, que o acompanhava e, eventualmente era convidado a assumir o seu corpo, ardia de saudade… Não que fosse represália por Thiago ter brigado com Diana, que carregava Saphyra, seu amor. Apenas acontecia.
Thiago e Diana também já se amaram. Mas viviam às turras, com diferenças quanto a objetivos e posturas. Thiago era mais tranquilo e retraído, quase tímido. Timidez que se esvaía quando colocava sua roupa de cigano e dançava as vibrações-referências de todos os lugares do mundo por onde o seu povo passou, desde quando os ciganos deixaram o Egito e a Índia, passaram pela Pérsia, Turquia, Armênia, chegando à Grécia, onde permaneceram por vários séculos antes de se espalharem pelo resto da Europa, com influências húngaras, russas e espânicas. Don Diego era mestre na dança flamenca.
Saphyra, de origem grega, também sofria. Com o corpo da esfuziante Diana, fazia uma mescla estonteante de flamenco e árabe. Quando conheceu Don Diego, no corpo de Thiago, imediatamente se apaixonou. O casal-entidade forçou para que Thiago e Diana ficassem juntos. E assim aconteceu, não sem antes causarem as separações dos casais que os abrigavam, também ciganos. Apesar da dor causada pelos rompimentos, os respectivos cônjuges se conformaram diante da explosão passional de beleza e efervescência emanadas quando as entidades dançavam nos corpos de seus companheiros. Sabiam que não havia como impedir o rompimento diante do jorro de energia pura que se precipitava salões afora por onde volteavam.
Thiago, por Don Diego, do qual gostava muito, decidiu chamar Diana para conversar. Ela aceitou, por Saphyra e porque o desconforto que passava a estava impedindo de trabalhar. Marcaram de se encontrarem longe do Recando Santa Sarah, em cujo salão de eventos, dançaram pela primeira vez, causando frisson entre todos que os assistiam, em uma festa com a presença dos Guardiões da Noite do Oriente, com a participação de várias famílias ciganas. Entre volteios e braços erguidos, cruzaram os olhares dentro dos olhares, longos cabelos jogados pelo espaço. A grega e o espanhol formaram a dupla que encheria de força cósmica todos os encontros nos últimos cinco anos.
Fora das festividades, Thiago e Diana tiveram que lidar com o cotidiano massacrante de professor e enfermeira. Nos momentos de encontro amoroso, usufruíam do poder do chakra sacral – Swadhisthana – livre e ativo. A conexão entre Don Diego e Saphyra se consolidava a cada encontro, enquanto Thiago e Diana perdiam suas identidades. No entanto, a massa de energia era tão grande que se espraiava prazerosamente por todos os poros de seus corpos. As peles, depois de cada refrega, permaneciam sensíveis a qualquer toque por quase 24 horas, como se fossem queimaduras. Apesar de todo o prazer que sentiam, os efeitos também concorriam para se sentissem desconfortáveis juntos, quando conscientes.
O ex-casal se encontrou em um Café no Paraíso, subiu as escadas e se posicionaram em um dos cantos do mezanino. Estavam calmos e inicialmente conversaram amenidades sobre saúde e rotina. Sentiam-se estranhos por estarem ali naquele ambiente impessoal. Contudo, talvez fosse o ideal para evitarem certas repercussões que já ocorreram antes. Como fariam? Senhora Avelar teria condições de liberá-los? Orações para Santa Sarah? Intervenção do Mestre Kalé?
Em determinado momento, por mais que evitassem, olharam-se nos olhos. Foi o que bastou para quererem se tocar. De mãos unidas, olhos flamejantes, perceberam que seus corpos perderam peso e praticamente flutuavam milímetros acima dos estofados. Seus corpos começaram a vibrar levemente e seus pelos e cabelos se eriçaram a olhos vistos. Trocaram um beijo longo, acompanhado de um suspiro profundo. Testemunhas disseram que sentiram uma lufada de ar quente a percorrer o salão, enquanto a luzes variaram de intensidade. Em pouco tempo, tudo cessou. A temperatura baixa deste Agosto voltou a prevalecer. Thiago e Diana se olharam como desconhecidos. Don Diego e Saphyra haviam partido..
Houve uma época em minha vida que busquei intensamente escapar da dualidade prazer e dor. Era bastante jovem, de 16 para 17 anos. Ainda que de forma precária, sem tantas informações, avesso em participar de grupos, estudei as soluções orientalistas, com milhares de anos na senda do autoconhecimento. Decidido a me interiorizar cada vez mais, fui me apartando das pessoas ao meu redor. Apenas a paixão pelo futebol – já que para jogar é preciso de companhia – me “salvava” do ostracismo total. O termo salvar é dúbio, obviamente, porque a minha intenção primordial era me salvar de mim mesmo ou, melhor dizendo, de vivenciar a eterna polarização entre prazer e dor, firmemente ligada ao ego.
Ego eu chamava àquele “eu” reconhecível ou que supunha conhecer e que carregava os desejos, sentimentos, emoções e expressões externas de ser o Obdulio. O interessante que focava fortemente na abstenção da sensação de prazer. A dor eu a tinha como condição natural. Talvez até buscada como expiação por possíveis pecados que tivesse cometido. Inclusive, em intenção.
Adolescente em época de efervescência sexual, renunciava ao conhecimento prazer por essa via. Eu me tornei abstêmio de carne em um período que a oferta de alimentos e alternativas vegetarianas não eram tão amplamente difundidas. Fiz um estudo sobre os valores energéticos, proteicos e vitamínicos de folhas, grãos, legumes e frutas. Comecei a evitar o açúcar. O radicalismo me levou a perder mais de 15Kg. Normalmente de cabelo farto, adotei a prática de raspar a cabeça. Decisões coincidentes com o surgimento da Síndrome Imunodeficiência Adquirida, alguns começaram a supor que estivesse doente. Ouvi de uma pessoa que eu parecia um refugiado de campo de concentração.
Concomitantemente, vivia uma relação difícil com os meus pais, principalmente com o Sr. Ortega – o chamava dessa maneira. Com a minha mãe, o amor que eu sentia por ela era obliterado pelo “desejo” de não o expressar – parte de um plano canhestro em demonstrar autocontrole com relação aos sentimentos e às emoções. Ou seja, estava absurdamente confuso. O prazer reservava à escrita, cada vez mais importante. Chegaria o momento que até esse regozijo igualmente deixaria de viver. Mas essa, é outra história.
O certo é que fiquei dependente de minha dor, como se isso significasse que estava no caminho certo para a independência dos atributos mundanos de ser um humano – a busca da felicidade ou prazer (que muitos confundem) como condição ótima de vida. Crescentemente, o desamor por mim mesmo me abasteceu os dias. A auto sabotagem deve ter surgido aqui e ali. Medo de amar, com certeza, por receio de sentir a verdadeira dor. Diante de tantas incongruências, não foi surpresa as diversas vezes que adoeci fisicamente. Mentalmente, já estava. Tanto que suspeitava que sentia prazer em sentir dor.
Consegui sobreviver para poder falar sobre isso. Algumas vezes, sinto saudade daquela pessoa extremamente inocente, ao mesmo tempo que ainda continuo a me pasmar diante de muitas coisas. Tenho “o pasmo essencial”, como Pessoa já o disse. Isso, gosto em mim. Porque, apesar de narcisista, eu não sinto me amar. Portanto, não sou totalmente inocente… ainda.