como se chovesse em nossas lentes plúmbeos nossos olhares se entristecem cada vez menos cor talvez refletindo cada vez maior dor maior pendor para o sofrimento cada vez menos luz como se fossem toldada por voos de milhões de urubus de asas abertas sem vazamento de raios solares a vida encoberta porque vivemos tempos nublados de furacões tufões e bufões que deixam nossa existência acinzentada empalidecidas nacaradas sem azuis vermelhos verdes cores como posso deixar de ver-tes?
Éramos dois perdidos numa cidade suja. Nossos caminhos se encontraram –– bailarina-cerebrina e espectador-expectador… Meus olhos a perseguirem seus passos nas esquinas-palcos. Eu, um solitário, cercado de pessoas e afazeres, fui beijado por ela em dia de Carnaval diante da porta do trabalho. Ela brandiu o seu leque, fantasiada de espanhola; eu, um espanhol fantasiado de ninguém, o roubei… Apaixonado, atrapalhado, alucinado, amargurado, assustado, me recusava a olhá-la nos olhos fugidios-furta-cores –– sabia que neles me perderia para sempre… Ela me amou como sempre me conhecesse; eu, como se nunca devesse tê-la encontrado –– pecado em forma de mulher –– cristão-penitente a me sentir condenado… Este-eu-pobre-ridículo-homem-tempo-seco, enquanto ela era tempestade –– raios e trovões em dia claro de Sol –– visão oscilante feito miragem de oásis no deserto; nunca soube ou quis amá-la como deveria e ela gostaria. Preferi fugir para um lugar onde sentia frio e dor, mais confortável do que é amar –– ser enganado por meus sentidos –– nunca ter certeza de onde estava ou se caminhava ou se flutuava ou se estava a cair indefinidamente numa fossa abissal… Consegui sobreviver à vida por ela ofertada. Preferi passear comigo mesmo em confortável-estável-imutável-roda-gigante num eterno domingo no parque da morte… Nos deixamos por mensagens-rompantes-soluços-choros de criança, sem adeus ou carta de despedida…
Eu tenho pés com duas personalidades entre si. Certamente há diferença entre as partes do nosso corpo, principalmente entre os membros e suas terminações — braços, mãos, dedos, pernas e pés. Quando era adolescente, naquela fase de desenvolvimento em que tudo está descontrolado, desde o crescimento dos membros, a definição do feitio do rosto, o aparecimento dos primeiros pelos, além das emoções em ebulição e os sentimentos conflitantes, o desejo sexual, os primeiros amores, normalmente platônicos, o que era comum para mim e assim permaneci durante quase a metade da minha vida, bati a cabeça algumas vezes, metafórica e literalmente, cultivando cicatrizes que surgiam a toda vez que raspava a cabeça. O que eu fazia de vez em quando para mudar o visual. Aos 17, quando me tornei vegetariano, emagreci bastante. Adepto das filosofias orientais, comecei direto a raspar a cabeça e assim deixá-la. Vivíamos os anos do advento do AIDS. Muita gente começou a achar que estava com essa síndrome, o virgem.
Antes dessa época eu tinha muito cabelo e o deixava se expressar da maneira que quisesse. Se bem sendo fã de música negra, cheguei a lavá-lo com sabão de coco — o que o deixava endurecido — e o penteava com garfo de metal, daqueles especiais para cabelos crespos. Logo, eles baixavam, o que me deixava chateado. Mas consegui pelo menos uma vez tirar uma foto que se perdeu no tempo, mas talvez esteja nas caixas de fotos da minha mãe que estão com a minha irmã. Mas voltando ao título deste texto, como gostava de jogar bola, enfrentava todos os terrenos onde havia um grupo de meninos correndo atrás de uma bola.
Em certa ocasião provavelmente quebrei o dedão esquerdo numa dividida. Continuei a jogar mesmo com dor. Com o tempo, os dedões foram se tornando diferentes um do outro. Como prova de solidariedade, ambos tem as unhas encravadas. Eu os trato diuturnamente. A Milena, minha podóloga, garante que fiquem domados. No mais, os dois pés pelo menos caminham lado a lado, graças a Deus!
não importa a estrutura que apresentemos cicatrizes haverá faz parte de existir seja animal planta pedra em nosso corpo seja em perna braço cabeça mão seja de amor no coração na pedra a diferença da composição mineral química cristalina vulcânica não difere da estrutura do meu peito endurecido após tantos revezes no amor sou como o senhor da eternizada dor…
eu desejo que minta diga que me quer tomar por inteiro neste abrasador janeiro pela última vez neste quarto de quinta que sujamos os lençóis de fluidos seres que somos — excluídos não fazemos conta na multidão somos dos últimos os derradeiros aqueles que ninguém gosta ainda que queira ser percebida como distinta desista não gostou quando lhe comparei a uma gimba de cigarro fumado ao meio é que não estava presente quando o homem em andrajos a encontrou jogada no chão junto ao muro e em um tênue murmúrio a desejou entre os lábios a aspirar sua fumaça cancerígena perguntou a mim que passava por ele se eu tinha fogo se decepcionou quando eu disse que o meu fogo ardia apenas no coração praguejou: “caralho, você é mais maluco que eu!” ficaria feliz a me juntar a ele e esquecer de mim viver a andar a esmo sem rumo sem destino em desatino longe de mim de você que vive em mim mas agora quero apenas que minta que finja que simule gozar para mim que se sinta tão limpidamente suja como a puta que se vende por pena pura e sequer dinheiro fatura se assim for então nunca mais me verá jamais passarei de novo por perto de sua presença sei que não sentirá a minha ausência mas quem sabe sinta uma espécie de vazio como um calor tépido de uma febre que se perpetua a fome de algo que lhe caiu bem mal talvez sinta falta do pavor que lhe causava como o gosto de sal na comida rala ou uma topada que lhe lembrava que a dor não é opcional…