possuo a doença dos espaços incomensuráveis. Plano entre planos, ultrapasso fronteiras, mergulho em dimensões várias, infinitas, ínfimas, atômicas. Invado buracos negros, comprovo a matéria escura, enquanto passeio entre galáxias que giram por multiuniversos. O meu espírito paira entre as tramas que sustentam os milhões de planetas e suas multidões de espécies interestelares, diversas e exemplares em diversidade.
Somos filhos do mesmo Princípio e Fim, amálgama de substâncias alienígenas, resultado de bilhões de Tempos. Sei de nossa incapacidade em sabermos de nós. Percorro caminhos paralelos e coincidentes em destinos e recomeços. Corro por ciclos circulares de energia em consumações e criações eternas. Imprimo movimentos em velocidades portentosas por campos gravitacionais exponenciais em proporções absurdas de tão simples e luminares.
A Luz se alterna em cores que cortam meu corpo em fatias de frequências titânicas. Habitante do Nada total, a avalanche de sóis não soluciona a minha solidão quando me sinto apartado de Tudo. Sem sentido e profundidade, voo a esmo, com sorte decidida.
Ainda assim, lhe pergunto: quando poderemos tomar um prosaico, ainda que importante café para discutirmos os nossos interesses no momento imediato a lamentarmos a impossibilidade de sermos felizes?…
ao revê-la tanto tempo passado imensas distâncias espaciais sem respirarmos os mesmos ares e hálitos o fogo quase esquecido em ardência reacendido as peles a queimarem próximas pelo olhar corpos que seguiram em devaneio para o futuro presente apaixonado o reencontro que confirmou que somos viciados em nós são liames amarras nós que nos aprisionam em tramas a vida como ela é dramas beijos que prescindem da voz abraços que nos invertem nos reinventam toques que contam existências inteiras histórias longas demais tanto quanto curtas são entradas e saídas que se confundem dimensões que se perpetuam entremeadas umas às outras energia consumida e realimentada em átimos de segundo recriação de universos paralelos feito cristais estilhaçados belos retemperados desesperados porque nunca descansa o vício visgo que nos matará feito moscas presas na armadilha luminosa do amor.
Ao contrário do que vejo ser dito pelas pessoas que desejam “muitas felicidades” aos aniversariantes, eu costumo escrever “felicidade”. Isso tem a ver com a minha filosofia pessoal de que a Felicidade verdadeira é plena e sempiterna. No entanto, outro dia, ao escrever mais um voto de felicitações, percebi que o termo “felicidades” tem tudo a ver com a vida de seres encarnados que estamos neste plano.
A minha mãe costumava dizer que não havia felicidade, apenas momentos felizes. Garoto, eu achava que era uma visão triste e negativa. Depois, adolescente, aprofundei uma postura “positivamente” niilista que a aceitou como uma referência. Até que aos 16 para 17, a religiosidade, então latente, aflorou feito uma rosa na Primavera.
Percebi que a Vida É maior e mais profunda do que fisicamente nascermos, crescermos e morrermos. Que o espírito é a verdadeira morada do Ser e a Consciência se expressa de maneira imperfeita através da precária capacidade de vivenciarmos a Existência. Que ela se espraia por todos os seres vivos, dos menores aos maiores, em menor ou maior escala, que a Energia é a mesma, ainda que em diferentes formas. Para os que refutam essa ideia, apenas lembro que na teoria mais aceita pelos cientistas, escudada pela Física – a do Big Bang – todas as partículas que compõem o Universo (este e outros) tem a mesma origem. Comungamos do mesmo princípio.
Trazendo para a pequenez de nossas medidas de vida terrena, formamos sociedades que desenvolveram mecanismos de repressão através de mandamentos de fundo religioso que impedem que emancipemos os nossos pensamentos para além do que é imposto por seus cânones. Eu me declaro Livre Pensador e experimento a Dúvida Existencial como influencia – mundanamente e intimamente. Isso não impede que mantenha certos pressupostos inabaláveis como o de não buscar o ódio como resposta a quem nos faz mal. Porém, não deixo de combater malfeitores, comandantes e seguidores. Assim como o que chamam de amor sofre a interferência de nossas vibrações mais básicas e são apenas pálidas demonstrações da grandeza de sua força.
Sendo assim, vivemos de momentos de felicidade fugidia – as tais “felicidades” – tentando alcançar a Felicidade infinita e definitiva. É um caminho com vários percalços, em que o sofrimento impera, o prazer é rápido ou colocado no lugar errado e as tentativas de experimentá-la são vãs enquanto não abrirmos os olhos para o que é realmente importante. Sabendo que assim como “felicidades”, as “realidades” são aspectos pessoais do que acontece, além muitas vezes conflitantes entre si. Somos quase como planetas girando sob o domínio da Gravidade de um Sol inventado, convivendo ainda que caminhos individuais até que busquemos a Iluminação verdadeira para que nos reconheçamos um com o Todo.
Eu, de costas, junto com parte de meus colegas no curso do Prof. Luiz Henrique Duarte
Neste julho de 2022, faz 13 anos que iniciei o curso de Educação Física. Estava com 47, quase 48 anos que completaria logo mais, em outubro, e lá foi o quase cinquentão fazer parte de uma turma de jovens que buscavam o sonho de começar uma profissão com a qual se identificavam. Quer dizer, eu era um dos poucos que realmente iniciava do zero o estudo dos fatores que desvendavam o movimento do corpo humano. Boa parte dos estudantes já estavam envolvidos com a atividade física como instrutores informais, com o conhecimento desenvolvido através da atividade prática.
De início, a módulo era o de Licenciatura. Isso me daria a oportunidade de dar aulas em centros educacionais. Mas esse não era o meu objetivo imediato. Dois anos antes, eu tive um episódio de hiperglicemia resultante da Diabetes, só então identificada. Fui parar na UTI, passando perto de morrer, assim como já havia ocorrido com um amigo querido. Através de uma dieta rigorosa, baixei o meu peso, o que foi suficiente para deixar de tomar insulina injetável e passasse apenas à medicação diária de controle.
Assim como quando havia me tornado vegetariano, aos 17 anos, o meu corpo mudou de forma. De 105 Kg passei a 75 kg, desencadeando um processo estranho – eu me assustava sempre que ao espelho não reconhecia o meu rosto. Mais jovem, na primeira fase de emagrecimento, ocorreu o contrário. As pessoas me olhavam assustadas por minha magreza – choque inevitável decorrente da adaptação à nova alimentação – enquanto cria que continuava com o mesmo corpo. Ou seja, havia desenvolvido distúrbio de imagem. Corriam os anos 80, época do advento da AIDS e muitos me olhavam com desconfiança. Não ajudava em nada a minha iniciativa de raspar a cabeça. Alguém chegou a dizer que eu parecia um refugiado de campo de concentração.
Essas experiências me levaram a escolher a Educação Física para compreender os processos metabólicos e as possiblidades do desenvolvimento do corpo através de processos mecânicos propiciados pela atividade física. Porém, eu nunca voltaria à faculdade se não fosse o incentivo da Tânia, preocupada com o meu semblante um tanto tristonho. Decretou que eu estava sofrendo sintomas de “Síndrome do Ninho Vazio”, caracterizado pela perda da função de pai, diante da ausência cada vez mais acentuada das minhas filhas em casa.
Além disso, especulou a possiblidade de que pudesse vir a ganhar muito dinheiro como eventual técnico de Futebol, assim como Muricy Ramalho, cotado na época para um salário de 500 Mil Reais mensais no Palmeiras. Na realidade, as funções exercidas pelo profissional de Educação Física são mal remuneradas em todas as suas vertentes, incluindo a do professor, a não ser que o profissional alcance o reconhecimento como personal trainer ou atue em uma carreira como técnico esportivo de algum esporte popular em um clube de projeção. Isso, depois de muito tempo de atuação e aprimoramento técnico
Normalmente, assim como ocorre até com os médicos em início de carreira, o processo de proletarização das profissões é cada vez mais acentuado. As mudanças no perfil das mais antigas, além do surgimento de novas atividades profissionais tem alterado o mercado de trabalho. A tendência é o do desaparecimento de muitas delas, mas creio que o de transmissor de conhecimento continuará a ser essencial, como se provou na Pandemia. Por isso, já em nos Anos 80, quis me tornar professor, mas de História. Nessa minha segunda incursão, mudei radicalmente ao escolher algo ligado à atividade física. Porém, se enganam os que creem que não seja requerido o uso da mente, do raciocínio, do estudo para isso. Depois dos três anos de Licenciatura, quis fazer o Bacharelado. Estava decidido em terminar a graduação básica. Como qualquer área de conhecimento, o aprendizado nunca termina. Vale para o estudo, vale para a vida.
Terminei o Bacharelado em 2013. Havia a possibilidade de até exercer a profissão em um projeto que fui chamado a participar, mas no mesmo período aumentou bastante a minha atividade como locador de sonorização e iluminação. Até pouco tempo antes, além de me ajudar a compreender a biomecânica corporal e ter tido contato com jovens que me estimularam com a sua energia, tinha dúvidas do real valor da minha passagem pela faculdade. Até que começou a pipocar as publicações de lembranças em que meus colegas de curso me buscavam para tirar dúvidas em relação às matérias, trabalhos e até passar indicações de estudos. Eu não era o melhor aluno da classe, mas era bom na escrita, estruturação de textos e formulação de trabalhos escritos. Nesse quesito, ajudei a vários dos meus colegas na conclusão do curso e sinto ter cumprido o meu papel.
Outra consequência que observei é que a passagem pelo exercício da escrita, ainda que tenha sido eminentemente técnica no curso de especialização profissional, me proporcionou a retomada pelo gosto de escrever novamente. Dois anos depois, ingressei na Scenarium, Eu me beneficiei do conhecimento adquirido nesse período, o que é mais do que se pode esperar da maioria das coisas que aprendemos ao longo de nossa existência. O estímulo pessoal provocado pelo contato com o pessoal da Educação Física também me ajudou na revitalização de ideias, melhoria na qualidade de vida concomitantemente ao desenvolvimento de consciência corporal. E como já disse Beda, um pensador britânico, existem três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina e não perguntar o que se ignora. E eu continuo um eterno curioso sobre a vida.
Viajei mil anos à frente. Errei, ao digitar a data. Teclei o ‘3” em vez do “2”… Por um instante, abateu-se sobre mim certa melancolia. Em um átimo, senti, em profundidade, o peso do esquecimento do que eu fui. Percebi que ninguém se lembrará da minha existência, apesar de haver a possibilidade que a minha descendência insista em vibrar em algum corpo do futuro.
O mais certo é que, caso a Terra não seja incinerada atomicamente por seus habitantes, os átomos que formaram a minha identidade estejam espalhados por campos de plantas, patas de animais ou pela água do mar, a formar novos jogos de referência com o planeta. O fogo de minha mente, apagado, não mais aquecerá qualquer saber… Ou seria o saber que ilumina a mente?
O meu espírito, segundo acredito, espero que esteja mergulhado em Deus… Ou no Universo (para mim, a mesma coisa), a compor a Força que nos rodeia, nos penetra, nos move e vibra com o Todo. Ainda assim, por mais que queira acreditar que permanecerei (ainda que não continue a existir como eu mesmo), fiquei triste, como nunca fiquei, com o meu passamento.
Intuí que, se fosse morrer hoje, por exemplo, teria quem se lembrasse de mim – irmãos, mulher, filhas, outros parentes, amigos e conhecidos. Com o tempo, a minha imagem, o que eu fiz, o que eu disse e escrevi, se perderia aos poucos… Mas, mesmo assim, seria uma existência prolongada por mais um tanto de anos…
Mil anos, simbolicamente, é uma eternidade. São várias eternidades… Estarei irremediavelmente morto em 3022. Mas a minha energia reverberará em outra forma e identidade de Vida. E se a Terra não estiver devastada, aportado em outro planeta.