Houve um tempo que evitava declarar ser escritor. Não porque considerasse algo indigno ou vergonhoso, como se confessasse ser um ladrão. Apesar de sê-lo, também. Mas porque, sendo sonho de menino, não acreditava que o fosse, mesmo depois de certa idade e escrevendo muito. Intitular-me um artesão da palavra, se configurava um projeto para o futuro. Cometia o erro de acreditar que faltasse publicar um livro – objeto icônico – que carrega, por si só, o condão de incensar quem o assina, como “escritor”.
A publicação de meu primeiro projeto não me tornou escritor. Assumir a premência de ser um, sim. Consequência de uma necessidade basal – colocar para fora tudo o que me consumia, para não me envenenar com frases mal digeridas e morrer. Ainda que faça parte do contexto, morrer, matar, odiar, amar, construir, destruir, ser franco, saber mentir – viver-escrever.
Porém, para que produza meus textos, estabeleci uma rotina clandestina – roubo meu próprio tempo. Ajo como ladrão, muitas vezes, arrependido. Arrependimento que se dissolve assim que fico satisfeito com o resultado do furto. Já tentei me redimir. Mas quando percebo que minhas expressões vêm a calar fundo em quem as lê, meu receptador-receptor – um leitor, ao menos – produz-se um sentimento de compensação que me faz reincidir-honrar a persona que finalmente assumi.
Eu não apenas roubo tempo. Também rapto pessoas e seus afazeres, surrupio histórias que ouço ou presencio, acompanho passos de tantos, como se fosse um perseguidor. Esquartejo vivências de vários, para criar “Frankensteins” infames. Fuço vidas alheias para chegar a conclusões irreais. Assumo a identidade de outros, cometo falso testemunho. Por vontade confessa, sou um criminoso contumaz.
A tentar equilibrar os afazeres cotidianos, família e amigos, troco o relaxamento do descanso pelo artesanato da escrita. É um ofício vital, com mais erros do que acertos. Contudo, me garante acessar lugares recônditos de mim mesmo. Eu me surpreendo quase sempre em auto revelar quem sou-estou, ainda que tente esconder essa identidade por trás de artifícios verbais – conto do vigário. Entre ações delituosas que me fazem perder e tentativas arredias de me encontrar posso, finalmente, asseverar: sou escritor.
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O Instante Mágico*

“Todos os dias, Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um ‘sim’ ou um ‘não’ pode mudar toda a nossa existência.” (Paulo Coelho)
Vez ou outra, vemos postadas frases de efeito como essas acima, normalmente acompanhadas de uma imagem bonita. Eventualmente, o nosso desejo é tão grande de recebermos notícias de esperança que as aceitamos de olhos fechados. De certa forma, podemos viver de recitar frases edificantes, o que não quer dizer vivamos de acordo com as receitas de vida que propõem. No caso deste coelho tirado da cartola pelo Mago, tenho algumas considerações a fazer, ousadamente.
Inicialmente, destaco que não sou leitor de Paulo Coelho. Lembro de que li um título seu, da qual não lembro o nome. Talvez, não seja mesmo essa a intenção do autor, já que ele conta sempre a mesma história, sob variados prismas. Alguém poderia chamar a isso de coerência, outros, de redundância. A frase acima, de certa forma, parece resumir boa parte do que ele quer “vender” para os seus leitores. Quem não gosta desse termo, visto que suas mensagens pretendem se mostrar superiores a este aspecto comercial, chamo a atenção para o fato de que o Mago reivindica o posto de maior escritor do Brasil justamente por sua vendagem exacerbada.
Por que “todos os dias Deus nos dá” – apenas – “um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes…”? Passado aquele momento, devemos esperar o dia seguinte para vermos surgir outro ponto crucial em que devemos decidir entre um “sim” ou um “não” para mudarmos “toda” a nossa existência”? Por que não temos todos os instantes, todos os dias, miríades de oportunidades para decidirmos a nossa história?
Mas ele cita o “instante mágico”! Para quem acredita que a vida inteira é mágica, todo o instante é mágico, não é mesmo? O recurso de determinar o momento da virada é muito usado como gancho por escritores de novelas e roteiristas de cinema. Pode aparecer em qualquer parte da trama, mas normalmente é reservada para o final, entre perseguições e tempos em contagem regressiva.
No entanto, sendo mais chato ainda, pergunto: depois do “instante mágico” e “o momento em que um ‘sim’ ou um ‘não’ pode mudar toda a nossa existência”, não haverá nenhuma chance de que o “sim” se transforme em “não” e vice-versa? Quando dizemos não ao fumo, ao “junk food” ou à bebida, nunca mais voltaremos a nos intoxicar? Quando dizemos “sim” ao amor ou à vida saudável, nunca mais voltaremos a odiar ou meter o pé na jaca? Neste caso, “toda a nossa existência” tem prazo de validade – talvez 10 minutos ou 10 anos – seja lá o que for.
Devemos estar constantemente atentos e fortes para que não durmamos sobre os louros do “instante mágico”. Magicamente, está em nossas mãos, a todo o momento, direcionarmos a nossa vida para o melhor caminho. A todo instante tomamos pequenas decisões que podem significar desvios, mesmo que sejam tomadas com a melhor das intenções. E, na maioria das vezes, apenas saberemos quando chegamos a bom termo quase no final da estrada, quando divisamos a totalidade da obra da qual participamos… Isto, se não acreditarmos que todos os instantes da nossa vida não sejam apenas os instantes de uma vida entre tantas outras da nossa existência…
*Texto de 2012
O Poetinha E A Patriazinha
Renovo
Lindos sorrisos falsos, grandes abraços falsos, armados beijos falsos (sabemos que os bons beijos são inesperados e desarmados)… Enfim, chegamos ao Natal!
A sentença inicial expressei apenas para ser conforme aos revoltados de plantão que, com razão (as suas razões), querem fugir à massificação dos bons votos feitos de forma automática e sem um fundo de bom augúrio.
Eu, de minha parte, desejo realmente que possamos viver tempos melhores. Que o espírito de renovação se faça presente. Que as boas vibrações sejam perceptíveis na pele de pelos arrepiados. Que o sorriso seja acolhido com outro sorriso. Que chorar seja permitido e seja acompanhado de lágrimas companheiras e consoladoras. Que o abraço seja reconfortador. Que o beijo seja carinhoso como brisa fresca ou profundo como se quisesse explorar a alma de quem é beijado.
Sempre é tempo de renovação da esperança, do desejo de melhorar a visão do entorno ou de Raio X que busca o âmago das coisas (meu “defeito” de escritor). Da renovação do amor desgastado pelo tempo e/ou pela rotina, mas que ainda vibra dentro de nós. Da renovação do amor em nossa vida, não apenas pelas pessoas, mas pelos nossos companheiros animais, pelas plantas, pela Terra, pelos ideais e pelas causas que nos movem.
Um dia, neste mesmo planeta que habitamos, uma pessoa ousou proclamar o Amor como o Caminho. Isso foi tão revolucionário à época quanto o é ainda hoje. Todos os dias, temos provas de quanto é desafiador exortar o Amor ao próximo, de desarmar os braços para acolher. Os martirizados pululam em todos os cantos dos Continentes. O que antes ocorria na calada da noite e na distância dos lugares, hoje nos chega no mesmo momento que acontece, impactante. Imagens em vermelho-sangue, vermelho-fogo, em vermelho-choro…
Para encerrar, posto a imagem a seguir. Gosto de amanheceres, auroras são sempre bem-vindas. Mas os crepúsculos são mais desafiadores. Encerram a passagem do dia para a noite. Chega prenhe do dia que foi vencido, com dor e suor, alegria e amor. Esconde e aclara expectativas para o novo amanhecer. Os crepúsculos são luscos-fuscos da vida. Eis este, que colhi na fronteira entre São Paulo e Rio de Janeiro. O caçador de nuvens que sou lhes deseja o melhor para esta noite. E para todos nós, um Feliz Natal! Sejamos um renovo!

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Livros
Sou escritor. Ao falar sobre “meus livros”, poderia citar apenas dois, oficialmente lançados – REALidade e Rua 2 – pela Scenarium. Outros, são projetos em andamento-inacabados. Aliás, mesmo que impressos e publicados, os citados também são – coisa de quem é escritor-re-escritor – ao lermos o que publicamos, tudo merece reparo e revisão. Dos livros publicados por outros autores, há alguns que envelhecem bem e ganham possíveis reinterpretações a cada leitura. Com alguns outros, sentimos certo gosto de passado mofado. É comum não desejarmos voltar à suas páginas para que não percam o encanto da primeira leitura. Nossos “clássicos” particulares – aqueles livros que nos influenciaram definitivamente – muitas vezes montam uma biblioteca inteira e remontam à nossa história pessoal, a ponto de mudarem nossa visão de mundo e inspirarem a escrita. Exporei a seguir, arbitrariamente, os livros que formaram meu caminho como leitor-escritor-leitor.

A palavra “alfabeto” é uma das mais incríveis que conheço. Remete à cultura grega, formadora de nossa estrutura mental-filosófica. Fico a imaginar que se conversássemos com um sábio grego antigo, talvez conseguíssemos nos fazer entender, assim como ao contrário, ainda que aquelas mentes privilegiadas, nas mesmas condições no alcance de subsídios que temos hoje para nos desenvolvermos, estariam à frente de nosso tempo, se não tivessem ímpetos de fugirem correndo da civilização, buscando entender porque tanto desenvolvimento material não redundou, necessariamente, em aprimoramento humano. O livro didático de alfabetização “Caminho Suave” deu ensejo para que eu aprendesse a ler de maneira prática. Lembro de outros livros escolares, mas esse é o clássico de quem frequentou a escola desde o final do Anos 40 e o foi pelos 50 anos seguintes, até meados dos Anos 90. Apesar de ter dado lugar a publicações para atual alfabetização de orientação construtivista, ainda são vendidos mais de 10.000 exemplares por ano com a mesma formatação.

Alfabetizado, comecei a ler o que caísse em minhas mãos – de anúncios comerciais a bulas de remédio. Na biblioteca da escola, busquei os autores disponíveis. Já ouvira falar de Monteiro Lobato e Júlio Verne. Do primeiro, me apossei de “Reinações de Narizinho”. Do autor francês, “20 Mil Léguas Submarinas”. As aventuras fantásticas elencavam minha preferência literária. Apesar de atualmente ser considerado um autor que poderia figurar no Índex do Politicamente Correto como passível de revisionismo – o que considero absolutamente ridículo – me influenciou definitivamente. Ao reler há pouco tempo um trecho de sua obra, encontrei maestria na confecção do texto e voltei a viajar no mundo particular que criou no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eventualmente, seu comportamento público sofrerá, sob a visão atual, restrições e questionamentos, entre elas, as críticas feitas à Anita Malfatti, algo estranho para quem tinha capacidade em criar conexões com o fantástico, porém não conseguiu escapar do nacionalismo estreito.
“Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esse guarda não passava de um sapão muito feio, que tinha o posto de Major no exército marinho. Major Agarra-e-não-larga-mais. Recebia como ordenado cem moscas por dia para que ali ficasse, de lança em punho, capacete na cabeça e a espada à cinta, sapeando a entrada do palácio. O Major, porém, tinha o vício de dormir fora de hora, e pela segunda vez fora apanhado em falta.” – In: Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato

Não temo ser redundante quando se trata de Machado de Assis. O escritor abriu, com a sua obra, os meus olhos para o comportamento do brasileiro, em suas raízes. Invadi portas e janelas das casas nacionais. Quase uma pesquisa antropológica em forma de literatura, comecei a ver suas personagens a passear pelas ruas que caminhava. Passei a identificar Bentinho, Capitu e o agregado José Dias; os irmãos Esaú e Jacó; Brás Cubas, sua amante, Virgília (e o marido Lobo Neves); Quincas Borba e as pessoas e situações evocadas por Aires, em seu memorial. De “Memorial de Aires”, inclusive destaco este trecho que me deu vontade de relê-lo:
“9 de janeiro
Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: ‘Vai vassouras! vai espanadores!’. Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.”

Pelos poetas, comecei a tomar gosto quando moço, na escola. Apesar da época, ainda que pudesse parecer conformista, ao apresentar os poetas tradicionais, através disso tive contato com o lirismo. Sem passado, como contestarmos a realidade atual sem revisitarmos o que já foi produzido? Com certeza, ao invés de criarmos “novas” expressões (há algo “novo”?), sem conhecê-los, corre-se o risco de tentarmos inventar a roda – uma absoluta perda de tempo criativo. Naquela ocasião, conheci Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Álvarez de Azevedo, Olavo Bilac. Apesar de Augusto dos Anjos representar certa revolução com sua temática, apenas ao tomar contato com os modernistas pude realmente me sentir em casa, com Mário e Oswald. Até que aconteceu Drummond, outro Andrade. O único parentesco entre eles, a energia criativa. Drummond representou um olhar revelador sobre como a poesia pode estar nos recantos mais insuspeitos. Antes de me inteirar sobre Pessoa e, mais recentemente Al Berto e Herbert Hélder, outros poderosos poetas da Língua Portuguesa possam me impressionar, os brasileiros são os que coloco entre os autores dos meus livros, porque me formaram…
“Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.” – Carlos Drummond de Andrade

Coloco entre meus livros uma obra cujo o valor literário talvez não seja considerado alto, mas que orientou o sentido para onde quis caminhar desde que o li. Livro místico, não era igual aos que já havia tomado contato antes, ao estilo de Carlos Castañeda. Feito um Beatle, encetei rumo ao Orientalismo. Comecei a escrever, principalmente poemas, em que a divisão entre viver a vida material e a mística se fez presente em versos de amor físico relutante e descrições de estados d’alma liberta dos liames deste plano. Dali em diante e pelos dez anos seguintes, cumpri um projeto que a vida tratou de alterar. Força vital chamo a todas as circunstâncias que não podemos controlar, incluindo uma espécie de auto sabotagem. Paramahansa Yogananda até que tentou, mas creio que ainda nada esteja definitivamente determinado. Esperemos…
“A fermentação psicológica, não encontrando possibilidade de se expressar através de meu corpo imaturo, dava origem a muitas e obstinadas crises de choro. Recordo-me da desorientação e do assombro que meu desespero provocava em toda a família. Lembranças mais felizes também me ocorrem: as carícias de minha mãe, as primeiras tentativas que fiz para balbuciar frases e dar os primeiros passos. Estes triunfos infantis, normalmente logo esquecidos, criam, contudo, em nós, um alicerce natural de autoconfiança.” – Autobiografia de Um Iogue Contemporâneo – Paramahansa Yogananda

Tomo posse de todo livro que estou a ler. O livro do momento é “Carol”, de Patricia Highsmith, que estou revezando com “Vermelho por Dentro”, de Lunna Guedes. Fazia algum tempo que não exercitava a alternância de leitura. Era comum, em outros tempos, sem tantas exigências de trabalho e da paixão que é escrever. Isso que faço agora. Nem sempre da maneira que ache bom o suficiente para interessar alguém. Muito autocrítico, talvez não publicasse nada, senão estivesse em busca da sentença perfeita. E só a perpetrarei se continuar tentando – obviamente, uma utopia. Mas como viver sem buscá-la?
“Era uma pessoa diferente daquela que estivera ali três semanas antes. Naquela manhã acordara na casa de Carol. Carol era como um segredo espalhando-se dentro dela, espalhando-se dentro daquela casa também, como uma luz invisível a todos, menos a ela.
– Eu amo você. – Therese disse, só para ouvir as palavras. – Amo você, amo você.” – Carol – Patricia Highsmith
Lunna Guedes, Mariana, https://aestranhamente.com, https://livrosgatoscafe.wordpress.com