Projeto Fotográfico 6 On 6 / Sobre Os Meus Eus

Muitos, sou.
A cada idade, fui alguns.
Caminhei pela luz da escuridão
e pelas manchas escuras do Sol.
Naveguei por mares azuis
e ares transcendentais.
Viajei por mim e pelo sim.
Passei por vãos e nãos.
Fui profundo e raso.
Nunca deixei de ser nós.
Ainda que todos sós…


Quando tiro os óculos, me vejo bem melhor pessoa. É o caso de miopia seletiva… e o ocaso da culpa.
Marcos do tempo
Riscas de sombra
Riscos de sobra
Marcas ao cento
Resta homenagear
A testemunha solar…
Esta imagem reflete bem o meu olhar de reverência desmesurada ao que vi em meu entorno durante a minha estada em Paraty, no começo de Outubro de 2021, por ocasião da comemoração dos meus 60 anos. 
Sob luzes externas — a natural e a artificial —, em busca da luz interior. No fone de ouvido, “Cajuína“. 

Os Pataxó são um povo indígena brasileiro de língua da família maxakali, do tronco macro-jê. Em sua totalidade, os índios conhecidos sob o etnônimo englobante Pataxó Hãhãhãe abarcam, hoje, as etnias Baenã, Pataxó Hãhãhãe, Kamakã, Tupinambá, Kariri-Sapuyá e Gueren. Apesar de se expressarem na língua portuguesa, alguns grupos conservam seu idioma original, a língua Patxôhã. Praticam o “Xamanismo” e o Cristianismo. Vivem no sul da Bahia e em 2010, totalizavam 13.588 pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro De Geografia E Estatística. A Ingrid trouxe da região onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez em Pindorama esse colar de contas. A minha ascendência indígena me permite usá-lo para além de objeto decorativo, por carregar vários significados. Para mim, é como voltar para a kijeme.

O homem e a cidade…

Participam: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Mariana Gouveia / Lunna Guedes

Horizontes

Escuridão

passeio os olhos por onde já passei

longe os caminhos

longos os desalinhos

largos os desatinos

crimes na boca da noite

beijos roubados

corações desarvorados

feito árvores desbastadas

pássaros sem os seus ninhos

deserto em planos sequenciais

serras peladas de onde o ouro foi levado

o olhar até o limite que a curva faz

a luz a derrapar e fugir em que jaz

espíritos em busca de paz

na dissonância de línguas caladas

no silêncio de peles escamadas

na separação de corpos cansados

perdidos de si no ponto cego

do horizonte que se veste de escuridão.

Sorriso

o sorriso lateral da tarde

me emudece, mas não me cega

pergunto à quase noite

porque sorri

responde que venceu o dia

e deitará a cabeça

para além da curva do rio

luminoso

no colo do sol em novo romance

olho para o horizonte

cada vez mais escuro

e me sinto o momento que fica

eterno

em sua finitude…

#Blogvember / O Limbo

conscientemente
sigo pelo caminho torto
cansado de enfrentar tanta gente de bem
vou seguindo a chuva que renova os meus passos
raios e trovões me animam a continuar
enceto em sentido da luz ofuscante
do rugido do ar rasgado pelo chicote
“em delírio me transporto ao limbo”
chegada a borda do universo
declamo canções de gil e caetano
teço loas à santa arte profana
permaneço em êxtase fora do eixo
enquanto sofro da dor do prazer
dualidade unida em um único sentir
me esfacelo em tiras sanguinolentas
cor de vermelho fogo
o calor transporte para o deserto
sem oásis me aprofundo na direção do cinza
de minha vida anódina em extinção
sem tempo nenhum a não ser passado
revivido ad eternum
elejo a minha sina muito melhor a escuridão
dos cegos ignorantes insensíveis dos absortos em si
radicalizo a minha opção pela morte
bem vinda amiga amada amante de toda a vida…

Imagem representando a selva escura do Inferno (Divina Comédia), de Dante Alighieri, Canto I

Participam: Suzana Martins / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes

#Blogvember / Silêncios Pequenos

… ainda há silêncio nessas horas pequenas…
– Nirlei Maria Oliveira em palavr(Ar)

Desencontrados por anos, os dois perderam contato, ainda que a saudade fosse constante companheira de ambos.

Avesso a redes sociais e a grupos, mesmo aos do seu métier, Thiago passava a maior parte do tempo pintando, encerrado em seu ateliê no campo. Reconhecido internacionalmente pelo pseudônimo de Noé Campesino, nunca se identificou como o autor das obras que misturava variados temas e técnicas de execução, mas com uma identidade peculiar a todas elas, quase uma assinatura – o sorriso de uma boca feminina em algum canto da tela, às vezes, no centro. Muitas vezes, surgia apenas insinuada, outras, francamente exposta, identificável.

Francisca compartilhou os primeiros anos das obras de Thiago. Com o olhar arguto de quem sabia identificar a qualidade artística de seu amado, o incentivava a prosseguir em seu estudo e aprimoramento. Por essa época, Francisca entrou em contato com um marchant que se apaixonou por ela. De início, ela resistiu às investidas, mas não o afastava completamente, interessada que estava em colocar Thiago no mercado. O jovem pintor percebeu que havia uma mútua atração entre os dois, porém queria realmente que seu trabalho desse frutos materiais após anos de dedicação laboriosa. Fechou os olhos. Queria provar para o pai que a sua carreira artística poderia render mais do que ser gerente de banco, como era o sonho do velho bancário.

Montada a exposição, Thiago foi à galeria do marchant de maneira inesperada e encontrou a sua amada nos braços do expositor em beijos ardentes. Emudeceu… por dentro e por fora. Saiu e não compareceu à noite do evento que foi um grande sucesso. Seu completo sumiço só não foi total porque entrou em contato com o marchant pedindo que fosse feita a transferência do valor resultante da venda dos quadros, fora as comissões, para uma conta que foi fechada após a retirada do saldo. Nunca mais se ouviu falar de Thiago Fonseca.

O desaparecimento do artista fez crescer a cotação de seus quadros, ao mesmo tempo que criou uma aura de lenda em torno de seu nome. Thiago aplicou o dinheiro na compra de um pequeno sítio no interior e trabalhou para que conseguisse alterar seus traços e pinceladas, uso de cores e estilo temático. Incorporou nuances de grafite e avançou para o abstracionismo e imprecionismo. Reinaugurou a sua expressão, que ficou irreconhecível em comparação à anterior. Talentoso, chamou a atenção de um crítico que viu sua obra exposta num pequeno restaurante de uma cidade pequena. Questionou de quem seria aquela obra e lhe foi apontado um sujeito de cabelos e barbas desgrenhadas, sentado no fundo. Ao se aproximar, Thiago baixou os olhos, mas a fala de Ítalo Menezes, de quem conhecia a fama, o fez erguê-los e esboçar um sorriso tímido. Perguntado se tinha outras pinturas, Thiago assentiu afirmativamente e Ítalo perguntou se poderia vê-las. O resto, é história. Desde esse contato inicial, se desenvolveu uma forte amizade. Como Noé Campesino, concordou em expor e vender seus quadros, desde que jamais aparecesse como tal. Comparecia anónimo às exposições para sentir como era a recepção às suas criações.

Numa dessas vernissages, ele viu Francisca, só, sem a companhia do marchant com quem se casara. Parou diante de um quadro que mostrava um sorriso tão enigmático quanto contagiante. Aproximou-se o mais que pode para constatar a forma que as pinceladas foram feitas. De certa maneira, ela se reconheceu nas bocas sorridentes. Começou a olhar ao redor. Foi falar com o marchant, ao qual conhecia e quis saber se sabia quando o pintor chegaria. Respondeu que nunca o tinha visto. O contato era feito através de Ítalo Menezes, que não revelava quase nada do artista: se novo ou velho, homem ou mulher, alto ou baixo, gordo ou magro. Mais uma vez, olhou ao redor e, inesperadamente, soltou uma lágrima furtiva. Ela sabia que aquele sorriso era o seu. Que o pintor era Thiago. Que o seu coração ainda lhe pertencia. Que talvez nunca mais voltaria a vê-lo. Que o seu silêncio pesaria feito um paralelepípedo sobre o peito.

Apenas acompanhado de seus cães, dos pássaros que encontravam em seu sítio um refúgio, Thiago vivia em mutismo consagrado, ampliado pela diuturna escuridão da noite que o envolvia de corpo e alma. Falava com as suas obras quando as executava. Era o único relacionamento que mantinha por temporadas inteiras. Como se fosse algo que o impedisse de esquecer Francisca, ainda há silêncio nessas horas pequenas de lembranças e saudade em que suspende seus turnos e olha para o crepúsculo…

Participam: Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes