Parti de lá, pensando em não voltar… Sofrimento, perdas, encontros desencontrados, beijos não dados, desejos calados. Foi minha casa, meu lar, meu particípio passado, presente aberto, futuro ameaçado. Janelas, todas, abertas para o horizonte. Portas, duas, sempre exploradas como entradas e saídas, sem superstições. Na rua pouco iluminada, gostávamos de ver estrelas em céu de campo plano e arborizado. Cerca branca de madeira — cenário de filme romântico — idealizado. Mas as brigas ganharam peso, som e fúria. Éramos dois sem medo de magoar, sem desejo de cura. Queríamos matar o amor tanto, que nos matava. O quarto sempre iluminado como um quadrilátero de luta. A Lua perdendo foco, ainda que cheia, a empalidecer — luz cada vez menor, mesmo quando crescente. Saí, saindo, findando em mim, em si, lá… Sem retornar fisicamente, continuo a recordá-la de tal maneira que a carrego comigo — uma casa inteira — onde não mais moro, sendo por ela habitado…
O Sol e as estrelas Os navios e os barcos à vela As luas e os planetas A quinta dimensão e as quintas As bruxas e as profetisas Os mares e as brisas As musas e os poetas As lesmas e as borboletas Os asseclas e os obreiros Os pacíficos e os guerreiros Os práticos e os sonhadores As flores e as cores Os insetos e as bactérias Seres de todas as matérias Os sapos e as serpentes A Terra e as sementes As lembranças e os esquecimentos As tempestades e os bons ventos Os prazeres pequenos e os plenos As águas boas e os venenos Os homens e as pedras As igrejas e as cátedras As preces e os ditos definitivos Os remédios e os lenitivos As dores e as doenças A morte e a vida e as crenças Os amantes antigos e os modernos Os amores súbitos e os eternos Todo o bem e todo o mal Sob a abóbada celestial…
Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…
Posições…
Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…
Fim de tarde, o rabo do sol se escondia por entre as árvores, criando sombras e formas inusitadas. Passávamos o final de semana no sul de Minas, região em que as linhas retas não compareciam no cenário, a não ser pelas linhas do chalé e por furtivos fachos de luz por entre os montes, feito show de rock. Eu e um grupo de amigos, decidimos ficar nesse recanto afastado para um contato mais íntimo com a Natureza. Acendemos o fogo da lareira e quatro lampiões e saímos para caminhar um pouco até uma pedra mais elevada para ver o entardecer, 250 metros acima.
Passados uns 20 minutos, a escuridão baixou quase que instantaneamente. Ficamos cegos, a não ser pela luzinha vinda do cabana, como se fosse uma estrela fora do céu. Por iniciativa aprovada por todos, havíamos deixado os celulares na cabana. Percebemos que não havia sido uma boa decisão. Quisemos ser naturalistas sem saber que a Natureza tem regras que fogem ao conhecimento de gente da cidade.
Fora tudo tão repentino que de início não nos demos conta de que estávamos num mato sem cachorro. Brincamos com negrume do ambiente e sobre a possibilidade de começarmos a sentir o toque de bichos estranhos a envolverem nossos corpos. Para não passar a sensação de que estivéssemos perdidos, decidimos nos sentar no vazio até encontrarmos o chão. Agora estáveis, começamos a especular sobre o que faríamos.
Éramos como crianças sem pai nem mãe. O frio começou a aumentar de uma hora para outra e a ansiedade pouco a pouco surgiu, evidenciado pelo tom de voz cada vez mais alterado. Seis adultos ̶ três casais ̶ perdidos no nada, indecisos se deviam ou não empreender a jornada de volta, curta mas perigosa pela irregularidade do caminho. Até vermos uma luz bruxuleante saindo do chalé e vindo em nossa direção.
̶ Aqui, aqui, aqui! ̶ gritamos todos.
Era Ricardo, o filho de sete anos do Arnaldo, que ficara na cabana, brincando. Ao escurecer, o menino deve ter percebido que demorávamos e quis nos encontrar com a bravura que toda criança tem e falta a muitos adultos. Empunhava um dos lampiões e caminhava resoluto. Arnaldo e Tatá, com a aproximação do filho, foram abraçá-lo. O resto de nós, pulamos feito seus companheiros de escolinha. Nós nos achegamos uns aos outros o suficiente para que o lampião erguido por Arnaldo nos cobrisse de luz amarela. Nesse instante, pude perceber o quanto estava apaixonado por Clara, com as linhas do rosto fracamente esmaecidas sob o caminho de estrelas.
*Texto produzido por ocasião do Curso de Narrativas Na Primeira Pessoa, por Lunna Guedes.