2+ 2 = 5

Tentando equacionar o que não tem solução, há uma canção que diz – “tudo certo, como dois e dois são cinco”. Nesse caso, o erro de aritmética simples vem a explicar muito bem o desencontro amoroso que ocorre com o casal do tema. Vem bem a propósito de como a “matemática romântica” muitas vezes deixa o regramento ordinário dessa ciência para trás…

Sempre cismei que a união entre dois amantes resultaria, na verdade, em três. Ao somar-se um mais um, esses dois formariam um casal, que vem a ser a terceira unidade da equação – algo diferente dos dois indivíduos envolvidos – apesar de resultante deles. Essa unidade assume uma identidade, formada da total integração entre duas pessoas. Algo que em sendo tão raro, uma sensação tão mágica e ímpar, volta a ser buscada outras vezes por quem a experimentou, como se fora um adicto que busca a fissura da primeira dose.

No entanto, a pensar com os meus botões, depois de confabular com quem busca o amor, vim a especular que a conta correta talvez seja cinco, como um dia cantou o Roberto numa composição de Caetano. Porque cada um dos indivíduos representaria, pelo menos, dois papéis no cotidiano, que somados a mais dois, resultariam em quatro. Esses “quatro tipos de ser” formariam, quando totalmente apaixonados, um quinto e uno elemento. Radicalizando, talvez não fossem apenas dois. Muitos de nós seríamos muito mais. Três, quatro, cinco pessoas lutando dentro de nós para se sobressaírem para alcançarem o domínio e exercerem o controle preponderante sobre o corpo e a mente. Por fim, o produto poderia não encontrar jamais uma base de sustentação. Ao final, como resultante, é isso mesmo que acontece. Poucas as vezes vemos as equações chegarem a uma boa resolução…

Então, podemos estabelecer duas vertentes mais óbvias como critério discricionário, sem o qual a conta nunca fecharia. Para simplificar essa questão, estabeleço que seríamos constituídos por duas forças antagônicas, principalmente quanto ao “amor” para a formação de um casal – a fórmula mais simples para a constituição de uma “família”, mesmo por aquelas de mesmo gênero. Essa minha elucubração surgiu depois de ouvir frequentes afirmativas, em sua maioria por parte das mulheres, de que os homens pensam muito mais com a cabeça de baixo do que com a de cima. Como não vejo muita diferença quando ao comportamento atual das mulheres com relação a esse assunto, poderia dizer que muitas delas pensam muito mais com as exigências do púbis do que com a mente, em várias situações. Dessa forma, todos e cada um de nós, homens, mulheres e as outras variações de identidade, seríamos então estimulados pelo amor de desejo e/ou pelo amor de afinidade de outra ordem pelo outro.

É muito comum iniciarmos a busca da união com outro ser pelo estímulo sexual ou paixão, para depois encontrarmos uma outra possível afinidade entre as partes. Muitos de nós, mais racionais, talvez façamos de modo diferente, dando mais ênfase à uma qualidade diversa da pessoa do que às características mais apelativas do ponto de vista físico. Seria a maneira mais consciente de agirmos, o que até poderia resultar em uma grata surpresa, pela afinidade mental também vir a ocorrer na sexual. Ou apenas poderemos nos conformar em termos como companhia uma pessoa pela qual nutrimos uma grande admiração e que dará sustentação à equação vital. Muito provavelmente, do outro lado poderia haver reciprocidade. Por fim, a compensação de um e do outro fator poderá ser levado por muito tempo por ambas às partes. Até não ser mais possível.

Venho a presumir que, em algum momento, com as mudanças inerentes a convivência do casal, com o aumento da pressão que é manter-se seguindo um mesmo padrão de comportamento, que já não corresponderá às demandas de um ou de outro, pode haver o rompimento dos laços ligados à afinidade mental ou à física ou ambos. O que era soma de intenções, resultará em multiplicação de frustrações, divisão de forças e subtração de vitalidade. O melhor a ser feito será se desfazer do problema, zerando a operação.

Passado algum tempo, no entanto, se buscará novamente a resolução da questão da unidade, que sempre continuará a se fazer presente. Mesmo porque, o ser humano tem a tendência em buscar o equilíbrio, mesmo que ele seja apenas aparente ou precário. No mais das vezes, é no desequilíbrio que normalmente vivemos. É no fio da navalha que passaremos a maior parte da nossa existência. É na corda bamba que tentaremos solucionar as eternas equações existenciais nas quais estaremos envolvidos por nosso tempo de vida, tentando resolver operações de fatores mutantes. Por fim, a conta nunca se fechará. Para sermos mais íntegros, sugiro que tentemos conceber viver na configuração dos números fractais, sejam eles geométricos ou aleatórios…

O Instante Mágico*

Instante Mágico
Todos os dias, vivo um instante mágico, de grande calor humano…

“Todos os dias, Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um ‘sim’ ou um ‘não’ pode mudar toda a nossa existência.” (Paulo Coelho)

Vez ou outra, vemos postadas frases de efeito como essas acima, normalmente acompanhadas de uma imagem bonita. Eventualmente, o nosso desejo é tão grande de recebermos notícias de esperança que as aceitamos de olhos fechados. De certa forma, podemos viver de recitar frases edificantes, o que não quer dizer vivamos de acordo com as receitas de vida que propõem. No caso deste coelho tirado da cartola pelo Mago, tenho algumas considerações a fazer, ousadamente.

Inicialmente, destaco que não sou leitor de Paulo Coelho. Lembro de que li um título seu, da qual não lembro o nome. Talvez, não seja mesmo essa a intenção do autor, já que ele conta sempre a mesma história, sob variados prismas. Alguém poderia chamar a isso de coerência, outros, de redundância. A frase acima, de certa forma, parece resumir boa parte do que ele quer “vender” para os seus leitores. Quem não gosta desse termo, visto que suas mensagens pretendem se mostrar superiores a este aspecto comercial, chamo a atenção para o fato de que o Mago reivindica o posto de maior escritor do Brasil justamente por sua vendagem exacerbada.

Por que “todos os dias Deus nos dá” – apenas – “um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes…”? Passado aquele momento, devemos esperar o dia seguinte para vermos surgir outro ponto crucial em que devemos decidir entre um “sim” ou um “não” para mudarmos “toda” a nossa existência”? Por que não temos todos os instantes, todos os dias, miríades de oportunidades para decidirmos a nossa história?

Mas ele cita o “instante mágico”! Para quem acredita que a vida inteira é mágica, todo o instante é mágico, não é mesmo? O recurso de determinar o momento da virada é muito usado como gancho por escritores de novelas e roteiristas de cinema. Pode aparecer em qualquer parte da trama, mas normalmente é reservada para o final, entre perseguições e tempos em contagem regressiva.

No entanto, sendo mais chato ainda, pergunto: depois do “instante mágico” e “o momento em que um ‘sim’ ou um ‘não’ pode mudar toda a nossa existência”, não haverá nenhuma chance de que o “sim” se transforme em “não” e vice-versa? Quando dizemos não ao fumo, ao “junk food” ou à bebida, nunca mais voltaremos a nos intoxicar? Quando dizemos “sim” ao amor ou à vida saudável, nunca mais voltaremos a odiar ou meter o pé na jaca? Neste caso, “toda a nossa existência” tem prazo de validade – talvez 10 minutos ou 10 anos – seja lá o que for.

Devemos estar constantemente atentos e fortes para que não durmamos sobre os louros do “instante mágico”. Magicamente, está em nossas mãos, a todo o momento, direcionarmos a nossa vida para o melhor caminho. A todo instante tomamos pequenas decisões que podem significar desvios, mesmo que sejam tomadas com a melhor das intenções. E, na maioria das vezes, apenas saberemos quando chegamos a bom termo quase no final da estrada, quando divisamos a totalidade da obra da qual participamos… Isto, se não acreditarmos que todos os instantes da nossa vida não sejam apenas os instantes de uma vida entre tantas outras da nossa existência…

*Texto de 2012

Deuses

Deuses
Deusa da noite…

No fulgor do instante
em que nos separamos do  mundo
e entramos em outra dimensão…

No momento em que corpos se fundem,
fundam uma nova existência
e se aprofundam
no mar cósmico do gozo…

Na aceitação de que somos ingentes,
a deitarmos entre estrelas que dançam,
exclamas: “Pareces um deus!”…
Então,
me sinto teu,
me sinto tanto…
me sinto são…

Espalmo minhas mãos
contra a planta de teus pés –
beijo tua flor de lótus,
entoo preces
e te possuo…

Te sinto uma deusa…
Mais do que isso…
Te sinto maior que tudo…
Te sinto Mulher…