Em minha vida, vivi muitas vidas… E morri, outras tantas vezes… E não é incomum, mesmo tento a idade que tenho, viver todas as minhas idades ao mesmo tempo. Em muitas ocasiões, eu tenho que tomar cuidado para que o homem maduro não venha a retroagir cinquenta anos e se veja desamparado diante de algumas situações, como se novas fossem. Em contrapartida, acontecimentos que me surpreenderiam pelo ineditismo assumem feições de déjà-vu, como se ouvisse um disco arranhado.
Diante dessas sensações, o nome que assumo – Obdulio – carrega um traço em comum – a saudade – tanto do que passou, quanto de um futuro irrealizado. Entre o menino sorridente que brincava na praça e aquele que se vê no espelho, fotografado por um moderno aparelho de (in)comunicação, se passaram cinquenta anos pela face do homem. O corpo se modificou tantas vezes – cresceu, engordou, emagreceu, adoeceu – enfim, sofreu as intempéries físicas e mentais a que somos submetidos ao nos vestirmos de uma identidade humana.
Ainda que as alternativas não vividas prometessem múltiplas e promissoras perspectivas, eu me sinto muito bem com que se passou comigo. Seria injusto com quem compartilhou da minha vida (e comigo mesmo) que viesse a repudiar tudo o que vivi até hoje. Aprendi a estipular as minhas vivências como únicas e valorosas. O que sofri, sinto que foi para o meu bem.
Contudo, o sofrimento de quem amo me é mais pesado do que se acontecesse comigo. Assim como não me sinto totalmente feliz diante das duras provas pelas quais passam tantas pessoas em minha volta, no meu bairro, na minha cidade, país e planeta. Mesmo assim, me sinto grato pelo papel que assumi como se fosse uma dádiva oferecida a mim pelo Diretor que dirige este incrível espetáculo universal no qual todos nós nos apresentamos.
Em Maio de 2014, ao querer prestar uma homenagem escrita ao vigésimo-quinto aniversário de casamento entre mim e a Tânia, postei para ilustrá-la uma foto que coloquei na capa da minha página do Facebook. Nela, estão ao meu lado, em sequência: minha mãe, Maria Madalena e meu pai, Odulio. Ao lado da Tânia, está o seu pai, Seu Manoel, o “Neneco” e, logo em seguida, sua mãe, Dona Floripes. Não sei se há uma etiqueta referente ao posicionamento de pais e noivos, mas a minha neurose obsessiva compulsiva – se bem que leve – fez com que eu cismasse com a disposição trocada de nossos pais e nós. Porém, algo mais me inquietava nessa foto – o olhar de minha mãe em minha direção. E sobre esse olhar, comecei a especular.
Era evidente a alegria dela ao ver ali seu filho perfilado de branco ao lado da noiva, de rosa. Para além daquela clara satisfação, comecei a mergulhar na memória para tentar pinçar todos os motivos para que ela visse, naquele momento específico, a culminação de um desejo que apenas em sua imaginação poderia alcançar. A partir dos doze anos, fui me tornando um garoto difícil de lhe dar. Não no sentido usual – eu não causava preocupação quanto ao meu comportamento fora de casa. Não me envolvia com os garotos complicados da Periferia. A preocupação maior era justamente inversa a toda mãe: em vez de me ver envolvido com a molecagem, era árdua a tarefa de me arrancar da caverna na qual passava a maior parte do meu dia, antes e depois da escola. O máximo de ousadia que me permitia era ter pendurado, em uma das paredes, um cartaz achado no lixo, do álbum de Elton John lançado em 1975 – “Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy”.
Em determinada época, mesmo míope, gostava muito de jogar bola. O perigo que poderia correr advinha das partidas de futebol disputadas em campos de várzea – “os contras” – que acirrados, vez ou outra, acabavam em alguma confusão. Em minha caverna, lia, ouvia rádio e escrevia. Extasiado com as religiões orientalistas, a partir dos dezesseis ou dezessete anos, me tornei vegetariano e desenvolvi a fixação em agir como um monge sem hábito até que, depois dos vinte, acalentei a perspectiva de me tornar um frei franciscano. Fico a imaginar o quanto deve ter se sentido apertado o coração de Dona Madalena ao perceber que não seria avó por meu intermédio. Seu primogênito parecia estar abrindo mão de sê-lo, permanentemente. O meu pai, então, nem se fala. Já afastado de casa naquele momento, desde os meus dezoito anos, quando comecei a usar brincos, duvidava da minha masculinidade, temor acrescido por meu renitente afastamento das mulheres que, francamente, me metiam medo.
Durante uns dois anos, frequentei mais assiduamente a Igreja Católica e tinhas reuniões com o Frei Ricardo, da minha paróquia e o Frei Luiz, do Mosteiro do Largo de São Francisco, que então me orientavam. Cheguei a conhecer o Seminário de Agudos, após o que, confrontado com a possibilidade de ter que esperar mais um ano para iniciar os estudos seminaristas, decidi voltar as minhas energias para o desafio de conhecer a vida comum. O impulso final foi dado por influência de uma maquete feita por um aluno do Seminário, o qual mostrava os vários caminhos para Deus. Nele, se apresentava, entre algumas opções, a formação de uma família.
Dado esse sinal, como rito de passagem tingi o meu cabelo de louro. Fui trabalhar como “roadie” e técnico de iluminação da Banda Charm em um Carnaval no Guarujá, onde logo comecei a me soltar com as meninas, cometendo a suprema ousadia de conversar com algumas delas e até de anotar o telefone de uma simpática moça. Que acabei por esquecer em um canto do palco, enquanto desmontava o equipamento da banda. Não sei o que passou pela mente da minha mãe com essa nova virada. Certamente, havia percebido o quanto eu estava confuso, mas sei que também nunca havia perdido a fé no filho.
Apesar de me sentir inapto para a vida material, ela vivia a repetir que eu era uma boa pessoa, um cara inteligente e que talvez, com a ajuda da mulher certa, conseguisse encontrar o meu caminho. Nesse momento, surgiu a Tânia, “trazida para mim” por minha prima Vanir, que veio à trabalho morar com ela em São Paulo, diretamente do interior do Rio. É bem possível que aquele olhar específico da Dona Madalena, captado pela foto que paralisou no tempo a sua carga emocional, representasse a conclusão daquele capítulo e a boa perspectiva do início de outro, com os grandes desafios inerentes à condição do homem casado que me tornara e de pai, que acabei por me tornar. E, desde sempre, percebo que tem sido o luminoso olhar da minha mãe a me conduzir até aqui e agora, ainda que esteja ausente fisicamente desde 2010…
Sobre este domingo comemorativo, quis permanecer longe da voragem causada pela artificialidade de uma data instituída pelo mercado para alimentar o comércio. Manipular sentimentos é a melhor maneira que existe para estimular a compra de objetos que demonstrariam o quanto somos agradecidos a quem deveríamos homenagear. No mínimo, ajuda a amenizar a culpa que sentimos por alguma falta que cometemos a quem presenteamos.
No entanto existem datas que calam fundo, como a dos dias das Mães e a dos Pais. Essas datas acabam por expressar a ideia simples porém completa de início de tudo. Qualquer ser de organização celular mais complexa vivente neste planeta foi gerado por um(a) genitor(a). Pegos, assim, de uma forma tão primária em nosso âmago, não há como deixarmos de expressar algum tipo de emoção quanto a estes dias.
O meu sentimento é contraditório. Tenho filhas que me realizam como gerador de vidas que fizeram, faz e, tenho certeza, ainda farão diferença na existência de quem tiver a boa sorte de encontrá-las. Eu as amo por isso e porque as amo independentemente de qualquer coisa. Quanto ao meu pai, a dubiedade se aplicava de maneira exemplar. Quando estava vivo, ficava meses sem vê-lo. Morávamos perto, caminhava por lugares que eventualmente passava, entretanto quando estávamos juntos, sentíamos certo distanciamento.
Quando houve a cisão definitiva entre ele e minha mãe, que fisicamente também já passou, deixei de tê-lo mais por perto. Com a deterioração de seu estado de saúde e eventual proximidade de seu desenlace, comecei a pensar muito nele e nos momentos que me lembrava (não foram tantos assim) em que vivemos certa comunhão emocional, a maior parte de cunho negativo. Sentia que ele não estaria fisicamente muito mais tempo entre nós e intencionava visitá-lo, ver como estava. Talvez para protagonizarmos outra e possível última discussão. Não conseguia evitar me indispor com ele e preferi não fazê-lo. Fui vê-lo apenas morto.
Frequentemente digo para alguns que o utilizo meu pai como um exemplo a não ser seguido, principalmente quanto a ser um pai presente. Se bem que presença pessoal nem sempre seja indicativo de qualidade. Agradeço a ele que tenha proporcionado subsídios para que eu e meus irmãos tenhamos casas onde morar. Contudo filhos são exigentes e querem sempre mais. Desejava que não quisesse me ver como um mero apêndice de seus ideais e vontades.
Ele esquecia-se que ou não aceitava que, apesar de filhos da carne, não somos compulsoriamente filhos do espírito. Que ele não visse que honrar pai e mãe não era pensar o mundo como ele projetava. Que a partir do momento que os trazemos ao mundo seres aos quais damos suporte – casa, comida, vestuário, escola, educação (algo diferente de escola) e (hipotético) amor –, ao mundo eles pertencem. Lugar comum, todavia verdadeiro.
Por poucos anos, tive uma convivência normal com o Sr. Ortega. Ele era um homem elegante, com tez amorenada e os olhos puxados, devido a sua ascendência indígena. Eu me pareço mais com meu avô, “Seu” Eustáquio Humberto, mas não são poucas as vezes que o vejo em mim, no espelho, e o ouço reproduzido em minha voz. Ainda que afastado de nós, desejava que meu pai que estivesse bem consigo mesmo, já que essa fora sua escolha desde o início. Presente em minha mente-tempo-espaço, o homenageio, mesmo que de modo torto, como progenitor da família que formamos um dia.
(O nome citado foi mudado, para preservar a sua identidade)
O domingo acabou por findar… No entanto, foi pela manhã de ontem que participei, como expectador, de um diálogo que me chamou a atenção e repercutiu em minha mente pelo resto do dia. Eu e meu irmão, depois de recolhermos o equipamento de nosso terceiro evento, sendo um deles em dois turnos, fomos à padaria em frente ao salão do clube para tomarmos o café que nos garantiria o aumento de nossa atenção depois de 48 horas diretas de trabalho.
O efeito do café talvez não tenha sido tão efetivo quanto a história de um nome dado á filha de uma das funcionárias da “padoca”. Logo que cheguei ao local, eu a vi detrás do balcão a conversar animadamente com outros frequentadores. Sua voz era firme e seu vocabulário, simples. Usava o cabelo curto, muito branco, que a fazia uma figura interessante, ainda mais acompanhada por seus olhos claros. Devia ter por volta de 50 anos. Ela e suas companheiras citavam vários nomes dos quais gostavam. Um deles, “Maria”, chegou-se ao acordo de que se tratava de um nome bonito, apesar de comum. O que eu concordei de pronto, silenciosamente, enquanto via, sem ouvir, o Padre Marcelo na missa transmitida pela televisão.
A balconista disse que o nome da filha dela era Maria… Maria José. Explicou que, descoberto o sexo do bebê, o seu marido escolheu o nome Maria para dar à sua filha, no que ela assentiu prontamente. No final da gravidez, ele deixou escapar que era uma homenagem a uma namorada da qual gostou muito… Confidenciou às amigas que ficou bastante chateada, mas não o demonstrou para o companheiro. Quando nasceu a menina, no registro feito no hospital, acrescentou “José” para compô-lo… E completou que aquele era o nome de seu “ex-futuro marido”, o qual amou muito na juventude. Parece que o pai de Maria José não sabe desse pormenor até hoje… Estranho que, mesmo sem conhecê-lo, eu e outros tantos acabamos por saber…
Antes que suas interlocutoras se despedissem, concluiu: “Enquanto ele achava que estivesse indo com o milho, eu já estava contando o dinheiro da venda do fubá que moí antes. Se ele tem o prazer de chamar o nome da filha que ama pelo nome da mulher que amou, ela carrega, ao mesmo tempo, o nome do homem que amei”…
Malageña, Fusca de 1973. Proprietário: Humberto N. Ortega
Por dois dias seguidos, duas cenas parecidas, em dois lugares diferentes, chamaram a minha atenção, a envolver pessoas e carros. Nada de atropelamentos ou choques entre veículos, batidas contra paredes ou postes. Antes, foram cenas em parecia haver uma incomum comunhão entre máquina e ser humano, uma identificação entre carne e aço, criador e criatura.
Eu estava em minha atividade quando observei pela janela um rapaz com um pano na mão a rodear um automóvel branco. Por associação, devido ao seu biótipo alongado e à coreografia que executava, me pareceu um toureiro a empunhar um florete contra o touro. Porém, em vez de estocadas, “El Matador” caminhava, parava e passava o pano na “fronte”, nas laterais, na traseira, olhava de perto, se afastava, até que, no momento final, se postou diante da “fera” e ficou parado por um longo minuto, com os braços cruzados. O que eu supunha ser o proprietário, a tudo observava e parecia, tanto quanto eu, encantado com toda aquela movimentação. Mais um pouco, os dois entraram no carro e saíram, provavelmente, para o “test-drive”. Não mais os vi…
No dia seguinte, caminhava em direção ao banco, quando avistei, ao virar uma esquina de uma rua calma, três homens em torno de outro automóvel a uns vinte metros de onde estava. Dois deles, como expectadores daquele que examinava mais detidamente um veículo de cor escura diante deles. Eles se entreolhavam e giravam em torno dele, enquanto o que examinava volta e meia se agachava com insuspeita agilidade pelo corpanzil e idade presumível de quase setenta anos, com o olhar a se direcionar de cima para baixo. Curioso, diminuí os passos e quase parei, a fingir que buscava algo no bolso, enquanto presenciava o namorado diante de sua pretendida.
Em determinado momento, ele se aproximou da coluna dianteira direita da amada, passou carinhosamente a manga esquerda e pareceu conversar ao pé do ouvido de seu objeto de desejo, como a pedir que contasse a sua história, confidenciasse os seus segredos. Nesse momento, tropecei. Disfarcei o susto e voltei a cabeça para frente, a deixar a todos do corpo de baile executarem os passos daquela estranha ciranda em torno da dama, com a luz inclinada do inverno a conferir um brilho sedutor do capô do cisne negro.
O impacto desses encontros fez que eu voltasse a avaliar essa incrível conexão entre o homem e suas máquinas, especialmente o carro, ícone fundamental na revolução na história da humanidade desde o final do século XIX. Sei o quanto esse envolvimento passou do campo tecnológico para o pessoal. Dizer que muitas pessoas amam o seu meio de transporte como a “alguém”, não como algo, fez com imaginasse um futuro em que o desenvolvimento de novas tecnologias, fará com que um automóvel seja formatado de acordo com as preferências do dono, a ponto de haver tal simbiose que poderá se proclamar, ao ser avistado um automóvel: lá vem o João, a Maria, o José, a Raquel. Tal personalização conferirá o status de quase ser humano a uma coisa movida pela vontade de quem o conduzir… Ou será o inverso (que fará jus a sua nomenclatura)?
Amor e identidade entre carne e aço já é algo contado por aí e muitos que cresceram sendo levados de lá para cá no carro da família costumam lembrar-se com saudade do membro movido a motor à explosão. Não faltam histórias de amores explosivos movidos a dezenas de força-cavalo. Em meus devaneios mais severos, chego a enveredar para uma versão futurista tal o qual presenciei há quarenta anos em Geração Proteus*.
*Um supercomputador, Proteus IV, adquire autoconsciência e, como qualquer ser senciente, é curioso, questiona a razão das coisas e quer se reproduzir. Para tal, ele aprisiona a esposa do cientista que o criou, com a intenção de inseminá-la com o que poderia ser o início de uma nova raça, misto de homem e máquina. Produção americana de 1977, com o título de “Demon Seed“, no original. Estrelando, uma atriz que eu amava – Julie Christie.