Há dois anos, na noite de 11 de Julho de 2017, estive com Fellini, assim como Fellini sempre esteve comigo desde que conheci o seu sonho, que passou a fazer parte de meu sonho de viver, com as imagens-poemas-movimentos que produziu. A Lunna, que bem poderia ser uma das suas personagens, dada à sua singularidade e história, fez muito bem reunir autores, amigos e leitores da Scenarium Plural Livros Artesanais, naquele lugar evocativo da sétima arte para o lançamento da coletânea de poemas Coletivo (2017), que reuniu dez autores a tecer linhas e palavras sobre temas variados – o Medo, de Aden; os Caminhos, de Adriana; a Pele, de Caetano; os Pedaços, de Chris; o Silêncio, de Ingrid; os Gestos, de Marcelo; as Memórias, de Maria; a Boca, de Mariana; a minha Tristeza e o Dilúvio, de Virginia.
Nas colunas da Revista Plural Inéditos & Dispersos, comparecemos, eu e outros autores da Scenarium, com crônicas, resenhas, poemas, contos, ensaios e críticas. A poesia de Ana Cristina César surgiu como mote propulsor e a inspirar pareceres, impressões, movimentos escritos na tarefa sublime de reconhecê-la como uma das grandes, ainda que não vislumbrada por muitos.
O ator Felipe Reis, que declamou um dos meus poemas – Tristeza Mortal.
Borges, Osmar Lins, Fernando Pessoa, Mário Quintana, Antônio Cândido, Otávio Paz, Charles Chaplin e Susan Sontag surgiram dentre as folhas a realizarem ponteios de violeiros em lírica canção textualizada em papel. Os escritos se desdobraram – Aden Leonardo, Tríccia Araújo, Mariana Gouveia, Rita Paschoalin, Daniel Velloso e Renato Essenfelder polinizam suas páginas brancas de tinta negra com intenções de sangue vivo.
Amigos que compareceram ao lançamento de mais mais uma obra da Scenarium Plural Livros Artesanais. Lá, descobrimos o talento de K-N, engraxate nas horas vazias.
Adriana Aneli, intervieram com a sua sensibilidade, a incluir uma resenha sobre meu livro de crônicas – REALidade – em que ela revelou um escritor muito melhor do que sou, muito pelo talento da escritora natural que é. Pudemos igualmente ler uma reveladora resenha sobre “Oliveira Blues”, de Akira Yamasaki, realizada por Caetano Lagrasta Neto.
Descobrimos em Ester Fridman – filósofa e astróloga – também uma belíssima ensaísta. Pudemos ler Uma Carta Ao Nelson, por Luciana Nepomuceno. Os poemas de Andrea Mascarenhas, Simone Teodoro, Marcelo Moro, Manogon. Que veio a retornar como Manoel Gonçalves e aduziu às palavras de Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho, Joaquim Antonio, Virginia M Finzetto, Roseli V. Pedroso, Emerson Braga e minhas sobre o desdobramento escritor/leitor – o eterno enigma do espelho.
Entre cafés e outras bebidas, Federico Fellini esteve presente com o seu olhar de diretor da cena. Adorei o nome original do recanto na nota – Café E Letras Bomboniere.
Ao final, tanta energia e beleza se fez presente sob o signo e o olhar da Lunna Guedes, escudada por Marco Antonio Guedes, como a nos conduzir pela noite que é viver, já que quase nunca reconhecemos muito além da escuridão próxima que nos rodeia, mas com ela ousamos caminhar para além dela. Sem a luz da Lunna, nada disso teria sido possível. Rendi as minhas homenagens à La Signora Della Notte por esse projeto incrível, que é embalado pela Família Scenarium Plural Livros Artesanais, unida pelas palavras e o desejo de ser plural.
Ao sairmos, eu, Marco e La Signora Della Notte, lá estava ela para se despedir, junto às estrelas de fantasia pintadas na parede.
Na minha lista de filmes que deveria assistir, assim como tenho a de discos que gostaria de ouvir, assim como a de livros que me programei para ler, “O Discreto Charme Da Burguesia”, de Luis Buñuel, ficou pelo caminho e está à espera de ser visto. Portanto, o título serve de tema, mas não de inspiração para discorrer sobre o fascínio que a Burguesia e seu estilo de vida exercem sobre a maioria das pessoas. Ao cursar História, tive a oportunidade de estudar a formação dos burgos, seus moradores, atividades funcionais e desenvolvimento dos modos de produção que desencadearam no Capitalismo, sistema intrinsecamente ligado aos burgueses.
Advindo da Europa, o estilo de vida burguês instaurou a tradição – hábitos, costumes, atitudes, comportamentos – que marcou a personalidade da quase totalidade dos seres humanos que tenha nascido neste planeta nos últimos dois séculos, visto que a expansão do Mercantilismo atingiu civilizações em todas as latitudes dos dois hemisférios. Sobre o termo “burguês” recai tantas concepções, geralmente aleivosas, que fica praticamente impossível determinar o que seja esse tipo humano sem ser interpretado como nocivo e, ainda mais, que venha a apresentar algum charme. Pelo menos para os mais libertários. O restante, que perfaz a maioria, tem a burguesia como meta a ser alcançada.
O sistema de troca de mercadorias, iniciado há milhares de anos, por terra e mar, inicialmente entre ilhas e, depois continentes, foi tornando o mundo menor. Há indícios que, na Antiguidade, bravos navegantes chegaram a distâncias insuspeitas – vikings na América do Norte; fenícios, no norte da América do Sul. A diferença entre eles e aqueles que invadiram terras desconhecidas além-mar a partir dos Séculos XIV e XV é que os últimos trouxeram consigo a ideia de supremacia civilizatória, abençoada por Deus, com a imposição de ritos e rituais, modos de ser, hierarquia vertical, estilos de agrupamentos e conceitos de cidades – invasão de mundos sobre outros.
Os habitantes das terras assenhoradas foram sujeitados pela imposição da maior letalidade das armas que os invasores carregavam. Manchada de sangue, a expressão burguesa passou a dominar corpos e mentes, sem dar oportunidade a desvios, então punidos severamente com degredo, tortura e morte. Imposição, pelo terror, de um paradigma histórico-fatalista que preconizava uma maneira como o ser humano evoluído deveria agir, instaurando a civilização “ideal”, concebendo o conceito-arcabouço de dominação que escravizou-exterminou povos inteiros, arrancando a cutelo suas raízes culturais. Dominados os autóctones, suas terras passaram a servir de entrepostos das riquezas encontradas – vegetais e minerais. Alguns locais, não evoluíram de patamar até os dias atuais e permanecem como fornecedores de produtos primários.
Patrocinada pela Igreja, a formação da Burguesia seguiu os cânones judaico-cristãos baseados na formação de um núcleo familiar – pai, mãe, filhos – modelo de organização protótipo a serviço dos desígnios divinos do Evangelho – replicador do modelo de assunção ao Céu na Terra. Oficialmente, o impulso sexual devia ser controlado pela procriação sacramentada pelo casamento. Os enlaces eram arranjados, seguindo interesses políticos-comerciais-financeiros. A família do típico burguês normalmente abraçava uma profissão, passada de pai para filho, que chegava a determinar sobrenomes por gerações. As atividades profissionais passaram a ganhar variabilidade com o crescimento das cidades, com o advento da inédita demanda para atender à sofisticação do comércio e apropriação de novos mercados consumidores. Mais aquinhoados, os burgueses se capacitaram para exercê-las, constituindo vanguardas profissionais.
Em algum momento, o sistema burguês criou em seu âmago-matriz as condições para que fosse combatido por dentro. A ideia subjacente, formulada por Marx, era a de que a semente da destruição do Capitalismo – promessa de trazer conforto e bem-estar (para os escolhidos), enquanto se fortalecia com o trabalho de “castas” mais baixas, viria a gerar constantemente movimentos de contestação-rejeição. Alguns estudiosos creem essa seja uma condição sine qua non que o reforça em vez de implodi-lo.
Criando uma aparente instabilidade, os reflexos desses movimentos são encampados-cooptados e relançados com certo verniz de rebeldia para o Mercado – entidade anônima e dominante –, muito atraente para a massa consumidora-ávida por novidades formada por filhos-antípodas ao sistema. Modernamente, a publicidade aproveita-se continuamente desse recurso como um rico material para alavancar seu repertório de vendas de produtos-conceitos entre aqueles que buscam alternativas ao modus operandi burguês – fórmula-antídoto de sucesso. Outro fator importante é que muitos que se supõe participarem das correntes contrárias à burguesia tornam-se aliados dela de modo tácito e efetivo, enquanto são comemorados como arautos da revolução que a derrubará.
O discreto charme da Burguesia assombra os que buscam viesses diferentes para uma existência fora de seu domínio. Quem tenta escapar ao indiscreto ímpeto de cooptação através de sua dinâmica envolvente, a oferecer progresso material e cultural (ainda que vejamos os recursos naturais destruídos e os pensamentos aplainados), recebe em oposição uma saraivada de golpes que apenas os mais conscientemente preparados conseguem se defender sem perder o equilíbrio. Os que constam da lista de vítimas, entram nas estatísticas de efeitos colaterais – facilmente aceitáveis pelos agentes do poder central instalado em torres de vidro e aço nas diversas paragens do mundo.
Atualmente, a questão religiosa não serve mais de esteio aos propósitos expansionistas do capital. Ou, por outra, absorveu seus pressupostos para continuar a atuar no mundo. Aliás, religiões contrárias ao mainstream tem servido de bandeiras para a contestação ao poderio hegemônico de certos países. Para quem acredita que a Burguesia só se desenvolve sob o guarda-chuva da Democracia e proteção religiosa, a atéia China pratica uma espécie de Capitalismo de Estado, além de exímia praticante de jogo duplo – o que a levará se tornar a maior potência econômica da Terra. Lá, a religião é, acintosamente, o dinheiro, sem apresentar a fachada ética que alguns países adotam para se apresentarem diante do concerto internacional como idôneos.
No mais, para além das novas fronteiras conquistadas graças às guerras comerciais, creio que para permanecer sobrelevante, a Burguesia, irmanada-conectada em todos os quadrantes, não deixará de incorporar pequenas e pontuais reivindicações dos que estão à margem de suas benesses ou perfis, apenas para continuar a exercer seu poder de dominação, a exalar seu charme de monstro bonito e cruel, a oferecer migalhas de vida-miragem em um padrão existencial inalcançável pela maioria, mesmo porque, se assim fosse, o planeta se extinguiria…
Solução? Talvez a extinção de seus agentes – quase todos nós…
Em um relacionamento, o que devemos buscar no outro? O que nos falta ou o que nos acrescenta? Qual a base de avaliação que temos para dizer o que nos falta? Qual o parâmetro para dizermos que algo nos foi acrescido com aquela pessoa que queremos ao nosso lado? Desejamos a calma da estabilidade conformada ou a trepidação de uma convivência sempre em evolução para o desconhecido? Desejamos a paz dos mortos ou o calor da ebulição dos vivos? Devemos viver a dualidade do ser – prazer e dor – ou a unidade de Ser e nos perdermos no Todo, sem identidade?
Todas essas perguntas e muitas outras, eu me fazia quando garoto, principalmente quando eu comecei a crer, por volta dos dezesseis ou dezessete anos. Eu me tornei vegetariano, decidi ser celibatário e abdicar dos prazeres do mundo. Eu nunca havia experimentado o sexo e, para mim, parecia ser natural não experimentar. Cria que evitaria me envolver em uma espiral de problemas que todos viviam sem solução aparente.
Ter família, trabalhar para sustentá-la, abrir mão de projetos individuais para projetar-se no mundo em busca de sustento, parecia não ter sentido para mim. Eu havia me tornado um monge sem hábito. Experimentava reunir palavras de todos os tempos e lugares, personagens que procuraram a Luz, livros que ensinavam o Caminho, as várias faces do Saber dos Mestres – Cristo, Buda, Confúcio, Maomé, os filósofos de todas as tendências – e erigia uma crença individual baseada na intuição pessoal, que me eram confirmadas principalmente nos momentos de solidão. Ficar sempre sozinho, fechado em meu quarto, apavorava a minha mãe. No entanto, também gostava de jogar futebol, ir ao cinema, assistir programas de televisão, ouvir música, escrever, desenhar e ler tudo o que caia em minhas mãos. Quem sabe onde encontraria o novo conhecimento que me revelaria a mim?
Quando fui visitar o Seminário de Agudos onde, eventualmente no futuro, eu faria a preparação para me tornar frei franciscano, não esperava que fosse ali que encontraria outra resposta… O resto da história, este pai de família, casado oficialmente há 30 anos, completados hoje, ainda está a contar. O caminho que tomei, foi o caminho que tomei e não exercito o jogo do “se”. Não me arrependo de nada. Festejo a vida. Beijo a face do Tempo e anseio me encontrar preparado para seguir além, quando for o tempo…
A foto acima, faz parte da série “Papai É Bombadinho”, nomeação dada por minha caçula, Lívia. Na época, há seis anos, a minha intenção ao postá-las era demonstrar o esforço que fazia para me manter ativo naquela etapa da vida em que muitos desistiam de se movimentar ou praticar alguma atividade física por suposta falta de tempo – o que era comum acontecer também comigo – tanto quanto agora. Muito mais comumente, é por simples falta de vontade, para não dizer: preguiça.
O principal fator para prefiramos deixar a preguiça tomar conta de nosso corpo é que se exercitar dói. Sim, não vou mentir – ao começarmos um programa de atividades físicas, a dor é nossa companheira constante e sugiro que não tentem reduzi-la com o uso de relaxantes musculares, porque isso, conforme eu aprendi, de certa maneira faz com que você perca parte dos benefícios dos exercícios. A dor é uma resposta muscular à adaptação do organismo à nova demanda do nosso corpo. No entanto, após o doloroso processo de adaptação, você começa a perceber que os resultados surgem e você passará a se tornar um assíduo praticante de exercícios. Chegará até – olha que loucura – a sentir falta daquela dorzinha de quem passa por esse período inicial.
O fato é que sempre gostei de atividade física – jogar futebol, voleibol, basquetebol, correr, nadar. Porém, com o passar dos anos, gradativamente, fui deixando de me movimentar. É claro que o meu peso aumentou, não só pela inatividade como também pela alimentação desequilibrada, no tempo, na proporção e qualidade devidas. Aliado a outros fatores, tive alguns problemas de saúde, culminando com uma crise hiperglicêmica no final de 2007.
Desenvolvi silenciosa, mas inevitavelmente, uma Diabetes Milittus, Tipo II, associada a hereditariedade, a idade e ao estilo de vida. Cheguei a 715 mg/dl quando o índice normal deva girar em torno de 100 mg/dl, isso, depois de tomar insulina na veia. Cheguei ao hospital bem mal, com a visão turva, mal podendo caminhar. Estava quase reproduzindo a morte de um grande amigo meu, o Wanderley Santos, que se foi em uma crise dessas. Fui salvo por minha mulher, Tânia, que percebeu que os meus sintomas – sede intensa, vontade de urinar a todo momento, visão nublada e uma irritabilidade insuportável – correspondiam aos de uma Diabetes, doença que não sabia sequer ter desenvolvido.
Após sair da internação, usei insulina injetável durante algum tempo, mas não mais. Sucedida a pior fase, adotei uma dieta mais equilibrada e incentivado por minha mulher e filhas – Livia, Romy e Ingrid, decidi voltar a estudar, nesse caso, justamente Educação Física. Talvez sentisse necessidade em compreender como ocorre o desenvolvimento do corpo humano – sempre ocorre desenvolvimento, mesmo que negativo – e de que maneira podemos lidar com as circunstâncias envolvidas nesse processo.
A musculação tem me ajudado a controlar a minha Diabetes e os fatores envolvidos na explicação de como isso ocorre são um pouco técnicos e não será aqui que discorrei a respeito, mas persiste o fato de que são fatores marcantes e óbvios seus benefícios em meu organismo. Percebam que nomeio a Diabetes com letra maiúscula, porque é uma forma de demonstrar respeito por um mal cada vez mais presente na vida das pessoas, caso não se revertam rapidamente as condições de nosso estilo de vida atual.
No entanto, para ver como o mundo dá voltas, em fevereiro fez dois anos que não entro em uma academia. Quando falamos em estilo de vida, isso inclui as circunstâncias gerais do lugar onde vivemos. Para compensar o avanço do custo de vida, tenho que trabalhar muito mais do que antes, fico mais cansado e o tempo é curto para outras coisas, como me exercitar convenientemente. Como minha atividade me permite me movimentar bastante, diria que faço um trabalho físico funcional – literalmente. Função e funcionamento orgânico em conjunto. É o que temos para hoje…
Vera passava de carro por debaixo do Minhocão, na Major Sertório, quando, parada no semáforo, avistou um grupo de catadores de papel carregando duas carroças de tração humana. Seria até uma cena corriqueira, a qual não daria muita atenção, se um dos personagens não lhe parecesse bastante familiar.
Não chegou a ver o seu rosto, coberto por barba e cabelos longos, além de estar tampado por um boné esfarrapado. No entanto, os movimentos de seu corpo, andar e meneios identificaram que aquela pessoa era o seu filho. Não via Carlinhos há muito tempo… mais precisamente, há dois anos e meio… Porém, uma mãe que velou todo e qualquer gesto, todos os caminhares e as quedas, dos trejeitos aos maneirismos, desde que viera à luz, não deixaria de perceber a expressão física de sua criança… ainda que ele estivesse bem mais magro desde o último encontro que tiveram.
Vera tinha um compromisso importante no centro da cidade, mas decidiu estacionar naquele lugar. Duzentos metros depois, ela alcançaria o filho. Se deu conta que nunca conseguiu alcançá-lo antes, realmente. Sempre fora um menino irrequieto, não do modo que quase toda criança se apresenta, pulando de lá para cá, mexendo nos objetos, curiosidade nos olhos, nas mãos e pés. A sua inquietação era de outro tipo… Não conseguia se adaptar ao ambiente escolar e nem aos grupos da mesma idade. Preferia jogar bola com os meninos da favela próxima ou conversar longamente com os mais velhos, quando crivava seus interlocutores com saraivadas de perguntas.
Na adolescência, tudo ficou mais difícil. O relacionamento com Antônio, seu marido e pai de Carlinhos, se deteriorou rapidamente. Ao completar dezoito anos, já na faculdade de Português – um curso bem diferente do que o Antônio preferia para o filho, de Engenharia, para prosseguir a tradição familiar e herdar a empresa da família – o rompimento se deu definitivamente.
Nos anos seguintes, houve encontros esporádicos entre os três, normalmente tensos e, após completar o curso, Carlinhos sumiu de vista. Sabia-se vivo através de telefonemas em horas incertas. Vera, quase tão resoluta quanto Antônio em querer que Carlinhos prosseguisse com o trajeto projetado pelo casal para seu filho, quando o viu desta vez, abandonou todas as suas convicções e foi ao seu encontro. Queria abraçá-lo, senti-lo vivo, saudável… perdoá-lo… ou seria o contrário?
Quando se aproximou do grupo em que ele estava, foi recebida por latidos de alerta por meia dúzia de cachorros de cores e tamanhos diversos… Ficaram calmos quando ouviram a voz calma de Carlinhos expressar: “Mãe!…”. Um abraço forte os uniu. Vera se sentiu muito bem, apesar do cheiro forte que exalava da roupa suja que Carlinhos vestia. Vera ficou surpresa de ver que os olhos de seu filho estavam serenos como nunca vira antes. O azul parecia mais profundo, em contraste com a barba desgrenhada e a pele ressecada. O tom de voz era tranquilo e quase poderia dizer que o percebia feliz.
O fato de ser Semana Santa, uma época muito mais importante para os seus pais do que para ela, não lhe pareceu coincidência. Estranhamente, se configurou vinculada àquela oportunidade que se apresentava para reencontrar o grande amor de sua vida. Vera lembrou-se que a Páscoa era a época preferida de Carlinhos, quando ele devorava todos os filmes sobre a Paixão de Cristo, dos mais antigos e lacrimosos até os mais discretos e místicos. A sua versão preferida era “O Evangelho Segundo São Matheus”, de Pasolini, a qual ela nunca entendera, porém, ao qual o arrebatou imediatamente assim que viu a cena dos catadores de papel. Dessa forma, teve uma ideia.
Depois de conversarem por um bom tempo, de forma tranquila e fluídica, sem questionamentos sobre o seu modo de vida ou recriminações, como nunca se lembrou de acontecer em casa, Vera perguntou ao filho se gostaria de passar o Domingo de Páscoa em casa, com direito a almoço e tudo mais. Carlinhos chegou a sorrir, mas olhou para o lado, para os seus companheiros e cachorros e disse que não poderia deixá-los… Ela, sem apresentar constrangimento, respondeu: “Traga a todos!…”. “E papai?…”. Ela retrucou que havia conversado bastante sobre ele nestes últimos anos e que ele queria revê-lo, da maneira que fosse…
Depois de pensar um pouco, Carlinhos chamou aos homens e mulheres que ali estavam e conversaram em roda. Pouco depois, deu a resposta que Vera aguardava: “Chegaremos por volta das nove horas da manhã, mamãe! Vamos ajudar a fazer o almoço…”. Vera assentiu, deu um último abraço e foi para o seu compromisso, se sentindo muito mais leve do que quando acordou naquela quinta-feira.
No domingo, tanto Vera quanto Antônio, aguardavam o grupo no portão. Alertada por ela, Antônio esperava um quadro de retirantes a se avizinhar do seu portão, quando viu homens, mulheres, crianças e cachorros descerem de uma Kombi, todos muito bem arrumados… Os cães, sem coleiras, os seguiam e os obedeciam como se fossem adestrados. Após os cumprimentos, foram todos para dentro da ampla casa. O casal se sentiu espantosamente à vontade naquelas circunstâncias. Comeram uma mesa farta e Vera acabou por sentir uma paz inédita. Mais tarde, conversaram…
Carlinhos relatou como vivia. Disse que aquela era a sua família agora, incluindo os cães. Que trabalhavam juntos e dividiam tudo. Que chegou a usar droga e beber bastante quando se reuniu a eles, mas que decidiu ficar limpo quando houve um ataque a um dos membros que, por estar tão embriagado, não percebeu quando foi posto fogo em seu corpo… Morreu em agonia… Ficar sóbrio era o melhor que poderia fazer para proteger melhor a todos…
Carlinhos descreveu as humilhações, a fome constante, as condições difíceis para conseguir dormir com tranquilidade, as circunstâncias duras para negociar com os compradores de recicláveis. Mas também revelou que encontrava muitas pessoas dispostas a ajudar, o que atenuava o sofrimento. O grupo que compunha era formado por pessoas marginalizadas pelo desemprego, pelo vício, pela incapacidade de adaptação às normas sociais. Ele era conhecido como “Professor” pelos demais. Dava aulas para as crianças e os adultos não escolarizados, auxiliado pelos livros que encontravam jogados no lixo.
No final da tarde, o grupo do Professor Carlinhos decidiu ir embora. As crianças estavam felizes, carregando os seus ovos. Os adultos estavam satisfeitos por aquele dia, sabendo que aquela era uma condição momentânea. Tinham a consciência coletiva de que viviam um dia de cada vez. Os cães, que comeram uma ração especial, da qual gostaram bastante, dormiram a tarde toda, ao sentirem o ambiente seguro.
Ao se despedir de Carlinhos, Vera e Antônio, não pediram e nem exigiram nada… No abraço entre os três, antes de verem o filho querido se afastar, pediram perdão… Em resposta, os olhos de Carlinhos ganhou um brilho especial e o casal percebeu o quanto era abençoado pelo filho que criaram…. Nunca a Páscoa ganhou tanto significado – a Renovação se fez…