fantasmas passeiam pela tarde boas almas de eflúvios fugidios de um dia que se esvai brisas se enroscam em nuvens de corpos fluidos é um bom tempo esse o do entardecer quando em tarde somos quando entardecemos como parte do dia que se transmuta em crepúsculo quando a paisagem na linha do horizonte parece abraçar o sol em ósculo que se deseja ocultar como se fosse um amor intimidado até a noite chegar…
Entro na velha igreja desgastada, que um dia já serviu de Matriz de São Paulo enquanto se construía a Catedral da Sé. É um oásis de silêncio e respeito em meio ao burburinho do Velho Centro. Ao passar o portal e o limite imaginário marcado no piso, vislumbra-se a grandiosidade do engenho humano impulsionado pela fé. Alguns mais sensíveis ainda podem ouvir milhões de palavras soltas em orações e pedidos de perdões e graças e ver os diáfanos fantasmas de pecados a escalar pelas paredes… Perdoados, mas nunca esquecidos…
não lembro não era não entendo quem fui não tenho permissão para ver descaminho por aí passado a limpo descompassado nas trilhas do limbo são íngremes ladeiras deserdadas beiras quanto mais subo mais desço para o vale dos paralelepípedos das lamentações de tristezas e de desalentos as ruas desatentas de seus transeuntes enquanto anjos vingadores de cinza armados observam pares trios quartetos de deserdados deitados em papelões em posição fetal quando abrirem olhos voltarão ao deserto de seus corpos desabastecidos de vibração dementados somos um grupo unidos na perdição nem sei quando foi a última vez que chorei porque me vou sem querer desperdiçar qualquer coisa do meu poder de não sentir moo minhas emoções chove chovo lavo meu odor de urina fezes rotas roupas sou um ninguém entre tantos todos nulidades ausências pouco peso ignorados vivemos para abastecer a morte em vida somos como recados dados aos passantes apesar de seus calçados é um povo a tudo alheio à nossa presença dedicada em demonstrar que tudo é passageiro não temos ponto final apenas esvaímos tênues seres feitos fantasmas…
maria do arouche lembro pouco cor de entardecer em dia fechado babá gostava manipular meu saco era muito novo ainda conectado com vida antes de chegar ao útero via fantasmas no corredor andava parapeitos namorava amiga morte chama cama de estrelas meu avô logo cortou nosso laço engatei com maria da penha cresci em liberdade peripécias fazia tudo que queria sem compromisso apenas gozo não me importava mas amava parece outra vida deixei porque fui para longe bárbara encontrei fiquei anos achei nunca terminaria paixão bater bolas contra a bunda na parede na cama no chão sonhava era santa eu gritava entusiasmo feito gol comi duas mesmo lugar épocas diferentes não se conheceram provaram minha torpeza primeira nunca disse amor segunda entreguei ao melhor amigo altíssima alternativa cabelo a la garçon conheci maria tenente olhos verdes amedrontavam nunca toquei sequer abraço somente olhares lenço sujo de sangue ideal ilusão perfeição eternidade somente entregou irrealização nunca esqueci sempre amarei era bonito atraía sem esforço fiquei com duas anas a santificada bem mais tempo servia a muitos depois que deixei ainda trepei muitos anos muitas vezes outra ana loura sonhadora disse gostava de mim sou de ninguém de alguém sequer pertenço a mim vivo apaixonado maria maria noiva meu amigo usei muito a língua toques debaixo da mesa deus ausente como navio negreiro biologia estudo profundo casou la bergman foi intenso durou verões veros versos não comunicados alcancei seu corpo debaixo avental desilusão me jogou fora entulho removeu tati e amiga quis as duas na mesma casa não lembro tanque velho nos fundos bebi demais vomitei desmaiei eternas amigas re fez história brilhou minha vida pintura de mulher ensinou nova posição bicicleta outra noiva nunca a beijei 30 anos passados vi passar não a chamei augusta andrógina cheia altos baixos travesti do centro aos jardins comi da boca a bunda noites infindas vitória era inocente puta jacaré cocou 7 vezes não pagou vamos fazer neném? paguei sempre às vezes só olhava efigênia irmã mais rodada velha não envelhecida elixir da juventude atual virtual presencial dá a todos os gostos versátil sempre que posso como sem proteção maria antônia antônimo passado conturbado duas caras que se antepunham hoje vive calmaria comi atrás em palco plateia teatro verediana angélica cecília amores livres simultâneas especiais brigava com uma encontrava com outra consolação agitadas corcoveavam suava para satisfazer queria ser notado elas não se importavam tinham quem quisessem quando queriam estranho estrangeira maria paulista ama sem identificar despreza sem qualificar retilínea beleza sem cor amo desamo volto a amar amante inconstante ferina amável indigna perfeita anomalia amante infiel amo fielmente a sem nome aprendi amar foder amar trepar amar lamber amar bater amar puxar amar chupar amar rápido amar lento amar alento amar beber amar comer amar orar amar chorar amar sorrir amar gritar amar brigar amar voltar sem voltar amar amantes de hotéis baratos abençoados por santos centrais laterais três corações zardoz córregos regos monte carlo sempre haverá são francisco finalmente total sentido sem chance nascer outra vez eterna paixão que se fez sagrada porque acabou.
*Poema de 2021
Imagem de 2016 — Guanabara (1941), em plena Pauliceia Desvairada, é uma escultura de João Batista Ferri, embelezando o Centro Histórico de São Paulo, outra amante postada frente à sede da Prefeitura — Edifício Conde Francisco Matarazzo.
Foto por Miguel u00c1. Padriu00f1u00e1n em Pexels.com
Minha família viveu no Largo do Arouche, centro de São Paulo, até os meus cinco anos de idade. Do apartamento no Edifício Coliseu, apenas me lembro do corredor onde pedalava meu carrinho de metal com uma estrela no capô e da entrada do apartamento. Um amplo sofá boia solto na minha memória real, além dos fantasmas com os quais convivia em minhas aventuras soldado do Exército. Parece que desde então vivia a sonhar que voava, o que quase aconteceu por pouco quando ascendi ao parapeito da janela do décimo segundo andar. Fui impedido por meu avô, que me agarrou a tempo.
Minhas lembranças da infância mais presentes estão vinculadas ao qual chamávamos de porão, abaixo da imensa casa do meu Tio José, que empregou meus pais na fábrica de autopeças. Eu dormia junto à janela que dava para a garagem da casa e sua forma arredondada era parecida com as dos navios dos filmes que assistia. Logo, aquele canto se tornou ao mesmo tempo minha cabine e tombadilho de onde conduzia minha cama-barco-de-armar mar adentro, enfrentando tempestades, raios e trovões para levá-lo a salvo até a ilha-cozinha, onde me sentia confortável em ver minha mãe preparar a comida. Adorava vê-la encher a mamadeira de café com leite, a qual tomei até os seis anos, pelo menos, pela manhã.
Era recorrente eu desenhar o navio que me conduzia meninice a frente. Em terra firme, na Vila Esperança aprendi a jogar bolinha de gude, empinar pipa, jogar futebol. Também aprendi as primeiras letras, desenhadas no caderno de brochura, sem obedecer às linhas laterais. O que começava em uma página, terminava na outra. Fiz por iniciativa própria e quando mostrei à professorinha da escola infantil, me lembro dela chorar como se eu tivesse cometido uma imensa travessura… Ganhei um beijo estalado no rosto. Talvez, tenha sido ali que tenha desistido de ser marinheiro ao perceber que um barquinho de papel me levaria bem mais longe…
*Texto produzido por ocasião do Curso Narrativas Na Primeira Pessoa, da Lunna Guedes.