RACHADA

A Rachada

Há momentos que a minha mente, que se pretende poética, cede lugar à escatológica. Só assim para tentar entender como funciona a cabeça do brasileiro, que costuma entremear ações, acontecimentos e procedimentos graves com um quê de humor sacana. Essa postura seria louvável – teria certo teor de leveza – se não fosse trágico. Principalmente quando se trata da administração da coisa pública – a considerar algo que não pertença a ninguém e que sobre ela a ninguém se deva dar satisfação ou prestação de contas.

O humor se dá, em muitas ocasiões, de forma provocativa. Na Assembleia Legislativa do Rio, o local específico onde se dão os acertos nada republicanos para o fatiamento dos saques promovidos pelos piratas em terra firme – também chamados de legisladores – ganhou o epiteto de “Furna da Onça”. “Furna” é uma palavra que pode ser substituída por “toca”, “caverna” ou “antro”. Aos momentos dos acordos evocou-se a expressão “a hora da onça beber água”.

Ao se autodenominarem “onças”, os tais membros do Legislativo estão cientes que estão no topo da cadeia alimentar. O dinheiro auferido pelos impostos pagos pelos cidadãos, além de outros recursos, constitui o alimento que lhes garantirão não apenas a subsistência, como também a criação de uma confortável rede de sustentação-compadrio que abarca milhares de pessoas, em detrimento do resto da população. Esse domínio se dá sobre o corpo e o destino do “amado” povo que os elege – um amor de ocasião com tempo limitado de duração.

Outra maneira de alimentar vereadores, deputados e outros membros eleitos por nós é a chamada “rachadinha”. Aparentemente, trata-se de uma operação tão tradicional nas relações político-partidárias, que se inclui entre as vantagens constituintes de quem é eleito. É o processo de preenchimento de cargos com salários em que metade do montante retorna ao pagador – à figura política-administrativa do nosso representante.

O mais distraído dos cidadãos talvez não perceba que essa nomeação remete ao órgão sexual feminino – objeto de desejo sexual do macho humano. Para esse tipo, a mulher é apenas aquela que carrega a porta de entrada para a satisfação de sua sanha. Ah! Não é simplesmente uma rachada, mas uma “rachadinha” – o diminutivo carrega a ideia de algo desimportante, mesclada à evocação de conteúdo carinhoso e certo viés pedófilo.

A conotação sexual, é uma clara característica do humor nascido no âmago das relações do patriarcado brasileiro. Junta-se ao conceito de algo que é naturalmente aceito como sendo reservado a quem é poderoso – tal qual a figura do pai na tradicional família brasileira. Já disse, em várias ocasiões, que um aspecto do poder “é o poder de poder foder”.

Alguns dirão que apresento um entendimento doentio-pornográfico da situação. Pornográfico é o que acontece diante de nossos olhos, como se estivéssemos assistindo a uma dionisíaca foda tendo como pano de fundo a manipulação da eterna esperança que temos por um país melhor. Mãos, dedos, bocas e línguas atuam diligentemente na escuridão para que milicianos da palavra, à esquerda e à direita da furna, se aproveitem do apagar das luzes morais – no sentido do bom procedimento dos homens nas relações com seus semelhantes – para promover o bacanal onde invariavelmente todos saímos fodidos para o prazer dos abusadores eleitos.

Rachada, é a sociedade brasileira.

Maratona Setembrina | Foda-se!

Fuck

Há expressões que tem o poder de definir situações, registrar momentos, estabelecer conexões, parafrasear a realidade. Uma delas é “foda-se”.  Ou “foda-se!”, para torná-la mais enfática. Considerando que “foder” é um verbo de ampla conotação, que tanto poderá ser utilizado para exaltar uma ação ou acentuar uma ofensa, sua aplicação é quase uma panaceia para resumir determinadas circunstâncias.

Utilizado como recomendação terapêutica em momentos muito estressantes, “ligar o foda-se” ou proclamar um “que se foda” é uma solução conveniente quando não temos o que fazer em alguns casos ou instantes, como deixar o barco correr, até que possamos reconquistar a condução do percurso. Ou largar mão definitivamente de algo que supúnhamos essencial e que venhamos a perceber que não fosse tão intenso assim. É considerada uma atitude zen.

“Foda-se!” é mais comumente usado para xingar alguém e, em muitas circunstâncias, poderá ser substituído por “vá tomar no cu!” ou “que se dane!”. A intenção é que a pessoa se dê muito mal, se estrepe, sofra muito. Não são poucos os que recebem com satisfação essa exclamação. A vítima do xingamento, muitas vezes buscou a reação verbal extremada e se sentirá recompensada por ver explodir na boca do suposto injuriante a mais excelsa das expressões de ódio.

Uma análise mais extensa do “foda-se” também significará que se peça ao alvo do (hipotético) impropério que se auto-satisfaça sexualmente. “Foder” é um verbo que é bastante empregado para designar relações sexuais. É usado intimamente por vários parceiros para ilustrar o que desejam de maneira prazerosa. “Foda-se!”, nesse caso, é encarado como um desejo de bem-estar dirigido ao alvo da expressão.

Sem querer complicar o quadro, posso dizer que há momentos que gostaria de mandar um “foda-se!” teleguiado a alguns sujeitos. Tanto quanto ficaria animado em desejar a mim mesmo diante do espelho, mãos a postos: “foda-se gostosamente!”. Assim como amaria foder com alguém, no melhor dos sentidos. E, se mais nada adiantar, posso sucumbir à tentação de “ligar um foda-se” geral em resposta a tudo o que está acontecendo neste País.

 

maratone-se