BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Minhas Noites

Não preciso da escuridão exterior para mergulhar em minhas próprias noites – sol posto, meias-noites, altas madrugadas. Vivendo na metrópole, mal se percebe o negrume pleno das noites fechadas, sem Lua a nos guiar. Já as vivenciei longe das luzes artificiais em algumas ocasiões, quando criança. Na Periferia, sem energia elétrica vez ou outra, sabíamos que estávamos em terra porque se contrapunha o céu estrelado. Quando as estrelas se moviam, logo percebíamos que eram vaga-lumes. Inicialmente assustadoras, as noites me traziam o conforto do útero materno. Até que amanhecesse e o encanto se desvanecesse em luz…

MINHAS NOITES (3)

A noite, ainda que iluminada artificialmente, provoca visões de outras dimensões. Nesses momentos, os olhos enganados sugerem formas e cores que a luz total não permitiria supor. O mundo se transforma em sombras e os detalhes não interessam. Partimos para explicar o inexplicável segundo nossas convenções. Na escuridão da caverna, os primeiros grupamentos humanos brincavam com os seus medos. Projeções provocadas pelo fogo de suas linhas contra as paredes os encantavam. Chego a imaginá-los alegremente temerosos viajando para outras esferas.

MINHAS NOITES (4)

Construções humanas surgem inesperadamente sutis quando confrontadas contra o cenário negro da noite. Mesmo uma antiga beneficiadora de café, palco passado de trabalho pesado, torna-se uma personagem luminosa em contraponto ao negrume. No tempo que foi erguida, criou riqueza. Hoje, inspira beleza.

MINHAS NOITES (5)

Ao passar por avenidas de feéricas luzes, passo por edifícios que parecem funcionar vinte quatro horas por dia. Se não, por que todas as luminárias acesas? Dentro de cada casulo de luz, a insana atividade humana para pagar o consumo daquilo que estimulará mais trabalho para consumir mais trabalho… Assim, estipulamos metas a alcançar, níveis a ultrapassar, desejos a serem criados. Qual o objetivo disso tudo?

MINHAS NOITES (2)
Elvinho Elvis Tribute Artist

Meu trabalho propicia que eu viaje para todas as épocas. A depender do tipo de evento que sonorize, as músicas passeiam dos Anos 50 a atualidade – momento em que os sons vibram em baixa frequência criativa. Casamentos, shows, bailes de salão, aniversários, inaugurações de pet shops, jantar de negócios, premiações – tudo que envolva motivos para celebração da vida humana, participo da produção através do som e da luz. No palco, não é incomum rever Elvis Presley entoando “Suspicious Minds”…

MINHAS NOITES (7)

A Lua, “criada para governar a noite”, nos revela seus segredos somente para nos propor outros. Havia o temor que a chegada do homem ao satélite da Terra pudesse tirar o seu encanto. “Poetas, seresteiros, namorados, correi / É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites de luar…” – cantava Gil, em Lunik 9, há cinquenta anos. Porém, a Lua voltou a se impor como componente mágico de minhas/nossas noites. Sempre que posso, a fotografo, em todas as suas fases. Nunca deixo de me surpreender com o que me revela…

MINHAS NOITES (1)

Sou pedestre e passageiro. Percorro a cidade a pé e através de coletivos, trens e carros (como carona). O que dá ensejo de registrá-la por instantâneos. As imagens nem sempre causam interesse imediato. Mas muitas vezes acontecem descobertas ao segundo olhar. Este registro abaixo o tenho como emblemático por vários motivos. Eu surjo como um fantasma noturno a plasmar com o cenário da cidade, atravessando umas das pontes do Tietê – que une a Periferia ao Centro da cidade. Ação que é frequente, quase cotidiana. Poderia dizer que ela se torna praticamente uma declaração tácita do quanto Sampa faz parte de minha identidade.

Participaram também
Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 On 6 | Livros

Quando bem novo, aprendiz das primeiras palavras, acreditava que qualquer coisa que estivesse nos livros fosse importante. Quem se daria ao trabalho de publicar escritos que fossem inúteis? Na verdade, qualquer texto merecia a minha atenção. Era comum ler bulas de remédios, jornais com notícias velhas, encartes de programações artísticas e revistas, ainda que rasgadas. Sempre acreditei que a palavra fosse sagrada…

Na escola, tive contato com livros didáticos. Eu os lia inteiros, tirante os de exatas, antes de terminar o segundo bimestre. Além dos livros de Português, História, Geografia e (oh, inglória!) OSPB – Organização Social e Política do Brasil – que veio a substituir Educação Moral e Cívica, que surgiu para esconder a Filosofia nos porões da Ditadura, amava os livros de Ciências: Biológicas e Naturais. Em tempos de predominância da Rede, ainda guardo velhos compêndios. Como se estivesse a espera de uma hecatombe que dizimará a civilização, os transformando no último repositório do conhecimento humano.

Aliás, além dos didáticos, vários livros que não tem espaço em minhas estantes da Biblioteca aguardam para reverem a luz do dia. Farei uma estante extra para eles. Muitos, são velhos e estão precisando de reparos. Outros, nem isso os deixariam em condições de serem expostos. Eu os mantenho guardados porque foram importantes para mim. Como seres viventes, preservo suas vidas até tomar a difícil decisão da eutanásia.

Sem leitores, não há razão para que os livros sejam escritos, editados, revisados e publicados. Encontramos leitores nos lugares mais insuspeitos. Alguns, longe das bibliotecas, salas e quartos, protegidos de olhares incrédulos, se mostram praticando essa modalidade cada vez mais clandestina – ler. A esses incríveis abnegados, dedico a minha homenagem. Talvez, essa simples ação se torne cada vez mais ofensiva para a Sociedade plasmada na ignorância.

Um sintoma óbvio de nossa decadência literária é o paulatino desaparecimento das livrarias. As que restaram, muitas não oferecem apenas livros. Outras, se transformaram em Cafés que também ofertam livros. Ainda há os sebos e as cada vez mais recorrentes barracas de estadias curtas em calçadões. Um lugar em que o livro até pouco tempo mantinha seu cantinho eram as bancas de jornais e revistas. Hoje, perderam espaço para bugigangas e quinquilharias, eletrônicos e outros dispositivos. Estão se livrando dos livros, pouco a pouco…

Ainda que o livro perca cada vez mais o fascínio de antes e seu status de indispensável para muitos, sou uma pessoa que mantém intocável o olhar de menino com relação ao objeto formado por capas e páginas em seu interior. No registro fotográfico apresento meus dois livros e outro produzido pelo selo – Sete Luas – minha última aquisição. Ainda professo fé no ato sagrado da escrita. Sou escritor, autor de dois livros, participante das revistas e edições especiais da Scenarium Plural – Livros Artesanais. Como já disse, não vivo disso, mas vivo por isso.

Participam deste projeto:

Claudia LeonardiFernanda AkemiIsabelle BrumLuana de SousaLunna GuedesMariana Gouveia – Maria Vitória  

Projeto Fotográfico 6 On 6 – Passos | Cenários

Esta cidade que se come, nesta manhã, reaparece em suas linhas retas-irregulares, em cinza-cimento, imersa em cinza-nebulosidade. Linda, de tão feia. Porque quem a ama, bonita lhe parece – distorção que todo amor gera, abrigado por suas praças sem cuidado.

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Retas-irregulares, em cinza…

Quando vejo São Paulo aparentemente desabitada, como nesta manhã-madrugada, sei que por trás de suas portas, paredes e janelas, o drama da vida se apresenta implacável e comovente… Amores acordaram abraçados… Traições foram postas à luz… Amizades passaram a noite insones apenas no bate-papo livre e sem rumo… O desejo de ser feliz pode ter encontrado guarida nos peitos e paixões nos corpos… Ou, tristemente, podem ter se perdido entre os desvãos dos prédios e das ruas sem saída da metrópole insana que desperta…

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Fome de aço…

Tenho fome de asfalto, granito e aço. Eu não sei o que acontece, mas não são poucas as vezes que eu sinto uma tremenda vontade de abocanhar esta cidade. Degluti-la quase inteira, absorvê-la e vomitá-la, renovada e rediviva. Traduzida.

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Traduções…

Por caminhos antigos, não percebo os escombros. Mas histórias passadas, que um dia foram protegidas por tetos, quartos e salas – lares e comércios – negócios de viver. Espaços contidos de expressão. Lembro as roupas, os comportamentos, adivinho os pensamentos – déjà-vu, atavismo ou alucinação.

Cenários
Escombros…

Progressivamente, o sol se ergue por entre as colunas e lacunas. Durante o dia, pessoas de todas gerações e procedências se cruzarão por suas calçadas, dobrarão suas esquinas. Serão carregadas feito vírus por trens subterrâneos e vias elevadas, por ônibus e automóveis. Cumprem a magna determinação e enlevado desejo do monstro – querer ser maior e pior.

Cenas (3)
Leituras…

Seus personagens ressurgem anônimos e marcantes. Tento lê-los… A moça deselegante e amarfanhada, dona da lojinha de frutas, que arranja as prateleiras. O jovem forte e bonito, negro, que reabre o salão afro de cabelereiros e carrega uma camiseta em que se lê: “I ran like a slave. I walk like a king”. Na padaria, enquanto toma café, o operário com capacete de segurança, lê um livro técnico de engenharia. No trem, uma moça, entretida com um livro religioso, permanece em pé, apesar dos inúmeros bancos vazios.

Cena (1)
Anônimos…

São Paulo é meu carma.

Participam deste projeto: Cilene Mansini | Maria Vitoria | Mari de Castro | Lunna Guedes | Mariana Gouveia

BEDA | Pensar

Celular
Au! Au!

Eu gosto de pensar. Aliás, penso demais. Inquieto, a cada novo fato, exploro todas as suas possíveis repercussões. Curioso, busco conhecer todas as perspectivas de um acontecimento. Libriano, pareço mudar de opinião apenas porque os pratos da Balança pesam as circunstâncias. Prefiro chamar de justiça. Não são poucas as vezes que faço o advogado do Diabo – coisa irritante…

No entanto, essa característica com cara de indecisão, muitos consideram um sério defeito. Por isso, muitas vezes, tento me libertar das amarras do pensamento. Dizem que deveria ser mais solto e que agir por impulso não me faria mal. Quando agi dessa maneira, foi sempre por amor. Na criação das minhas filhas, por exemplo, em vez de seguir cartilhas, preferi deixar o coração falar. Por vezes, com dureza. Não parece que tenha feito um trabalho ruim.

Essa forma de vivenciar a minha experiência como ser, apesar de bem-intencionada, não é fácil e nem inteiramente livre de enganos… e nem verdadeira. Talvez, ao contrário. É bem provável que eu seja um engodo… para mim mesmo. É uma luta para descobrir a minha alma, quase totalmente “protegida” pelo escudo do pensamento. Meditação seria a melhor alternativa. Parar a roda dos pensamentos para descortinar o meu “eu” interior. Mas o meu corpo se recusa a deixar…

Ao mesmo tempo, seres pensantes que somos, nos auxiliamos de subterfúgios para não pensar muito. Usamos de ideias, opiniões e preferências pré-formatadas para lidar com as várias solicitações cotidianas. Decisões são tomadas por impulso ou emprestadas de segundos e terceiros. Ideologias são usadas como lentes, a distorcer a visão dos acontecimentos. Previamente estipulados o “sim” e o “não”, acaba por se tornar complicado argumentarmos com algumas pessoas. Eu gosto do debate. Gosto de acolher as opiniões alheias, ainda que mantenha certas convicções para determinar uma postura minimamente coerente.

Contudo, alguns abusam de nossa busca pela facilidade do equilíbrio mental diante de tantos requerimentos. Propagandeiam: use isso ou aquilo para que não precise pensar. Tomem o caminho mais fácil para chegarem onde querem. Ajam sem pensarem para atingirem os seus objetivos. Sigam os “formadores de opinião”.

Sou fã de Fotografia. Ao passar em frente a um anúncio de celular no Metrô, é alardeado que o aparelho apresenta uma “câmera inteligente que pensa por você”. Obviamente, para evitar que o fotógrafo amador “pense” sobre luz, posicionamento, ângulo e outros detalhes, ela padroniza a obtenção da imagem desejada. Eu me senti disfuncional – não seria justamente “errar” o que nos dá o prazer de aprender ao buscarmos uma imagem que venhamos a apreciar? Decidiram chamá-lo de “Zenfone”, o associando o estado mental “zen” ao automatismo e não à autoconsciência. Além disso, é utilizada a imagem de um cão para angariar simpatia ao projeto. Ou seria, subliminarmente, uma maneira de dizer: “obedeçam como a um cão adestrado”?…

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari