Frida fala pelos olhos… Nasceu ressabiada de gestos bruscos, como se trouxesse abusos de vidas passadas… Passou a se aproximar aos poucos, a vencer a timidez, a se colocar embaixo de mesas, em cantos de sofás, junto aos nossos pés… Hoje, perdeu de vez as travas… Sentiu o frio chegar e arranhou a porta para entrar… Frida, outrora calada, vive agora a deitar falas com o seu olhar…
*Poema de 2016, para Frida, que nos deixou logo depois, pela veleidade de um motociclista que corria a 100Km/h em uma rua de bairro.
Acordo… Logo, me levanto… Sinto os pés no piso, a procurar os chinelos… Antes que os alcance, me invadem sensações inesperadas, mas conhecidas… Em meu corpo, quente, tremores… Na alma, gelo e medo…
Cedo, cedo à minha incapacidade de lutar contra aquele sentimento de impotência, tão particular quanto evidente… Sozinho que estou, ninguém saberá o que passo… Ainda que estivesse rodeado por muitos, mesmo assim, me sentiria só, a beber a água suja do fundo do poço…
Neste dia de verão, voltarei para a cama, a tremer de frio n’alma… Fecharei as janelas, cerrarei as cortinas, cobrirei o meu corpo com pesadas mantas… me manterei quieto, como se quisesse voltar para o útero de minha mãe… Talvez, renasça em algum momento…
fogueiras crepitavam um junho rostos afogueados olhares e vinho corações flamejantes sorrisos passos errantes em alerta sentidos testemunham os caminhos quem tomará a iniciativa? os dois querem e se valem alheios aos outros se oferecem aos pelos arrepiados não é o frio da noite feita madrugada desejo crescente e merecedor o sol no plexo que mal respirava raios em fuga das peles ela decide que assim será o tímido gela quando limpa a boca de vermelho batom encurrala o amante num canto corpos presos imantados almas libertas em música e dança lábios se unem em línguas falantes entrementes voltas completas do planeta em torno da estrela para sempre será um junho…
foi assim… ela disse fica bem respondi fica com deus eu, que nem nele acredito despedida marcada sem uma palavra de adeus se houvesse mensagens as ignoraria com sórdido prazer era uma noite branca lua cheia por trás da nebulosidade primavera em outubro rosa veias cortadas sem sangue olhos que não se viam vozes que não se falavam bocas sem beijos mãos que não se tocavam separados pela distância unidos na mágoa o frio que se impunha termômetro nos 25 graus sete invernos e uma pandemia talvez já tivesse acabado no solstício feneceu no equinócio mas você não mudou, disse ela você não me ama mais, disse eu os prédios pintados de tarde o escuro protetor das noites nunca alcançadas ficou para trás nas avenidas centrais.
Laika, primeiro terráqueo vivo a ir para o Espaço, em 1967, pelas mãos do homem.
Quando ela se foi, silenciosa feito um raio sem trovão — Oyá calada — comecei a cheirar o chão pelo qual ela teria passado…
Em busca de seu cheiro — cão perdigueiro — perdi meu dom, me perdi… Fiquei sem casa, sem dona, sem domínio sobre o meu caminho de perseguidor de seu odor.
Todas as noites, uivava para as luas presas aos postes das ruas, tentando alcançar as estrelas de seu corpo, os cometas em seus cabelos, os asteroides de seu olhar…
Cercado de escuridão, senti-me como Layka — só na imensidão infinita — corpo encapsulado, sem elo com a Terra de onde provinha, a não ser pela gravidade que a ela me prendia…
Sonhei que pela poderosa atração de seu corpo, reentrava na atmosfera em que ela respirava — invasão em forma de fogo e risco de luz — pedaço de metal incandescente a penetrar na pele da amada… Saudade que se apagava em choque e explosão, amor e paixão…
A energia e o ar de meu módulo aos poucos se esvai… Por meus pelos, o calor se retira da pele, começo a sentir o frio a me invadir, até que o frio se torna meu, antes que deixe de respirar… Ser sem vigor, aberta sorte, circulo pelo Espaço a conhecer o belo mistério da morte…
*Em 3 de novembro de 1957, um mês após a missão do Sputnik1, os soviéticos mandaram o primeiro ser vivo ao espaço: a cadela Laika. O Sputnik 2 deu 2.570 voltas à Terra e ficou 162 dias em órbita. Queimou-se ao tocar na atmosfera terrestre em 14 de Abril de 1958.