Café Da Manhã No Alvorada

Palácio da Alvorada

Alvorada, num dia desses do ano passado…

JB teve que acordar cedo para realizar a reunião com aqueles caras que tanto desprezava, apesar (ou por isso mesmo) de ter convivido com eles por quase trinta anos no Congresso. Alçado “quase sem querer, querendo” a chefe de uma estrutura bem maior do que a quadrilha que comandava antes, tinha que negociar em situações que, se pudesse escolher, resolveria com a execução de alguns, pura, mas não tão simplesmente. Para dar exemplo e por prazer, adoraria torturá-los antes. Para aplacar um pouco o seu desconforto, imaginava que estava indo a uma de suas pescarias, como as que fazia antes, em que praticava seus pecadilhos na moita, sem a presença dos holofotes para iluminar seus passos tortos. No máximo, era multado pelos fiscais do IBAMA por pesca ou caça ilegal. Está vingando-se exemplarmente, com a ajuda RS, no esvaziamento do órgão que, mais um pouco, conseguirá extinguir.

Diferentemente, aquela seria uma pesca legal, ainda que aparentasse ser ilegítima. De qualquer maneira, como marca registrada dos últimos governos de coalisão, a negociação giraria em torno de cargos e verbas em troca do benefício da adesão. Um dia antes, a pretexto de resolver detalhes sobre a nomeação do candidato a uma cadeira no STF, JB encontrou-se em um almoço que se tornou um jantar, com DT, ex-presidente do Supremo e amigo do poder — com Lula e agora com ele. Esse encontro causou a fúria de muitos correligionários do mito que antes havia chamado a turma de becas negras de corja de impatriotas. Ele sabia que para muitos que o seguiam até aquele momento, todas as estratégias eram viáveis e que o gado aceitaria o que se jogasse por suas goelas abaixo ração ou capim.

Agora, com RM era outra história. O gordinho com trejeitos delicados era uma raposinha. JB sabia que ele controlava as pautas que deveriam ser discutidas e votadas pelo Congresso, incluindo os pedidos dos processos de Impeachment. Com RM, ele teria que ser cauteloso. Não era um EC ainda, mas era perigoso. Quando jogasse a linha, daquelas resistentes, de pescar marlim em alto-mar, o anzol com uma isca bem gorda, sabia que deveria puxar no momento certo. Desconfiava que o peixe, esperto como uma traíra, esperaria ultrapassar o último dia de 2020 para colocar em movimento o plano de derrubá-lo. A partir de 1º de janeiro, caso sofresse o Impeachment, sabia que HM não duraria muito devido às investigações do TSE e caberia ao Congresso escolher o seu sucessor. O Centrão, amorfo e inconfiável, se tivesse uma oferta mais robusta, o abandonaria à sua própria sorte, em nome da moralidade pública, probidade administrativa ou qualquer outro pretexto. Ele mesmo já transitou pelo baixíssimo clero, à espera de sobras, modificando votos não importando o partido no poder, feito uma rêmora. Sofreria uma tempestade de acusações. Sua carreira política se pareceria ao deserto amazônico ou ao Pantanal — nova área de caatinga. O pior cenário seria ver a si e seus filhos encaminhados a Bangu 8.

Esse café da manhã seria decisivo. Se percebesse que não houvesse saída institucional, conclamaria às armas as milícias e as tropas do Exército, fidelizadas com cargos nos ministérios. Seus pensamentos foram interrompidos pelo assessor:

Senhor, os peixes chegaram. Já estão no lago…

Atualmente, se sentindo um tubarão, no “lago” JB encontrou Gordinho já em (conversas) preliminares com o General R, chefe da Casa Civil. De si para si, dava risada todas as vezes que lembrava ter colocado um general nessa função. No “lago”, RM e o Senador MB, que o acompanhava, pareciam dois peixinhos à espera de comida. JB estava prestes a dá-la. Depois de tentar seguir a trilha indicada por OC, viu que daquela maneira não conseguiria proteger seus filhos-comparsas e aliados milicianos. Agora, fingiria se aliar aos “democratas” do Centrão e se afastar momentaneamente dos extremistas à direita da direita da direita.

A chegada de JB interrompeu a conversa de RM com o GR. RM estava ali para, oficialmente, coordenar a discussão do orçamento para 2021. Mas o real motivo era o de aparar arestas. Já havia se reunido com PG e agora pretendia levar JB no bico o induzindo a acreditar que morderia a isca lançada por aquele péssimo pescador. Sua intenção era manipulá-lo até ter condições de retirá-lo do poder. Em último caso, o deixaria o tempo suficiente que se desgastasse tanto que não conseguiria se eleger nem como deputado. JB era tão obtuso quanto ambicioso, o que o tornava o pato ideal. Precisava tomar cuidado com as investigações do AM a respeito de notícias fraudulentas, denunciações caluniosas, ameaças ao STF e a seus membros, que poderiam chegar ao JB, precipitando a sua saída antes do final do ano. A sua preocupação maior, no entanto, era com relação à investigação da rede de fakenews criada para eleger a chapa JB/HM. Todos sabiam que isso tinha sido fundamental para a eleição do Bolsa. Ele não desconhecia que o achavam, de certo modo, inexperiente e sem os atributos ardilosos de EC, mestre dos mestres. Porém, com esse seu jeito de menino desajeitado, conseguiu chegar à presidência da Câmara. O céu era o limite.

Gordinho! E com o PG, fez as pazes? — RM engoliu em seco. Tomou um suco de laranja. Ele desprezava aquele desgraçado petulante e enganador. Um jogador do mercado financeiro que agora, como ministro, estava especulando diretamente no centro do poder. Mas fazia parte do jogo se mostrarem mais próximos. Uma cartada para JB acreditar que estava dominando o jogo.

— E aí, Bolsa! Que jogada de mestre a de sábado com o DT e DA. Agora, você está entendendo como a banda toca.

— Eu sempre soube, mas sabe como é que é… Sou das armas. Meu negócio é matar. Esse negócio de negociar não é comigo. Mas vou fazer o possível para controlar a situação como vocês querem.

— Você só tem a ganhar, Bolsa!

Todos ali estavam tentando mostrar intimidade, ao mesmo tempo que mentiam. JB fingia que pescava. RM, que jogava cartas. Sendo em lago ou mesa de pôquer, aquele café da manhã prometia ser indigesto. Mas muito menos do que os cafés da manhã dos brasileiros nos últimos dois anos e dos próximos que se seguiriam até o futuro incerto. O pescador amador se sentia inquieto em ter que lidar com negociações políticas. Surgia no horizonte a possibilidade de brigar com uma perigosa baleia amestrada no futuro. Teria que evitar isso para impor seu projeto de destruição dos atuais paradigmas para a construção da nova ordem com ditames da antiquíssima ordem, que não contemplava a observância de direitos sociais e sequer preconizava contestação às elites. Seria instaurada com a ajuda do cardume dos cidadãos médios — eternos lambe-botas do Poder.

Filhos Da Tempestade

O Cristão e a Filha de Iansã
se encontraram em repartição pública.
Em comum, contas atrasadas,
vidas rasuradas,
documentos sem rubrica…
Na sala de espera,
sentados lado a lado,
confidenciaram reclamações –
“maldito governo”,
“febre terçã”,
“longo inverno”…
Sentiram mútua simpatia,
revelaram planos para o futuro,
fizeram confidências,
trocaram telefones…

Tiveram um segundo,
um terceiro,
um quarto,
vários quartos
em encontros…
Sempre furtivos…
Sempre breves…
Segundos era quanto parecia durar
o tempo que dispunham…
A paixão uniu os dois corpos,
acima das crenças
e das certezas…
Quando se confessaram amantes,
intensificaram a fé
em Jesus e em Olurum.
Ela, em devoção pelo bem querer.
Ele, em penitência pelo amor proibido.
A Filha de Iansã nunca dançou tanto no terreiro.
No templo,
o Cristão nunca cantou tão intensamente os hinos devocionais.
Acostumado aos rompantes da índole tempestuosa,
o marido dela aprovou o seu duradouro bom humor.
Acostumada à temperança sexual,
a mulher dele agradeceu ao Senhor
o fogo redivivo de início de casamento.

Até que, um dia, discutiram pesadamente…
Não foi por causa das entidades da Natureza
ou pelo mandamento contumaz de algum versículo da Bíblia.
Mas ciúme e sensação de incompletude,
por não se pertencerem completamente…
Em troca de mensagens,
ele passou por cima de seu habitual comedimento
e se declarou perdidamente apaixonado..
Ela, ao querer puni-lo,
agiu com a frieza de vento junino.
Disse, simplesmente: “Obrigada!”…
Com o peito dilacerado,
ele respondeu: “Por nada! Adeus!”…
Os corações empedernidos,
talvez por vontade de Deus,
não voltaram a se encontrar…
A Filha de Iansã não voltou ao terreiro…
O Cristão abandonou o templo…

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Em 2020, Eu…

… sobrevivi. Até agora… Com o advento de Março, chegou a Pandemia de Covid-19 no Brasil. E ela mudou tudo. As relações interpessoais sofreram o abalo que para alguns povos não significa tanto, mas para os brasileiros resultou em uma mudança brusca de comportamento — como assim, não podemos abraçar? Como assim, não podemos beijar? Como assim, não podemos respirar o mesmo ar? Como assim, não podemos trabalhar? Restou ficarmos em casa, reclusos, montando verdadeiras estratégias de guerra para simplesmente circularmos pelas ruas para irmos até uma padaria, farmácia ou supermercado. Como criminosos do colarinho branco, fomos condenados a cumprir a pena de prisão domiciliar. E como alguns bandidos, vários de nós fugiram de suas celas para enfrentar o vírus, por necessidade ou negação. E, chegamos ao final do ano, devendo anos de condenação.

Flor de maracujá

5 de Fevereiro, quarta-feira
Emoção na Casa Ortega: respondendo com beleza à atenção e ao carinho dispensados ao maracujazeiro, ele começou a florescer. Quem vive na cidade, costuma perder os pequenos milagres que a Natureza nos proporciona. As emoções são compradas e os sentimentos adquiridos como se fossem utensílios. Mas são escolhas, muitas vezes feitas por outras pessoas ou por ideias generalizantes de como a vida deva ser levada. Nós escolhemos ter quintal. As nossas plantas agradecem e os pássaros, também.

Olhar em vagas…

8 de Abril, quarta-feira
Decretado o isolamento, eu estava na Praia Grande, realizando algumas tarefas na casa da família. Fiquei isolado por quase um mês. Sem trabalho, já que os eventos do ano todo estavam suspensos até que tudo voltasse ao normal — que imaginávamos ser dali a pouco. Munido de máscara, comecei a circular de bicicleta pelas vias vazias da cidade para que pudesse me manter ativo. Ajudava o fato de os dias serem sequencialmente nublados, úmidos e frios. Escrevi, como legenda dessa imagem: “Fiquei recluso dentro de mim, mas o meu olhar vagueou por aí…”.

Parte da Turma do Curso de Educação Física da UNIP – Marquês, em 2010 — Clube Speria

16 de Julho, quinta-feira
Em boa parte do ano, eu passei a relembrar etapas da minha vida pregressa. Ressalto isso porque relembrar o futuro, também faço — ao viver o presente. Silogismos duvidosos à parte, houve etapas que cumpri com o prazer de um menino que descobre o novo quando este veterano se tornou calouro, em 2009, no curso de Educação Física. Passei quatro anos aprendendo bastante sobre o corpo em movimento e sobre convivência. Mais maduro, diferente dos meus 20 anos, quando fiz História, na USP, época que passei por várias crises existenciais, aos 50 anos levei adiante o curso ainda que a diferença de gerações pudesse trazer algum entrechoque o que, sinceramente, não senti acontecer. Pelas redes sociais mantenho contato com muitos deles, acompanhando os vários caminhos que tomaram, torço para que alcancem os seus objetivos.

Encostado, dolorido e, ainda assim, fazendo pose…

22 de agosto, sexta-feira
Quem disse que lavar roupa não é perigoso? Ontem, quinta-feira, lavei roupa e a água que resultou da lavagem utilizei para lavar o chão da varanda do @boilerlaje, escadas e churrasqueira. Após terminar uma parte, lá estou eu de chinelão, distraído, a descer, quando um passo em falso na escada escorregadia e, de uma queda, fui ao chão, quatro metros abaixo, batendo costas, pernas e braços até o final dos degraus. Não bati a cabeça porque o judô praticado na infância sempre me ajudou a protegê-la em todas as muitas quedas desde então. Acudiu-me uma cavalheira, a @liviaortega e um cavalheiro @pablittz. Pensei que houvesse apenas escoriações superficiais, mas à noite não consegui dormir direito devido às dores que surgiram depois. Hoje, estou melhor. Mas tive que reviver na boca da @tanort, da @romyzeta e da @ingriidortega, além da Lívia, poucas e boas. Acabei por me lembrar da minha mãe, Dona Madalena, que ralhava comigo todas as vezes que eu aparecia “quebrado” em casa por causa de carrinho de rolimã, patins ou futebol em campo de várzea ou quadra. Quase cheguei a confundir a dor aguda e passageira do corpo com a dor tênue e permanente da saudade. Se chorasse, talvez fosse mais pela última… no mais, gemi bastante.

O ovo azul…

29 de Outubro, quinta-feira
Produção de ovos recolhida hoje pela manhã, botados pelas galinhas garnisés Irmãs KardashiansKim, Kendall e Kylie — nomes dados por minhas filhas. Sim, um dos ovos é azulado. Provavelmente da Kim, que é misturada com galinha comum. Instalamos um galinheiro em nosso quintal. Além das fêmeas, veio também o galinho Elton John. Coincidentemente ou não, o galinheiro fica no final do Yellow Brick Road, que dá nome ao jardim. Esse ovo azul me fez lembrar meu avô Humberto, pai do meu pai, que disse ter trazido ao Brasil as galinhas que botam ovos azuis. Ele me relatou esse fato à época em que passou seu tempo final de vida conosco. Um pouco antes, uma a uma das três mulheres mais visíveis de sua vida haviam falecido – sua última companheira, a mãe do meu pai e a madrasta que ajudou a criar seu filho. Já enfraquecido, cuidei dele, ajudando a lhe dar banho, caminhar e comer. Desde que mudamos para a periferia, para ajudar no orçamento de casa, minha mãe tornou-se granjeira. Chegou a ficar conhecida como a Dona Madalena das Galinhas. Essa tradição perdurou por anos. E, aparentemente, está retornando.

Dezembro de 2020 e sorrir está difícil…

06 de Dezembro, domingo
Eis que chegamos ao final da primeira semana do último mês do ano mais incrível do Século XXI, por enquanto. Muitos utilizam o termo “incrível” com sua conotação positiva, mas ele significa exatamente o que expressa: algo que não é crível. Não é crível que não consigamos agir da maneira correta. Não é crível que tenhamos um governo tão inepto quanto o comandado pelo miliciano que está na presidência. Não é crível que as pessoas não aceitem a Ciência para balizarem as medidas preventivas para sobreviverem a esta crise sanitária. Não é crível que não aprendamos com os erros. Aliás, não seria crível, se não fôssemos brasileiros… Somos terríveis! Em todas as suas acepções: assustadores, fastidiosos, funestos, péssimos e, principalmente, invencíveis. 

Participação de 6 On 6 de:

Lunna GuedesMariana GouveiaDarlene Regina

Pré-Conceitos*

Foto por Philip Boakye em Pexels.com

Domingo de manhã, eu estava me sentido cansado, após quatro dias de trabalho intenso, com poucas horas dormidas. Mas isso não impediria que eu fosse ao meu futebolzinho, principalmente porque era dia de pagamento da quadra. Peguei o meu ônibus e, após passar a catraca, vislumbrei um assento vazio do lado de um rapaz com os dois braços fechados de tatuagem, cabelos espetados, “piercing” na boca e portando óculos estilosos.

Antes de sentar, percebi que aquele era um banco reservado aos idosos, mulheres grávidas ou com crianças de colo e pessoas com necessidades especiais. Normalmente, eu prefiro ficar em pé, mesmo quando não se encontram pessoas nessas condições, porque evito que precise levantar quando observo que tal ou tal pessoa necessite ocupar o espaço reservado. Causa-me certo constrangimento demonstrar alguma civilidade, o que seria estranho se alguns não considerassem “ofensiva” qualquer exibição “ostensiva” de cidadania, como se o indivíduo que a praticasse talvez se considere alguém superior. É uma visão dúbia, mas que incrivelmente, existe.

Naquele dia, o meu cansaço era maior do que o respeito por meus conceitos e ocupei o lugar. Do meu lado, pude perceber que o rapaz estava atento ao surgimento de qualquer pessoa que subisse ao ônibus e que passasse a catraca. Parecia estar incomodado por ocupar aquele assento e devia estar avaliando se quem estava se aproximando seria um candidato à sua vaga. Talvez, os meus cabelos esbranquiçados o permitissem crer que eu estivesse no lugar certo, não ele. Pelo meu autoconceito, os meus 53 anos não admitiam me ver como um idoso, se bem tivesse, pelo menos, o dobro da dele e eu mesmo, na idade dele, considerasse a minha idade atual bem adiantada quando me via no futuro.

Uma mulher com uma barriga mais saliente pareceu atrair um pouco mais a sua atenção e torci intimamente que ele não a chamasse para ocupar o seu lugar, porque pela minha avaliação, aquele era apenas um caso específico de adiposidade na região abdominal. Tinha certeza de que se a moça intuísse que o motivo por ele querer ceder o assento fosse aquele, seria tudo muito constrangedor. Em priscas eras, o usual era qualquer homem ceder o seu assento à qualquer mulher. Não havia dúvidas! Quando isso começou a mudar? Creio que o processo se reverteu quando as mulheres começaram a ocupar mais e mais o seu espaço no mercado de trabalho, muitas vezes em postos anteriormente ocupados por homens. Em determinado momento, ali não estava mais o ser do chamado “sexo frágil”, mas uma concorrente na luta pela vida. Por que ele deveria ceder o seu lugar a ela?

Em outros tempos, eu consideraria aquele rapaz alguém que não prestaria atenção aos códigos corretos de comportamento social, por sua aparência alternativa, mas tendo filhas que se tatuam, eventualmente colocam “piercings” e se vestem ocasionalmente com um estilo incomum, sendo pessoas conscientes de seus deveres, percebi que não levaria o meu convencionalismo à questão da aparência, principalmente tendo em vista o meu próprio passado simpático ao estilo “riponga”.

Vivemos, por uma questão de comodidade, pré-julgando as pessoas ao nosso redor. O nosso cérebro, para não se cansar demais, especifica padrões com os quais avaliamos tudo e todos. No entanto, em tempos do politicamente correto, cada vez mais tentamos não pré-determinarmos conceitos. O que seria muito bom, se em muitas ocasiões, os pré-conceitos não fossem eficientes para nos safarmos de situações potencialmente perigosas.

Eu, pessoalmente, dou muito valor à intuição. Se por acaso intuo que, pelos padrões apresentados, algo é o que é e não a respeito, posso estar cometendo erros graves. Diante de tantas equações, apenas digo que sermos o que somos pode ser mal avaliado e a mentira exposta e auto imposta, pode findar por adotarmos normas de comportamento que causam mais confusão em nossos sentidos e sentimentos do que possam nos ajudar a vivermos saudavelmente.

*Texto de 2014

Locomotiva

Juntos, em 2014

Na foto acima, eu e meu irmão estávamos em frente a uma locomotiva abandonada, movida à carvão ou lenha, um exemplar de “maria-fumaça”. Ela estava junto à outras, da mesma série, estacionadas em uma linha desativada, no terreno de uma fábrica de cosméticos. Essas locomotivas, provavelmente, fizeram parte da nossa história pessoal, pois foram utilizadas pela Portlant Perus, fábrica de cimento na qual os meus tios maternos, vindos da Espanha, trabalharam nos anos 30 e 40 do século passado. Nada mais oportuno, portanto, que seja mostrado o quanto os destinos se imbricam, no presente, no passado e no futuro. Hoje, meu irmão, sócio e companheiro de viagem completa 56 de anos de vida.

Quando subimos em um trem no meio do caminho, pelo percurso várias pessoas já subiram e desceram. Várias outras subirão e descerão depois que embarcarmos. Depois de nós mesmos desembarcarmos, o processo se perpetuará. Poucas vezes paramos para pensar sobre o porquê daquelas pessoas estarem embarcadas conosco no mesmo espaço e no mesmo tempo, percurso e trem. E porque há pessoas que nascem próximas, enquanto outras se aproximam mais do que outras, até familiares; porque começamos uma amizade; desenvolvemos os mesmos interesses; nos tornamos irmãos em ideais; sócios em empreendimentos; casados com os mesmos objetivos. Alguns poderão colocar o acaso como prerrogativa, outros, como eu, como sorte desejada. Cumpre aprendermos com as chances que essa viagem nos dá para sermos melhores, para quando embarcarmos em outro percurso, em outro trem, possamos estar mais confortáveis com as nossas roupas novas e podermos tornar a viagem de todos mais agradável. Até que o momento em que não precisaremos mais viajar, a não ser por vontade própria, porque já teremos chegado ao nosso âmago. Humberto, comemoramos, neste dia, seu embarque no mesmo trem que eu. Sou feliz por estar consigo nesta viagem, por ser meu irmão, meu amigo, meu sócio. Estamos juntos!

Juntos, em 2020