A Gruta*

A gruta da Cama de Anchieta

Eu estou passando um tempo de folga no litoral paulista. Dias prazerosos, pelo simples fato de, ao estar junto ao mar e ao sol, sinto fazer parte de algo maior. A luz me atravessa, a brisa me deixa recados naturais e me vejo com os horizontes ampliados, física e mentalmente.

Em visita a casa do meu amigo Coimbra, um talentoso DJ e que, nas horas vagas, é guia turístico particular das belezas de Itanhaém, fui visitar um recanto que me deixou com expectativas infantis antes de me aproximar. Não via a hora de chegar ao local. Escondi bem a minha animação, mas não pude deixar de demonstrar a minha decepção quando lá cheguei.

Estávamos no final da tarde e o movimento maior havia diminuído. Chegamos a um largo próximo, onde deixamos o carro e seguimos por uma passarela de madeira longa que se estende por sobre pedras junto ao mar. A cada dez metros, havia portais contando trechos da história daquele espanhol, jesuíta como Francisco, o atual Papa. O seu nome — José de Anchieta.

Vivo na cidade fundada por ele e seu grupo de catequizadores, comandada oficialmente pelo português Manuel da Nóbrega, que se embrenhou nas matas, serra acima, até alcançar o alto de um planalto e ali construir uma choupana que daria origem a uma igreja e a um colégio — um local de orações e de estudos — uma aparente contradição para quem crê que fé e conhecimento sejam coisas irreconciliáveis. Isso ocorreu há 460 anos, onde está São Paulo dos Campos de Piratininga, a serem completados daqui a alguns dias, em 25 de Janeiro.  

Voltando ao local em questão, pela passarela encontrei uma senhorinha de seus 80 anos ou mais, que mal conseguia se locomover por suas próprias pernas. Era ajudada por outra mulher que talvez fosse sua neta. Ela dava cinco passos e parava. Teimosamente, justificava para quem a acompanhava que conseguiria chegar até a gruta. Apenas precisava descansar um pouco a cada instante. Passei por ela e quando me aproximei, senti ter quase a mesma sensação de Jesus (guardada as devidas proporções) ao presenciar os vendilhões no santuário. Apenas, não saí espancando todos que estavam “conspurcando o templo” porque entendi que eles não sabiam o que faziam.

Naquele local, um dia, esteve José de Anchieta e naquela pedra em forma de cama, ele se deitou para dormir e diminuir as terríveis dores nas costas que o acometia. Grupos de pessoas entravam e saíam debaixo da gruta. Algumas se deitavam sobre a “cama”, com as faces risonhas e acenos de mãos. Alguns vão me achar exagerado ou até ridículo por exprimir um sentimento de objeção tão inadequado aos nossos tempos. Talvez até conjecturem que aquelas pessoas faziam uma alegre interação entre o passado e o presente, uma homenagem àquele incrível personagem histórico. Não foi o que senti…

O que eu senti foi que ali se praticava um simples ato de exposição midiática — poses para fotos — sacadas em um lugar o qual não alcançavam a real dimensão na perspectiva histórica brasileira. Creio mesmo que mal soubessem onde estavam e o que representava aquele lugar. Apenas, ouviram dizer que… Antes fosse uma postura de aversão a História dos invasores de Pindorama e o massacre ou a destruição de costumes dos habitantes naturais.

Para corroborar a minha visão, a gruta apresentava pichações horrendas, garranchos pintados como se fossem assinaturas de quem acreditava que apenas escrever os seus nomes nas pedras bastava para se colocarem em um lugar na História. Afinal, quem é aquele João que aparece mais nitidamente mencionado? Só ele sabe, talvez a imaginar que fosse seu prémio particular entre tantos outros Joãos.

Eu estava sem o meu celular e pedi para o Coimbra tirar uma foto da gruta para irmos embora. Não sem antes conjecturar que a ignorância é, muitas vezes, uma benção. Mais tarde, o meu acompanhante repetiu a mesma frase por ocasião de outro fato. Ao voltar, passei pela velha senhora, que ainda se arrastava até onde estive. Não duvido que tenha chegado bem perto da Cama de Pedra de Anchieta, mas não acredito que as dores na perna a tenham permitido entrar na cobertura natural. Porventura, outra dor tenha se juntado às que já sentia…

*Texto de 2014

Censurado — Scenarium

Sempre que me deparo com um tema que diz respeito à convivência social, faço um exercício de viagem no tempo e tento regressar aos primeiros grupamentos humanos. Sei que é algo quase impossível. Mas eu tento fazer uso de minha sensibilidade e conhecimento para alcançá-los em nosso percurso de centenas de […]

Censurado — Scenarium

Locomotiva

Juntos, em 2014

Na foto acima, eu e meu irmão estávamos em frente a uma locomotiva abandonada, movida à carvão ou lenha, um exemplar de “maria-fumaça”. Ela estava junto à outras, da mesma série, estacionadas em uma linha desativada, no terreno de uma fábrica de cosméticos. Essas locomotivas, provavelmente, fizeram parte da nossa história pessoal, pois foram utilizadas pela Portlant Perus, fábrica de cimento na qual os meus tios maternos, vindos da Espanha, trabalharam nos anos 30 e 40 do século passado. Nada mais oportuno, portanto, que seja mostrado o quanto os destinos se imbricam, no presente, no passado e no futuro. Hoje, meu irmão, sócio e companheiro de viagem completa 56 de anos de vida.

Quando subimos em um trem no meio do caminho, pelo percurso várias pessoas já subiram e desceram. Várias outras subirão e descerão depois que embarcarmos. Depois de nós mesmos desembarcarmos, o processo se perpetuará. Poucas vezes paramos para pensar sobre o porquê daquelas pessoas estarem embarcadas conosco no mesmo espaço e no mesmo tempo, percurso e trem. E porque há pessoas que nascem próximas, enquanto outras se aproximam mais do que outras, até familiares; porque começamos uma amizade; desenvolvemos os mesmos interesses; nos tornamos irmãos em ideais; sócios em empreendimentos; casados com os mesmos objetivos. Alguns poderão colocar o acaso como prerrogativa, outros, como eu, como sorte desejada. Cumpre aprendermos com as chances que essa viagem nos dá para sermos melhores, para quando embarcarmos em outro percurso, em outro trem, possamos estar mais confortáveis com as nossas roupas novas e podermos tornar a viagem de todos mais agradável. Até que o momento em que não precisaremos mais viajar, a não ser por vontade própria, porque já teremos chegado ao nosso âmago. Humberto, comemoramos, neste dia, seu embarque no mesmo trem que eu. Sou feliz por estar consigo nesta viagem, por ser meu irmão, meu amigo, meu sócio. Estamos juntos!

Juntos, em 2020

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meu Canto

Eu não pertenço apenas a um canto. Ainda que minha casa seja um recanto onde gosto de estar. Com certeza, é o meu favorito. De cá, viajo para tantos lugares, sem sair do lugar. Dessa maneira, o meu canto é o mundo todo e além… para dentro e para fora. O meu canto é circular.

Dorô já passou, mas nunca passará, enquanto quem conviveu com ela viver. Reservo sempre um canto do meu pensamento para esse ser que surgiu misteriosamente em nossas vidas, filha de outra querida, a Lua, sua única gestação. Um mistério, já que nunca a vimos ultrapassar o portão de nossa casa. Eu trouxe a Dorô de volta de seu canto eterno para representar todas as outras criaturas de quatro patas que fazem do meu canto um lugar melhor para se viver.

Continuando na mesma toada, trago apenas um dos exemplares dos vários tipos de plantas que temos em nosso canto — a babosa ou aloe vera. Estas estão envasadas, como muitas. Outras, se espalham no chão, por outros cantos. Cuidar do jardim foi um prazer redescoberto de quando era mais moço. Franciscano e com mais espaço, eu deixava que as plantas expressassem livremente a seus gostos ou dos pássaros, que são responsáveis por parte do processo reprodutor desses seres especiais.

O meu canto fica ao centro, também. A região central de Sampa é um lugar que não me canso de visitar. Sempre que posso, observo as construções e juro que consigo ver a História circulando por cada via. Pareço “relembrar” épocas que não vivi. Tento conhecer os contos de cada canto da vida da cidade feita por mulheres e homens de todas as origens. Outras histórias, eu recrio. O meu coração fica no Centrão.

Depois de vários meses, voltei a fazer um evento. Respeito o poder da Pandemia. Não a nego. Mas depois de vários adiamentos, os noivos decidiram fazer o encontro onde festejariam seu enlace. Fomos pagos antes do surgimento da Covid-19 e apenas estávamos cumprindo o compromisso profissional acertado. Tanto o local quanto nós mesmos, equipe técnica e banda, seguimos todos os protocolos de segurança (possíveis). O meu canto também é onde estiver fazendo o que eu amo — meu trabalho. Com cantos.

Na década dos vinte anos, eu flertei com a possibilidade de entrar para Igreja Católica, apesar de não ser católico, ainda que meu pensamento fosse e ainda é intensamente influenciado pelo cristianismo. Haja vista as notícias que pululam por aí, muitos membros da Igreja também não são sequer cristãos. Ao me deparar com essa pequena igreja, me lembrei que o meu objetivo era, como frei, trabalhar para a comunidade e talvez não fosse de todo mal que me fixasse no interior do País, onde já pensei em fazer o meu canto, se não fosse terrivelmente paulistano. Percebam que neste curto parágrafo amealhei diversas contradições. Como no canto do Caetano: sou o avesso do avesso do avesso.

Entre as várias possibilidades de se estar, uma é permanente — a Periferia onde vivo. Completou cinquenta anos em 2019, viver aqui, na Vila Nova CachoeirinhaZN. Nasci no Centro, migramos, a família e eu, para a Zona Leste (Penha) e viemos para cá viver em uma casa bem simples, sem muitas das condições básicas, como esgoto, por exemplo. Para a minha mãe, foi um sofrimento, mas para mim, ainda que tenha passado por situações difíceis, sinto que fui feliz. Um dos meus cantos favoritos da casa é a varanda, ponto acima de todos, onde ainda posso vislumbrar o pôr do Sol, ao qual dedico vários dos meus cantos em homenagem ao seu calor e brilho.

Participam: Darlene Regina e Lunna Guedes

Nudez

Nudez
O semideus Hércules
 
No início dos tempos, principalmente em lugares de temperaturas mais baixas, os seres humanos instituíram o hábito protetivo de se vestirem. No decorrer do desenvolvimento das civilizações, mesmo em países mais quentes, essa proteção – a roupa – passou a intermediar a relação de nosso corpo com o meio. A moda tornou-se a linguagem sofisticada desse processo e estabeleceu um critério que, para muitos, veio a definir uma maneira de ser. Para tantos, “somos” o que vestimos.
 
 
Outra roupa que vestimos é a nossa própria pele. O nosso corpo carrega tantas informações sobre as nossas origens – fisionomia, forma, cor, idade – que, dependendo do uso que fazemos dele, passamos informações e conceitos claros e/ou subjetivos que queremos dar aos outros, quando podemos escolher. Se não, fugimos às comparações, porque ficamos à margem. Dessa maneira, preconceituosamente, nos conectamos a dados que “definem” o ser humano que se põe a nossa frente ou caminha do nosso lado.
 
 
Uma terceira vestimenta que carregamos é a cultura. Não falo de erudição, mas de expressão coletiva e de participação individual nesse caldo de saber(-se). Imagens, palavras, movimentos e falas nos mostram… e nos escondem. O jogo que se desenvolve entre nós todos, entremeado pela expressão física, a incluir a escrita, ilumina ou joga sombras sobre a compreensão correta do que, finalmente, somos ou queremos mostrar quem somos.
 
 
Apenas ao nos desnudarmos de tantos trajes poderíamos ser vistos realmente como somos… se é que desejemos que assim seja. Ao vestirmos tantas indumentárias, nos apresentamos como produtos de “histórias” emprestadas, a instituir a nossa própria história. Nessa barafunda de informações, é comum não nos identificarmos plenamente conosco. Tanto quanto seja comum mentirmos a nossa real identidade urbi et orbi, mentimos quem somos para nós mesmos.
 
 
Tivéssemos a visão total de nós mesmos e dos outros seres humanos, talvez não conseguíssemos sobreviver nus em pelo. Depois de desbastarmos todas as nossas camadas, feito uma cebola, talvez não restasse a mínima consistência ou ao menos o odor ou o sabor… Talvez nos restasse somente as lágrimas a preencher o oco vazio…