Mulheres Que Esperam

praça de alimentação de um shopping
famílias homens mulheres crianças
cães vez ou outra ladram
os sinos de avisos repercutem
sonoros agudos
pessoas falam alto
pensativos um ou outro dos presentes
permanece mudo ausente
do presente
muitas mulheres estão sós
esperam
olham pelo celular possíveis mensagens
a hora que passa nada pediram
intimamente pedem talvez que não se atrasem
ou mesmo que isso ocorra que venham
eu me intrometo em suas histórias
proponho alternativas viáveis
e poucas escapam de uma constante
esperam homens compromissados com outras
com deveres familiares
tentam fugir de suas prisões
uniões
que se esgarçaram
com o tempo buscam viver
novas emoções encontros com o furor juvenil
já envelhecidos se sentem remoçados
e quem os espera sabe disso
algumas conhecem as companheiras
possíveis amigas
mas se sentem apaixonadas não assumem
que sejam invejosas
mas estar com o objeto de desejo
as fazem se sentir poderosas
mas aqueles a quem esperam
são simplesmente homens
num mundo em que seu poder se desmorona
se comportam como seres sem honra
ou apenas escapar da rotina da lida
sentirem que estão vivendo novas sensações na vida
talvez nem gostam de quem venham a encontrar
porém querem se enganar
que ainda têm o poder
de brincar com os sentimento das mulheres
viver a emoção da conquista
quando sempre serão elas que se permitem
também brincam com a capacidade de seduzir
buscam conquistar novas possessões
num mundo utilitarista apenas
visitar outros corpos como turistas
não querem que eles se apaixonem
que fiquem pegajosos
grudentos ciumentos brincam com fogo
transformam ambos em um jogo
que se nisso ficassem não seria de todo mal
gozo prazeroso acima das leis patrimoniais
abaixo das obrigações sociais
para os outros mentirosos
pessoas de vida dupla
para si mesmos mulheres e homens portentosos
sem culpa…



Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com

06 / 06 / 2026 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Seis Livros E Uma Xícara de Chá (Camomila)

Decidi reler livros de minha autoria, que são cinco e o sexto foi Alice — Uma Voz Nas Pedras — de Lunna Guedes, que me impressionou por ser tão pungente quanto radical ao adentrar na mente de quem sofreu abuso por ser “apenas uma mulher”. Sobre um dos capítulos, escrevi um texto, o chamando de “O Capítulo Perfeito“.

No último parágrafo do meu texto escrevi:
“Ao encontrar a autora hoje, a parabenizei por criar-reproduzir uma Alice que poderia ser tantas. Fazer uma resenha de um capítulo apenas parece estranho, mas esse que termina na página 93 me surgiu perfeito. Resume uma vida inteira em suas linhas. Proclama o desamor e faz inspirar amor, cuidado, atenção aos pormenores e ao sentido de ser-estar-ir-partir. Continuarei com Alice em mãos e, agora, no coração. Vou cuidar dela com todo o desvelo, sabendo que vivi em sua casa antes que soubesse que lhe pertencia”.

Em “Confissões” pretendi repassar a minha vida tentando ser o mais sincero e franco possível até as raias da auto preservação. Revela muito da minha relação com o Sr. Ortega, meu pai. Ainda voltarei a ele em outra oportunidade em forma de livro. Mas além dele, a minha família participa como dados de relação pessoal. Percebi que eu os usei para falar mais de mim do que sobre ela, incluindo a personagem central do nosso grupo, a Romy, minha primogênita que, devido à sua condição de saúde, foi moldando o nosso funcionamento como família. Mas ainda assim é um livro do qual gosto, porque consegui estabelecer uma escrita fluída.

Sobre o “RUA 2“, acabei por receber através de uma amiga o comentário de um rapaz para quem ela o emprestou:
“Nossa! É muito interessante a forma como ele vagueia com os contos sobre a rua em que ele morava. Ele traz as cenas cotidianas, suas gentes, os lugares… E cada conto ou capítulo traz o número da casa, achei isso maravilhoso. Cada personagem tem uma história… e os vários fragmentos da vida dele e da trajetória que ele traz. Tinha algumas palavras que eu não conhecia e aí pesquisei o significado o que me auxiliou até em enriquecer o meu vocabulário Um livro muito interessante e bonito!”

Eu comecei a publicar o que eu escrevia nas redes sociais, principalmente no Facebook. Obtive uma boa repercussão e as respostas me deixaram animado a publicar mais com observações do cotidiano das pessoas ao meu redor, meu meio social e sobre situações de grande visibilidade. Mas as histórias reais eram a minha maior motivação para jogar luzes sobre detalhes às vezes não notados, mas que sinalizam as sutilezas que tornam a vida interessante.

Senzala” é uma novela que me desafiou a ir mais profundamente na obscura alma humana. Criei situações em que o ser humano usa o outro por pura vaidade. O poder é baseado no desejo básico, quase animal, de satisfação sexual. Quando a personagem central se sente traída em sua vaidade, responde com o poder sobre a vida, a suprimindo.

Prestes a ter uma séria crise de ansiedade, me desloquei para o Litoral Norte e passei quatro Luas junto ao Mar. Ao mesmo tempo escrevi este livro que me trouxe alívio e, por ele, tenho imenso carinho. São relatos que mostram o quanto a Pandemia influenciou em nosso cotidiano, que coincidiu com uma espécie de abertura da Caixa de Pandora ou diria da tampa do esgoto da expressão mais canhestra de boa parte do povo brasileiro. A decepção que senti ajudou a tornar meu equilíbrio psicológico mais precário. No entanto, após essa estadia em Ubatuba, voltei renovado, trazendo o seu Mar cálido dentro de mim.
Salvei-me…

Post scriptum imagético:

Todas as publicações são da Scenarium Livros Artesanais

Participam: Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Silvana Lopes

BEDA / Instantâneos Paulistanos*

Em *2011 escrevi: “Castelinho da Rua Apa, ponto tenebroso da cidade, não só pela história bastante sombria do lugar, onde ocorreu um duplo assassinato — mãe e dois filhos advogados. Mesmo antes da edificação do prédio, na área aconteceram episódios estranhos. Atualmente, é símbolo do descaso com que foi tratada esta região de São Paulo“. Revisando o que foi dito na última sentença, o edifício foi restaurado e desde 1996, a ONG Clube das Mães do Brasil tem a concessão para utilização do local.

Amizade. Enquanto o cão descansa com a amiga no colchão, o terceiro do grupo espera que o tempo passe… *2014

Na academia, estava entretido nos exercícios de supino. Entre um intervalo e outro, você, vestida de amarelo, chamou a minha atenção. Entre tanto movimento, o seu corpo posava lindamente para uma foto roubada. *2011

Vista da Praça Princesa Isabel, onde vemos Duque de Caxias estacionado com o seu cavalo e seu braço em riste com uma espada a mão… para sempre. À esquerda, abaixo, um catador de papel, figura onipresente na região. Mais ao longe, no horizonte, Cristo, no topo do prédio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, observa o domingo na Cracolândia. Bem ao fundo, temos o perfil da Serra da Cantareira.*2009

Participante de BEDABlog Every Day August

Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Bob F / Denise Gals

BEDA / Vila Madalena

Citei sobre “Vila Madalena”, um conto em capítulos, para uma interlocutora. Ela perguntou sobre a idade de uma das personagens, uma cantora. Respondi que seria em torno dos 40, 43 anos. Depois, percebi que errara a idade, já que deslocaria para dez anos após a linha temporal plausível – dentro das circunstâncias em que a estava colocando – bem como aos outros atores da ação.

Na verdade, essa empreitada começou de modo “errado” como costuma acontecer comigo na maioria das vezes. A personagem principal, a que descreve o desenvolvimento da história, já tinha em mente – um sujeito em torno dos 50 anos, cronista que veicula seus textos em jornais e revistas. O mote giraria em torno de algumas questões que gostaria de desenvolver. Eventualmente, descaminhos surgiram na sequência do texto que seria único. Após terminá-lo, não coloquei o queria e percebi que aquela entrada poderia ter sequências e consequências.

Acabou que passei a conjecturar escrever de modo que essas partes pareciam capítulos. Quer dizer, em determinado momento, tudo começou a “desandar”. Aos poucos, foram pousando personagens que sequer havia imaginado – Carlos, Ella, Matheus, Fábia, Célia, Dani, Marinho (que ainda não estreou) – bem como Raul (já citado), que terá a sua chance aparecer.

Esse método de escrita, em que sequer monto um quadro em que as personagens apresentam determinadas características e que eu trabalharia para colocá-las em “confronto” não é o habitual. Infelizmente, talvez porque possa ter perdido várias chances de extrair melhores histórias desses encontros e desencontros.

A depender da necessidade de trabalhar melhor o cronograma dos acontecimentos em “Vila Madalena” poderei vir a adotá-lo daqui por diante. E enquadrá-las. Ou não. Gosto da ideia, totalmente baseada em nenhuma hipótese confiável, que essas “pessoas” se apresentam a mim vindas do Limbo. E dar-lhes vida e fala é a minha precária missão.

Participam: Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lucas Armelim / Alê Helga / Claudia Leonardi / Dose de Poesia

Nós

ao revê-la tanto tempo passado
imensas distâncias espaciais
sem respirarmos
os mesmos ares e hálitos
o fogo quase esquecido
em ardência reacendido
as peles a queimarem próximas
pelo olhar
corpos que seguiram em devaneio
para o futuro presente apaixonado
o reencontro que confirmou
que somos viciados em nós
são liames amarras nós
que nos aprisionam em tramas
a vida como ela é dramas
beijos que prescindem da voz
abraços que nos invertem nos reinventam
toques que contam existências inteiras
histórias longas demais tanto quanto curtas são
entradas e saídas que se confundem
dimensões que se perpetuam
entremeadas umas às outras
energia consumida e realimentada
em átimos de segundo
recriação de universos paralelos
feito cristais estilhaçados belos
retemperados desesperados
porque nunca descansa o vício visgo
que nos matará feito moscas
presas na armadilha luminosa do amor.

Foto por cottonbro em Pexels.com