Ultimatum

Há cem anos, Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, escreveu e Maria Bethânia lindamente declamou… Fiquei emocionado, pois estou a ficar sem anos para contar até que chegue o fim dos meus tempos. Os tempos se renovam em podridão de eternas e humanas doenças do espírito e sei que morrerei sem ver este País grande e justo, como um dia sonhou o menino que um dia eu fui…

As Dores Do Mundo*

DORES

Sobre o dia de hoje, 1º de março de 2019 – marcado pela morte por meningite, de Arthur Araújo Lula da Silva, neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que dividiu, acima das ideologias, as pessoas de boa das de má índole, as cordatas das insensatas. Sinto vergonha dos manipuladores de qualquer lado. O texto a seguir é de 2015*.

“Hoje, acordei parecendo sentir todas as dores do mundo –– as veras e as imaginadas, as graves e as leves, as minhas e as alheias. Passei a manhã recolhendo pelo caminho todos os vexames e as humilhações, as penas e as cenas.

Acordei sentindo a dor do homem que sai sem se despedir da mulher que ama porque ela está em outra cama; a dor de ouvir no noticiário matutino criminosos discursando em nome de cidadãos probos; a dor de caminhar até o ponto de ônibus na expectativa de embarcar no cargueiro de carnes no horário exato; a dor de ver o pai do menino especial que deseja ver o seu filho viver a vida escolar normal, enquanto outras crianças não querem acordar para ir à escola ou, muitas vezes, sequer querem acordar… nunca mais…

Hoje, acordei sentindo a dor de me ver dormindo sob a marquise, cercando a minha intimidade sonolenta por velhos guarda-chuvas, momentaneamente improvisados como paredes do meu quarto; a angústia do cão que passa o dia aguardando a volta de meu humano de estimação que saiu para trabalhar; a amargor dos familiares do homem que saiu para trabalhar para não mais voltar; o martírio do garoto tímido que esperava ver a amada passar, atrasando a sua chegada várias vezes no emprego –– que perderá; a aflição da garota que sabe que o garoto a deseja, mas não revela que aprecia o seu desejo; a inadequação do velho no Metrô que ouve pacientemente as asneiras da moça bem mais nova, a desfiar o seu corolário de dores fátuas, apenas para não se sentir só.

Hoje, acordei sentindo a dor da bela moça que tem todos os sonhos do mundo, mas que não consegue levá-los adiante porque o seu fôlego, que se escasseia, a impedirá. A dor da vida que não completa seu ciclo natural –– do avô que perde o neto, da mãe que perde o filho. Hoje, acordei sentindo que poderia abarcar todas as dores do mundo, as veras e as imaginadas de todos nós. Humano que sou, por elas morrerei um dia…”.

BEDA| Penélope

Penélope

Há dois meses, por volta das 5 horas da manhã, fui acordado pela Tânia. Disse que a Penélope estava respirando com dificuldade e sequer relutou aceitar o uso da bombinha que detestava. Acordei sem saber direito o que ela falava e respondi algo incompreensível até para mim. Mais desperto, veio à mente os compromissos que teria no decorrer do dia.

Meio contrariado por aquele imprevisto-previsto – aguardado para qualquer momento – senti-me mal pela resolução em não tornar prioridade obter a habilitação de motorista. Como a Tânia teria plantão no hospital, chamei o meu irmão para nos levar ao veterinário. Acostumados a dormir tarde, é penoso para nós levantarmos àquele horário. Principalmente, para o Humberto.

Paciente, ele veio ao nosso encontro e nos levou até Santana. Chegamos às 7 horas e a recepção do hospital veterinário já estava lotada. Pessoas, cães e gatos de todas as raças (não percebi outras espécies), ocupavam os quadrantes lado a lado, a maior parte com os olhares assustados – animais e humanos. Falei com o rapaz da recepção e citei o caso da Penélope, o declarando como emergência.

A dificuldade respiratória era audível para todos e logo ela foi encaminhada para uma o corredor interno, antes das salas de procedimentos. Eu a coloquei na maca. Foi trazido um tanque de oxigênio, com uma cânula na ponta. Eu deveria ficar segurando o apetrecho em direção ao focinho da amiga até sermos atendidos.

Enquanto isso, pude acompanhar o vai e vem de enfermeiros, médicos veterinários e humanos com os seus bichos, bichões e bichinhos – de chihuahuas a São Bernardos, de siameses à angorás.  Todos, independentemente dos seus tamanhos, ofereciam toda atenção amorosa possível que alguém pode oferecer a “alguém”. Naquela circunstância e momento, muito mais frágeis e entregues que o normal. Se pudesse adivinhar, diria que muitos dos bichos apenas “queriam” permanecer vivos por pena de seus cuidadores. Seus olhares eram de quem gostariam de dormir-esquecer a dor… para sempre. Inesperadamente, eu me senti melhor do que normalmente em fazer parte da espécie humana.

Sonolento, passadas quase quatro horas, finalmente perguntei quando seríamos atendidos. “Ela está na esteira…”. Imaginei que “esteira” seria fila. “Ela vem da retirada de um tumor no útero. Não seria interessante realizar ao menos uma radiografia?”… “Não! O aparelho atende animais até 15Kg, apenas. Devo ter arregalado os olhos e perguntei porque não haviam me avisado antes. A Penélope, uma labradora de 35Kg, estava acima do limite. Perguntei qual seria a previsão de atendimento. Disseram que não sabiam.

Decidi retirá-la da “esteira”. Avisei que sairia. Senti que ela estava incomodada, a respiração havia melhorado com o ar que dirigia ao seu nariz. Queria levá-la para outro lugar. Logo que saí, a Penélope esvaziou a bexiga no meio-fio da rua, antes de entrar no carro. Liguei para as clínicas que poderiam fazer a radiografia. Antes, deveria passar por triagem com um clínico, com previsão incerta de atendimento. Com a pequena melhora, voltei para casa. Quando voltasse ao hospital no dia seguinte, queria levar a radiografia feita, chegando uma ou duas horas mais cedo.

No dia seguinte, a Tânia teve a ideia de chamar uma veterinária que atende à domicílio, já conhecida. Diante dos resultados dos exames feitos, verificou-se que ela estava bem, de modo geral. Era estranho que ela estivesse respirando tão mal. Talvez fosse ansiedade. Não deixei de me surpreender por essa condição tão humana. Prescritas as medicações, progressivamente o estado geral dela melhorou. Afora a dificuldade da senhora de 14 anos em andar, ela está bem. Não admite ficar sozinha de nenhuma maneira. Começa a latir quando estamos em um cômodo distante dela. Desloca-se dolorosamente o caminho quase cego em nossa direção.

Seu apetite para comer e para viver é incrível. Sabe lidar com as suas limitações e tentamos lhe oferecer o máximo de conforto possível. Se eu gosto um pouco mais de gente, é porque ela gosta de gente. Sempre é afetuosa, indistintamente do caráter de quem dela se aproxima. Sinto que tem muito mais a me ensinar do que eu possa retribuir em atenção e amor. A cada dia, que poderá ser o último, ganha maior valor e significado a sua permanência. Até que se torne saudade – eterna presença na ausência.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

Negritude

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Eu e Penélope

Dormi tarde, ou cedo, às 5 horas da manhã. Acordei às 9 horas, pelo som de uma chamada de celular. Após a conversa, liguei o rádio para ouvir as notícias da manhã. Dentre todas as “novidades” – de alegrias e tristezas fátuas por efeito de competições esportivas regionais às prisões de ex-presidentes por corrupção, aqui e na Coréia do Sul – uma me chamou a atenção: animais discriminados pela cor, uma manifestação que tem se tornado comum aqui e em outras partes do mundo.

Uma extensão do que já existe entre seres humanos na realidade, não se trata apenas da ocorrência de preconceito. Mas também de um pós-conceito, qual seja: a cor escura não somente evita que vários cães e gatos sejam adotados por cuidadores humanos. E, ainda mais, quando adotados, são devolvidos ou abandonados porque não ficam “bem” nas fotos…

Devido à pelagem que não absorve a luz de maneira ideal em imagens postadas em redes sociais, esses “animais de estimação” não são tão estimados ou, para usar um termo mercantil, valorizados. Tentei compreender, com todas as minhas forças e entendimento, essa justificação totalmente esdrúxula, mas não consegui. Tirante a Penélope, que chegou com pedigree pelas mãos de alguém da família (e é negra), o critério que usamos para abrigar nossas meninas é de terem sido jogadas na rua.

Fiquei a imaginar se evitaria tirar fotos com a nossa Penélope, labradora que está a chegar no termo de sua vida. Com treze anos de idade, nascida em um mesmo 9 de outubro que eu, não é apenas por essa coincidência que eu a amo ou que amamos todos nós que a conhecemos desde pequena. A alminha de olhos brilhantes cresceu e agora, a velha de visão opaca, um tanto surda, recebe com avidez todas as demonstrações de carinho e toques suaves em seu corpo dolorido. Caminha e respira com dificuldade. Apesar disso, é todo amor. Um dos melhores seres que já conheci.

O fenômeno de viver somente como imagem, elevado à suprema potência em redes sociais, não creio que seja novo entre os humanos. Apenas ganhou ênfase renovada com o surgimento da Internet e a facilidade de exposição midiática. O que surge como expressão egocêntrica é acompanhada de todos os nossos modelos referenciais – concepções às quais nos referenciamos.

A fantasia de que os robôs possam se tornar um dia nossos substitutos em várias áreas da atuação humana, creio que seja ainda menos tenebrosa do que o terror à acontecer a olhos vistos, diante de nós – a de que estamos nos tornando cada vez mais “limpos” de sentimentos – robotizados e imagéticos – basicamente, hologramas vivos…

https://meusanimais.com.br/beleza-dos-caes-pretos/

 

Super Humano

Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande


O Homo Sapiens, de presumíveis trezentos mil de anos, seria resultado do desenvolvimento de outros humanoides ao longo de um milhão de anos, para alguns. Para outros, foi criado pronto, única possibilidade que explicaria a complexidade de seu “desenho inteligente” e as relações de forças imponderáveis entre o mundo físico e o imaterial. Cheguei a acreditar certa época que somos resultado de experiências extraterrestres alienígenas.  O Homem Sábio (de si) é um ser que passeia entre a claridade e a escuridão. Tanto pode ser criador de sistemas filosóficos que o elevam para além de suas limitações materiais em busca do autodomínio e libertação dos liames do mundo visível, para se chegar além, como Buda ou Jesus – supra-humanos –, quanto pode funcionar apenas para satisfazer seus instintos mais básicos, em que prepondera as emoções fáceis e os sentimentos simples. O que não impede que utilize de muita inteligência (prática), voltada para alcançar e manter poder sobre outros, como Hitler ou Stalin – esses, humanos demais. Entre uns e outros, nos colocamos, em nossa maioria.

Assim como parte dos seres humanos prejudica outros seres vivos simplesmente porque pode, outra parte prefere estabelecer laços de conexão em “frequências” mais altas por todos os níveis da existência. Eu suponho que ainda não nos matamos todos uns aos outros, apesar de parecer que estejamos por um fio, porque acredito que a energia positiva gerada é maior do que a negativa. Uma impressão inteiramente pessoal é que o poder de atos e pensamentos elevados sejam mais intensos do que os mais baixos, apesar de percebermos a atração que casos escabrosos têm sobre a população como um todo. A tristeza promovida por notas infelizes parece ganhar mais destaque que a alegria por boas novas. O ódio se anuncia mais candente do que o amor edificante. A paixão, volátil, é mais celebrada do que o afeto profundo. Rompantes sexuais são decantados como ideais para romances em contraponto à união madura. O pau duro e a buceta quente vencem a cabeça fria. Celebrado desde as castas cultas, em versos lascivos, passando pelas populações iletradas que expelem a cultura da precariedade como padrão, vemos a dominação do baixo ventre de maneira sequencial. No entanto, esse discurso também poderá ser encarado, de maneira inversa, como repressor, impeditivo da expressão do corpo livre da dominação de regras sociais, ainda que eu a considere uma outra forma de prisão.

Diante da relatividade dos posicionamentos, da falência da Filosofia como método abrangente, a aparência é de que todos estão certamente errados. A causa talvez seja encontrada na deseducação promovida a longo prazo pelos agentes governamentais e as cíclicas guerras de desinformação político-partidárias. Grupos agem para tentar assumir o poder sobre o cofre público, sob fiança de nossas escolhas. Como cortina de fumaça, grêmios promovem batalhas de cores, escolhidas para apartarem tendências, religiões, países, ideologias, pessoas – tática usual para aglutinar riqueza – medida de todas as coisas. A sensação é que guerreamos batalhas perdidas.

Como a se desvencilhar dos antigos saberes, os jovens tecnológicos criam virtualmente um mundo novo, apenas na aparência. Muitos vivem apenas a repetir os mesmos erros do mundo real, confirmados através de guerrilhas simuladas, uma realidade que já existe. Não sairemos dessas armadilhas armadas diligentemente por décadas a fio por agentes do Sistema. Gostaria de colocar um “talvez” (tão caro a mim), mas o pouco que o Xadrez me proporcionou como conhecimento estratégico e senso de antecipação, aliado ao meu olhar cada vez mais descrente da atual fase da aventura humana, me leva a crer que não viverei para ver alguma mudança significativa no futuro próximo.

Tomando a liberdade de me apropriar de uma nomenclatura parente utilizada por Nietzche (não é o caso de matá-lo), se eu fosse estabelecer, pelo meu critério de humanidade médio, um super-humano na atual escala talvez escolhesse Darth Vader. Afinal, o que muitos tentaram, ao promoverem maldades isoladas e coletivas, menores e maiores, o supremo representante do Lado Sombrio da Força superou a todos ao aniquilar civilizações inteiras, ainda que tivesse poderes especiais para salvá-las.