O Retorno*

Maria Bethânia

Uma de nossas preocupações, ao viajarmos por praticamente quatro dias inteiros, era como ficariam as “nossas meninas” Penélope, Domitila, Frida, Lolla e Bethânia esta que aparece na foto. Meu irmão ficou de alimentá-las, verificar a água e recolher os dejetos no terreno.

A Penélope, já idosa; Domitila, a que tem maior medo fogos (por que é que explodem rojões em dia que deveria ser de reflexão?); Frida, a depressiva; Lolla, a maluquinha que vive querendo dar umas voltas pelo bairro e Bethânia, que pela primeira vez ficaria tanto tempo sem a nossa presença.

Na volta, a nossa expectativa era de como seríamos recebidos. Tentava imaginar o que passaria pela cabecinha da Bethânia: “onde estão os meus pais? / “por que saíram sem mim?” / “ouvi um barulho parecido com o do carro deles chegaram?”…

Ao pararmos em frente ao portão, mal estacionamos e todas já estavam latindo-reclamando: “papai, mamãe, maninhas, abram logo o portão! Queremos lamber e morder vocês!”… Quando entramos, mal sabia em quem dar voadoras, como a confirmar as presenças físicas.

Quando a peguei no colo, teve incontinência urinária. Agora, me procura sempre para um carinho e me segue aonde vou. No momento da foto, se sentia tão relaxada que chegava a ressonar. A mútua dedicação demonstra para mim que nós, entes humanos, não somos tão ruins assim. Afinal, se esses seres, puros de coração, nos ama dessa maneira, acho que talvez mereçamos mais uma chance como espécie…

Texto de 26 de dezembro de 2018*

Censurado — Scenarium

Sempre que me deparo com um tema que diz respeito à convivência social, faço um exercício de viagem no tempo e tento regressar aos primeiros grupamentos humanos. Sei que é algo quase impossível. Mas eu tento fazer uso de minha sensibilidade e conhecimento para alcançá-los em nosso percurso de centenas de […]

Censurado — Scenarium

Amor Na Feira

Amor Na Feira

Ao vê-lo, logo demonstrou interesse. O seu corpo passou a reverberar a atração, vibrando das pontas dos pés à ponta do nariz. Ele, mais contido, permaneceu estático, mas com o olhar fixo de quem vira a expressão mais excelsa da beleza. Foi amor à primeira vista. Passado o primeiro momento do encontro, ela buscou acariciá-lo. Mais um instante, saíram correndo entre as gentes, contentes com a presença um do outro, alheios aos afazeres prosaicos dos humanos. Foram e voltaram algumas vezes, sempre atentos aos movimentos de seus amigos cuidadores. Mais um pouco, ao chamado destes, se despediram, a se olharem com as cabeças voltadas para os extremos da rua que se alongava cada vez mais. Na próxima terça, dia de feira, talvez voltem a se encontrar…

BEDA / Scenarium / Sofá Com Pimenta*

SOFÁ COM PIMENTA
Bethânia, a inocente

Qual o limite do amor? Ou, como prefiro expressar – o limite de amar? Uma das fronteiras que facilmente podemos averiguar ultrapassadas se dá visualmente em nosso sofá. Um sofá com pimenta… e rasgos.

Dado o fato que as “meninas” da casa, especialmente a Bethânia, começaram a morder os cantos do sofá, passamos a colocar pimenta para evitar que continuasse a rasgá-los. Pelo visto, Bethânia entendeu o condimento como se fosse um incentivo, porque outras partes do sofá começaram a ser devidamente abocanhados.

Quando a pegávamos no ato da transgressão, a admoestávamos, dávamos tapinhas de contrariedade, mas parece que a memória dela era menor do que a vontade imensa de deixar as suas marcas em um local tão frequentado por nós, seus humanos, com os nossos cheiros.

Afora os pelos deixados pela mais velha, Penélope, com 13 anos, que tem o privilégio de dormir dentro de casa apesar dessa tosquia involuntária, dos xixis esparsos, nós nos desdobramos para deixar a casa menos bagunçada e limpa. Em outros tempos, principalmente para a Tânia, seria motivo de desespero apenas a ideia de um pelinho no chão.

Podemos estar, aos olhos externos, menos asseados, mas creio que ganhamos em registro de fragrantes fulgurantes do amor. Por fim, apesar da precariedade e do desequilíbrio de conceitos, podemos ver crescer a apreciação que amar também é aceitação dos defeitos e das fraquezas de quem está conosco, humanos ou não.

*Desde esse texto de 2017, a degradação do sofá progrediu a ponto de não ser mais possível recuperá-lo. Não apenas esse, o maior, como os outros dois, individuais. Tivemos que comprar outros para substituí-los. Usados. Os atuais estão resistindo bravamente, muito devido ao fato de a Bethânia ter ficado mais velha e mudado o seu comportamento.

Beda Scenarium

O Preço da Saudade

O Preço da Saudade

Um dia depois de retornarmos de viagem, no Natal do ano passado, fui limpar o piso do quintal dos resíduos habituais: poeira, cocô dos peludos, seus pelos, folhas, ramos, muitas mangas – inteiras ou chupadas. Quem não viu um cão chupando manga, se sentirá decepcionado, principalmente se for um que se deixa levar por preconceitos. Talvez pinte até certa inveja ao perceber o quanto é hábil no mister de deixá-la limpa até o caroço.

Em uma das casinhas, encontrei um dos meus sapatos devidamente “customizado” por algum dos cães, dos quatro que ficaram em casa – Bambino, Domitila, Dominic e Arya. Lolla ficou com a “avó” e Bethânia foi conosco. Além do sofrimento normal de ser apegada a nós, ela fica transtornada com os fogos que insistem em espocar em uma data que deveria ser de silêncio e reflexão – utopia minha.

O par de sapatos foram deixados em uma mureta para serem limpos na cobertura onde fica a lavanderia. Encontrados, foram usados para brincar, acalmar os nervos e, eventualmente, mitigar a saudade. Por eliminação, suponho que tenha sido um dos mais novos – Arya ou Bambino – eles têm folha corrida de antecedentes. Domitila não tem esse costume e a preferência da Dominic é roer panos e cobertores. Ela chega a retirá-los todos das casinhas e roê-los com gosto até ser advertida. Porém, não é o caso de encontrarmos um “culpado”.

Todas as vezes que nos ausentamos por mais tempo, temos que montar uma rede de assistência para que os bichos sintam o menos possível a nossa ausência. Nesta oportunidade, foi o meu irmão, Humberto, que os alimentou e cuidou para que tivessem atenção e a presença humana. Na noite de Natal, pedi para que deixasse a porta da sala aberta para que se sentissem mais abrigados e confortáveis. Bambino, que tem histórico de refugiado, segundo o Humberto, tremia inteiro a cada rojão estourado. Domitila também sofreu bastante. Em jogos de futebol, é comum ela associar o som do locutor a gritar “goool” a fogos explodido e começar a arranhar a porta para entrar.

Nós, da parte humana da família, nos sentimos responsáveis pelo bem-estar dos nossos cães. Qualquer afastamento tem que ser programado e ponderado de modo que não inflija tanto desgaste. É o preço a se pagar ao nos tornarmos cuidadores desses seres inigualáveis. Quanto ao valor do sapato, por maior que seja o prejuízo material ou o dinheiro gasto, será amplamente compensado pelos ensinamentos que nos proporcionam de fidelidade, para além das demonstrações de amor e carinho.