BEDA / Amor E Carros

Amor & Carros
Malageña, Fusca de 1973. Proprietário: Humberto N. Ortega

Por dois dias seguidos, duas cenas parecidas, em dois lugares diferentes, chamaram a minha atenção, a envolver pessoas e carros. Nada de atropelamentos ou choques entre veículos, batidas contra paredes ou postes. Antes, foram cenas em parecia haver uma incomum comunhão entre máquina e ser humano, uma identificação entre carne e aço, criador e criatura.

Eu estava em minha atividade quando observei pela janela um rapaz com um pano na mão a rodear um automóvel branco. Por associação, devido ao seu biótipo alongado e à coreografia que executava, me pareceu um toureiro a empunhar um florete contra o touro. Porém, em vez de estocadas, “El Matador” caminhava, parava e passava o pano na “fronte”, nas laterais, na traseira, olhava de perto, se afastava, até que, no momento final, se postou diante da “fera” e ficou parado por um longo minuto, com os braços cruzados. O que eu supunha ser o proprietário, a tudo observava e parecia, tanto quanto eu, encantado com toda aquela movimentação. Mais um pouco, os dois entraram no carro e saíram, provavelmente, para o “test-drive”. Não mais os vi…

No dia seguinte, caminhava em direção ao banco, quando avistei, ao virar uma esquina de uma rua calma, três homens em torno de outro automóvel a uns vinte metros de onde estava. Dois deles, como expectadores daquele que examinava mais detidamente um veículo de cor escura diante deles. Eles se entreolhavam e giravam em torno dele, enquanto o que examinava volta e meia se agachava com insuspeita agilidade pelo corpanzil e idade presumível de quase setenta anos, com o olhar a se direcionar de cima para baixo. Curioso, diminuí os passos e quase parei, a fingir que buscava algo no bolso, enquanto presenciava o namorado diante de sua pretendida.

Em determinado momento, ele se aproximou da coluna dianteira direita da amada, passou carinhosamente a manga esquerda e pareceu conversar ao pé do ouvido de seu objeto de desejo, como a pedir que contasse a sua história, confidenciasse os seus segredos. Nesse momento, tropecei. Disfarcei o susto e voltei a cabeça para frente, a deixar a todos do corpo de baile executarem os passos daquela estranha ciranda em torno da dama, com a luz inclinada do inverno a conferir um brilho sedutor do capô do cisne negro.

O impacto desses encontros fez que eu voltasse a avaliar essa incrível conexão entre o homem e suas máquinas, especialmente o carro, ícone fundamental na revolução na história da humanidade desde o final do século XIX. Sei o quanto esse envolvimento passou do campo tecnológico para o pessoal. Dizer que muitas pessoas amam o seu meio de transporte como a “alguém”, não como algo, fez com imaginasse um futuro em que o desenvolvimento de novas tecnologias, fará com que um automóvel seja formatado de acordo com as preferências do dono, a ponto de haver tal simbiose que poderá se proclamar, ao ser avistado um automóvel: lá vem o João, a Maria, o José, a Raquel. Tal personalização conferirá o status de quase ser humano a uma coisa movida pela vontade de quem o conduzir… Ou será o inverso (que fará jus a sua nomenclatura)?

Amor e identidade entre carne e aço já é algo contado por aí e muitos que cresceram sendo levados de lá para cá no carro da família costumam lembrar-se com saudade do membro movido a motor à explosão. Não faltam histórias de amores explosivos movidos a dezenas de força-cavalo. Em meus devaneios mais severos, chego a enveredar para uma versão futurista tal o qual presenciei há quarenta anos em Geração Proteus*.

*Um supercomputador, Proteus IV, adquire autoconsciência e, como qualquer ser senciente, é curioso, questiona a razão das coisas e quer se reproduzir. Para tal, ele aprisiona a esposa do cientista que o criou, com a intenção de inseminá-la com o que poderia ser o início de uma nova raça, misto de homem e máquina. Produção americana de 1977, com o título de “Demon Seed“, no original. Estrelando, uma atriz que eu amava – Julie Christie.

Falta Ou Complemento?

Falta I
Família Ortega – Eu, Romy, Lívia, Ingrid e Tânia

Em um relacionamento, o que devemos buscar no outro? O que nos falta ou o que nos acrescenta? Qual a base de avaliação que temos para dizer o que nos falta? Qual o parâmetro para dizermos que algo nos foi acrescido com aquela pessoa que queremos ao nosso lado? Desejamos a calma da estabilidade conformada ou a trepidação de uma convivência sempre em evolução para o desconhecido? Desejamos a paz dos mortos ou o calor da ebulição dos vivos? Devemos viver a dualidade do ser – prazer e dor – ou a unidade de Ser e nos perdermos no Todo, sem identidade?

Todas essas perguntas e muitas outras, eu me fazia quando garoto, principalmente quando eu comecei a crer, por volta dos dezesseis ou dezessete anos. Eu me tornei vegetariano, decidi ser celibatário e abdicar dos prazeres do mundo. Eu nunca havia experimentado o sexo e, para mim, parecia ser natural não experimentar. Cria que evitaria me envolver em uma espiral de problemas que todos viviam sem solução aparente.

Ter família, trabalhar para sustentá-la, abrir mão de projetos individuais para projetar-se no mundo em busca de sustento, parecia não ter sentido para mim. Eu havia me tornado um monge sem hábito. Experimentava reunir palavras de todos os tempos e lugares, personagens que procuraram a Luz, livros que ensinavam o Caminho, as várias faces do Saber dos Mestres – Cristo, Buda, Confúcio, Maomé, os filósofos de todas as tendências – e erigia uma crença individual baseada na intuição pessoal, que me eram confirmadas principalmente nos momentos de solidão. Ficar sempre sozinho, fechado em meu quarto, apavorava a minha mãe. No entanto, também gostava de jogar futebol, ir ao cinema, assistir programas de televisão, ouvir música, escrever, desenhar e ler tudo o que caia em minhas mãos. Quem sabe onde encontraria o novo conhecimento que me revelaria a mim?

Quando fui visitar o Seminário de Agudos onde, eventualmente no futuro, eu faria a preparação para me tornar frei franciscano, não esperava que fosse ali que encontraria outra resposta… O resto da história, este pai de família, casado oficialmente há 30 anos, completados hoje, ainda está a contar. O caminho que tomei, foi o caminho que tomei e não exercito o jogo do “se”. Não me arrependo de nada. Festejo a vida. Beijo a face do Tempo e anseio me encontrar preparado para seguir além, quando for o tempo…

Simbologias

Simbologia

Indicada a direção do banheiro, estanco o passo diante de duas portas, frente a frente. De um lado, a letra M; de outro, a letra F. Por exclusão, supus que M quisesse dizer masculino, enquanto F, feminino. Caso quisesse descer à designação fisiológica genérica – macho e fêmea – de onde deriva a nomenclatura, seria admoestado por meu censor interno. Por algum motivo, apesar de sermos animais, a questão de gênero ganhou tantas conotações que fica impossível sermos bem vistos apenas porque usamos o termo correto. Mesmo porque, a conformação física vem a estipular quais e quais dispositivos devam estar presentes em ou outro banheiro, apesar de alguns itens de uso comum. Contudo, tenho a impressão que no banheiro os machos continuam sendo machos, enquanto as fêmeas ultrapassam à sua simples condição de gênero e são também mulheres, tendo o espelho como instrumento auxiliar de introspecção (ou expansão).

Se as letras estampadas nas portas fossem H e M – Homem e Mulher – identificaria construções mentais que designam não somente os gêneros sexuais básicos, mas também os papéis relativos a um e outro. Esse é um tema premente, bastante discutido por alguns que pensam a sociedade, na busca da reavaliação desses papéis incorporando mutações sociais na apreciação dos valores dos gêneros e derivantes. Bem mais malvistas por mim são as famosas figurinhas em que a porta do banheiro feminino mostra um corpo com triângulo na altura da cintura (a designar uma saia) e o masculino, reto, a fazer supor calças. Eu nunca gostei desses símbolos. Além de serem ultrapassados, não têm charme. São simplistas e eu me passa a sensação de emasculação, no caso do homem e de determinismo, no caso da mulher. Escuros, não sabemos se estão de frente ou de costas. Seriam mais interessantes os víssemos de lado, com eventuais contornos a brincar com suas formas. Há variações iconográficas interessantes, bem humoradas, restringidas a ambientes particulares, sem alcance do grande público, que talvez causassem confusão na identificação.

Além de “XY” e “XY” – representando os cromossomos sexuais masculinos e femininos – Ele e Ela são pronomes comumente utilizados para diferenciar banheiros para os usuários de ambos os sexos. Para respeitar as opções daqueles em que “ambos” os sexos possam estar juntos na mesma pessoa, surgiram em vários lugares os chamados banheiros unissex. Em 2008, o centro acadêmico da Universidade de Manchester – uma das maiores universidades da Grã-Bretanha – mudou as placas dos banheiros femininos para apenas “banheiros” e dos banheiros masculinos para “banheiros com mictório”, atendendo a pedidos de estudantes transexuais. Como era de se esperar, houve entrechoques entre os grupos defensores e contrários. Por aqui, a depender dos movimentos conservadores, a ganhar por hora cada vez mais espaço em nossa sociedade, as designações simbólicas tenderão a se tornar cada vez mais padronizadas, sem eleger variações sobre o tema da identidade sexual.

A simbologia aparente é que aparelhos urbanos de uso público para a realização de nossas necessidades fisiológicas excretam substâncias bem mais complexas que os resíduos fabricados por nossos corpos. Envolvem algo mais do que fazemos no privado e nas privadas. Temos dificuldade em lhe dar com nossos excrementos tanto físicos quanto mentais. Compreender a dinâmica de uma sociedade em desenvolvimento, incorporando preocupações e tendências que devam atender demandas justas de quem quer se colocar no mundo de maneira mais confortável é um sinal fundamental a demonstrar que estamos aprendendo a ser gente, para além de simples animais que defecam preconceitos.

O sistema de coleta e tratamento de esgoto é, simbolicamente, distintivo do grau de desenvolvimento de uma sociedade. As grandes civilizações do passado demonstraram seu progresso civilizatório justamente na construção de intricados sistemas de saneamento básico. Dado o subdesenvolvimento do Brasil nesse campo, não é de se admirar que não consigamos lhe dar igualmente com nossas indigências sociais malcheirosas.

Sentires

Sentires

Em determinado momento, ela diz que está com ciúmes de mim. Contraponho, um tanto sarcasticamente, que a palavra correta é “ciúme”. É um sentimento. Que não sentimos ódios de uma pessoa, apenas ódio. Ela refuta que, a depender de quem se trata, sente ódios, mesmo.

A sua última resposta me faz refletir sobre o que até então propunha como certo – a unicidade dos sentimentos. Logo, me vem à cabeça “ O Quereres”, de Caetano, cuja letra coloco como divisa de identidade, para desespero de quem gostaria que eu fosse assertivo como um machão e convicto como um louco. Quando, na verdade, sou apenas um macho convicto de minha loucura terçã…

Há pouco, ouvi de alguém: “ando com saudades…”. Foi algo tão doce que não refutei, mesmo porque já havia percebido que, contrariamente ao que pensava antes, é possível sentir ódios, felicidades, amores, alegrias, saudades, desprezos, ciúmes, esperanças…

De alguma maneira, cada um dos sentimentos apresenta gradações e dimensões. Sentimos maiores e menores felicidades, mais rasas e mais profundas alegrias, mais rasgados e mais brandos desprezos, muitas esperanças, ódios mais intensos e odiozinhos apenas pontuais, assim como existem amores e amores…

Seria interessante perguntar que tipo de ciúmes ela estava a sentir por mim: aquele pontiagudo, que fere o peito sem consolo, por sentir o objeto amoroso longe de seu raio de influência ou aquele protocolar, que surge ao ver a quem ama não pensar o tempo todo nela ou nele, manifestado quase como uma obrigação? Pode-se conjecturar que quaisquer ciúmes, o maior e o menor, dizem respeito a possessividade. Quem ama e é amado quer pertencer e ser pertencido a quem ama, em sua versão passional.

Saudades, então, sentimos tantas… maiores ou menores, longas – a caminhar conosco por toda nossa vida – ou breves, como lufadas de vento matinal que nos deixam melancólicos até o primeiro gole de café… Costumo dizer que saudade é como se fosse presença na ausência. Está lá no horizonte como paisagem a nos lembrar dos outros em nós a cada raiar do sol, a cada chuva no quintal de terra seca, a cada beijo da lua em nossa face cada vez mais envelhecida. Em muitos, a saudade é um sentimento tão pleno que cada hora a menos de vida é uma hora mais próxima de reencontrar quem ficou pelo caminho…

Nesse caso, há muito amor envolvido. Amor que ultrapassa tempos e vidas. Diferente de amores que sentimos eventualmente por seres que atravessam nossos olhos, a refletirem, na verdade, o amor que desejamos dar. Acabam por se tornarem tristezas, porque foram alegrias que se consumaram em cinzas – amores que sentimos um dia, mas que custamos a acreditar como amamos tanto…

Esperança… Como escapar de esperar que tudo seja melhor? Uma só esperança não basta. A maioria dos seres humanos só respira porque é feita de esperanças. Porque a cada momento que passa por uma frustração, renasce mais uma esperança. A esse mal, eu busco renunciar. Resolvi não ter mais esperança – simples assim. Não quero me desesperar – nem esperar. No entanto…

O mais triste – oh, tristezas! – é que esperamos ter certeza completa sobre os sentimentos dos outros por nós. Ou talvez isso faça parte de uma de nossas alegrias. Mesmo porque a dinâmica de nossos sentimentos é cambiante como foi o clima de outubro em São Paulo – além do natural, o mental, por causa das eleições. Ademais, a depender de como avaliamos nossos sentimentos, é comum nos enganarmos quanto a complexidade dos mesmos. Como quando dizemos que odiamos alguém – é quase como declarar que a amamos, de uma forma diferente – as homenageamos, no mínimo.

Dentro de nós misturam-se complexas gamas de sentimentos. A sinceridade em saber identificá-los é um caminho libertador. Nos tornamos melhores, admirações à parte. Ainda que eventualmente nos sintamos piores ao reconhecermos invejas, rancores, orgulhos, avarezas, possessividades a guiarem nosso comportamento. Aceitarmos nossos mais baixos sentires, ainda que a princípio os refutemos – é uma questão de fidelidade (sem plural) a nós mesmos.