A metamorfose se deu, de início pelo olhar… O movimento dela o paralisou. Como se fotografasse cada gesto, aprisionou dentro de si a evolução do casulo à borboleta — da flor ao céu — asas da imaginação…
Quis recuar quando suas vozes ocuparam o mesmo ambiente — palco de suas atuações… Percebeu que fluíam sonoras conversas de palavras entrecortadas, caladas… As lacunas preenchidas de desejos perfeitos em suas incompletudes.
Quebradas as barreiras — distâncias de centímetros-quilômetros — peles sem proteção, mentes despertas, liberta de atavismos e consequências, o imediato transformado em eterno, se reconheceram outros, os mesmos…
Ele, transmutado de Jackyll em Hyde, de homem em lobo, de mortal em vampiro, de Clark em Superman — todos e ninguém, vivia ausente de si… Passou a respirar o vácuo se não aspirasse o hálito da paixão…
Transformação irremediável, perigosa, instável, liberdade de viajante encarcerado, não trocaria o permanente desconforto do atual caos da criação do mundo pela antiga estabilidade da morte em vida…
De antemão, já aviso que este texto pode parecer para alguns um tanto escatológico. No entanto, o que relatarei a seguir fala sobre algumas intimidades masculinas e, por extensão, sobre as nossas deficiências e eficiências em sermos tão patéticos. Eu me lembro de meu pai dizendo que se surpreendera certa vez com um peido inesperado de minha mãe e exclamou: “Nossa! Pensei que as mulheres fossem divinas!”. Evidentemente, todos nós, como seres humanos normais, animais que somos, estamos sujeitos a arrotos e flatulências. Inclusive, é comum entre os garotos, competições desse tipo de manifestações fisiológicas, além de cuspe ou esporro à distância, o que em último instância, demonstra admirável autocontrole. Sim, mulheres — mães, namoradas, esposas e amigas de homens — nós somos nojentos! Nem todos, obviamente. Eu mesmo, nunca quis participar desse tipo de torneio ou mesmo de troca-troca. Mas não me deixava de causar certa invejinha não conseguir ser solto o suficiente para tanto. No máximo, jogava bolinha de gude na terra onde gatos e cães faziam as suas necessidades (o que me ajudou a aumentar a minha imunidade), porém eu não era tão bom assim no jogo.
Eu adorava jogar futebol e apesar da minha inaptidão física e estilística, era esforçado e através de solitários e intensos treinamentos, melhorei bastante os meus fundamentos. O que me faz lembrar que o esporte favorito dos meninos quando descobrem a sexualidade é a masturbação. É uma prática costumeira, eu diria, costumeiríssima. E a prática leva à perfeição! Mães, se querem que os seus filhos não mintam, nunca perguntem porque o espinhento demora tanto no banheiro. E se masturbar não se resume apenas à adolescência. Também é um exercício costumeiro mesmo entre os adultos e homens já esposados. Homens sozinhos recorrem a esse recurso bem como os casados. Mulheres, não achem que seja algo estranho. Saibam que isso garante a fidelidade de corpo dos seus cônjuges em muitíssimos casos. Já não posso garantir sobre a fidelidade na imaginação…
Tudo isso para dizer que há poucas diferenças entre meninos e homens. Talvez, o tamanho. Talvez, a perda da inocência. Talvez, a esperança de ser feliz como um passarinho quando voa, tal e qual ele foi na infância. Mas quem estiver atento, pode perceber o brilho no olhar do homem, como se fora um garoto, quando adquire um carro (brinquedo) novo, quando joga bola no domingo com os amigos ou quando recebe a benção de sua mãe. Muitas vezes, será por causa desse menino ainda existente no homem que uma mulher o amará…
Bem, o dia ainda vai se desenrolar com alguns acontecimentos dignos de nota. Ou não. Pelo sim e pelo não, confecciono esta nota relativa ao penúltimo dia de 2024. Dia 30 de dezembro foi o único que tive na agenda para ir à podóloga, como faço todos os meses nos últimos anos, controlar as minhas unhas dos dedões dos pés que encravam vez ou outra. Se há um dinheiro bem gasto, é esse. Já passei muito sufoco com as minhas unhas encravadas. Já diabético desde 2007, cuidar de possíveis infecções tornou-se fundamental para que pudesse manter a saúde equilibrada, sem aumento excessivo da glicemia. Sim, porque as bactérias nas infecções produzem aumento de açúcar na corrente sanguínea. E os “bichinhos” são vorazes.
Procuro fazer o trajeto da minha casa até o Cantinho dos Pés, justamente à pé. Adepto da caminhada como recurso de atividade física, percorro 6Km e meio e a mesma distância, na volta. Passo por subidas e descidas – o que em sentido contrário evidentemente se alternam – com gosto, ouvindo música, podcasts ou noticiários. Suo. Enfrento chuva, frio e pensamentos fugidios que insistem em invadirem a minha cabeça, quando decido não o fazer. Ganho consciência do meu entorno, observo a tudo como eterna novidade e me surpreendo enxergando detalhes que me assolam a imaginação. Parece algo bom, mas as ideias me chicoteiam de tal forma que me sinto torturado, porque sei que muitas delas se perderão pelo caminho.
Antes de uma das descidas, ao passar por um gradil, vi pendurado um papel em que estava escrito: “regai por nós!”. Imaginei no mesmo momento que fosse um erro ortográfico a troca do “o” pelo “e”. Depois, confiei que alguém alterou de modo proposital uma expressão que dessa maneira ganhou dimensões novas de entendimento. Eu poderia especular sobre várias delas, mas deixo para quem me lê essa tarefa, se lhe aprouver. Fujo da tentação de eu mesmo colocar aqui algumas delas. A minha editora diz que devo deixar ao leitor trabalhar com as possíveis interpretações dos textos que produzo.
Manhã de abril, outono no hemisfério sul… Na parede, a refletir no teto, um caminho azul… Olhos cerrados e desnudos de lentes — miopia cativa e imaginação ativa — pronto! A minha vida a se perder nas primeiras horas do dia, a invadir o azulado ponto… Por ele avanço, ultrapasso idades, volto a ser infante, ser desregrado, beligerante… pai ausente, menino em busca do sagrado da existência, do amor, da paciência — ciência da paz que cria vir com a experiência… Ainda que cansado, continuo o percurso de quem morre e revive espantado…