Dente De Leite

De 1961, aos 61…

Fazia cerca de quatro anos que não ia ao dentista. Considerando o tempo fracionado em antes e depois da Pandemia, dois anos sem comparecer ao lugar onde já sofri muito. Mas não me lembro das dores que senti, então é como se eu fosse testemunhar algo que aconteceu com outra pessoa. Assim como me esqueço das dores de minhas unhas do pé encravadas (hoje, domadas), dores de cabeça (chatas, mas relevadas), de estômago (uma delas se tornou uma gastrite hemorrágica), contusões no futebol.

Aliás, parece que joguei futebol em outra vida. Parei quando os meus contemporâneos deixaram de jogar ou de me chamar para as peladas. Nós finais de semana, normalmente estava em atividades profissionais e nem sempre podia estar presente. Ainda sonho que jogo futebol, quando normalmente não consigo chutar, correr ou sequer fazer um passe correto. São quase pesadelos se eu não percebesse a tempo que fosse sonho e forçasse acordar para não sofrer mais. Tenho por mim que fomos “criados” – nós, seres humanos – para sermos felizes, tomando a mim mesmo como exemplo. A memória claudicante ajuda…

O incrível é que carrego uma melancolia da qual não quero me desfazer. Além de me martirizar por coisas que não posso controlar. Eu me pego muitas vezes surpreendido por circunstâncias que, de tão óbvias, até crianças percebem de antemão. Uma forma de ingenuidade doentia. Tento controlar minhas palavras e ações para que não diga ou faça algo que acabe por ferir alguém, mas acontece. E como dizia a minha mãe, o “Inferno está cheio de bem-intencionados”.

Outra faceta de meu comportamento é começar por um assunto e desmembrá-los por outros tantos. Tenho outras várias distorções de comportamento. Uma delas é de não avaliar ou julgar ninguém de antemão. Ainda que dê muito valor à minha intuição. Por presunção ou desejo, cada ser vivente que observo considero que tenha uma história para contar. Antes que possíveis personagens, são pessoas que merecem consideração como tais. Não importando o status aparente que carregam. Bem sabemos que fatores exteriores e aparência não definem caráter de quem quer que seja.

Estava contando que fui à dentista. Na avaliação feita pela Drª. Ana, além do dente quebrado no fundo de meu “bocão” (um siso, que decidi retirar), ela voltou a mencionar o meu dente de leite. Sim, vindo à luz em 1961, às 2h manhã de uma segunda-feira, portanto, completando hoje 61 anos fora do útero de Dona Madalena, carrego um firme e forte dente de leite, logo à frente da minha arcada dentária. Ao comentar sobre ele, aduzo que morrerá comigo. Como disse, costumo viajar por temas supostamente simples e comecei a especular se não seria eu a morrer com ele. Sei que os dentes e ossos resistem muito mais tempo materialmente, calcificados e sem vida.

Os dentes de leite ou decíduos fazem parte da primeira dentição e decididamente “nascem para cair”. A função é ocupar espaço na boca e ajudar a criança nas primeiras mastigações. Começam a cair por volta dos 6 anos de idade, ou seja, o meu dente de leite de estimação resiste há dez vezes mais anos do que o normal. A sua composição é menos mineralizada do que os dentes permanentes. Deveria não suportar estar em minha funérea arcada dentária por muito mais tempo. Isso, se não fosse a minha pretensão ser cremado. Mas como não estarei consciente para me auto incinerar e nem pretendo fazer uso do suicídio pelo fogo, talvez me façam juntar o meu corpo ao do meu pai (só dessa maneira para estar ao seu lado) no jazigo da família.

Para quem ache estranho a falar de morte de maneira tão natural é porque sei que sendo a medida real da natureza humana, a morte torna a vida minimamente suportável e intensamente misteriosa. Para quem versa sobre a existência como eu, não faço segredo do quanto a vida é um presente em que o Presente deva ser vivido com toda a força, apesar do Passado nos trazer surpresas todos os dias. Desejo viver plenamente meu último quarto de vida. O Futuro é hoje.

BEDA / Intacto

Quem ama de paixão, sabe —
antes de morrermos mil vezes —
nos despedaçamos dez vezes mil…
Quem permanece intacto em uma relação —
sem perceber a falta de algum pedaço —
não está a amar…

Cabeça, tronco e membros —
nada escapa à desconstrução de nosso ser…
Quando amamos,
quem nos vê caminhar pelos lugares,
apenas se ilude que ali se move alguém integral —
a respiração foge dos pulmões
ou falta o coração —
que bate em outro peito…

Tocados pelo outro,
enquanto o sangue circula fora do corpo,
os olhos se perdem em cada nuvem que passa
e as pernas seguem por ruas
pelas quais passeiam o ser amado…

No auge da paixão
é doloroso amar,
porque não estamos onde estamos…
Desconcentrados de nós,
variamos de senso,
contrariamos o consenso,
o equilíbrio é penso,
o desejo é imenso
de estar no outro,
com o outro,
pelo outro,
pelo com pelo
peles unidas…

Quando nos perdemos em nós,
destroçados e trocados
de corpos e mentes,
ganhamos todo o Universo
— o Inferno e o Céu —
destino incerto,
a terminarmos como solitárias moléculas dementes
ou a renascermos amorosas sementes…

Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina / Alê Helga /
Claudia Leonardi / Adriana Aneli / Mariana Gouveia

BEDA / Scenarium / O Outro

A apresentação pública que faço de mim é a de alguém que se identifica com a defesa do humanismo voltado para a transcendência, visando a proteção do ecossistema e o respeito aos outros seres que convivem conosco na biosfera. Fora dessa perspectiva, quem defende ideias diferentes me ofende profundamente. Cheguei a me imaginar como um antípoda ao que preconizei acima como exercício de compreensão daquele que se me opõe. Em tese, conseguiria fazê-lo. Eu os encontro em meu círculo familiar, entre colegas de trabalho e nas minhas redes sociais.

Estabeleci como elemento de desordem o “outro”. Conquanto o meu ponto elementar de desequilíbrio seja eu mesmo, quis alcançar àquele que me desorganiza externamente. Dizer simplesmente que “o inferno são os outros” não seria suficiente. Eu me pus a identificar quais falas e atitudes do outro quebram a minha homeostase. Ainda que passeasse por zonas sombrias do meu ser, ao olhar para o abismo tenho certeza de que voltaria à minha posição inicial. Suposição incrível para alguém que refuta por entendê-las como indício de loucura.

Seria mais fácil criar uma personagem que se colocasse como porta-bandeira do obscurantismo, do desconhecimento, da misoginia, da homofobia e do racismo; que fosse elitista, antidemocrática e entendesse o poder econômico como hegemônico, colocando-o acima da necessidade de atendimento às demandas sociais. Mas na vida real essa personagem já existe. Na verdade, foi eleita como representante incondicional de pelo menos um terço da população que se amolda ao que seja conveniente no momento ou que simplesmente acompanha a manada — do país onde nasci e vivo. Percebi que defender o indefensável seria impossível. Ir contra as diretrizes que considero o melhor para a maioria das pessoas e para mim, me paralisou.

Tenho frescas em meus ouvidos as últimas notícias do atual desgoverno — o fogo a se alastrar por grande parte do território brasileiro; a mortandade pela Covid19 de centena de milhar das pessoas menos protegidas pelo Estado; o desmonte da estrutura que manteve os índices sociais razoavelmente estáveis nos últimos anos, a exemplo do SUS e dos projetos de inclusão; o ataque direto à cultura, como o feito à Cinemateca Brasileira onde todos os funcionários especializados na preservação do importante acervo audiovisual nacional foram demitidos. Como é que conseguiria me colocar no lugar de alguém que defende práticas tão perniciosas, de viés fascista; que promulga por decreto o genocídio do brasileiro comum e o etnocídio que solapa a identidade cultural indígena?

Quando surgiu o movimento de extrema direita que assumiu o comando administrativo do Brasil, eu me surpreendi com a quantidade de defensores dessa visão de mundo que se opunha brutalmente à minha. Artistas com os quais trabalhava (principalmente, músicos) não deveriam se colocar em sentido inverso ao que era propagado pelo candidato? Assumiriam a faceta que propunha retrocessos políticos e agitariam bandeiras retrógradas em termos sociais?

Ser esse outro não é apenas olhar para o abismo, mas mergulhar na lama primordial da qual foi gerada a vida eu me tornaria uma ameba. Não teria de onde retornar, a não ser depois de milhões de anos de evolução. Prefiro morrer para esta vida a reviver por inteiro o drama de nosso desenvolvimento: voltar a ser um primata que lutará pela vida na floresta; até vir a encontrar o monólito que me tornará o primeiro ser humano; inventar os instrumentos de sobrevivência da espécie; participar da luta pelos espaços; instaurar grupos homogêneos como plataforma de expressão coletiva; desenvolver civilizações; guerrear contra os inimigos; trucidar oposições; formar países; escravizar povos e estabelecer ideologias hegemônicas como forma de dominação do outro…

Será que não podemos aprender com o que já vivemos em nossa história e deixarmos de praticar ações perniciosas contra nós mesmos e contra os outros seres com os quais coabitamos? Ou estamos condenados a reviver todos os dias mesmos dolorosos ciclos até o final dos tempos — um déjà vu em moto contínuo?

Quase peço ao sol que antecipe em bilhões de anos a explosão que extinguirá os planetas ao seu redor, incluindo a nossa pequenina Terra. Porém, sei que é egoísmo da minha parte. Quem sabe as novas gerações modifiquem o nosso percurso atual e transformem Gaia em um planeta redentor?

Cena de 2001 – Uma Odisseia No Espaço – encontro do monólito pelos macacos.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / O Outro Em Si Mesmo*

O OUTRO A

Em princípio, acredito que o egoísmo seja a base sobre a qual se sustenta o mal – porque não contempla o outro, causa sofrimento e provoca o isolamento…

No entanto, se um ser vivesse sozinho no planeta, sendo o seu único habitante, até poderia se sentir pleno, total. Ao não conhecer outro igual, não teria conflitos nascidos da convivência com alguém que lutasse pelos mesmos recursos, de modo a satisfazer as suas necessidades.

Sartre chegou a dizer que o inferno são os outros… justamente porque os culpamos por nossas deficiências.

O diabo é que, a partir do momento que houvesse, pelo menos, dois indivíduos a ocupar o mesmo espaço, criar-se-ia uma dependência.

Caso essas duas pessoas se apartassem, veríamos surgir a solidão… e a solidão dói, como se tivéssemos a nossa carne rasgada com uma faca cega. Os antigos devem percebido essa dimensão ao assegurarem que um ser teria surgido do corte de parte de outro.

Proponho, porém, que a história seja contada de outra forma: o homem teria surgido de parte da mulher, não ao contrário, porque o completo não nasce do incompleto… ou, se assim não foi, o homem teria sido, apenas, o ensaio de uma obra que seria prima.

*Texto extraído de “REALidade“, de 2017, lançamento pela Scenarium Plural – Livros Artesanais

Beda Scenarium

BEDA / Os Outros

OS OUTROS
Os Amantes – René Magritte

Os amantes brigaram. Por ciúme. Apesar de se saberem casados há muito tempo com outras pessoas, normalmente não é por causa delas que brigam, porém por causa de outras personagens que se aproximam dos três casais originais. Quando ama intensamente, o amante desenvolve superpoderes sensitivos em relação ao outro de sua vida. Nas mulheres, a intuição já pronunciada adquire, então, a promoção de supra superpoder.

– Quem é aquela que escreveu “lindo!” na foto que tirou de seu cachorro?
– Qual aquela?…
Diante da óbvia inocência estampada no rosto do desavisado, ela recua e responde:
– Deixa prá lá!”… – Afinal, não quer aguçar a sua curiosidade. Contudo, o outro sabe de quem se trata.
– Quem é aquele que aparece com o outro e você na foto de aniversário dele?
– A quem você se refere dentre as mais de quinze fotos que foram postadas?
– Deixa prá lá!… – No entanto, ela sabe de quem se trata. Afinal, já teve “algo” com o cara há alguns anos…
Para os dois, nada disso importa, realmente. Eles estão apaixonados e só tem olhos um para o outro. Os dois sabem que esse amor desdenha qualquer história pregressa. A paixão mútua os faz eternos. Não há passado e nem futuro, apenas aquele instante.
Quando voltam para casa, tornam-se racionais, refletem sobre as questões cotidianas e se confrontam com a rotina diária. Até que haja o próximo encontro, a vida fica suspensa, como se estivessem no Limbo, quase Inferno – crise de abstinência.
Ao se reencontrarem, a saudade é tamanha que não há diálogo, a não ser o dos corpos que se unem e se entregam. Naquele momento, conhecem o céu, vivem em idílio, até o momento que tenham que descer à poeira do chão batido, onde habitam os outros.
Eles nomeiam os outros de “outros”, mas sabem e já confessaram de si para si:
– Os outros somos nós…