01 / 03 / 2025 / Trabalho Na Diversão

Em meus eventos, através da Ortega Luz & Som, passeio pelos espaços normalmente voltados para a diversão. Mas atento a todos os detalhes técnicos, fico relaxado apenas quando, depois de tudo, termina o evento e a programação é cumprida com sucesso. Sempre ocorre de algum detalhe ou outro não sair como o desejado. Muitas vezes sem aparecer para o público, para nós, que trabalhamos nos bastidores, resta aprendermos com os erros.

Nada é feito sem esforço, muitas vezes brigando com aqueles que promovem os eventos, mas mantém uma postura antiquada em que não somos tratados como colaboradores, mas simples “paus mandados” sem cérebro. Usamos a força física, sim, mas aliada à atuação da mente. Costumo dizer que vestimos a camisa do time para quem trabalhamos. Algo que só o tempo e a experiência de longo trato conseguem demonstrar cabalmente.

É uma relação de confiança, tanto para quem nos contrata quanto por quem somos contratados em relação a eles. O que nem sempre um contrato formal consubstancia. Com o tempo, vim a descobrir que 99,9% não significa 100%. Num dia, está tudo confirmado, no outro, não. Essa característica que, de resto, mostra um quadro típico da instabilidade das relações humanas, serve especialmente para a vida do brasileiro como um todo.

Quando decidi empreender essa jornada na prestação de serviço em algo “evanescente” — como são os eventos que se assemelham em característica com a montagem de um circo que ergue a sua lona em cada lugar — foi justamente por causa dessa instabilidade como, de resto, é a vida do brasileiro — mas que proporciona certa liberdade para a minha atuação. Quando mais novo, estudante de História percebi claramente que num futuro próximo, que acabou por se concretizar, as relações trabalhistas seriam intermediadas por códigos bastante variáveis, incluindo profissões tradicionais, por balizas que ainda viriam a serem estipuladas.

Essa cara séria acima demonstra uma postura que tento manter durante a minha atividade. Obviamente, ao mesmo tempo, não deixo de tentar manter uma perspectiva que dê espaço para a descontração, principalmente nas relações com quem trabalho. É uma questão de sintonia fina, como tudo na vida, principalmente quando trabalhamos. Pode parecer algo natural, mas há quem sinta que o trabalho impede que atuemos de uma forma mais leve como entes sociais que somos.

Tarde

Sob o céu que nos protege, momento de relembrar, antes à tarde do que nunca, que tudo é arte – a vida e a morte.

Semana estranha
pari das entranhas sonhos terríveis.
Febril
caminhei entre nuvens tardias
e céus amanhecidos.
Árvores passavam céleres por mim
enquanto eu permanecia preso aos grilhões
da minha musculatura esquelética
perfurada por milhões de micro agulhas
da espessura dos pelos dos braços
longos como os cabelos da amada.
Arrastando-me, cheguei até aqui…
Cumpre continuar a jornada
mesmo cansado, sobreviver
mas com um olhar terno
sobre o viver
enquanto a tarde cumpre seu estirão
até o final do dia…

Entrevista Sobre O Lançamento de Curso De Rio, Caminho Do Mar

Como surgiu o título do livro?

Eu estava escrevendo uma das crônicas proposta pelo curso de crônicas da Scenarium  —Livros Artesanais e essa sentença surgiu ao final de uma delas. Percebi a conexão que havia entre os rios canalizados nas várzeas de São Paulo, frequentemente transformadas em avenidas de fundo de vale, uma característica bastante acentuada na região na qual moro, na Periferia da Zona Norte. São os rios cinzas pelos quais transito na cidade. Caminho do Mar é o sentido que realizei em busca de salvamento.

Quais são os personagens do livro?

Os personagens somos todos nós, intermediados por minha voz. Quando falo de nós, me refiro à comunidade humana, ao País, em particular. Evidentemente, alguns nomes mais próximos pontuam mais evidentemente porque participam do meu olhar do tempo imediato ao qual aludo, além de personagens aleatórios que surgem sem pedir licença. Quase um diário de viagem.

Como foi o processo de feitura do meu livro?

Como já citei, eu precisava escrever para exteriorizar a minha dor, o processo de desalento pessoal, muito guiado pela situação que via se agravar no País. Antes, eu era um ser recluso, alheio ao que acontecia ao meu redor, que só observava como se fosse um voyeur. Não interagia com ninguém, apenas convivia. Após perceber que era um caminho sem volta para o fim, decidi me salvar abrindo meu peito ao mundo e às pessoas. Não sem muita dor, igualmente. Mas era uma dor redentora, enquanto a outra era egoísta e sem propósito. Com isso, sofro quando vejo o mal grassando como praga. Para nós, brasileiros, não bastava a Pandemia, tinha que haver um ser abjeto que conduzisse todos nós à catástrofe. Como digo sempre, nada acontece do nada. É um desenvolvimento paulatino. Criamos as bases, os precedentes e demos chance para que o fenômeno que estamos vivendo acontecesse.

Um trecho do livro…

“Reverencio a luz, a energia visível e invisível de tudo o que me envolvia água, árvores, seres que pululam entre meios e veios a transitarem entre as dimensões. Saio da água renovado e agradeço à Marina e à Alice, juntando as mãos em sinal de gratidão… por me levarem até lá. Voltamos repisando passos de milhares antes ainda que fosse um lugar mais segredado iguais a mim, humildemente gratos e largamente agraciados.

Reencontramos a mulher que nos chamou a atenção isolada, a conversar com seres invisíveis ou consigo mesma. Quando chegamos, ela posicionava a placa de “PERIGO”, a declarar que se as mulheres não o fizerem, não serão os homens que o farão. Fui ao mar. Dentro d’água, a vejo exortar as ondas:

Sai doença! Venha cura! frase repetida algumas vezes.

Ao voltar, interrompi a leitura para observá-la a recolher conchinhas. Vez ou outra, conversava com as águas. E eu me interessei por sua história. Soube que era amante do mar. Que garota, o pai não gostava que a família fosse à praia ao invés das serras de Minas. Ao primeiro contato com o oceano, se apaixonou. Morava em São Paulo.

Mas decidiu deixar a metrópole quando percebeu que aquilo não era vida.

Cantava o trecho de ‘Exagerado’, de Cazuzapor você eu largo tudo: carreira, dinheiro, canudo’, em alusão ao mar. Formada e pós-graduada, a Sacerdotisa desceu definitivamente há três anos para Ubatuba.
A família foi para Portugal. Olhando em torno disse que nunca poderia deixar aquele paraíso.
Eu pensei a mesma coisa.” — Trecho de A Sacerdotisa

O que se espera encontrar ao ler Curso de Rio, Caminho do Mar?

Identificação com o tempo e o lugar em que estamos. Porque simplesmente “estamos” e as pessoas parecem se considerar eternas no sentido material da realidade que nos é dada a ver. Tento ultrapassar o véu que nos ilude e chegar ao cerne de Ser, para além de ser um humano ser.

Qual a emoção que esse livro pretende provocar?

Empatia. De minha parte para os outros. Espero receber sinais de empatia de retorno. Mas já aprendi que não devemos criar expectativas. O que sei é que esse livro me salvou. O que pode mais se esperar de palavras impressas em folhas de papel, enlaçados artesanalmente?

Drão

Drão & Gil
Gil & Drão

Gilberto Gil foi um dos meus “Gurus” por muitos anos. O baiano que aprendi admirar ainda bem pequeno, com “Domingo No Parque” e “Aquele Abraço” e adolesci com “Expresso 222” e “Aqui E Agora”, foi se tornando um dos meus compositores favoritos. Algumas de suas músicas, além da beleza melódica e rítmica, me levavam a reflexões de fundo filosófico. Entre as várias pérolas que produziu está “Drão”. Na época (1982), não conhecia a exuberância de significados que continha, mas ainda assim, me emocionava profundamente. É como se eu fosse um cara experiente pedindo perdão por alguma coisa que tivesse feito com a minha amada e, no entanto, nunca havia sequer namorado, já que vivia desde os 17 anos a minha fase mais mística, que não incluía a companhia feminina, pelo menos fisicamente, já que as mulheres passeavam por minha mente, causando estragos irreparáveis em minha busca pela “iluminação”. (Risos).

A frase que me marcou definitivamente, dentre os primorosos versos de seu corpo, foi: “Deus sabe a minha confissão, não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”. O que me remeteu à ideia, expressada em dito popular antigo, que a minha mãe dizia sempre – “o que não tem remédio, remediado está” – e que igualmente desdobrou em que tentasse desenvolver a compaixão e a tolerância mais assiduamente do que muitos preceitos religiosos que utilizava como guias do meu caminho.

Muitos anos mais tarde, vim a saber que “Drão” fora escrita por ocasião da separação de Gil e Sandra (Sandrão / “Drão”), que fora casada com ele durante dezessete anos e com a qual veio a gerar três filhos: Pedro (morto em um acidente automobilístico, em 1990), Maria e Preta Gil. O episódio da morte de Pedro ganha contornos ainda mais dramáticos quando confrontado com a frase “os meninos são todos sãos” e eu, que me tornei pai de três meninas, vim a compreender mais agudamente a profundidade do que ele quis dizer.

“Drão” é a história de um amor romântico que se transformou em algo mais complexo, um amor maior, de vida, já que ambos, Gil e Drão, são amigos até hoje e mantêm laços indissolúveis. Além disso, esse relacionamento se desdobrou em inspiração que deixou como legado uma das músicas mais belas do nosso cancioneiro. Abaixo, reproduzo os versos que, aos 21 anos, me marcaram para o resto de minha jornada, além da referência ao vídeo de uma das interpretações mais emocionadas de Gil dessa composição.

“DRÃO

Drão, o amor da gente é como um grão,
Uma semente de ilusão,
Tem que morrer pra germinar,
Plantar nalgum lugar,
Ressuscitar no chão, nossa semeadura,
Quem poderá fazer aquele amor morrer,
Nossa caminhadura,
Dura caminhada pela estrada escura.

Drão, não pense na separação,
Não despedace o coração,
O verdadeiro amor é vão, estende-se infinito,
Imenso monolito, nossa arquitetura,
Quem poderá fazer aquele amor morrer,
Nossa caminha dura,
Cama de tatame, pela vida afora.

Drão, os meninos são todos sãos,
Os pecados são todos meus,
Deus sabe a minha confissão, não há o que perdoar,
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão,
Quem poderá fazer aquele amor morrer
Se o amor é como um grão,
Morre, nasce, trigo, vive, morre, pão …

Drão…”

O vídeo que disponibilizo aqui contém outra linda canção de amor logo em seguida, justaposta à “Drão”, chamada “ A Paz”. Quem tiver o gosto de ouvir e ver todo o clique, reparará que lá pelo meio da música, no final da primeira parte, Gil se emociona quando canta “Eu vim / Vim parar na beira do cais / Onde a estrada chegou ao fim / Onde o fim da tarde é lilás / Onde o mar arrebenta em mim / O lamento de tantos “ais”, o que prossegue em “A paz / Invadiu o meu coração”… Não deve ser fácil para ninguém interpretar a sua própria dor, mesmo que seja transmutada em sentimento de paz…