“Esse #TBT de 2016 é muito especial para mim. Além da Bethânia, recém chegada, mais afastada, vê-se à esquerda, Frida, que há uns três anos deixou de estar conosco fisicamente e, à direita, Domitila, que encantou-se há pouco. Não são poucas as vezes que acabo por pegar vasilhas a mais para dar comida para as meninas… e me lembro que elas não precisam mais se alimentar de ração, mas apenas do amor que não lhes faltam em nossas lembranças”
Farfalla cumpre o destino após tanto tempo no casulo autoimposto não se faz de rogada Farfalla fala nasci neste dia quero festa quero cumprimentos não desejo votos de isentos desejo beijos ainda que distanciados quereres bem-intencionados calor humano a suplantar o calor deste litoral em que voo sobre as águas sob o Sol sou amiga sorridente bailarina no jardim absorvo o néctar de flores enquanto me afasto das lembranças de dores revoo aprecio a paisagem que me renova volteio não fico no meio alcanço as fronteiras sou da vida bela ainda que dela nada se leve sou leve asas abertas passeio por multicores de plantas absorvo doces fragrâncias escrevo o meu caminho em poemas em cantos em danças em delicadezas um dia pousarei hoje não que não quero descansarei ao raiar do dia de nova hora cercada pela flora sonora de abelhas que lhes beijam ao cintilar solar da aurora…
Em 15 de Janeiro de 2019, escrevi: “Hoje, volto para São Paulo e me despeço deste meninão, Fred. Jovem, três ou quatro anos, já passou poucas e boas — atropelamento, tentativa de homicídio — mas segue em frente, com sua voracidade de viver. Saía à noite com ele para andar junto ao mar e a explorar as redondezas, a farejar cada recanto e a registrar sua passagem com seu cheiro. Não gosta de outros cães e muito menos de carros e motoqueiros, a demonstrar que uns e outros são lembranças de seu sofrimento. Porém, gosta de gente à pé, portanto, desarmada. Enfim, é um ser contraditório como todos nós, humanos. Como dois solitários que estávamos ou somos, passamos a nos compreender. Até a volta, meu amigo!” #amigosnaturais
Post Scriptum: Atualmente, o Fred mora com a minha irmã, na casa ao lado. Resgatado de onde estava, sofrendo com maus tratos, ele e o Marley são seus leais companheiros. Cada vez que passo por lá, ofereço um carinho recebido com a disposição do meninão que sempre foi.
voltei a encontrá-la estava entre amigos ainda que não quisesse beijei o seu rosto abaixo a luz difusa de seus olhos de entornos vincados visíveis apesar da maquiagem exprimiu um sorriso sem dentes eu invadira o seu espaço de forma brutal sabia que a incomodava com o meu cheiro de antigo amante o qual fazia questão que mantivesse sem perfume fantasia industrializado gostava de cheirar meu pelos beijar a minha boca de língua intrusa que descia por pescoço colo mamas pequenas umbigo perfeito e triângulo das bermudas coxas joelhos e pés que expunha o seu coração de joelhos costas musculosas ombros que segurava meu mundo de homem foi um encontro calado sequer um “tudo bem?” mas o rumor que ainda percorre por minhas veias de lembranças alardeia que nunca a esquecerei…
Estou cercado de quinquilharias. Quando jovem, imaginava que viveria à margem da Sociedade, uma vida alternativa em que não precisasse de penduricalhos para me afirmar como pessoa. Eu estaria sempre em trânsito, mochila nas costas, usufruindo da Natureza para sobreviver, trabalhando para me sustentar minimamente. Sonhos de uma noite de verão juvenil. Passadas as décadas, estou atulhado de objetos, muitos supérfluos. Outros, nem tanto. Ao me casar, fui transportado para outra plataforma de vida. As circunstâncias me obrigaram a entrar como colaborador do Sistema.
Para complicar, fui criado por pais que passaram necessidades materiais. Guardavam tudo o que podiam. Principalmente, o meu pai. Graças às suas latinhas de manteiga que abrigavam parafusos pregos, porcas, elásticos e outros utensílios, e pelas quais era fascinado, comecei a escrever, desenhando as letras. Queria saber o significava aqueles desenhos que “enfeitavam” as embalagens. Comecei a reproduzi-las. Ao longo do tempo, o acervo de guardados do meu pai aumentou exponencialmente. Para ajudar, ele se tornou recolhedor de materiais recicláveis. Daí, pude começar a minha própria coleção de quinquilharias. As mais importantes, os livros.
Livro se come? Não, mas a depender do interesse que desperta em mim, eu o devoro. Livro é um item supérfluo em muitos lares brasileiros. Seria uma quinquilharia dispensável. É raro irmos a algum apartamento, por exemplo, e encontrar um cantinho em que haja livros dispostos a ocupar o espaço físico. O que não quer dizer que o morador não possa ter o hábito da leitura. As bibliotecas estão aí para suprir essa demanda.
Um dos motivos para guardar quinquilharias apresenta apelo sentimental. Os objetos expressam, de alguma forma, as lembranças que venha a ter de um determinado fato. No caso do trofeuzinho quebrado – cada vez menor ao longo do tempo – eu o recebi como prêmio num festival escolar de música. Esta envolto a tantos outros objetos, embalagens e dispositivos que larguei por ali até ser finalmente desprezado, como as pilhas que precisam ser dispensadas com segurança para não poluir o meio ambiente.
Eu tenho um quarto que fica fora da casa em que guardo parte do meu equipamento de trabalho e que não uso tão frequentemente, além de ferramentas e peças de uso eventual como pregos, parafusos, fitas, elásticos, lâmpadas e os recicláveis que dispenso para os catadores de recicláveis no dia da passagem do caminhão de lixo. Mas antes de ter uma parede reformada para organizar a bagunça, ela aumentou consideravelmente com o acréscimo de outras coisas, como esses quadros que estão à espera da parede reformada.
Eu tenho certa dificuldade de me desapegar de certas coisas. Uma meia velha e rasgada, a qual gosto muito, deixei a encargo da Tânia dispensá-la. Objetos que fizeram parte da história das crianças, também. A dispensa acontecerá, certamente, mas o exercício do apego é um tanto viciante.
Há objetos que ficam em trânsito, indo de lá para cá e em sentido inverso, igualmente. Vivem em estado “provisório-permanente”. Até que sejam recuperados ou definitivamente colocados fora de nosso alcance. Por um tempo, cumprem a sentença de ostracismo.
Gosto muito desses lagartos fujões! Retirados da parede da sala para reforma, ainda penso vê-los a nos observar largados nos sofás vendo TV. Ou escrevendo ou me vendo a participar dos cursos de literatura da Scenarium etc. Por enquanto, estão descansando em um ponto diferente, longe dos nossos olhos cotidianos.