BEDA / Passagens*

Foto da minha primeira identidade. Tinha 17 anos e uma nascente barbicha. Logo, por efeito de ter me tornado vegetariano, começaria a emagrecer bastante até ficar um tanto irreconhecível. Depois de me adaptar pouco a pouco à alimentação sem carnes de qualquer tipo, consegui ficar menos magro. Essa fase, durou cerca de dez anos, até me casar, em 1989.

Por encomenda da Ingrid, em Janeiro de 2022 recebi um biscuit delicadamente confeccionado pela talentosa Maria Luíza Alves. Eu amei o mimo! ¡Gracias! 

Em #TBT de 2014, um registro de 2002. Na época, legendei: “Cultivamos amigos e plantamos o verde pelo mesmo motivo: melhora o ar que respiramos” – um registro da filhote Dorô, filha única da última gestação da Lua. Acompanhou as meninas em boa parte da adolescência.

Numa madrugada do início de dezembro de 2015, quando voltava de um trabalho com a Ortega Luz & Som, assistia alguma programação até baixar a adrenalina. Comigo, a nossa eterna e dourada Dorô. Eu nem sei quanto tempo faz que ela não está mais fisicamente conosco. Mesmo porque não há dia em que não nos recordamos dela.

Esse #TBT de 2016 é muito especial para mim. Além da Bethânia, recém-chegada, mais afastada, vê-se à esquerda, Frida, que há uns três anos deixou de estar conosco fisicamente e, à direita, Domitila, que encantou-se há pouco. Não são poucas as vezes que acabo por pegar uma vasilha a mais para dar comida para as meninas… e só então me lembro que ela não precisa mais se alimentar de ração, mas apenas do amor que não lhe falta em nossas lembranças.

Neste registro de 2011, estamos, meu irmão, Humberto e eu, em momento de descanso depois da montagem do equipamento da Ortega Luz & Som para a realização de mais um trabalho de sonorização. O local em que estávamos, foi uma antiga fazenda de café transformada em local de eventos. Na sede do Hotel Fazenda, encontramos várias referências à época da escravidão, incluindo as senzalas nos casarões. Patrimônio construído com sangue e suor dos escravizados que agora é usado para diversão de quem pode pagar.

*Postagens feitas no Facebook ao longo dos anos desde 2011. Publicação participante do Beda: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

BEDA / O Gigante Gentil*

Então, o nosso querido Ivan Rocha, o Payakan, nos deixou fisicamente. Saiu de cena tão silenciosamente quanto entrou em nossas vidas, do Humberto e a minha. A primeira vez que o vimos, encontramos um rapaz em torno de 20 anos, de tez amorenada, de longos cabelos lisos quase até a cintura. Estava sentado a uma mesa, dobrando papéis de propaganda do baile daquele dia no Patropi, tradicional casa de eventos que se tornou igreja evangélica, na Rua Cubatão.

Ele namorava a promotora, uns dez anos mais velha, muito bonita e comunicativa. Ao se levantar, percebemos um sujeito de porte imponente, quase uma entidade indígena. O apelido Payakan, que depois adotou, surgiu na época do surgimento da liderança de Paulinho Payakan, dos Caiapós, há uns vinte anos. Impressionava igualmente o seu olhar levemente cerrado, de sábio chinês, sempre de cima para baixo, devido ao tamanho de quase 1,90m., principalmente quando tocava o seu baixo.

Tímido e calado à época, com o tempo, foi se tornando uma referência querida sempre que falávamos de bom músico e excelente companheiro de trabalho. Estivemos muitas vezes juntos, através da Ortega Luz & Som, o chamando para a orquestra que administramos por um tempo ou através de terceiros, como na foto que fizemos a Orquestra Tributo À Sylvio Mazzucca, em 2011, no Clube Piratininga.

Nos últimos anos, era ele que nos chamava para fazer os seus eventos, como empresário e produtor. A outra foto retrata uma dessas ocasiões, com a turma do BPC — Beatles Para Crianças, em agosto de 2017, para os jovens e entusiasmados alunos de uma escola — a última que tenho dele conosco.

Sempre que podíamos, trocávamos ideias e informações acerca da vida. Certa ocasião, ao passarmos por uma mecânica especializada em amortecedores, falei aleatoriamente: “para o amor, não há o que amorteça dores…”. Citava sempre que podia essa frase porque aquilo lhe tocou profundamente. O último contato que tivemos foi por ocasião da realização de um possível trabalho para o Réveillon de 2021 para 2022. Depois, não mais…

Agora, apenas as boas lembranças nos acompanhará até estarmos juntos novamente para realizarmos eventos interdimensionais com o pessoal que já está viajando entre as estrelas, compondo a grande orquestra cósmica. Afinal, tudo é música!

No primeiro registro fotográfico, Payakan é o terceiro da esquerda para a direita. No segundo, é o sexto.

*Texto-homenagem de 9 de junho de 2022

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelim / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso

Imagens Dispersas de 2012

Na mesma época, há dez anos, fui à cidade da Tânia. Como então, a família pôde passar a semana no interior do Rio de Janeiro, no distrito de Arrozal, Piraí, junto à Dona Floripes. Ela está com a saúde claudicante e quisemos ficar perto dela por alguns dias. Lembro-me da primeira vez que fui à cidade, acho que em 1988 ou 1989, antes de casarmos. Cheguei de ônibus na Praça São João Baptista e caminhei os cerca de 500 metros que me separava da casa da família Oliveira, na expectativa de que me recebessem de forma acolhedora. E foi o que aconteceu. O seu Neneco, o pai e seu Dindinho, o avô, eram vivos. Pude perceber ao longo dos anos que ainda que não estivessem fisicamente mais presentes, é como se nunca tivessem partido. A casa foi construída aos poucos pelos dois, tijolo por tijolo, com improvisações criativas que a precariedade estimula, marcando as suas passagens no Tempo materialmente. Aqui, coloco a reportagem, com imagens, dessa ocasião em que a minha família usufruiu da hospitalidade arrozalense.

“Imagem da família Ortega, junto com a Dona Floripes, mãe da Tânia, e avó das meninas — Romy, Ingrid, e Lívia — no dia 24 de dezembro de 2012“

À época, escrevi:
“O ano de 2012 se esvai entre os dedos como a fina areia da ampulheta do Tempo que marca a nossa existência. É muito estranho que muitas ocasiões só consigamos materializar através de referências externas, como fotos, por exemplo. Essas imagens, no entanto, apenas indicam as possibilidades de emoções e sentimentos de quem vivencia a experiência. Estas últimas que estou postando já fazem parte do Passado e o que tento (sempre tentamos) é torná-la eternamente presente. Adeus 2012!”

Estive de volta à cidade há alguns dias, agora, em 2022. Ano após ano, estas portas continuaram fechadas ao meu olhar curioso, enquanto o tempo ia deixando os seus sinais sobrepostos…
“O 27 de dezembro de 2012 foi um dia de calor infernal. Tomamos caminhos estranhos, na busca de um local para refrescar nossos corpos suados”.
“Uma alma piedosa, amiga de juventude da Tânia, permitiu que um grupo de paulistanos pudesse se refrescar em sua piscina. O que salvou a nossa vida…“
“Esse cãozinho, alheio à idade da pedra em que pisa, chamou a minha atenção por sua esperteza. Quando o grupo voltava para a casa, ele tomava o caminho mais reto, enquanto os seus cuidadores ziguezagueavam, assolados por suas decisões inconstantes. Há de se ter muita paciência com esses humanos!”
“Praça São Jão Baptista, onde pássaros e crianças (que jogavam bola do lado da igreja), assumiam a sonoplastia do dia…”
“Voltamos para casa com o Sol sempre no horizonte à oeste. Antes de se deitar completamente, o fotografei na altura de Itaquaquecetuba“.

O Virgem

O virgem, bêbado…

Aquela foto da foto, de 40 anos passados.

Eu sou aquele que, queimado do sol de praia, sem pelos no corpo, virgem de corpo e alma, expõe a olhos nus sua ascendência indígena, com muito orgulho. Devia estar bêbado. Estava, de fato! Um dos poucos porres que tomei na vida.

Comigo na foto, em sentido horário, segundo a descrição da Tati: Yaimi, dois amiguinhos da Denisete, Soninha, Nadja, outro amigo da Denisete, Maria Inês, eu, Bahiano, Sérgio Taira. A maioria desses personagens se perderam em significado pessoal em minha memória randômica. Com certeza, comparecem em sonhos em que convivo com supostos desconhecidos.

Quem me enviou a foto, Tatiana Zimmermann, irmã da Tamara, era minha colega de classe. Sua família me recebeu muito bem e o garoto da Periferia começou a se sentir mais solto em um meio que não estava acostumado.

Sei quantificar e lembro de todas as ocasiões em que bebi e perdi controle mecânico sobre o meu corpo… Declaração estranha para quem alega ter lembranças esparsas sobre várias passagens da vida. Fiquei de porre exatamente três vezes. Em todas as ocasiões — pelo mesmo motivo — queria me libertar dos grilhões de minha timidez em relação às mulheres.

Na primeira vez, aos 15, uma linda moça queria ficar comigo. Estando sóbrio, eu só conseguia olhá-la sem conseguir articular uma sentença compreensível sequer. Bem, é dessa maneira que me lembro. Comecei a beber um garrafão de Sangue de Boi e só terminei quando o sequei. A consequência foi que mal conseguia andar. As últimas imagens que guardo é da moça falando comigo até eu adormecer na rede debaixo do abacateiro. Quando fui até a minha cama, senti o mundo girar em velocidade cada vez maior e apagar.

Na segunda e terceira vez ocorreram em festinhas na casa da Tati e Tamara. Uma outra bela moça, queria ficar comigo. Perguntei porque, já que a havia visto beijando outro rapaz. Respondeu que “não eram os seus braços, não era a sua boca”. Gostei do que disse (ou apenas estivesse desejoso), mas continuava preso. Comecei a fazer todas as misturas que se tem direito — vinhos, destilados e batidas. Iniciado o efeito desejado, cheguei a dançar agarradinho, a acompanhei por corredores em busca de um lugar para ficarmos mais à vontade e, sem sucesso, as últimas lembranças que tenho foram a de cair sobre ela. Carregado para o quarto, senti a minha camisa sendo retirada e ouvir uma última frase: “Nossa, parece o Tarzã!”.

Na terceira vez, sei que bebi muito — provavelmente o da ocasião dessa foto — e acordar (pleonasmo corretíssimo) “soltando os bofes para fora!” Passei dois anos sem poder sentir cheiro de álcool sem ficar enjoado e de estômago revirado. O que ajudou bastante a me afastar da bebida, além da ojeriza inicial à bebedeiras e bêbados que desenvolvi devido aos episódios de porre de frequentadores vivenciados no bar de minha mãe, onde trabalhei na adolescência.

Quanto ao “virgem” do título, apenas anos depois desse episódio deixei de sê-lo. Acabei casando com a moça que cometeu a proeza de me retirar do caminho do celibato.

Panis Et Circenses*

O meu trabalho envolve certas circunstâncias especiais e uma delas é tentar ser o mais profissional possível em uma atividade que dá embasamento para a celebração da alegria e para a descontração… dos outros. Como sempre digo, meu irmão e eu trabalhamos onde os outros se divertem, o que comparo com certa especialidade médica. Desde a política do “Panis et circenses” ao tempo do Império Romano (que buscava distrair o povo para os problemas sociais de então), percebe-se que celebrar é uma poderosa maneira de dar vazão à alegria por estar vivo, comemorar um diploma, uma conquista profissional ou social, casamento, etc.

Expressar contentamento em público faz parte do modo ser da humanidade, em todos rincões do planeta. Nós, da montagem da estrutura, no nosso caso — sonorização e iluminação — chegamos antes e saímos depois. Enfrentamos condições difíceis que vão desde restrições à livre circulação por motivos de segurança ou materiais, corredores estreitos e escadarias íngremes.

Humberto e eu, somos como os feirantes, os trabalhadores de circo (outras tradições de origem antiga) ou os povos nômades, em que os acampamentos são armados por algum tempo em determinado lugar para, logo após, irmos embora. Afora registros como filmagem e fotos, quase não deixamos prova que construímos alguma coisa. Nessa conjuntura, lembranças são substâncias de apelo tão fluido quanto pessoal.

No final, quando desmontamos o acampamento e carregamos os equipamentos de nosso métier, resta-nos relaxar pelo trabalho bem cumprido e poder apreciar paisagens como a que mostro aqui, junto à Represa de Guarapiranga, onde havíamos acabado de realizar uma festa de formatura. Era um sábado, entrava o horário de verão e senti, naquele momento, que presenciava uma imagem como se fora o alvorecer do mundo. A ilusão seria mais completa se torres feitas pelas mãos dos homens não interferissem na paisagem. 

*Texto de outubro de 2012