03 / 02 / 2025 / Nota De Esclarecimento Fúnebre*

Em 02 de fevereiro de 2018*, escrevi:

“Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim o meu pai, quase um homônimo — Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar para um romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Um abraço forte em todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.

06 / 01 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Melhores Momentos

Retrospectiva de trás para frente, ontem, a Fernandinha Torres recebeu um Globo de Ouro por “Eu Ainda Estou Aqui“, filme ao qual assisti no final de 2024, assim como em 1971. Na cena em que os meganhas da Repressão invadem a casa de Eunice Paiva, revi os mesmos sujeitos que entraram porta adentro da nossa casa, muito simples, em busca de provas do envolvimento de meu pai com terroristas. Dois deles o seguravam, um terceiro realizava uma busca. Nada foi encontrado. Fico imaginando o que deve ter acontecido em sua volta às celas do DOI-CODI. Lívia, minha filha mais nova, sentada ao meu lado no cinema, percebeu o aumento dos meus batimentos cardíacos e quando comecei a hiperventilar na cena em que um deles fechou as cortinas. Eu estava lá…

A atuação de Fernanda como Eunice foi bem diferente do que a minha mãe teve. Ela era uma mulher em que a emoção aflorava à pele por qualquer motivo. Eu havia cruzado com Eunice quando Eva Wilma a interpretou em “Feliz Ano Velho“, também baseado em livro de Marcelo Rubens Paiva, filme no qual fiz figuração, em 1986. A história de Eunice e da família Paiva, da Dona Madalena e da nossa família, de tantas outras mães, irmãs, esposas, familiares e amigos ocorreu e até hoje repercute na memória de quem a viveu, não sem algumas lágrimas que brotam intrusas no meio do vazio…

Esta foto mostra alguns componentes do grupo que participa de um dos cursos ministrado por Lunna Guedes, da Scenarium Livros Artesanais. Além de mim, do meu lado está Flávia Côrtes (Farfalla); acima, Roseli Pedroso, do lado dela, Antônia Damásio; acima dela, Lunna Guedes e ao seu lado esquerdo, Isabel Rupaud (Isabeau). Também participam Rozana Gastaldi, Nirlei de Oliveira, Heloisa Helena (HH) e, pontualmente, outras figuras. São pessoas que vibram no sentido da busca do aprimoramento da escrita pessoal, individualmente e no esforço de criação coletiva em algumas das propostas de lançamentos do selo Scenarium. Quando nos reunimos, sinto participar de um conjunto de pessoas que sintonizam a mesma frequência. Alguns dos encontros fizeram muitos dos bons momentos que vivi em 2024.

Algumas das melhores horas que vivo em meus dias têm a participação dos meu companheiros cães, seres também da família. Três deles aparecem nesta imagem — Alexandre, Bethânia e Arya. Todos foram resgatados, incluindo os outros três que não estão na imagem. Além do Bambino, meu neto, em visitas itinerantes, moram conosco minha outra neta, Lolla, Nego Véio e Dominic, a mais veterana. Com eles, aprendo sobre paciência, alegria pueril, humildade e amor.

É comum acontecer de encontrar o Sol nascente a pontuar no horizonte após o meu trabalho que é realizado mormente à noite. A Lua passeia por nossas noites muito mais vezes, mas é comum serem atrapalhadas pelo brilho das luzes da cidade. Em viagens por cidades próximas, a estrada oferece horizontes mais amplos, em cenários que me revigoram ainda que cansado da labuta. Quando tudo dá certo, aproveito para relaxar os olhos da balbúrdia urbana.

A imagem que coloco aqui parece muito com a de cima, não? Bem, a diferença é que foi produzida em um entardecer na minha Periferia. A luz solar tem esse poder de pintar de beleza os eventuais defeitos no perfil irregular das residências, colorindo de amarelo resplandecente onde toca. Fico muitas vezes a observar o crepúsculo até a Terra continuar o seu caminho pelo espaço e a girar sobre o seu eixo, em uma ininterrupta dança astral.

Esta imagem foi produzida hoje. É demonstrativa de momentos muito gostosos em que passo nesse perímetro que fica na parte da frente de casa. A Tânia costuma utilizar essa área também para o plantio de flores e outras plantas artesanais. Ali, temos dois tipos de bananeiras — a nanica e a prata –, mamoeiros, ora-pro-nóbis, ameixeira, limoeiro e um abacateiro em crescimento. Controlado por um vaso, evitará que se desenvolva para além do que o espaço permite. Estar feito um Tarzan periférico entre as plantas me energiza.

Alunar

Alta madrugada, mais ou menos 3h da manhã, desliguei as luzes de casa, mas estranhamente, os móveis permaneceram iluminados por uma cintilação tênue que entrava pelas janelas. Curioso, abri uma delas e vi a Lua projetando o seu brilho prateado sobre tudo. Não resisti e saí para vê-la. Como o céu estava limpo, as estrelas também podiam ser vistas a queimar quietamente no firmamento. As Três Marias permaneciam perfeitamente perfiladas uma ao lado da outra, como por todo o sempre.

Lembrei de minha infância, em que tendo me mudado para a Periferia, tive a oportunidade de começar a apreciá-las de “perto”. Pensei que, nesta vida de momentos fugazes, na quantidade de vezes que deixamos de voltar os nossos olhos para o Eterno. Tentei registrar àquele instante. Como se pode ver, não foi da maneira que queria. Mas talvez a imagem obtida venha a calhar, por sua aparência onírica. Afinal, tudo não passa, mesmo, de um sonho…

BEDA / Meus Anos 50*

Vivo meus anos 50. Mais um pouco, inaugurarei a sétima edição anual da década. Este decênio foi totalmente diferente do que idealizei. E completaria: graças a Deus! Ao final dos meus Anos 40, tive um episódio de saúde que modificou minha interação com a vida. Cinquenta anos em cinco – emblemática frase de Juscelino Kubistchek — apenas emprestava números ao desejo de fazer crescer o país dos Anos 50 — cuja a inauguração de Brasília, no início dos 60, foi um marco. Nestes meus Anos 50 particular, esperarei ter crescido, ao final de tudo, cem anos em dez — a crise hiperglicêmica foi a minha marca inicial, em 2007.

Definir datas como pontos cardinais, com números redondos parece ser uma tentativa para justificar situações que teriam começo e fim, sem causas anteriores e repercussões posteriores — uma espécie de “Big Bang” histórico, assim como anuncia a frase: “nunca antes, neste País…”. O Brasil parece ser uma nação de ciclos, sempre a se repetir, rota sem saída para o mar, com o apoio luxuoso de nossa falta de memória. Tento manter a lembrança daquilo que me levou a enfrentar determinadas situações. Sem isso, não há como saber como cheguei aonde estou. Adotei a imprudência de me arrepender apenas do que não fiz. No mais, apesar da tentação de deixar tudo ao “acaso”, se é que ele existe, sei do rumo que tomei. E das consequências que ele gerou.

O contexto em que vivo os meus Anos 50 tem sido incrível. É como se tivesse aberto os meus olhos apenas agora, nos meados do meu século de vida. Eu me deixei levar pela aventura de amar — dizem que o mocinho morre no final. Eu retomei os estudos, entre compromissos profissionais e pessoais. Lancei o meu primeiro livro e estou prestes a lançar o segundo, dia 25, antes que este Agosto se encerre**. Nunca me senti tão pleno, talvez viva o ápice que todos visitam, antes do fim.

Ainda aguardando as surpresas que me reservam esta era, já vislumbro as possibilidades dos Anos 60. A década histórica do século passado, na qual nasci, foi uma das mais importantes dos 1900. De alguma forma, aglutinou todos as potencialidades que vivemos depois. Marcou mudanças estruturais que ainda repercutem nos dias atuais. Guerras (frias e quentes), luta pelos direitos civis, emancipação da mulher, revoluções político ideológicas e comportamentais, viagem à Lua e a propaganda da ideia do “País do Futuro”, entre tantos fatos possíveis.

Saúdo a todos e a todas que estão chegando aos seus próprios Anos 50. Saberão que a vida ganha frescor, com o início de novos e estimulantes formatos e término de antigos e infrutíferos projetos. Muitas vezes, com pesar, porém com convidativos e bem-vindos significados.

*Texto de 2018

**O livro de contos curtos “RUA 2”, editado pela Scenarium Plural Livros Artesanais, foi lançado em 25 de Agosto de 2018