Magas

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Por onde andam as feiticeiras da nossa cidade?
Magas e bruxas, por onde vocês se esconderam?
Estão com medo de serem acusadas de veleidade?

Caminham pelas ruas tentando esconder as suas idades?
Ocultam a sabedoria das vidas das que as antecederam?
Lutam para não parecerem mulheres de maior qualidade?

Filhas de Merlin, de Circe, de Morgana, de Dubledore e de anônimos
Percorrem campos, vilas, bairros, praças e centros do mundo.
Seres que cantam e labutam e amamentam, usam pseudônimos.
Todas trabalham para a construção de um novo tempo, fecundo.

Sonho de todos os homens, possuí-las em série e quantidade.
Querem dominá-las, dirigir-lhes o caminho, pô-las a parte.
Mas não vencem o espírito, não ultrapassam a sua capacidade
De viver, de amar, de entregar-se e fazer tudo com beleza e arte.

Foto por Pixabay em Pexels.com

45 Anos Atrasado

45
Em 2013

Em um final de semana de setembro de 2013, fui assistir à peça “Zucco” no Teatro da USP, no edifício da Rua Maria Antônia. A trama era centrada na história real de Roberto Succo, “serial killer” italiano que nos anos 80 matou seus pais, cometeu outros crimes e assassinatos, causou pânico e admiração na Europa e foi considerado inimigo público número um na Itália, França e Suíça. As relações entre o indivíduo e a sociedade, a violência, a solidão e a marginalidade contrastavam com os limites de nossas formas de convívio. Os jovens atores de “Zucco”, talvez não soubessem que a liberdade com que interpretaram seus personagens foi resultado de uma luta de várias gerações.

O prédio que abrigava o teatro foi palco de um acontecimento emblemático de nossa História. Lá, nos Anos 60 sediava o curso de Filosofia, da Universidade de São Paulo, antes de se transferir para o nicho na Cidade Universitária, no prédio que estão estabelecidos os cursos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Foi na rua em frente a esse edifício que se deu uma das mais graves colisões entre a esquerda estudantil, representada por seus alunos e pelos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que fica em frente, à época alinhados com o regime militar. Esse episódio foi mais um dos muitos daquele distante 1968, ano divisor de águas, que veio a influir definitivamente nos rumos que o Brasil trilharia a partir dali.

Mesmo com sete anos de idade, pude sentir de perto os reflexos da luta ideológica travada à vista de muitos e pelos “bastidores” e porões do governo. Meu pai estava alinhado ao lado dos “oprimidos” que tencionavam pegar em armas para combater o “Regime de Exceção”, nome poético para designar um governo que “prendia e arrebentava”. Ele foi várias vezes chamado para “interrogatórios” – eventos que duravam algumas semanas. À época, restava a quem se opusesse, além da revolta armada ou protestos públicos, a outra alternativa que se colocava ao cidadãos do País – “Ame-o Ou Deixe-o”. Desde então, com a Abertura, alcançamos a liberdade de expressão, a volta dos exilados, a reintegração destes à vida política da nação, o que deu ensejo a que muitos fossem eleitos para cargos de comando e…

Atualmente, os caminhos dos “combatentes” de esquerda e os “defensores” da direita se confundem em um jogo de palavras que mais se assemelham a peças de propaganda, sem nenhum embasamento em um saudável embate ideológico que vise a real solução para os problemas nacionais. Antes, transformou-se em uma luta pelo poder que visa quase que unicamente a sustentação de um sistema de compadrio entre os ocupantes dos diversos cargos do executivo, legislativo e judiciário. Nesse ambiente, os extremistas de ambas as vertentes se sentem à vontade para embrenharem-se com prazer na extinção da Democracia, entrave para quem não acredita que ela seja o meio mais justo para chegarmos à solução de nossas diferenças.

Cheguei atrasado ou atrasou-se o País?…

Mr. Bonjagles

Mr. Bojangles II
Bill “Bonjagles” Robinson, nascido em 25 de Maio de 1878 e falecido em 25 de Novembro de 1949 (Foto retirada do Pinterest)


Entre os grandes artistas negros que sempre admirei está Sammy Davis Jr. – ator, cantor, dançarino, apresentador. Ele, em uma sociedade de preponderante poderio branco, conseguiu se sobressair com seu talento e ultrapassar as barreiras do preconceito racial, ao ocupar um espaço importante nos veículos de comunicação. Talvez, por ser feio (pela ótica das proporções caucasianas) e baixinho, não fosse visto como ameaça sexual. Aliás, poderia se dizer que, em aparência, apenas figurasse como uma espécie de mascote no “Rat Pack” – grupo masculino formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Peter Lawford, Joey Bishop – artistas muito ativos nos palcos entre os anos 50 e 60, com eventuais aparições femininas de Shirley MacLane, Lauren Bacall e Judy Garlland.

No entanto, o seu imenso talento atraiu a minha atenção juvenil, desde o que o vi pela primeira vez. Ao ouvi-lo cantar, não pude acreditar que aquela voz poderosa e médio-grave fosse entoada por aquele pequeno grande homem. Ao mesmo tempo, o seu olhar enviesado, vesgo, dava a ele um quê de louco. Eu me recordei de Sammy ao ver um vídeo da Shirley Temple, com a participação de Bill Bojangles – grande dançarino negro da primeira metade do século XX – que conseguia, em um espaço mínimo, o maior número de passos de dança e sapateado que seria possível um ser humano realizar. Tanto Bojangles quanto Sammy foram figuras que abriram caminho para a participação do negro no “Show Business” americano. Penetraram na Cultura de Massa com as suas portentosas qualidades. Eles traçaram o tortuoso caminho no qual, em lugar do confronto, preferiram servir ao sistema do entretenimento dos grupos majoritários, mas que impunha, pela maestria, a presença do negro na mídia.

Muitas vezes, para conquistar o espaço que lhe é devido, a estratégia de luta é sorrir, dançar, tocar, cantar, interpretar e atrair pelo engenho a realização de algo em que é aquinhoado com a capacidade de fazer da melhor forma possível. Um artista, acima de tudo, quer mostrar o seu dom, o qual desenvolveu com denodo, treino, suor e aplicação. Sente que tem algo a oferecer e contribuir de alguma forma. O que vem a ser, em muitas das vezes, uma questão de pura sobrevivência.

A canção “Mr. Bojangles”, interpretado de corpo e alma pelo imenso Mr. Davis Jr., vem a demonstrar o quanto este era um artista primoroso. Ele utiliza um exíguo espaço do palco e uma projeção de sombra para encenar a história de uma vida toda. De maneira transversa, interpreta o tema de subjugação a que muitos de nós (e, primordialmente, os negros na sociedade americana) estamos sujeitos para sobrevivermos, ao mesmo tempo que somos acusados de servir ao sistema. Bill “Bojangles” Robinson é lembrado pela contribuição artística que deu a outros expoentes, a incluir Fred Astaire, Lena Horne, os irmãos Nicholas, além de ser reconhecido por utilizar a sua popularidade para desafiar e superar numerosas fronteiras raciais. Apesar disso, foi achacado por aceitar silenciosamente o estereótipo racial da época que viveu. Apesar de ser o artista negro mais bem pago dos anos 20, 30 e 40, morreu pobre, em 1949, e seu funeral foi pago pelo amigo de longa data, Ed Sullivan.

Eu me emociono, a toda oportunidade que assisto este clipe…