Por onde andam as feiticeiras da nossa cidade? Magas e bruxas, por onde vocês se esconderam? Estão com medo de serem acusadas de veleidade?
Caminham pelas ruas tentando esconder as suas idades? Ocultam a sabedoria das vidas das que as antecederam? Lutam para não parecerem mulheres de maior qualidade?
Filhas de Merlin, de Circe, de Morgana, de Dubledore e de anônimos Percorrem campos, vilas, bairros, praças e centros do mundo. Seres que cantam e labutam e amamentam, usam pseudônimos. Todas trabalham para a construção de um novo tempo, fecundo.
Sonho de todos os homens, possuí-las em série e quantidade. Querem dominá-las, dirigir-lhes o caminho, pô-las a parte. Mas não vencem o espírito, não ultrapassam a sua capacidade De viver, de amar, de entregar-se e fazer tudo com beleza e arte.
Ontem, no ônibus, vivi uma cena de cinema ou um trecho de livro de ficção. Não foi um acidente, uma correria, tiros de arma de fogo ou explosão, uma luta coreografada ou um beijo impetuoso e desavergonhado. Mais próximo de uma história ficcional, o acontecimento foi proporcionado por dois jovens pretos, vestindo chinelos, calções e camisetas, sentados lado a lado no banco à minha esquerda. Ouviam, provavelmente, um rap no celular – o que só pude depreender pelo acompanhamento ritmado de seus pés – visto que os dois dividiam os fones de ouvido, o que, por si só já era um fato inesperado, porquanto o mais comum de acontecer é depararmos com indivíduos que fazem questão de partilhar o seu gosto musical com todos a sua volta em volume acima do aceitável.
O mais jovem, que talvez tivesse 12 anos, perguntou como se fosse personagem de romance, de forma clara e pausada: “De onde será que vem tanto ódio?”. Ao que o mais velho, que aparentava ter um ou dois anos a mais, talvez seu irmão, respondeu: “Não sei, acho que do coração!… Do coração…”. Após uma pausa, o mais novo, devolveu: “Eu não odeio ninguém! Não tenho isso no meu coração!”.
Desconcertado por esse diálogo deslocado, que mais caberia em um livro de ficção infantil, quase perdi o ponto em que desceria e certamente deixei para trás dois protagonistas inconcebíveis de serem criados por mim, principalmente nesta fase de descrença pela qual eu passo. Esses dois garotos extraordinários, que avançavam a cidade adentro, ouvindo um rap de versos raivosos, são como os anjos imolados todos os dias, que sofrem a influência do meio que vivem, das mazelas humanas que os cercam, dos cultivadores das dores já vividas, que tentam semear em seus corações o ódio que sentem ou o efeito da frustração do que não viveram.
Em vez de tentar construirmos um mundo melhor daqui para frente, muitas vezes com a intenção de denunciar, tentamos reviver o terror daqui para trás. Temos esse direito de transformar seres de corações virgens em rossios semeados de ódio? Quando decretamos que o mundo é ruim e sentimos a necessidade de prepararmos os nossos filhos para ele, não cometemos um erro em deixarmos escorrer veneno nessa orientação e com isso reproduzimos outra pessoa igual a nós, que carregará uma herança maldita desde então? Será que queremos montar um exército de crianças soldados de uma luta já perdida por nós?
Em um final de semana de setembro de 2013, fui assistir à peça “Zucco” no Teatro da USP, no edifício da Rua Maria Antônia. A trama era centrada na história real de Roberto Succo, “serial killer” italiano que nos anos 80 matou seus pais, cometeu outros crimes e assassinatos, causou pânico e admiração na Europa e foi considerado inimigo público número um na Itália, França e Suíça. As relações entre o indivíduo e a sociedade, a violência, a solidão e a marginalidade contrastavam com os limites de nossas formas de convívio. Os jovens atores de “Zucco”, talvez não soubessem que a liberdade com que interpretaram seus personagens foi resultado de uma luta de várias gerações.
O prédio que abrigava o teatro foi palco de um acontecimento emblemático de nossa História. Lá, nos Anos 60 sediava o curso de Filosofia, da Universidade de São Paulo, antes de se transferir para o nicho na Cidade Universitária, no prédio que estão estabelecidos os cursos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Foi na rua em frente a esse edifício que se deu uma das mais graves colisões entre a esquerda estudantil, representada por seus alunos e pelos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que fica em frente, à época alinhados com o regime militar. Esse episódio foi mais um dos muitos daquele distante 1968, ano divisor de águas, que veio a influir definitivamente nos rumos que o Brasil trilharia a partir dali.
Mesmo com sete anos de idade, pude sentir de perto os reflexos da luta ideológica travada à vista de muitos e pelos “bastidores” e porões do governo. Meu pai estava alinhado ao lado dos “oprimidos” que tencionavam pegar em armas para combater o “Regime de Exceção”, nome poético para designar um governo que “prendia e arrebentava”. Ele foi várias vezes chamado para “interrogatórios” – eventos que duravam algumas semanas. À época, restava a quem se opusesse, além da revolta armada ou protestos públicos, a outra alternativa que se colocava ao cidadãos do País – “Ame-o Ou Deixe-o”. Desde então, com a Abertura, alcançamos a liberdade de expressão, a volta dos exilados, a reintegração destes à vida política da nação, o que deu ensejo a que muitos fossem eleitos para cargos de comando e…
Atualmente, os caminhos dos “combatentes” de esquerda e os “defensores” da direita se confundem em um jogo de palavras que mais se assemelham a peças de propaganda, sem nenhum embasamento em um saudável embate ideológico que vise a real solução para os problemas nacionais. Antes, transformou-se em uma luta pelo poder que visa quase que unicamente a sustentação de um sistema de compadrio entre os ocupantes dos diversos cargos do executivo, legislativo e judiciário. Nesse ambiente, os extremistas de ambas as vertentes se sentem à vontade para embrenharem-se com prazer na extinção da Democracia, entrave para quem não acredita que ela seja o meio mais justo para chegarmos à solução de nossas diferenças.
Bill “Bonjagles” Robinson, nascido em 25 de Maio de 1878 e falecido em 25 de Novembro de 1949 (Foto retirada do Pinterest)
Entre os grandes artistas negros que sempre admirei está Sammy Davis Jr. – ator, cantor, dançarino, apresentador. Ele, em uma sociedade de preponderante poderio branco, conseguiu se sobressair com seu talento e ultrapassar as barreiras do preconceito racial, ao ocupar um espaço importante nos veículos de comunicação. Talvez, por ser feio (pela ótica das proporções caucasianas) e baixinho, não fosse visto como ameaça sexual. Aliás, poderia se dizer que, em aparência, apenas figurasse como uma espécie de mascote no “Rat Pack” – grupo masculino formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Peter Lawford, Joey Bishop – artistas muito ativos nos palcos entre os anos 50 e 60, com eventuais aparições femininas de Shirley MacLane, Lauren Bacall e Judy Garlland.
No entanto, o seu imenso talento atraiu a minha atenção juvenil, desde o que o vi pela primeira vez. Ao ouvi-lo cantar, não pude acreditar que aquela voz poderosa e médio-grave fosse entoada por aquele pequeno grande homem. Ao mesmo tempo, o seu olhar enviesado, vesgo, dava a ele um quê de louco. Eu me recordei de Sammy ao ver um vídeo da Shirley Temple, com a participação de Bill Bojangles – grande dançarino negro da primeira metade do século XX – que conseguia, em um espaço mínimo, o maior número de passos de dança e sapateado que seria possível um ser humano realizar. Tanto Bojangles quanto Sammy foram figuras que abriram caminho para a participação do negro no “Show Business” americano. Penetraram na Cultura de Massa com as suas portentosas qualidades. Eles traçaram o tortuoso caminho no qual, em lugar do confronto, preferiram servir ao sistema do entretenimento dos grupos majoritários, mas que impunha, pela maestria, a presença do negro na mídia.
Muitas vezes, para conquistar o espaço que lhe é devido, a estratégia de luta é sorrir, dançar, tocar, cantar, interpretar e atrair pelo engenho a realização de algo em que é aquinhoado com a capacidade de fazer da melhor forma possível. Um artista, acima de tudo, quer mostrar o seu dom, o qual desenvolveu com denodo, treino, suor e aplicação. Sente que tem algo a oferecer e contribuir de alguma forma. O que vem a ser, em muitas das vezes, uma questão de pura sobrevivência.
A canção “Mr. Bojangles”, interpretado de corpo e alma pelo imenso Mr. Davis Jr., vem a demonstrar o quanto este era um artista primoroso. Ele utiliza um exíguo espaço do palco e uma projeção de sombra para encenar a história de uma vida toda. De maneira transversa, interpreta o tema de subjugação a que muitos de nós (e, primordialmente, os negros na sociedade americana) estamos sujeitos para sobrevivermos, ao mesmo tempo que somos acusados de servir ao sistema. Bill “Bojangles” Robinson é lembrado pela contribuição artística que deu a outros expoentes, a incluir Fred Astaire, Lena Horne, os irmãos Nicholas, além de ser reconhecido por utilizar a sua popularidade para desafiar e superar numerosas fronteiras raciais. Apesar disso, foi achacado por aceitar silenciosamente o estereótipo racial da época que viveu. Apesar de ser o artista negro mais bem pago dos anos 20, 30 e 40, morreu pobre, em 1949, e seu funeral foi pago pelo amigo de longa data, Ed Sullivan.
Eu me emociono, a toda oportunidade que assisto este clipe…