Maricas*

Eu sou maricas! Faço questão de ser, principalmente quando alguém, como o capitão que foi expulso do Exército com desonra, associa o termo a algo ruim. Fui buscar no Dicionário o que significava “maricas”, palavra dita no plural, mesmo que o nomeado seja apenas um homem. Sim, porque necessariamente é relacionado a alguém do sexo masculino que tem um comportamento efeminado. É uma palavra restrita aos contextos informais (ou deveria ser), com sentido pejorativo em todas as suas acepções. Efeminado é usado para menosprezar o sujeito, como se ao revelar toques femininos em sua postura denotasse uma doença moral pelo código da canalhice.

“Maricas” acrescenta em sua descrição: “repleto de covardia e medo; covarde”. Isso contraria tudo o que conheço sobre minha mãe e a grandíssima maioria das mulheres. Tenho certeza que a minha melhor parte herdei de uma mulher: Dona Madalena, minha mãe. As mulheres são a parte forte da sociedade e, certamente, da Biologia. Corajosas como nenhum homem, são responsáveis pela procriação. Socialmente, é muito comum se sentirem sozinhas logo após o parto. Ainda que tenham a ajuda dos machos da espécie, normalmente é delegada elas o cuidado da cria — alimentação, higiene, saúde, aquecimento e carinho. Com honrosas exceções, cada vez maiores, os homens pouco participam desse período inicial, muito importante na formação da pessoa que resultará no desenvolvimento do novo ser.

Múltiplas, quando casadas, além de trabalharem fora de casa para ajudarem no orçamento familiar, as tarefas domésticas igualmente recaem sobre os ombros das companheiras como se fosse preceito irremovível na Tábua da Lei. Comportamento herdado do sistema patriarcal, os homens covardemente se isentam nessas ocasiões. Nas empresas, temerosos de perderem para as mulheres os melhores cargos, continuamente sabotam seus desempenhos e se utilizam do machismo para ganharem mais, ainda que elas exerçam as mesmas funções. Unidos nessas ocasiões, impõem um grande atraso nas relações sociais e empresariais que findam por impedir um melhor desenvolvimento econômico e social para todos nós, como povo e País.

Contanto tivesse o Sr. Ortega durante muito tempo como modelo, algo comum numa relação entre pai e filho, com o passar do tempo fui percebendo o quanto incorporava o seu comportamento machista, incluindo a reprodução de frases que rebaixavam o valor da minha mãe. O amor dela por mim, finalmente me fez ver com clareza que a concepção (surgimento) do macho escroto se dá desde cedo. Por sorte ou natureza pessoal, escapei de objetivar as mulheres como seres de méritos intrinsecamente ligados ao corpo. Sempre as tive como especiais, encantadoras e naturalmente superiores. O que não deixa de ser uma supervalorização, talvez até condescendente. Porém, quando comecei a atravessar a barreira do contato mais íntimo, percebi que são seres complexos, bons ou maus em seus cernes, muitas vezes melhores em muitos aspectos quando querem ser uns ou outros, mas continuamente atraentes para quem não tem medo de encontrar uma inimiga espetacular ou apreciar uma amiga sensacional.

Como nunca me ative a estereótipos e gostava de ajudar a minha mãe em quase tudo nas tarefas caseiras, pude perceber que não há trabalho mais pesado do que manter uma casa funcional e em ordem. Gosto de cozinhar, lavar a louça, limpar a casa, cuidar do jardim e dos bichos. Eu me encanto com a beleza das flores e faço vozinhas diferentes para falar com os peludos. Dona Madalena me estimulou a gostar de ler, de cantar, a dar valor às coisas belas. Ela me recitava poemas, o que me incentivou a escrever. Ela me tornou uma pessoa melhor e um homem melhor. Ou seja, um maricas, com toda a honra!

*Texto de novembro de 2020, quando a quem chamo de Ignominioso proferiu mais uma das declarações demeritórias ao cargo que ocupa, chamando a quem enfrenta a Pandemia de Covid-19 atendendo aos protocolos sanitários — uso de máscaras, distanciamento social — de maricas.

Sem Rodeios*

Estádio do Morumbi / Cícero Pompeu de Toledo

SEM RODEIOS

As minhas interlocutoras me pedem: “Pai, fale sem rodeios!”…

Respondi com outra pergunta: “Vocês acham que faço muitos rodeios para falar?”…

Não precisei ouvir a resposta, que, aliás, foram risadas de escárnio carinhoso, como só pessoas que são amadas incondicionalmente dão sem temerem represálias. Eu mesmo respondo: sou um homem que faz muitos rodeios. E isso não é algo novo em minha história.

Para nascer, a fórceps, fiz rodeio… Aliás, havia rodado pela barriga da minha mãe e me encontrava invertido. No começo da adolescência, fiz tantos rodeios para dizer que amava uma coleguinha de escola que depois a vi beijando outro rapaz… No entanto, foi por volta dos meus 14 anos que talvez tenha feito o meu maior rodeio…

Eu e mais dois amigos com os quais jogava futebol, decidimos fazer um teste no São Paulo Futebol Clube, meu clube do coração. Nunca fui um jogador notável. Não nasci com a habilidade natural para o jogo que muitos meninos demonstram desde cedo. Mas era aplicado e tinha visão estratégica do jogo. Na falta de outras capacidades, achava que isso deveria bastar para chamar atenção dos selecionadores.

Ao contrário dos dias atuais, o acesso à informação não era tão fácil e por não sabermos onde poderíamos fazer a “peneira”, decidimos nos dirigir ao Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no longínquo bairro do Morumbi, principalmente para quem morava do outro lado da cidade, como nós.

Ao chegarmos à região do Clube, não soubemos com quem falar sobre o que pretendíamos. Na verdade, creio que ficamos intimidados diante do “gigante de concreto armado” e decidimos caminhar junto ao muro que o cercava e o rodeamos inteiramente. A circunavegação por nossos sonhos durou cerca de uma hora, mais ou menos… Talvez pudéssemos ver alguma movimentação em algumas das várias entradas, perceber algum garoto da nossa idade vestindo um uniforme de jogador… sei lá…

O que sei é que voltamos para a casa sem termos coragem de pedir alguma orientação a algum funcionário ou mesmo a algum transeunte. Eu, pessoalmente, já míope desde os 12 anos, escudado no conhecimento de que Pelé era igualmente falho de olhos, já havia ultrapassado a minha cota de ousadia apenas pelo fato de acompanhar os meus dois colegas naquela empreitada…

Poderia continuar a descrever várias ocasiões em que fiz rodeios intermináveis para chegar a algum lugar. Em uma dessas situações, não fosse pela mãe das meninas me imprensar contra a geladeira, eu provavelmente não estaria aqui para contar esta história para as minhas filhas…

Texto de 2016*

Bambino & Eu

Bambino & Eu

EU

Eu não tenho escrito tanto quanto gostaria, ainda que os temas passem diante dos meus olhos em todos os sentidos, como citadinos caminhantes nos amplos calçadões do Centrão. Eu já testemunhei cachorros mais conscientes de seu destino do que algumas pessoas. Entre elas, estaria eu. Aos outros, os observo, os absorvo, mas não os testifico em tela ou papel. Tenho me dedicado mais a realizar projetos caseiros, a montar e desmontar coisas, fazer exercícios de permanência material, erguer um jardim, pintar ou destruir uma parede. Leio esparsamente. Quando paro diante do computador, comento aqui e ali nas redes sociais. No ano passado, tomei estranhas decisões, como enviar saudações de aniversários a todos que nasceram em outubro — mês do meu aniversário — depois de ficar um tempão sem prestar atenção a isso. Foram desafios inúteis, mas inescapáveis, sob o risco da sensação que sofreria uma pesada represália (seria do deus Zuckerberg?): delírio pandêmico?… De toda a forma, estou preso a meus pés e minhas mãos não me libertam…

BAMBINO

A minha mãe foi para um lugar distante chamado Bahia. Ela me deixou com o meu avô. Eu gosto dele, mas além de mim, ele tem que cuidar das outras filhas e netas. Na casa de minha mãe, eu era tratado como um rei. Na verdade, lá, sou chamado de “Princeso”. Será que isso se deve ao fato de eu ter sido castrado? Ou por que sou delicado e assustado? Quando vim para cá, vomitei quatro vezes no carro. O meu avô ficou comigo o tempo todo com um saco para que não sujasse o banco. Ao chegar, ainda vomitei mais uma vez. Mas agora estou bem, mas parece que quem não está é ele. Eu o vejo triste, caminhando de um lugar ao outro, sem se demorar em cada canto. Muitas vezes, quando para, sem muito entusiasmo, fica diante de um objeto estranho, dando dedilhadas espaçadas. Antes, ficava um tempão batucando naquilo. Quando terminava, apresentava um sorriso no rosto…

Quanto ao medo de andar de carro, minhas tias e ele, os ouvi tentando interpretar a razão desse meu sintoma. Especularam que seria pelo fato de ter sido abandonado pelo antigo cuidador, que me deixou na estrada, após eu ter dado um passeio que achava que fosse para o parque. Eu não sei… esqueci. Assim como é uma lembrança vaga o canil em que estava ter sido atacado por uma onça… Malditos gatos!

O amor é um curativo muito bom para essas coisas…  

Breve História De Uma Paixão*

Bento & Penélope

A minha irmã, Marisol — em busca da nossa poodle Sandy que sumira — em suas andanças pelas ruas do bairro, acabou por recolher dois outros cães. Passado um ano da passagem da minha mãe, cuidadora de bichos durante toda a sua vida, ela começou a desenvolver um comportamento similar e nunca deixou de procurar a companheira constante de Dona Madalena. A Sandy esperava o dia inteiro no portão a volta da minha mãe de sua última internação (o que nunca ocorreu) e, um dia, desapareceu ser deixar vestígios. Vizinha separada por um portão, para não misturarmos os cachorros do lado dela (são cinco) com as cadelas do meu lado (quatro), os encontrou no dia de São Bento. Católica fervorosa, a Marisol nomeou a um deles em homenagem do santo. Bento, provavelmente abandonado por causa de uma paralisia dos membros posteriores, só consegue andar por algum tempo com o uso constante de remédios. Boa parte do dia, ele mal consegue se deslocar. Mas isso não o impediu que transpusesse o portão e tentasse encontrar a Penélope — labradora grande e acima do peso — no cio. Este chamado da natureza foi poderoso o suficiente para propiciar o registro dessa paixão.

*Texto de 2011

BEDA / Scenarium / Para Depois De Amanhã*

Quase como se fora um concurso desses que acontecem na TV, nós, os participantes do curso, combinamos de realizar encontros em que faríamos, cada um de nós, uma especialidade da culinária que tivesse marcado a nossa vida. A ideia se desenvolveu a partir de uma tarefa para desenvolvimento da escrita em primeira pessoa — curso da Lunna — sobre isso. Comecei a buscar na memória, um cheiro ou sabor que trouxesse a carga da infância ou juventude que fosse uma forte referência. De alguma forma, tudo o que ocorre no curto período da nossa mocidade, o que para alguns poderá durar uma existência inteira, enquanto para outros não passa da adolescência ou até menos, parece condensar a formação de nossa personalidade, incluindo o que gostamos de comer.

Para traduzir a minha vivência em apenas um prato, logo de cara me lembrei do prosaico e popular feijão. Gosto tanto de feijão que chego a fazer sanduíche dele, com o tênue azeite como acréscimo, não mais. Para isso, reduzo o caldo de feijão na panela, acrescento o azeite e coloco no pão francês ou de forma. Uma delícia… De outra forma, o acompanhamento do arroz é quase inevitável, mas nem sempre gosto de ambos quentes. Muitas vezes esquento bastante o feijão e acrescento por cima o arroz bem gelado. Única vez que cometo o supremo sacrilégio de não colocar o arroz por baixo ou de lado. Afinal, está na Lei que feijão deve ser sempre posto por cima do arroz.

Objeto da cozinha abolido em alguns países, a panela de pressão é tradição na cozinha brasileira. O próprio soar da válvula a girar loucamente na preparação do feijão, já me levava a saboreá-lo de antemão. A casa recendia àquele olor dos deuses. Após o seu cozimento, minha mãe acrescentava os temperos que davam o toque especial.

— Mãe, como é que deixa o feijão nessa consistência?

— É feijão jalo, meu filho, cozido no tempo certo.

— E essa folha?

— Louro… Junte a ela cebola, alho fritos no óleo de soja. Não esqueça do sal.

Esse diálogo nunca tive com a minha mãe. Apenas refaço o que ela fazia, sem receitas escritas guardadas em caderno. O tempo, senhor dos condimentos, me ajudou a fazer o melhor prato possível para os amigos que compartilhariam da receita de minha personalidade em forma de alimento. Isso, talvez me deixasse inseguro, mas se alguma coisa a idade me ensinou é que nunca ficaria curado dessa insegurança. Muito, porque, me confortava saber-me o mesmo de sempre.

Gostaria de relatar que a Lunna tenha sido a última a chegar, mas a bem da verdade é que às 12h em ponto já havia aportado para o almoço. Há alguém mais irritante do que aquele que cumpre os horários? Marcão e Jane a acompanhavam. Carol, a moça de cabelos vermelhos e portadora do mais belo sorriso, surgiu, diáfana, logo depois, aclamada pelos latidos das peludas que moram em casa. Deviam estar comemorando a chegada de mais uma pessoa para brincar ou sentiam cheiro de gato. Mariana, encapotada por causa do clima bem diferente de onde a mulher-borboleta viera, deve ter se sentido confortável com o ambiente verde que encontrou em casa. Duas borboletinhas vermelhas adejavam em torno de sua cabeça, a recepcioná-la. Isabeau, a mulher mais requintada que conheci, a ponto de não dar ênfase a tanta elegância, chegou com o Lionel e logo espalhava sua jovialidade pela casa.

Para acompanhar o feijão, fiz arroz ao modo de Dona Madalena, acompanhado de macarrão cabelo de anjo quebrado em pequenos pedaços, bem temperado com cebola, alho e sal. Para acompanhar, pepino, alface, tomate, cebola, berinjela, queijo mozarela em pedaços com orégano, ovos cozidos e batatas gratinadas, tudo em separado. Cada um deveria montar a sua salada. Fiz pãezinhos de batata para serem ingeridos antes, com manteiga ou junto com a comida. Evitei apresentar carne branca ou vermelha como “mistura”, como dizemos na Periferia. Mas abri exceção às manjubinhas, acompanhadas de rodelas de limão. Para beber, suco de maracujá colhido em casa. Como sobremesa, doce de banana nanica, também de casa. Após o almoço, as conversas giraram em torno de assuntos que viajavam o planeta e se embrenhavam por terras inóspitas, mas sempre com um traço de humor. Talvez fosse efeito do licor de jenipapo, que rolou solto. Mais tarde, como a despertarmos de um sonho, tomamos café feito no coador, saboroso e docemente amargo, assim como a vida.

*Texto derivado de um exercício do Curso Narrativa Em Primeira Pessoa, ministrado por Lunna Guedes.

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