10 / 01 / 2025 / Retribuição

Quando construímos a casa onde moramos, decidimos preservar duas mangueiras ainda em fase de crescimento, apesar de já estarem já um tanto altas, não tanto quanto hoje. Para isso, para ocuparmos uma área maior na parte de cima da casa, avançamos cerca de um metro, com o uso de “mãos francesas” para isso. Eu já intuía que as plantas fossem seres sencientes, mas quando li “A Vida Secreta Das Plantas“, obtive corroboração através de experimentos realizadas por quem escreveu o livro, dois botânicos: Peter Tompkins e Christopher Bird (que sobrenome incrível!).

Com o tempo e o alargamento de seu tronco principal, fomos adaptando o piso do quintal, assim como realizamos podas necessárias para que se desenvolvesse bem. Como resposta, está firme e forte, de copa ampla, onde abriga pássaros e até morcegos, e toda a mini fauna decorrente dessa estrutura. A produção deste ano está sendo bastante frutífera, para ficar num lugar comum. Não apenas nós a consumimos, mas para quem doamos aqui e ali para quem deseja. Essa retribuição me deixa bem comigo mesmo, o que já é um agrado a mais nessa minha batalha para construir a minha relação benigna com o mundo.

Nessa última imagem, uma manga caída no jardim central, está mordida ou roída por um dos moradores e/ou frequentadores da “nossa” mangueira.

BEDA / Visões No Centro*

A dois dias, tive uma visão! Em pleno Centro de São Paulo, junto à Avenida Duque de Caxias, vi surgirem campinhos de várzea onde antes ficava a antiga e colorida rodoviária que depois se transformara em shopping de roupas. Tirei uma foto para obter uma prova de que aquilo fosse possível. No entanto, os campinhos estavam desocupados. Crianças jogando bola não havia. Adultos, um pouco mais adiante, reuniam-se em torno de uma fogueira feita de lixo fumando os seus cachimbos…

*Texto de 2012

Post Scriptum: Atualmente, lá existe um conjunto residencial. O entorno continua a ser frequentado por moradores em situação de rua. Os cachimbos, onipresentes.

Caramujo*

Em Maio de 2016*, escrevi:
“Assim como o homem ganhou o espaço dos pássaros e aprendeu a voar, no solo adaptou ensinamentos dos companheiros que habitam este planeta para sobreviver. Basta força de vontade, força física e mental. Eu e o Humberto estávamos descarregando o equipamento para o evento de sábado na região da Faria Lima quando avistamos uma grande carroça, com uma tenda adaptada, a se aproximar lentamente, puxada por um homem. Aquela rua sem saída devia ser o local onde estacionavam.

Dentro dela, percebi a movimentação de pelos menos duas pessoas e um cachorro… Imediatamente, entendi que ali estava, além da casa onde aquela família morava, o ponto onde armazenavam o que recolhiam nas ruas da região. O que foi corroborado pelo movimento que presenciei logo depois, quando descarregaram o material reciclável recolhido… Já ouvi se dizer algumas vezes que é feliz o caramujo, que carrega a sua casa nas costas… E o homem, seria também?…”.

Para além da aceitação de um estilo de vida alternativo, o aumento recente dos moradores em situação de rua é devido a perda do trabalho e renda, obrigando-os recorrer a trabalhos ocasionais, os chamados “bicos” ou até, mais radicalmente, a expedientes que os marginalizam, como furtos e assaltos mediante ameaça. Há poucos que, conscientemente, decidem estabelecer a rua como moradia permanente, mas há. A decisão se dá por conflitos familiares ou por uso de entorpecentes que gradativamente os afastam do núcleo familiar.

Eu me lembro que o pessoal da carroça citado no texto se sentia bem à vontade nas condições da sua “moradia”. Mas como sabemos, aprendemos a viver dentro de determinados parâmetros, os piores possíveis, por questão de sobrevivência. A independência tem o seu preço a cobrar, ainda que seja difícil crermos que pouco dinheiro seja imperativo para a liberdade seja bem vivida. Ficar ao largo do Sistema, mesmo que vivendo de suas sobras, acarreta consequências.

Eu me lembro que quis um dia viver fora dos pressupostos que a Sociedade estabeleceu como o ideal — casa, esposa e filhos, trabalho — com férias remuneradas uma vez por ano. Aos 17 anos, quando me perguntavam o que eu seria profissionalmente, respondia pura e simplesmente: Lixeiro. Eu já estava, no final dos anos 70, bastante envolvido nos movimentos que buscavam uma civilização humana mais consciente do destino de Gaia. Anos antes, na primeira vez que li que as florestas eram “recursos econômicos”, fiquei horrorizado por essa visão mercantil que tratava as árvores apenas como material consumível, não como vidas que constituíam biomas, ecossistemas, organismos desenvolvidos.

Sabia, mesmo tão novo, que o Lixo era um recurso inestimável. Apenas não havia interesse empresarial em investir na transformação desse bem de capital em bens de consumo. Atualmente, recolher resíduos recicláveis tornou-se a atividade de um grande número de pessoas que constituem um elo importante na corrente que levará à transformação de nosso estilo de vida predatório para um menos agressivo. Fico a imaginar que, naquela carroça, poderia estar eu e minha pequena família caso eu tivesse enveredado radicalmente pela rua como moradia.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Recortes Urbanos

Recortes são o que não faltam em minha cidade. E cicatrizes. E cada enquadramento resultante das colagens desses recortes têm por trás histórias de pessoas que quase sempre estão representadas por construções, linhas retas mal desenhadas e fios que nos conectam ou nos embaraçam. A minha cidade é a perfeita amálgama de carne, sangue e cimento, com perfume de gasolina.

Do sul ao norte
Impera a nebulosidade
Da nebulosa cidade
De toda a sorte
O clima quente
Se busca a água
Daqui até o Pico do Jaraguá
Que longe, parece indiferente…

Ocupação do Ouvidor” — na Rua do Ouvidor — um ouvidor que não tem ouvidos de ouvir. Trata-se de um velho edifício na região central de São Paulo, junto à Praça da Bandeira. Aparentemente, a maior parte de seus moradores são jovens artistas. Ou eram, há 5 anos antes.

Uma viagem no tempo. Poucos minutos depois de sair da Avenida Paulista, passamos pela Avenida Tiradentes em direção ao final da cidade junto ao Rio Tietê. Pelo menos, era dessa forma que via o habitante de São Paulo no início do Século XX. O Mosteiro da Luz, onde fica o Museu de Arte Sacra, é a única edificação colonial do Século XVIII da cidade a preservar os seus elementos materiais e estrutura originais.

Imagem de uma das vias ferroviárias que cruzam a cidade. A visão se dá a partir de um dos viadutos que liga o Centro à Zona Leste, neste caso, em sentido contrário para a Zona Oeste. Trilhos de trem de alguma forma são icônicos de um tempo em que era a opção mais moderna e inclusiva que tínhamos, depois substituída por ônibus que lutavam por espaço nas ruas já apinhadas de automóveis particulares. Com o advento do Metrô, o transporte por trilhos voltou a ser estimulado, mas não suficientemente, normalmente envolvido em dificuldades que vão de questões burocráticas, geológicas, dificuldade nas desapropriações e corrupção nas licitações.

A região central de São Paulo guarda alguns tesouros visuais com histórias surpreendentes. Com a paulatina instalação de calçadões, ficou mais fácil apreciarmos as linhas arquitetônicas de prédios que atualmente servem a pontos comerciais e escritórios. Até meados do século passado eram usados também para moradia, estando perto das principais atrações da cidade como museus, teatros, incluindo o Municipal, cinemas, restaurantes, salões de dança e de jogos — de boliche a carteados — etc,

Tive a oportunidade nas várias ocasiões em que frequentava edifícios na região central, de poder apreciar o lado B de construções que apresentam facetas diferentes de seus frontispícios. Aqui, podemos observar a concentração das partes traseiras que mostram como as pessoas se organizam da maneira que é possível, normalmente adaptando soluções, literalmente, caseiras. É onde a vida acontece, realmente.


Darlene Regina
 – Mariana Gouveia – Lunna Guedes