busco me encontrar em você que está onde? onde eu me encontro em você? observo às formigas que se reúnem em torno de sua saliva que despencou da boca molhada sou como elas tentando beber de suas afluências carnais sou como a paleta do pintor plena de cores de meu pincel a jorrar na tela entre sucessivos solavancos que projetam veias de anil como se pollock incontrolável fosse a aspergir sêmen colorido em seu corpo de ente ser pessoa mulher em fuga de mim em si momento sentimento emoção violenta que lhe abençoa a existência de fêmea senhora de si em mim a perfurar rasgar-me feito faca cega que me mata me renova em revolucionários movimentos de subversão múltiplas versões de nós espelhares — tesão teso peso uso confuso escuso difuso intruso abuso de poder vil sem saídas apenas entradas e bandeiras morte de etnias da terra nova dominação e danação em invasões de tabas arrasadas não é amor é horror de querer tanto que se quer partir e partir-se em pedaços e espaços onde você ocuparia toda a extensão de vazios e nadas por onde descaminho perdido em viagem interrompida pela via láctea derramada de flores florestas de estrelas frias e solidão…
Qual a graça? Estar grato por ser amado, eu, um sujeito tão ferido? Contraditório desde o início, que oscila entre a descrença no amor e por chorar a cada canção de coração partido? Por admirar a sua fala ou quando cala, o seu sorriso? Ou quando chora, se desmancha, enquanto rio de tamanha candura? Quando, mesmo no escuro, vejo o brilho dos seus olhos faiscantes de desejo? Sim, sou grato! Grato por sentir o seu amor e por amar estar consigo quando podemos nos desnudarmos de vestes e do Tempo… Grato por me fazer sentir que importo a uma mulher tão linda por fora e por dentro e plena de graça que me enleva e me abraça… Eu me lembro de seu corpo a pulsar em contato com o meu e sorrio para a parede como se observasse ali um quadro – A Origem do Mundo. Nosso mundo… De conversas sobre o mundo, nesses momentos, tão distante… Ser gracioso, sou grato por conhecê-la, por você oferecer o seu encanto a mim, suas palavras de apoio, a advertência sincera e franca, porque me ama e agradeço por me apresentar o amor que retribuo em pensamentos amorosos que se espraia pelo campos e rios, céus e vales, montanhas e mares, pela intimidade do Sol de um sentimento tão ofuscante quanto misterioso… Imagem de A Origem Do Mundo (1866), de Gustave Coubet: AP Photo/Francois Mori
Quem é aquela jovem mulher que desce a escada? Olho de novo e busco saber de onde a conheço Busco a bela moça em minha memória escavada Perco-me por dois segundos, desde o fim até o começo
Aquela parece ser minha filha menor, parece ser a caçula Que desce do andar de cima com um novo andar Que deitou menina pequena e acordou qual mulher de fábula Transformada em novo ser, com um novo olhar e menear
Como ocorreu de maneira tão célere essa passagem? De bebê à criança, à menina, à moça, até ser mulher? Como se deu a consumação desses dias em voragem? Qual o nome da força que mal consigo, por um instante, conter?
Será a vida, irrefreável e absoluta, que nos coloca o prumo? Será o tempo, impassível e frio, como um rio a transbordar? Já antevejo o dia em que a levarei ao altar, para um novo rumo E o ciclo a se completar, tendo no colo o futuro a me recordar…
Estávamos no carro… em mão contrária a ela — que parou, enxugou o suor da testa e olhou em nossa direção. Eu me senti diretamente atingido por seu olhar. De repente, me vi intimidado pela força da cena que presenciávamos. Atrás de si, se estendia uma fila imensa de automóveis, que esperavam que ela se movesse tão depressa quanto possível, dada a sua condição. A mulher talvez tivesse quarenta anos, mas as mechas de cabelos brancos e desgrenhados denunciavam mais. Era magra, devia pesar uns 55 quilos e carregava pelo menos 200 quilos de papel, papelão, lata e plástico… na imensa carroça que puxava. Na verdade, como vinha do acentuado declive da primeira parte da Gal. Penha Brasil, sua tarefa — até aquele momento, em que chegava à parte plana — tinha sido segurar o peso na descida.
O movimento de automóveis naquela hora da manhã desse sábado estava bem intenso, tanto para subir quanto para descer… mas, a lentidão na mão para baixo era provocada por ela. No entanto, não se ouvia qualquer buzina impaciente, nem sequer um semblante tenso nos motoristas que a seguiam. Ao contrário: os paulistanos daquele pedaço da Zona Norte pareciam estar totalmente solidários àquela cidadã, que carregava o seu sustento pelas ruas irregulares. Imaginei que não se sentissem tão diferentes dela, em suas jornadas pessoais para ganhar o pão com o suor do rosto. Quiçá, não se achassem tão corajosos para enfrentar uma tarefa tão dura…
*Texto constante de REALidade, livro de crônicas lançado pela Scenarium Livros Artesanais, participante de BEDA: Blog Every Day August
O texto chamado Amor & Ser suscitou em mim lembranças de quando comecei a me interessar mais profundamente sobre Literatura e sobre o processo da criação da escrita. Mesmo porque a escrita se tornou para mim uma espécie de “imperativo categórico” –necessária por si mesma. Com a ação contínua, comecei a perceber que era através dela que eu me reconhecia ao reconhecer que caminhava por padrões da arte humana. Tudo passou a me interessar.
Em resposta ao texto, a Lunna falou sobre a criação de classificações de categorias e subcategorias para o amor, com regras distintas para homens e mulheres. O amor romântico, o amor de mãe, o amor de amigo – que cria ser um problema. Eu acabei por retomar os princípios desse tipo de expressão, principalmente na tradição do Trovadorismo português, mas não só, já que foi um movimento relevante do Século XII ao XIV em toda a Europa.
“A Linguagem do Trovadorismo é musical, poética, popular, dialógica, crítica, lírica e satírica. Os trovadores eram os autores das cantigas, enquanto os jograis eram os cantores. Já os menestréis, além de cantarem, tocavam as músicas, as quais eram acompanhadas por alaúdes, violas e flautas. Em meio ao contexto do Feudalismo, o Teocentrismo (Deus como centro do mundo) foi sua principal característica. Em Portugal, o Trovadorismo tem início em 1189 (ou 1198) com a publicação da Canção Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós. Esse movimento literário vai até 1434, quando começa o Humanismo”. (https://www.todamateria.com.br/cantigas-trovadorescas/)
As Cantigas Líricas se dividiam em cantigas de amor e cantigas de amigo. As Cantigas Satíricas, em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer. Na prosa são subdivididas em Novelas ou Romances de Cavalaria, versando sobre relatos de heróis e seus cavaleiros. Nobiliários ou Livros de Linhagem, sobre árvores genealógicas de nobres. Hagiografias, sobre biografias de santos. Cronicões, que detalhava narrativas históricas.
Mas o que me interessava mais intensamente eram as Cantigas de Amor e de Amigo. Os compositores dessas cantigas se apresentavam como homens, mas na primeira vertente o eu poético era masculino, enquanto que na segunda, feminino. Característico do Patriarcalismo português, o homem tinha esse privilégio de expressar o seu amor de uma maneira mais aberta do que a mulher. Mas não duvido que mulheres viessem a criá-las sob pseudônimos – uma possibilidade que creio ser um fato – ainda que improvável documentalmente. Li certa vez poemas dessa época feitos por freiras que devotavam seu amor ao noivo – Jesus. A linguagem era claramente erótica, bem construída. Se retirássemos o endereçamento à figura de Cristo, faria corar o Nazareno pregado na cruz.
A influência do Trovadorismo em Portugal persistiu a ponto de o Fado, gênero musical português por excelência, carregar muito de sua melancolia nas canções de amor “que nem às paredes confesso”. Essa influência reverberou no Brasil com as Cantigas de Amor, que “são escritas em primeira pessoa do singular (eu). Nelas, o eu lírico, ou seja, o sujeito fictício que dá voz à poesia, declara seu amor a uma dama, tendo como pano de fundo o formalismo do ambiente palaciano. É por este motivo que ele se dirige a ela, chamando-a de senhora”. Em minha educação sentimental, as músicas que me influenciaram tinham muito desse distanciamento em relação ao objeto amado. Quanto mais impossíveis os romances, mais atraentes. Sentimento que levei para a vida prática. A minha timidez me auxiliou nesse afastamento.
Ao acessar o Spotify, apareceu com uma das sugestões, o álbum lançado em 1971 de Roberto Carlos. A minha mãe fez questão de comprar esse disco para tocar na nossa eletrola portátil. Eu o ouvia sempre que podia. Uma das canções que me pegou pelo lado sentimental um tanto passadista, mas muito intenso no pré-adolescente de 10 anos foi “De Tanto Amor”. Eu já observava as meninas que me encantavam de uma forma que as colocava num pedestal, sublimes, inatingíveis. A reprodução “De Tanto Amor” que escolhi quem a canta é Nando Reis, que sofreu como eu a inspiração do romantismo avassalador de RC, contemporâneos que somos. Quem os considera um tanto “brega” não está distante da verdade. Mas não passo vergonha. Traçando um paralelo sobre o sentimentalismo musical desbragado para a Literatura de qualidade reconhecida, chamo Álvaro de Campos, versando sobre o sentimento mais cantado no mundo:
Todas as cartas de amor são ridículas
Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)