1º / 12 / 2025 / MULHERES – CAUSA MORTIS – HOMENS

Eu nunca desejei matar ninguém. Mas sou culpado por pertencer ao gênero que tem matado mulheres por serem mulheres, principalmente àquelas que ousam serem emancipadas do comando do homem. Eu sempre achei estranho o uso de expressões como sexo oposto ou frágil, acostumado que fui ao ver mulheres serem fortes o suficiente para criarem filhos sozinhas, muitas vezes longe do auxílio masculino.

Não deixou de acontecer que muitas comunidades tivessem a mulher erigindo o Matriarcado em oposição ao Patriarcado. Mas o fato de o homem normalmente possuir maior força física o colocou como protetor das primeiras comunidades humanas, lhe dando o “direito” de ser o “chefe” do núcleo familiar na maioria das sociedades humanas.

Essa proeminência ao longo dos séculos gerou um sistema baseado mais na força motriz do que na inteligência. Mas também essa “reserva de mercado” precisava ser protegida da participação feminina. Dessa maneira foi interditado que mulheres aprendessem as letras, que estudassem ou que tivessem ideias originais. E quando as tinham, muitas delas foram surrupiadas pelos machos da espécie.

Quando algumas começaram a renunciar participar como reprodutoras numa sociedade que as viam apenas como tal, o sistema apregoou leis religiosas que preconizavam a condenação a alienação, ao ostracismo ou degredo social. E é claro que era “ele”, o “deus” que assim designava através de seus seguidores masculinos.

Como já explanou Contardo Calligaris, as sociedades humanas foram fundadas no ódio à mulher, muitas vezes associadas ao mal. Como está registrado nas escrituras enviadas diretamente aos homens. Se conscientemente se isolassem, vivessem distantes ou fossem autônomas, eram tachadas como bruxas, seres degenerados.

O que vivemos atualmente — uma espécie de pandemia de tentativas ou consumação de feminicídios — é quase como um retorno ao obscurantismo da Idade Média. Tenho por mim que a trajetória política de um certo personagem que veio a se tornar governante no Brasil deu ensejo a que muitos homens assumissem suas tortuosas posturas retrógradas, já que havia chegado ao poder um representante de suas ideias e preconceitos.

Nos últimos anos, houve um crescimento exponencial de crimes contra mais da metade da população humana, representada pelas fêmeas da espécie. A outra metade que a assassina não deixa de criar formas diferentes de torturá-las, humilhá-las e executá-las à luz do dia. Não tem como apagar da página da História que descemos ao mais baixo nível civilizatório neste quadrante. Um quarto deste novo século está se encerrando demonstrando que é sempre possível retrocedermos à barbárie humana mais primitiva desta era sombria.

Foto por Maisa Borges em Pexels.com

27 / 10 / 2025 / A Que Encerra

A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…

Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Maria aos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.

Lolla Maria

O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.

Lívia & Pablo em seu apartamento

Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!

Elebonde em ação…

13 / 09 / 2025 / A Celebração Da Feminilidade*

Em nosso trabalho com a Ortega Luz & Som, vivemos momentos que nos marcam de uma forma ou de outra, principalmente quando envolve movimentos que nos deslocam para sensações inéditas e, muitas vezes profundas. Sobre a imagem acima, escrevi:

“Ontem, como estava há quatro dias ‘virando’ de um evento para outro, não estranhei que me sentisse em um sonho quando começou o cortejo dos candelabros conduzidos pelas bailarinas do grupo de Nazira Izumi. Ao adentrarem ao “Picadeiro”, com o auxílio generoso da bela trilha sonora, o clima da apresentação pareceu o de uma reunião de modernas bruxas na floresta, a homenagear os mistérios femininos. Cumpriu a nós, expectadores, apenas nos deixarmos levar pela beleza dos movimentos ritmados…”.

Eu sou um homem que ama as mulheres em sua profundidade e força. Quando acontece de encontrarmos a celebração de seus mistérios de maneira explícita, ainda de que forma delicadamente artística, mais poderosa ela se mostra. Foi o que aconteceu no dia 11 de setembro de 2016*. Publicado no dia 12 de setembro do mesmo ano, reproduzo neste blogue como a relembrar o quanto homenageio quando a minha atividade me traz prazer de alguma ordem.

02 / 08 / 2025 / BEDA / Agosto

O mês de Agosto é um dos meus favoritos. Quase fim de Inverno, auspícios da Primavera e mês que foi decisivo para mim de várias maneiras. Neste dia, há 37 anos, a Tânia e eu começamos a namorar. No dia 12 do ano seguinte, em 1989, nascia a Romy, a primeira das três filhas que tivemos. Optou-se por ser feita uma cesariana, já que não havia dilatação suficiente para que nascesse a criança. A Tânia, insatisfeita com o hospital em que nasceu a nossa menina, pediu para ir para a casa, com 14 horas de operada. Na imagem acima, lá está a Romy sendo cuidada pela mãe e por mim, que não queria deixar de participar desse evento que é cuidar da prole.

Eram experiências que sequer havia imaginado viver um ano antes e que mudou decisivamente a minha vida, justamente perto do Dia dos Pais. Esse não era o caminho que eu queria ter escolhido, antes. Mas abençoo que tenha tomado o rumo que tomei, totalmente diverso. Essa foto foi colocada no grupo da família, gerando comentários graciosos como o da própria Romy que disse que estava sendo cuidada pela caçula, Lívia, muito parecida com a mãe. As três mulheres são unidas entre si e cuidam umas das outras.

Nesse aspecto, apesar de todas as tribulações pelas quais passamos, sou um homem realizado. Ser pai quase me define como ser humano.

10 / 02 / 2025 / 15 Anos*

Raquel,
as mulheres, aos quinze anos,
adquirem alguns poderes…

O poder de concentrar
quinze séculos de paixão
em quinze segundos de olhar…

O poder de paralisar
quinze homens ativos
ao toque de quinze beijos furtivos…

O poder de levar
quinze viajantes à Lua
à vista de seus quinze primeiros passos
dados na rua…

O poder de remover quinze montanhas
à caminho do Mar para mergulhar
em seu desejo de amar…

Mas, enfim, use com cautela
os seus novos poderes
para o bem da rapaziada…

*Versejar encontrado em um papel, de ano indeterminado, em homenagem ao aniversário de uma prima, mas que eu poderia estender a todas as mulheres.

Foto por Connor McManus em Pexels.com