Magas

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Por onde andam as feiticeiras da nossa cidade?
Magas e bruxas, por onde vocês se esconderam?
Estão com medo de serem acusadas de veleidade?

Caminham pelas ruas tentando esconder as suas idades?
Ocultam a sabedoria das vidas das que as antecederam?
Lutam para não parecerem mulheres de maior qualidade?

Filhas de Merlin, de Circe, de Morgana, de Dubledore e de anônimos
Percorrem campos, vilas, bairros, praças e centros do mundo.
Seres que cantam e labutam e amamentam, usam pseudônimos.
Todas trabalham para a construção de um novo tempo, fecundo.

Sonho de todos os homens, possuí-las em série e quantidade.
Querem dominá-las, dirigir-lhes o caminho, pô-las a parte.
Mas não vencem o espírito, não ultrapassam a sua capacidade
De viver, de amar, de entregar-se e fazer tudo com beleza e arte.

Foto por Pixabay em Pexels.com

BEDA / Scenarium / Horizonte

HORIZONTE

Enquanto um pterodátilo carrega o sol no bico para o outro lado do mundo, eu percebo o quanto o manto verde da minha vila foi tomado pelas construções humanas. A antiga fazenda loteada, se transformou em um bairro populoso e com problemas no escoamento do trânsito em suas ruas tortuosas. O que nos salva da aridez total é o horizonte ainda visível a partir de pontos mais elevados, como onde estou. Um dia, no entanto, os edifícios mais altos, que se aproximam à esquerda, começarão definitivamente a fazer parte da paisagem humana e talvez não haja como evitar a extinção dos bichos que passeiam no fundo da minha imaginação…

Beda Scenarium

 

BEDA / Scenarium / Valéria, A Cantora*

VB

O mundo é o palco onde interpretamos os nossos papéis, os mais variados possíveis. Um personagem pode viver situações diversas ao longo de sua atuação e isso vai perfazendo a sua trajetória e moldando a sua caracterização. Por vezes, costumamos acreditar que algumas pessoas já nascem com o sua personalidade formada, o seu papel escrito, com o final traçado. Dessa maneira, fica mais fácil compreendermos uma história, simplificada em seus matizes e percepções. Em outras ocasiões, nos deparamos com personagens incompreensíveis, em argumentos inverossímeis, com desempenhos canastrões. Quando, no entanto, nos encontramos com protagonistas reais, com histórias verdadeiras, muitas vezes dramáticas e que mesmo assim superaram o lugar comum de coadjuvantes na peça, fazendo coro ou escada, isso é tremendamente emocionante. Demonstrando força e talento incomuns, transformam a sua passagem pelo Teatro da Vida em “tour de force” espetacular, emocionando a quem os assiste. É deste modo que eu vejo a Valéria Bezerra.

Há algum tempo não a via. Sabia que passara por um processo doloroso de superação de uma doença grave e que estava voltando, pouco a pouco, a cantar na antiga forma, quando sempre foi considerada uma das melhores cantoras das noites e dias de São Paulo. Tem uma longa história, em passagens por bandas de baile e eventos famosas, como Santa Maria, Réveillon, Primeira Mão, Sammy’s Band e algumas outras. Já atuou em várias casas noturnas e participou de programas de televisão. Acompanho a sua performance há quase trinta anos, inicialmente como fã, como quando a assisti em um show da Banda Santa Maria, do Toninho, pai do André​, atual condutor, no velho Olímpia, com a participação de outros grandes músicos e cantores, como Paula Zamp. E, depois, como locador e técnico de equipamentos na Ortega Luz & Som, quando participei de alguns momentos de sua carreira.

Lembro-me de uma ocasião em que estávamos em uma escola de periferia para apresentarmos um “show room” de formatura. Era um público juvenil e inquieto, talvez até antagônico. Ao lado dela, outro grande comunicador e cantor, Josias Correia, porventura não tivesse percebido a sorte de contar com a presença de espírito da Valéria, que dominou a situação com maestria e soube envolver o público com desenvoltura e perspicácia. Quando ambos terminaram a apresentação, tinham conseguido realizar o trabalho com sucesso.

Em outro ambiente, o Teatro Renault, nos reencontramos e vivenciamos, igualmente, a ocorrência de um fato correlato em seu teor de efervescência. Antes de falar do fato em si, faço questão de ressaltar que a Valéria está voltando a cantar tanto quanto antes. Durante todo o evento, em que se apresentava compondo o Coral & Banda Sant’Anna Show, realizou com perfeição a sua parte e fez mais, auxiliando o seu companheiro, Rafael Ismério, com “backing-vocals” nas ocasiões devidas, algo inusual para tantos cantores hoje em dia. Fez questão de fazer “sala”, que vem a ser uma apresentação para recepcionar o público antes da abertura oficial dos trabalhos, que seriam dirigidos pelo competente Sidney Botelho. É comum alguns artistas não quererem se apresentar além do que são pagos para fazer e não desmereço essa opção, mas ela estava realmente disposta a fazê-lo como quem quer beber um cantil d’água, após uma temporada no deserto. O grande palco e a numerosa plateia pareciam ser detalhes menores, que ela não se importava de enfrentar, ou antes, que estava ansiosa em fazê-lo. Entreteve com habilidade o público e, assim inspirado pela presença da grande cantora, o Rafael também desempenhou muito bem as suas canções. Naquele momento, percebi que o ciclo se completava diante dos meus olhos – a antiga “Diva” e o jovem “crooner” apresentavam o enredo eterno e sempre revivido do encontro das águas do Tempo, com suas experiências pessoais se entrechocando e se misturando. Ambos foram muito aplaudidos e a imponência do teatro emprestava um toque de primazia ao espetáculo.

Bem, vamos ao momento de dramaticidade a que aludi anteriormente. Deixei para o final, porém foi logo no começo da cerimônia. Na entrada dos formandos, soltei “Viva La Vida” e por um erro técnico da minha parte, o computador, em determinado instante, “deu pau”, parando a execução da música. Isso durou um ou dois minutos, ocasião em que alguns poucos do auditório trataram de cobrir o silêncio com murmúrios e vaias. A Valéria, percebendo que precisava intervir, pegou do microfone e começou a cantar para acompanhar o cortejo dos alunos. Resolvido o problema, voltei com a música e agradeci o esforço dela. Pude perceber o quanto os eventos dramáticos, os decisivamente vitais e os evidentemente modestos, são amplificados ou diminuídos pelos atores que os interpretam. Para mim, não existem histórias menores, mas talentos redutores. Não existem aventuras apoteóticas, mas representações magistrais. Não importa o tablado que se dá – na escola pública ou no mais majestoso teatro da cidade. O grande personagem desenvolve o seu papel da melhor forma possível. E a Valéria provou que atua dessa maneira em qualquer palco em que se apresenta – naquele reservado para poucos ou no Mundo – para todos nós…

*Texto de 2014.

 

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium/ No Mundo De 2020

2020

“Soylent Green, que no Brasil foi chamado de No Mundo De 2020 e, em Portugal, de À Beira Do Fim, é um filme estadunidense de 1973, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Charlton Heston, Leigh Taylor-Young e Edward G. Robinson. Vagamente baseado no romance de ficção científica de 1966 Make Room! Make Room!, por Harry Harrison, que combina dois gêneros – policial-processual e ficção científica – trata-se da investigação sobre o assassinato de um homem de negócios rico. Em um planeta Terra com oceanos em extinção e alta umidade durante todo o ano, devido ao efeito estufa, resulta em poluição, pobreza, superpopulação, eutanásia e recursos naturais esgotados.

No ano de 2022, a cidade de Nova Iorque conta 40 milhões de habitantes. Para alimentar as inúmeras pessoas pobres e desempregadas, existem tabletes verdes chamados de Soylent Green, produzidos inicialmente através da industrialização de algas. Somente os ricos tem acesso a comidas raras, como carnes, frutas e legumes.

Quando um rico empresário das indústrias Soylent Corporation é assassinado em seu luxuoso apartamento, o detetive policial Robert Thorn começa a investigar. Ele de imediato suspeita do guarda-costas do empresário, que alega ter saído na hora do crime. Após interrogá-lo, Thorn vai ao apartamento do empresário e encontra indícios suspeitos, como uma colher com restos do caríssimo morango. Enquanto Thorn persegue o guarda-costas, seu idoso parceiro, Sol, começa a investigar os registros e papéis do empresário morto. Acaba por descobrir uma verdade estarrecedora sobre o tal tablete verde…” (Adaptado do Wikipédia).

Garotos, eu e meu irmão assistíamos em nossa TV preto e branco a filmes de todos os tipos. Os de ficção científica eram os nossos favoritos. Pessoalmente, comecei a gostar também de assistir a filmes europeus, musicais e noirs americanos. No Mundo De 2020, eu e o Humberto vimos juntos. Foi ele que chamou a minha atenção sobre o tema similar, quando o Capitão desdenhou do Covid-19, além de realçar que 90% dos abatidos pela doença seriam cidadãos acima de 60 anos, quase como a dizer que constituíam uma população “descartável”.

O personagem de Edward G. Robinson, emblematicamente em seu último papel antes de morrer, deseja se despedir dignamente da vida e adere a um programa de incentivo a eutanásia de maneira confortável e indolor enquanto revive em imagens cenas do belo mundo natural que existia antes de se tornar quase inabitável por conta do estilo de vida humano autodestrutivo que o levou ao caos.

Fica difícil cotejar o assunto do filme com a questão de os velhos serem considerados, em conjunto, um peso morto, normalmente usuários de programas assistenciais ou aposentadorias “dispendiosas” sem dar spoiler . Não o farei. O que o Capitão vocalizou, de alguma maneira, faz parte do pensamento de muitos que o elegeram. Ainda que muitos sejam igualmente velhos, que segundo discriminou, são pessoas de 60 anos ou mais. Como o dito cujo tem 65, talvez fosse ocaso dele mesmo pensar em se despedir dignamente da função que exerce por falta de condições em conduzir a administração do País.

Na pesquisa que fiz para rememorar os dados do filme sem parecer distante da mensagem que passa, acabei por encontrar várias informações interessantes. A realidade que mostra, de certa maneira, é o padrão da vida real de boa parte da população mundial – poluição, saneamento básico precário (“acostumada a nadar no esgoto”), escassez alimentar, precariedade de moradia, violência e superpopulação. Enquanto uma outra pequena parcela usufrui de uma estrutura impensável para quem está acostumado a se equilibrar entre a vida e a morte cotidianamente.

A chegada do Covid-19 parece tema de filme distópico, atingindo a todos de forma espraiada-generalizada. Porém nos Estados Unidos ela mostra a sua faceta mais grave ao avançar sobre as populações mais pobres, mormente constituídas por hispânicos e afrodescendentes. Muitos não têm planos particulares e não podem ser atendidos como ocorre no sistema de saúde brasileiro – representado pelo SUS – apesar da precariedade por causa dos escassos recursos muitas vezes desviados ou mal utilizados.

O Mundo De 2020 chegou, em muitos dos aspectos mostrados na produção de 1973, no mundo de 2020. Quando garoto, me assustei com as possibilidades tenebrosas que demonstrariam a tendência autofágica do homem moderno. Desde cedo, percebi o quanto caminhamos, por causa do sistema hegemônico que adotamos no planeta, para um estado irreversível de pobreza material de grande parte da população e de pobreza espiritual da parte que abocanha a maior porção dos recursos da Terra. Porque uns não abririam mão do poder que detêm, enquanto despossuídos almejam alcançar o mesmo poder, “decrescer” é um objetivo inalcançável nesta geração. Tenho por mim que se não desacelerarmos conscientemente, certamente seremos forçados a parar…

 

Beda Scenarium

 

Informações e análises adicionais em:
https://medium.com/ver-mais-text%C3%A3o/no-mundo-de-2020-909f3befcee5