Projeto Fotográfico 6 On 6 / Recortes Urbanos

Recortes são o que não faltam em minha cidade. E cicatrizes. E cada enquadramento resultante das colagens desses recortes têm por trás histórias de pessoas que quase sempre estão representadas por construções, linhas retas mal desenhadas e fios que nos conectam ou nos embaraçam. A minha cidade é a perfeita amálgama de carne, sangue e cimento, com perfume de gasolina.

Do sul ao norte
Impera a nebulosidade
Da nebulosa cidade
De toda a sorte
O clima quente
Se busca a água
Daqui até o Pico do Jaraguá
Que longe, parece indiferente…

Ocupação do Ouvidor” — na Rua do Ouvidor — um ouvidor que não tem ouvidos de ouvir. Trata-se de um velho edifício na região central de São Paulo, junto à Praça da Bandeira. Aparentemente, a maior parte de seus moradores são jovens artistas. Ou eram, há 5 anos antes.

Uma viagem no tempo. Poucos minutos depois de sair da Avenida Paulista, passamos pela Avenida Tiradentes em direção ao final da cidade junto ao Rio Tietê. Pelo menos, era dessa forma que via o habitante de São Paulo no início do Século XX. O Mosteiro da Luz, onde fica o Museu de Arte Sacra, é a única edificação colonial do Século XVIII da cidade a preservar os seus elementos materiais e estrutura originais.

Imagem de uma das vias ferroviárias que cruzam a cidade. A visão se dá a partir de um dos viadutos que liga o Centro à Zona Leste, neste caso, em sentido contrário para a Zona Oeste. Trilhos de trem de alguma forma são icônicos de um tempo em que era a opção mais moderna e inclusiva que tínhamos, depois substituída por ônibus que lutavam por espaço nas ruas já apinhadas de automóveis particulares. Com o advento do Metrô, o transporte por trilhos voltou a ser estimulado, mas não suficientemente, normalmente envolvido em dificuldades que vão de questões burocráticas, geológicas, dificuldade nas desapropriações e corrupção nas licitações.

A região central de São Paulo guarda alguns tesouros visuais com histórias surpreendentes. Com a paulatina instalação de calçadões, ficou mais fácil apreciarmos as linhas arquitetônicas de prédios que atualmente servem a pontos comerciais e escritórios. Até meados do século passado eram usados também para moradia, estando perto das principais atrações da cidade como museus, teatros, incluindo o Municipal, cinemas, restaurantes, salões de dança e de jogos — de boliche a carteados — etc,

Tive a oportunidade nas várias ocasiões em que frequentava edifícios na região central, de poder apreciar o lado B de construções que apresentam facetas diferentes de seus frontispícios. Aqui, podemos observar a concentração das partes traseiras que mostram como as pessoas se organizam da maneira que é possível, normalmente adaptando soluções, literalmente, caseiras. É onde a vida acontece, realmente.


Darlene Regina
 – Mariana Gouveia – Lunna Guedes

Normalidades

Normalidades 5
João Pedro, George e Miguel

Seria falta de empatia ̶ alienação ̶ pouco valor à vida?
Ou algo pior?
Seria esquizofrenia ̶ negação operacional ̶ realidade partida?
Ou algo pior ainda?
Aproveitar a pandemia ̶ virtual genocídio ̶ eugenia?
Eliminar os velhos pensionistas ̶ Seus Juquinhas, Donas Marias?
Mortandade como projeto de governo ̶ equalização de perdas econômicas?
Nosso País a viver o drama do fascismo redivivo ̶ teorias de raças hegemônicas ̶
tiros às dezenas a metralharem jovens pobres e pretos ̶ Joões Pedros ̶
invasão de casas em comunidades, como se fora guetos?
Antes, talvez fosse uma simples operação policial boçal,
mas não ̶ faz parte de um sistema antigo ̶ racismo estrutural.
O mesmo que fez por destino-desdém a branca mão ̶
empurrar o corpo do anjo Miguel do alto até o chão…
No Norte da América, Floyd chama pela mãe ̶ última palavra a dizer…
Sem poder respirar, o homem clama por ar ̶ último desejo antes de morrer…
Talvez se sentisse um rei branco aquele que pressiona, ajoelhado,
o pescoço do homem preto subjugado…
Branca mão no bolso, olhos frios, alheio aos pedidos do entorno, conta mentalmente
o tempo que resta da energia que se esvai do gigante.
Uma morte entre tantas mortes ̶ brutalidade exposta ̶ silenciosamente
a melhor parte de nossa humanidade é atacada na nossa frente.
Devemos erradicar as doenças ̶ aquelas que nos mata em conjunto.
Bem como aquelas que nos mata por dentro, dia-a-dia, miseravelmente.
Afastar de nossa convivência aquele que diz não ser coveiro,
mas negocia armas e meios para produzir defuntos.
Devemos nos precaver das enfermidades sistêmicas ̶ combater os males da alma.
Buscar o caminho correto, andar pela claridade do saber e do discernimento.
Sabemos que a morte ̶ fato da vida ̶ é causa perdida, inevitável…
Viver com medo e precariedade, por imobilismo governamental,
sem ter como nos defender do sofrimento por descaso ativo ̶ intencional ̶
é imperdoável.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Cavaleiros

02 de junho de 2020. Tempo de Pandemia de Covid-19. Quarentena em São Paulo. Data marcada e demarcada. Momento grave no Brasil. Transição política entre o estado democrático de Direito e eventual golpe de Estado provocado por um político do baixo clero que um dia serviu de ponta de lança ao projeto fascista gestado nos ambientes limpos e degenerados de condomínios de luxo e, esdruxulamente, à beira de mesinhas de plástico, regados à caipirinhas e churrascos.

Ao vivo, bebem leite. Seu bando plagia discursos de Goebbels, brandem tochas, vociferam contra as instituições, apoiam símbolos da supremacia branca e a liberação de armas de fogo. Além dos soldados-milicianos, conta com o apoio de simples de mentes e de corações carregados de ódio. De todas as classes. Uns, crentes-descerebrados ativos, inocentes úteis, culpados por serem tão facilmente usados. Outros, isentos, incapazes de ações empáticas com o lado fraco do elo social e, de certa maneira, simpatizantes de ideias de erradicação dos doentes sem atacar a causa — a doença que os geram e sustenta o sistema.

São a favor da desigualdade econômica, das distorções que servem aos senhores de engenho e se esforçam para manter a moenda rodando. No centro de tudo, um ser tacanho. O “cérebro pensante” é externo ao corpo que o move, sem inspiração ou aspirações culturais. O abominável se alimenta do Caos. Baseia-se em modelos que aplainam a Terra, abominam o Conhecimento e a Ciência. Abdica da humanidade como medida ou, radicalmente, absorve o pior que o ser humano já produziu — elucubração de teorias de exceção racial e afirmação da eugenia numa nação que carrega o dom de ser múltipla e miscigenada. Morte de velhos, tratados como tomadores de recursos; erradicação de direitos da massa que acreditam terem nascido para servir; instauração de privilégios dos grandes empresários (“com eles, ganharemos dinheiro”); tomada dos espaços naturais como bens de consumo (“fazer passar a boiada”); (des)governo das mentiras repetidas mil vezes até se tornarem verdades; desrespeito a Democracia ̶ escada para chegar ao poder — do qual não pretende apear.

Eis um dos cavaleiros do Apocalipse — a Peste. Aquele que se diz superior, beija os pés do grande irmão do Norte e, por ele se orienta ao sul do hemisfério Sul — cucaracha de estimação, cão amestrado que lhe lambe a mão. Programa de exterminação dos bens culturais, do sentimento de igualdade cidadã e da união na pluralidade de identidades. Desejo de extirpar oposições, afastar aquilo que o inferioriza — quase tudo que o rodeia. Revela-se grande somente aos seus seguidores de seita, sem perceber que joga o País na conflagração. Satisfação máxima de quem não tem nada a perder, a não ser sua prole — iguais a ele, reprodução dos outros três cavaleiros do Apocalipse — Guerra, Fome e Morte.

Que coloquemos um basta: a tolerância não deve servir aos intolerantes.

Imagem: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887)