Espelho E Sombra

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Estou diante do espelho,
face redescoberta a cada mirada-admiro-me,
insensatez à flor da pele –
reflexo do segundo passado
que se diz presente.
Abro passagem para que meus olhos apreciem
o anteparo em branco.

O que percebo é – ao mesmo tempo –
imagem e contra imagem,
espelho e miragem
visão e ilusão,
perda e aquisição.

Apreendo pelo olhar,
o corpo pela projeção:
luz-objeto – espelho-parede,
sombra-dureza – matéria-evanescente:
interpretação sensorial,
deleite da percepção.

Anteponho
a arte involuntária e bela
à verdade feia da realidade arquitetada…
Fonte de devaneios e viagens circulares,
enveredo pelos descaminhos
e me perco no ponto infinito
do que nunca foi,
ainda que seja…

Morreria feliz se fosse agora…

… 7, 8!

7, 8!
Giovanni Boldini, Dançarina Espanhola no Moulin Rouge

Éramos dois perdidos numa cidade suja.
Nossos caminhos se encontraram – bailarina-cerebrina e espectador-expectador…
Meus olhos a perseguirem seus passos nas esquinas-palcos.
Eu, um solitário, cercado de pessoas e afazeres,
fui beijado por ela em dia de Carnaval diante da porta do trabalho.
Ela brandiu o seu leque, fantasiada de espanhola;
eu, um espanhol fantasiado de ninguém, o roubei…
Apaixonado, atrapalhado, alucinado, amargurado, assustado,
me recusava a olhá-la nos olhos fugidios-furta-cores –
sabia que neles me perderia para sempre…
Ela me amou como sempre me conhecesse;
eu, como se nunca devesse tê-la encontrado – pecado em forma de mulher –
cristão-penitente me a me sentir condenado…

Este-eu-pobre-ridículo-homem-tempo-seco,
enquanto ela era tempestade – raios e trovões em dia claro de sol –
visão oscilante feito miragem de oásis no deserto;
nunca soube ou quis amá-la como deveria
e ela gostaria.
Preferi fugir para um lugar onde sentia frio e dor,
mais confortável do que é amar – ser enganado por meus sentidos – nunca ter certeza de onde estava ou se caminhava ou se flutuava
ou se estava a cair indefinidamente numa fossa abissal…
Consegui sobreviver à vida por ela ofertada.
Preferi passear comigo mesmo em confortável-estável-imutável-roda-gigante
num eterno domingo no parque da morte…
Nos deixamos por mensagens-rompantes-soluços-choros de criança,
sem adeus ou carta de despedida…

BEDA / Scenarium / Carta À Cecília, Mulher Do Olhar Marinho

Cecília

Eu, menino, apaixonado por mulheres, entrei em contato com os seus olhos claros através da revista “O Cruzeiro”, versando sobre seu percurso de escritora. À época, você já havia fechado seu olhar marinho para o mundo, quando eu contava ainda três anos de idade. A foto era em preto e branco, portanto não tinha como saber que fossem azuis-esverdeados, como testemunham que fossem. Não duvido que a depender da luz que incidisse sobre eles, outras cores se somassem – todas as possíveis do arco-íris. Se chegou a vê-los vazios, talvez os revelasse por espelho comum dos dias mais amargos, do coração que não se mostra.

Mulher de valor ímpar, imagino que achasse graça em ver sua face gravada em notas de 100 Cruzeiros, ao tempo de planos econômicos que a transformaram em Cruzados, depois, em Cruzados Novos e, novamente, em Cruzeiros, no processo de desvalorização contínua da nossa economia, até vir se tornar definitivamente item de colecionador de numismática, ciência-irmã das coisas fugidias. Sua obra literária, no entanto, só cresceu em apreciação e relevância, minha cara poeta. Palavras que ultrapassaram as fronteiras da vida comum e da morte física, para estampar a cara da nossa alma. Sua fala poética não emudecerá, jamais.

Confesso que enquanto você falava de Isabéis, Dorotéias e Heliodoras, eu a confundia com Lygia e Clarice, irmãs na língua e na literatura. Leve dislexia de quem foi dado a ler as três quase ao mesmo tempo. Eu, fascinado, tentava decifrar a mulher ainda garoto e me perdi no emaranhado dos pensamentos-sentimentos-emoções humanos mais profundos – perdição da minha vida. Foi-me dado a conhecer que a mulher apresenta fases como a Lua, que ela se pertence antes de eu querer que pertença a mim e, se ou quando ela viesse a me querer, talvez eu não esteja presente para possuí-la. Desde então a soube fugidia-errante – no céu, na rua.

Sobrevivente entre quatro irmãos, filha da esperança e da melancolia de interminável fuso, amou, foi e é amada, por companheiros e leitores. Que soube que o dia se faz, ainda que o sol estivesse encoberto. Que, de modos rebeldes, tornou-se prisioneira do amor por lutar pela liberdade de viver, nem alegre e nem triste, mas poeta. Que desmoronou e edificou a eternidade – não passou, ficou. A você, Cecília, toda a minha admiração por ter vivido pela palavra e ter aprendido com a inconstância das primaveras a deixar-se cortar e a voltar sempre inteira – desejo de todo o ser.

In: Missivas De Agosto – https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/14/carta-a-cecilia-mulher-do-olhar-marinho/

BEDA / O Olhar De Minha Mãe

O OLHAR
O olhar de Dona Madalena

Em Maio de 2014, ao querer prestar uma homenagem escrita ao vigésimo-quinto aniversário de casamento entre mim e a Tânia, postei para ilustrá-la uma foto que coloquei na capa da minha página do Facebook. Nela, estão ao meu lado, em sequência: minha mãe, Maria Madalena e meu pai, Odulio. Ao lado da Tânia, está o seu pai, Seu Manoel, o “Neneco” e, logo em seguida, sua mãe, Dona Floripes. Não sei se há uma etiqueta referente ao posicionamento de pais e noivos, mas a minha neurose obsessiva compulsiva – se bem que leve – fez com que eu cismasse com a disposição trocada de nossos pais e nós. Porém, algo mais me inquietava nessa foto – o olhar de minha mãe em minha direção. E sobre esse olhar, comecei a especular.

Era evidente a alegria dela ao ver ali seu filho perfilado de branco ao lado da noiva, de rosa. Para além daquela clara satisfação, comecei a mergulhar na memória para tentar pinçar todos os motivos para que ela visse, naquele momento específico, a culminação de um desejo que apenas em sua imaginação poderia alcançar. A partir dos doze anos, fui me tornando um garoto difícil de lhe dar. Não no sentido usual – eu não causava preocupação quanto ao meu comportamento fora de casa. Não me envolvia com os garotos complicados da Periferia. A preocupação maior era justamente inversa a toda mãe: em vez de me ver envolvido com a molecagem, era árdua a tarefa de me arrancar da caverna na qual passava a maior parte do meu dia, antes e depois da escola. O máximo de ousadia que me permitia era ter pendurado, em uma das paredes, um cartaz achado no lixo, do álbum de Elton John lançado em 1975 – “Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy”.

Em determinada época, mesmo míope, gostava muito de jogar bola. O perigo que poderia correr advinha das partidas de futebol disputadas em campos de várzea – “os contras” – que acirrados, vez ou outra, acabavam em alguma confusão. Em minha caverna, lia, ouvia rádio e escrevia. Extasiado com as religiões orientalistas, a partir dos dezesseis ou dezessete anos, me tornei vegetariano e desenvolvi a fixação em agir como um monge sem hábito até que, depois dos vinte, acalentei a perspectiva de me tornar um frei franciscano. Fico a imaginar o quanto deve ter se sentido apertado o coração de Dona Madalena ao perceber que não seria avó por meu intermédio. Seu primogênito parecia estar abrindo mão de sê-lo, permanentemente. O meu pai, então, nem se fala. Já afastado de casa naquele momento, desde os meus dezoito anos, quando comecei a usar brincos, duvidava da minha masculinidade, temor acrescido por meu renitente afastamento das mulheres que, francamente, me metiam medo.

Durante uns dois anos, frequentei mais assiduamente a Igreja Católica e tinhas reuniões com o Frei Ricardo, da minha paróquia e o Frei Luiz, do Mosteiro do Largo de São Francisco, que então me orientavam. Cheguei a conhecer o Seminário de Agudos, após o que, confrontado com a possibilidade de ter que esperar mais um ano para iniciar os estudos seminaristas, decidi voltar as minhas energias para o desafio de conhecer a vida comum. O impulso final foi dado por influência de uma maquete feita por um aluno do Seminário, o qual mostrava os vários caminhos para Deus. Nele, se apresentava, entre algumas opções, a formação de uma família.

Dado esse sinal, como rito de passagem tingi o meu cabelo de louro. Fui trabalhar como “roadie” e técnico de iluminação da Banda Charm em um Carnaval no Guarujá, onde logo comecei a me soltar com as meninas, cometendo a suprema ousadia de conversar com algumas delas e até de anotar o telefone de uma simpática moça. Que acabei por esquecer em um canto do palco, enquanto desmontava o equipamento da banda. Não sei o que passou pela mente da minha mãe com essa nova virada. Certamente, havia percebido o quanto eu estava confuso, mas sei que também nunca havia perdido a fé no filho.

Apesar de me sentir inapto para a vida material, ela vivia a repetir que eu era uma boa pessoa, um cara inteligente e que talvez, com a ajuda da mulher certa, conseguisse encontrar o meu caminho. Nesse momento, surgiu a Tânia, “trazida para mim” por minha prima Vanir, que veio à trabalho morar com ela em São Paulo, diretamente do interior do Rio. É bem possível que aquele olhar específico da Dona Madalena, captado pela foto que paralisou no tempo a sua carga emocional, representasse a conclusão daquele capítulo e a boa perspectiva do início de outro, com os grandes desafios inerentes à condição do homem casado que me tornara e de pai, que acabei por me tornar. E, desde sempre, percebo que tem sido o luminoso olhar da minha mãe a me conduzir até aqui e agora, ainda que esteja ausente fisicamente desde 2010…

BEDA / Olhos Menores

Olhos Menores

Apaixonado pelas mulheres, o corpo feminino, muito mais interessante em volumes, formas e detalhes que o masculino, sempre me causaram intensa impressão. Muito tímido, apenas furtivamente os observava mais de perto, já que não conseguia me aproximar de uma moça o suficiente para explorar o que mais me atraia em sua fisionomia – os olhos.

Devido a isso, buscava na segurança das revistas que tinha acesso às imagens de mulheres em poses que supostamente deveriam ser atrativas. Não deixava de percorrer as linhas sinuosas de pés, pernas, ancas e seios… até chegar aos olhos. Se as modelos ou atrizes estivessem vestidas, a intenção (descobri cedo) era estimular a descoberta do que guardava ou adivinhar ilusões do que poderiam ser. E os olhos, normalmente expostos, conseguiam expressar mais do que muitos pretendiam. Isso, quando a maquiagem excessiva não estragava a minha excursão… ou seria incursão?

Nos anos 80, assim como nos 50, as sobrancelhas mais grossas se tornaram a moldura perfeita que, aliada à ebulição dos meus 20 anos, me trouxeram descobertas inestimáveis. Sei que, ao posar, a intenção do olhar seria vender um produto, um sonho, uma ilusão, embalado pela emoção que se tentava passar. Porém, a maestria com que algumas mulheres realizavam essa missão me conduziam à lugares jamais antes visitados… Antes ou depois… Mais velho, talvez tenha vindo a perder aos poucos a capacidade de me perder nos olhos de uma mulher através da imagem.

Outro dia, em um dos Cafés que frequento eventualmente, reencontrei uns olhos do passado. Uma atriz famosa que continuava com o aspecto socialmente aceitável de bela mulher parou à minha frente ao ver o seu caminho obstruído por mim. Eu a reconheci e, inadvertidamente, procurei os seus olhos e os surpreendi menores do que me lembrava por fotos, filmes ou novelas. Pode ser que nunca tenham sido tão imensos, mas os grandes olhos cor de céu pareciam apequenados por processos estéticos que rejuvenesciam a sua face, mas que diminuíam a beleza intangível do oceano que me fez navegar quando moço… Duas visões – passado e presente – imagens em movimento e fixas, quando a vida era mais vibrante porque o meu olhar era virgem…