03 / 11 / 2025 / Blogvember / Deslizar De Alegria Nos Cortes Que O Silêncio Impõe

caminho por ruas calmas de uma primavera indecisa
como são todas primaveras
não é a toa que nasci em outubro
a estação parece mimetizar a minha personalidade em desatino
ou sou eu a imitar suas preferências titubeantes
entre chover ou queimar as cabeças dos transeuntes
com o sol a pino
passo por casas antigas que imitam um tempo passadiço
por algum motivo lembro de minha mãe
deslizo de alegria nos cortes de alegria que o silêncio impõe
numa época que o novo deus é chamado de inteligência artificial
numa delas um velho casal se surpreende por sua cachorrinha vir em minha direção
abanando o rabo como se me conhecesse de outra vida
perguntou a ela (não a mim) se já me conhecia
respondi que talvez tenha reconhecido a minha aura
massageei o seu pescoço de pelo cor de cobre com um carinho paternal
fui pai de outros tantos durante toda a minha vida
que não duvido que ela seja a reencarnação de um deles
mais à frente passo por um jardim composto com requintes de simplicidade
duas rolinhas se posicionam descansando da faina de trazer alimento para os filhotes
parei para observá-las se deixaram fotografar
registrei como quem escreve uma cena de uma tarde que arrefece
entre o tudo e o nada
direciono o meu olhar escolho a composição da página
eternizo o verso e reverso do casal de poesia alada…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

24 / 09 / 2025 / Estrela Do Mar Celeste

Tarde, quase noite,
saí para pescar no mar vermelho
do céu…
Por entre retas paredes de corais
e rochedos de formas estranhas,
balançava a vegetação
ao sabor do vento acidental…
Por fim,
quando já alcançava
o seu refúgio final,
consegui capturar,
através do olhar,
a estrela do mar continental…

14 / 08 / 2025 / BEDA / Incógnito

Ao passar por uma rede social, surgiu para mim uma entrevista de Marília Gabriela com Arnaldo Antunes — ex-componente dos Titãs à época. Logo depois, ele viria a participar dos Tribalistas com Marisa Monte e Carlinhos Brown, outro projeto exitoso. Mas o melhor ficou para o final quando a entrevistadora pergunta: “Arnaldo Antunes por Arnaldo Antunes“. O olhar que o entrevistado fez foi icônico. Aturdido, respondeu que não esperava tal questão e de que não tinha ideia do que poderia responder: “Não sei!”, respondeu finalmente.

Fiquei pensando sobre a minha própria autodefinição e conclui que também não poderia responder decididamente quem eu seria aos meus próprios olhos. As informações que poderia passar são apenas relativas: “estou em busca de equilíbrio físico e mental, me coloco como alguém de tendência política à esquerda, acredito na transcendência do ser e não sou obcecado por dinheiro”. Mas a certeza máxima é de que sou um escritor. Tudo o que acontece ao meu redor presencio como história e vejo as atores como possíveis personagens.

E isso deriva do fato que acredito que o planeta seja um grande cenário em que os seus habitantes participam de uma grande espetáculo. Se há um diretor central e ou se todos nós participamos de uma grande dinâmica coletiva em que somos levados de um lado para o outro por movimentos internos e/ou compartilhados, é algo a se definir. A todo momento surgem supostos líderes que assumem a responsabilidade de comandar o fluxo e refluxo das situações. De modo geral, as forças que engendraram o enredo no qual estamos envolvidos, em dado momento tentou ser guiada por grupos hegemônicos através da violência.

Logo depois do evento Arnaldo Antunes, a Lunna me fez uma pergunta retórica: se eu havia mudado muito de opinião ultimamente. Avaliei que sim. Aliás, surpreendentemente até para mim. Eu me julgava uma pessoa estável em termos de postura, mas no decorrer dos anos, agi de maneiras diferentes do que faria antes em várias ocasiões. Concluí que Raul Seixas acertou quando se proclamou uma “Metamorfose Ambulante” — uma definição que (agora) adoto cabalmente, principalmente porque estou a envelhecer na cidade…

24 / 05 / 2025 / Coqueiros-Lua

Imagem de 2015

A Lua entre coqueiros.
Desta vez, os meus olhos carnais saíram ganhando,
pois puderam apreciar uma imagem mais nítida e evocativa.
Porém, comigo, os olhos da mente também têm vez…
Os três banhados de beleza luminar e placidez.


Tínhamos um belo coqueiro no quintal, visitado por abelhas, maritacas e outros pássaros que, além de nós, se deliciavam com os seus coquinhos amarelinhos, quando maduros Seus cachos viviam carregados, até que um dia… uma senhora, a nos visitar, lançou um olhar indeterminado e exclamou: “Que lindo!”. Na semana seguinte, de forma avassaladora, ele começou a definhar e secou. Tivemos que cortá-lo, já que ficou irrecuperável! Abaixo, podemos ver dois pedaços cortados, que conservamos como lembrança de sua bela existência. 

Imagem de 2012

27 / 04 / 2025 / BEDA / Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a deitar falas
com o seu olhar…

*Poemeto de 2016. A Frida anos depois se encantou… arranhou a porta do Paraíso e entrou…