18 / 03 / 2025 / Transmutação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta —
da flor ao céu —
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente —
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras —
distâncias de centímetros-quilômetros —
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jackyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman —
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…




10 / 02 / 2025 / 15 Anos*

Raquel,
as mulheres, aos quinze anos,
adquirem alguns poderes…

O poder de concentrar
quinze séculos de paixão
em quinze segundos de olhar…

O poder de paralisar
quinze homens ativos
ao toque de quinze beijos furtivos…

O poder de levar
quinze viajantes à Lua
à vista de seus quinze primeiros passos
dados na rua…

O poder de remover quinze montanhas
à caminho do Mar para mergulhar
em seu desejo de amar…

Mas, enfim, use com cautela
os seus novos poderes
para o bem da rapaziada…

*Versejar encontrado em um papel, de ano indeterminado, em homenagem ao aniversário de uma prima, mas que eu poderia estender a todas as mulheres.

Foto por Connor McManus em Pexels.com

Poder Extraordinário

Como não temos controle sobre tudo, jovem imberbe invadi o meu interior com questões existenciais que implicavam em quase total paralisia. Nunca seria eu, por exemplo, a chegar em uma menina na qual estivesse interessado — se bem que todas as mulheres me interessasseem — mas do pior modo. Como se fosse um vampiro que sugaria as suas energias e delas me alimentaria de mistério. Sim, porque a mulher — qualquer uma — carrega essa marca de um poder misterioso que não tem a ver com o poder da criação, ainda que tenha. Ou com o poder da beleza, ainda que seja bela, de uma forma ou de outra. Ou com o poder de apenas num sorriso abrir caminhos como se fosse um trator. Ou com o poder da sedução — não apenas física, ainda que seduza — mas com o misterioso enlace que consegue conceber entre o céu e o inferno, um percurso ao qual ela acessa derrubando as certezas de desavisados. Alguns homens, de tanto amá-las, querem ser como elas. E assim, se transmutam. Alguns homens, cientes que não conseguem alcançá-las, querem sufocá-las e as matam para se sintam donos de suas mortes, já que não podem ser das suas vidas. Entre tantos outros homens, há os como eu, que as amam, apesar de não as entender ou, por isso mesmo, aceitam participar de suas existências apenas para homenageá-las. E reverenciar o poder misterioso que ostentam a cada olhar. Indecifrável para quem não sabe ou não quer enxergar.

Foto por Angela Roma em Pexels.com

BEDA / Abril De 2013 Revisitado

As Rachaduras

Um interessante painel de arte à frente e eu só conseguia olhar para as linhas de rachaduras sinalizadas com giz, marcando o tamanho que apresentavam no túnel do Metrô Consolação, enquanto esperava o trem que me conduziria ao Paraíso. Que mal me assola que me faz olhar para além do que deveria ser o principal alvo de minha atenção? O que me conduz, me condiz?

* Postagem de 2013

A Ilhota

Onde estou?… Em São Paulo, junto à Represa de Guarapiranga. Esta cidade é imensa e plural, onde podemos conviver com a decadência arquitetônica do Centrão por descuido dos administradores ou percorrer caminhos juntos à novos edifícios, construídos feitos Torres de Babel, nas marginais do Rio Pinheiros, poluído e mal cheiroso… ou apreciar a Natureza em todo o seu esplendor de força e beleza, como aqui pode se perceber. — em Clube Atletico Indiano

As Mexeriqueiras

Além da Penélope, Dorô, Domitila e Frida aguardam que eu distribua a mexerica que tanto gostam. Como não tenho certeza sobre o efeito que causam o seu consumo para elas, apenas distribuo um quarto da fruta para cada uma…

Observação: nenhumas delas está mais conosco fisicamente. Até a mexeriqueira deixou de produzir. Mas todas passeiam por nossas lembranças, imagens e coração até que nós também deixemos de atuar neste plano. Em um outro, nos encontraremos, ainda que sejamos somente pura energia compartilhada alhures.

A Intrusa

Cerca de 75% do peso de um músculo de um ser humano é composto por água. O sangue, por sua vez, contém 95% de água, a gordura corporal, 14%, e o tecido ósseo, 22%. Pelos resquícios da festa de ontem, creio que algumas pessoas estão mal informadas a respeito… 

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Mulher De Parar O Trânsito*

Estávamos no carro… em mão contrária a ela — que parou, enxugou o suor da testa e olhou em nossa direção. Eu me senti diretamente atingido por seu olhar. De repente, me vi intimidado pela força da cena que presenciávamos. Atrás de si, se estendia uma fila imensa de automóveis, que esperavam que ela se movesse tão depressa quanto possível, dada a sua condição. A mulher talvez tivesse quarenta anos, mas as mechas de cabelos brancos e desgrenhados denunciavam mais. Era magra, devia pesar uns 55 quilos e carregava pelo menos 200 quilos de papel, papelão, lata e plástico… na imensa carroça que puxava. Na verdade, como vinha do acentuado declive da primeira parte da Gal. Penha Brasil, sua tarefa — até aquele momento, em que chegava à parte plana — tinha sido segurar o peso na descida.

O movimento de automóveis naquela hora da manhã desse sábado estava bem intenso, tanto para subir quanto para descer… mas, a lentidão na mão para baixo era provocada por ela. No entanto, não se ouvia qualquer buzina impaciente, nem sequer um semblante tenso nos motoristas que a seguiam. Ao contrário: os paulistanos daquele pedaço da Zona Norte pareciam estar totalmente solidários àquela cidadã, que carregava o seu sustento pelas ruas irregulares. Imaginei que não se sentissem tão diferentes dela, em suas jornadas pessoais para ganhar o pão com o suor do rosto. Quiçá, não se achassem tão corajosos para enfrentar uma tarefa tão dura…

*Texto constante de REALidade, livro de crônicas lançado pela Scenarium Livros Artesanais, participante de BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi