Mudanças E Permanências

Magdalena depositou a taça de vinho do seu lado, no chão, enquanto revistava mais um dos livros que estava separando para encaixotar. Aquele, era dela, com algumas marcações de trechos que considerou significativo de alguma maneira. Numa coletânea de contos de Machado de Assis, havia sublinhado a frase: “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”.  Bem que gostaria que com ela fosse dessa maneira… Ao contrário, era muito comum vivenciar histórias dentro de histórias. Ela se sentia à vontade em meio a barafunda de referências que colecionava, sabendo separar o que lhe interessava. Naquele momento, pensava no namorado distante fisicamente, morador de outro Estado e… casado — um cantor conhecido. Gostava muito dele e a ausência do homem amado era “compensada” na intimidade de seu quarto por dedos sôfregos e o auxílio de brinquedinhos ao final da noite, antes de dormir, chamando por seu nome… Em meio a tudo isso, organizava a mudança de apartamento, enquanto no trabalho tinha decisões importantes a tomar.

Tinha por característica pessoal conjecturar sobre as situações do cotidiano que, sob a manta da normalidade, abrigavam interpretações mais profundas. Pensava sobre aquele processo em que o relógio da parede tiquetaqueava segundo a segundo o tempo que lhe restava para deixar o seu lar. Sabia que mudanças são o que temos de mais permanente neste mundo. A não ser que o processo seja interrompido. Magdalena lembrava do irmão morto, passagem ainda bastante dolorida. Mudança dimensional. Talvez ainda acreditasse na cura da doença que o levou após um longo e triste período de tentativas em reverter o avanço do mal. Colocar em perspectiva tudo pelo que estava passando, a ajudava a não se afundar na dor que sentia pelo eminente desparto do lugar em que viveu alguns dos fatos mais importantes de sua vida. Principalmente, foi ali que seu filho nasceu, começou a andar, balbuciou as primeiras palavras, aprendeu a desenhar as primeiras letras, a cantar as primeiras musiquinhas, a falar sozinho no espelho, inventando personagens, a fazer dancinhas que criava, a querer se tornar um artista.

Magdalena sabia que a arte era uma das mais sofisticadas linguagens que o ser humano havia criado para a expressão de sua dimensão espiritual. Acabou por se envolver bastante com os caminhos da produção artística e seus criadores, tornando-se produtora de eventos. Seus livros, seus discos, muitos divididos com o ex-marido que viria lhe encontrar para estabelecerem o que iria para um e para outro, marcavam momentos em que construíram vinte anos de casamento. Quando percebeu que a união com Cícero não lhe trazia mais a satisfação da troca prazerosa de antes, decidiu se separar. Algumas de suas atitudes começaram a lhe desagradar, como o de ser excessivamente rigoroso pelo modo de ser de Pedro, além de começar a desviar seu olhar do dela ao ver passar outra mulher.

Separados, os dois mantiveram um bom relacionamento. Permaneceram amigos muito mais por causa dela, que demonstrava maturidade e equilíbrio que quase veio a perder ao saber que logo efetivado o divórcio, engravidou outra mulher depois de uma noitada que mais tarde veio a gerar uma filha, sonho que acalentava enquanto estava casada. Ele nunca quis. Cícero sequer se casou com a moça. Mãe de outra criança, resultado de um breve relacionamento com outro incauto, não queria perder a compensação. Dessa forma, recebia duas pensões alimentícias que lhe garantiam uma vida financeira equilibrada.

O lado bom é que seu filho adorava a irmã, menina bastante sagaz e com um sensível olhar para o mundo. Magdalena gostava de receber a moça de oito anos em sua casa. Conversavam bastante, ela e Bianca. Ela se afligia pelo estilo de vida da mãe, mulher bonita e vaidosa que cria que o mundo se restringia à afetação das redes sociais. Percebia, mesmo tão nova, que a mãe cria que o mundo devesse girar em torno dela. Seu meio-irmão mais velho também se ressentia disso e chegou a dizer para irmã que a mãe se insinuava demais para seus amigos. Amava Pedro e gostava de estar com Magdalena. Espertamente, evitava elogiá-la para a mãe.

Quando Cícero chegou, a apanhou em lágrimas. Ela tinha acabado de ouvir um dos discos favoritos do casal. Vários deles contavam a sua história. A cada lançamento de Alceu Valença, Lenine ou Zeca Baleiro; Chico, Ivan Lins, Djavan ou Zé Ramalho; Caetano, Maria Bethânia ou Gal Costa e Marisa Monte, entre tantos, as histórias em canções derramadas de poesia e paixão, arte e consciência social pontuavam os momentos mais importantes de Magdalena e Cícero.  O amor por Elis Regina os uniu, ao frequentarem os mesmos ambientes.

Antes de girar a chave na porta, ele ainda pode ouvir “Essa menina, essa mulher, essa senhora / Em que esbarro a toda hora / Nos espelhos casuais / É feita de sombra e tanta luz / De tanta lama e tanta cruz / Que acha tudo, natural…”. Eles compraram o disco da Elis que tinha essa canção no início do casamento. Magdalena adorava cantá-la, mas sempre com o sorriso de quem admirava a construção da letra e se solidarizava com a mulher que vivia as contradições de trabalhar fora como artista e em casa, destinada, assim como a mãe, a fazer o papel de trabalhadora doméstica. Depois de vinte anos de casamento, quando voltava a cantá-la, mal conseguia sustentar a voz, entrecortada por soluços.

Foi por essa época que ela decidiu pelo fim do casamento. Ele tentou convencê-la de que com essa atitude viria a perder a qualidade de vida a qual estava acostumada, mas Magdalena se mostrou irredutível. Sua vida ia muito além daquela questão. Passada a vertigem dos primeiros tempos por estar sozinho, percebeu que fora a melhor decisão para os dois. Ela voltou a florescer e ele pode levar uma vida sem tantas demandas, a não ser as ligadas ao filho, que preferiu ficar com ele. Pedro culpava a mãe pela separação, a chamando de egoísta. O adolescente não conseguia entender o porquê da decisão dela pensar mais em si do que nele. Ficaram estremecidos por uns dois anos. Testemunhando as provas do amor nos momentos mais decisivos de sua vida, incluindo o apoio da mãe à vida artística como ator e bailarino, reviu seus posicionamentos, incluindo que a percepção de que o egoísmo ocorrera de sua parte.

Ao vê-la naquela condição, Cícero se aproximou comovido e a abraçou. Agradecendo a vida que tiveram juntos, pediu perdão ao seu ouvido. Ela sorriu e voltou a se lembrar da razão por ter se unido ao pai de seu filho. Ele continuava um homem bonito e embriagada pelo vinho e pelas lembranças que assomavam aos borbotões, se beijaram. Esqueceram os anos passados, as brigas pelo estranhamento crescente entre eles, a falta de cuidado e os carinhos que deixaram de ser feitos de parte a parte. O fogo redivivo espantou aos dois que se sentiram quase incestuosos. O que não impediu que se entregassem com prazer animal um ao outro. É como se voltassem a ser os jovens que se possuíam sempre que podiam, impedidos apenas quando a vida os chamava a comparecer às tarefas cotidianas.

Meia hora depois, exangues sobre livros e capas de LPs, choraram a despedida daquele ponto no Universo aonde foram muito felizes. Em mais uma semana, aquele lugar deveria estar esvaziado. Mas com tanto amor a pintar as paredes, a luz das lâmpadas ofuscadas pelo brilho das pessoas que pisaram aquele assoalho. Recordações de vozes a cantar as músicas preferidas que preenchiam as suas vidas, a de parentes e a de amigos; o espaço preferido de muitos, que nunca mais aportariam naquele que fora o lar do querido casal por duas décadas.

Magdalena e Cícero não se arrependeram daquele instante de eternidade. Sabiam que havia sido um ponto fora da curva temporal, uma singularidade cósmica que pertenceria só a eles. Voltariam para os seus amores. Ele estava gostando muito da nova namorada, ela amava o cantor do Rio. E repisariam as dores pessoais. A dele, porque nunca voltaria a encontrar a Magdalena dos primeiros tempos — forte, destemida, alegre, inteligente — desconhecida a cada nova mulher com a qual ficava. Ela, pela distância que a separava de quem amava e o desejo impossível de passearem como se ele fosse um desconhecido na multidão. Acalentava que vivessem momentos fugidios de amor e entrega, sempre intensos. Apenas. Exausta fisicamente e energizada mentalmente, Magdalena dormiu o sono tranquilo de quem teve um lindo passado, a espera do futuro desafiador de quem nunca temeu o novo.  

Poesia No Cotidiano

Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a espalhar falas
com o seu olhar…

*Homenagem à nossa Frida, amada, querida, que passou há quatro anos, em imagem de 2016

A Rolinha*

Um dia frio,
chuva intermitente…
A sala é um bom lugar
para escrever
um poema ou um livro,
o meu pensamento lá em você,
enquanto um pássaro canta…

As cachorras, adormecem no sofá…
Uma rolinha, a tudo alheia,
castiça,
à escrita e à preguiça,
pelo quintal passeia…
O meu pensamento a acompanha
no compasso do canto do sabiá…

*Escrito em 2015

Magia Na Selva De Pedra*

Noite recente,
a fadinha e o duende
chegam cansados e ocupam
uma mesa vaga.
Ela deposita os seus aros
junto a uma cadeira.
Se senta, a mão no queixo,
solta um suspiro exaurido
de quem voou a esmo.
Ele deixa os malabares no chão,
coça a barba
e olha com certo ar de contrariedade
para a sua companheira de floresta.
Não pedem nada para comer.
Naquele dia,
não conseguiram o dinheiro
necessário sequer para um cafezinho.
Era a faceta mais dura
de viver de magia
em uma Selva de Pedra em crise.
Nos semáforos e esquinas
só receberam sinais
amarelos de impaciência
e vermelhos de raiva…

*Cena-poema de 2016

Imagem: Foto por Tu00fa Nguyu1ec5n em Pexels.com

BEDA / Rachaduras Ou BBB 2022

Há dez anos, em abril de 2013, escrevi sobre a foto acima: “Um interessante painel de arte no túnel do Metrô Consolação e eu só conseguia olhar para as linhas de rachaduras marcadas a giz, sinalizando o tamanho que apresentavam, enquanto esperava o trem que me conduziria ao Paraíso. Que mal me assola que me faz olhar para além do que deveria ser o principal alvo de minha atenção? O que me conduz, me condiz?”

De certa maneira, esmiuçar fatos, verificar repercussões e buscar efeitos por menores que sejam derivados ou mesmo alheios ao acontecimento principal, é um “defeito de meu olhar”. Um dos exemplos que exponho é sobre algo que vejo com interesse sociológico desde que surgiu. No início de sua formulação, assisti a três edições seguidas. Depois, deixei de prestar atenção por anos, mas em 2020 voltei a me interessar por perceber que espelhava um processo político-social para além do que qualquer pesquisa pudesse demonstrar. Afora de ter surgido no bojo da Pandemia de Covid-19. Eu me refiro ao “reality show” Big Brother Brasil ou simplesmente BBB, como passou a ser chamado. Nome formulado a partir do título do incrível 1984, de George Orwell, que retrata uma sociedade controlada e vigiada 24 horas por dia, típico de um regime político opressor.

A ideia do confinar pessoas sem aparentes conexões, de origens socioeconômicas, posicionamentos ideológicos, identidades de gênero e raciais díspares em um mesmo local por meses seguidos, com jogos e imposições aplicadas a partir de regras preliminarmente aceitas por contrato, se bem que os participantes não tenham conhecimento do que seja imposto, configura para mim quase como se fosse a estrutura imposta de fora para dentro em nossa Sociedade, ainda que seja considerada uma Democracia. Esse isolamento deixar quem está confinado alheio aos fatos mais recentes, fazendo com que contem apenas com o suporte de suas experiências pessoais, sem as balizas que normalmente usamos das informações que recebemos dos confrontos ideológicos estremeados a elas pela Mídia. Porém, os seus destinos metaforicamente sofrem a pressão de grupos organizados exteriormente, interessados em alavancar ou enterrar os percursos de cada participante.

Ao contrário de um regime opressor, ninguém chega à Casa por imposição, mas por escolha. O chamariz seria o prêmio em dinheiro, mas ser visto, conhecido e afamado a ponto de alavancar o que queira fazer são outros prêmios menores decorrentes dessa exposição transmitida pela TV o tempo todo ou em edições especiais e programadas. A dinâmica da mútua convivência é potencializada pelas circunstâncias que englobam gradações que refletem referências exteriores — Camarote, para os aquinhoados; Pipoca, para os seres comuns — estipulados muito mais por critérios de penetrabilidade pública do que por capacidade financeira.

Mesmo assim, a simpatia por pessoas conhecidas pode ser algo que pode mudar de acordo com a direção do vento ou humor dos telespectadores que, em última instância (supostamente), são quem decidem os vencedores entre os confinados nos chamados “paredões”. Os “heróis” passam por provas para designar quem irá passar pelo escrutínio do público. O desempenho nessas provas, a depender do olhar do telespectador, pode até angariar simpatia pelos perdedores, a depender de como se dá o embate de forças colocadas em movimento.

O que normalmente acontece na Sociedade de maneira mais velada é estimulada por armadilhas colocadas no caminho dos participantes, como os chamados “jogos da discórdia” que, entre outras, fazem explodir palavras exaltadas que expõem fraturas da convivência diária. A violência física é punida com a morte (expulsão). Ao contrário do que nem sempre acontece no mundo exterior. A alimentação ou a falta dela, mormente para quem vai para a Xepa (em referência aos restos de fim de feira), é um dos outros fatores que estimulam brigas entre “brothers and sisters”, o acaba por me fazer lembrar de uma das frases de minha mãe: “Onde falta comida, todos brigam e ninguém tem razão”.

A edição de 2020 foi reveladora de como as ações aparentemente inocentes de personagens sem relevância social ou política, podem vir a refletir, por uma conjunção de fatores, condições externas ao programa. Comecei a observar a identificação de uma torcida aguerrida por um dos participantes, raiando o fanatismo, por Felipe Prior, que apresentava um comportamento exaltado e bastante identificado com o dos simpatizantes do governo central. No “paredão” entre ele e a cantora Manu Gavazzi, de postura oposta à dele, a votação passou do bilhão de votos. Em proporção bastante equilibrada, o rústico participante foi eliminado, dando a nota do crescimento da rejeição aos posicionamentos ideológicos ligados a ele. Ao final, a vencedora foi a médica preta Thelma Assis, o que revelava a preponderância de ideias mais abertas ao contrário do viés conservador então vigente do público.

Na edição do BBB de 2021, a fórmula de colocar famosos no “reality” causou uma onda de “cancelamentos” em série de pessoas que não estavam acostumadas à pressão de lidar com os choques diários na convivência com pessoas que comumente não contestariam seus comportamentos na Sociedade “aberta”. Presos no mesmo espaço, em situações limites de confronto, a antipatia por alguns participantes chegou a quase 100%, como no caso de Karol Conká em sua eliminação. A possibilidade de poder odiar alguém de forma tão franca, intoxicou o público. Assim como amar desbragadamente a concorrente Juliette Freire, que venceu com mais de 90% dos votos.

Juliette, que passou a ser chamada apenas pelo primeiro nome, atraiu um número enorme de seguidores que a acompanham nas redes sociais e adquirem os produtos que anuncia de forma consistente, incluindo ingressos para temporada de shows como cantora. Ou seja, bem aproveitada, a exposição propiciada pelo BBB, para além do prêmio para o vencedor, se nada de mais de interessante tiver a apresentar, pode catapultar a uma “carreira de celebridade” — algo intangível quando a pessoa é afamada por ser famosa — corriqueiramente se alimentando de citações ou referências midiáticas, ditando modas e/ou se expondo em situações espetaculosas.

A edição deste ano apresenta participantes anódinos, sem o carisma de um Gil do Vigor, por exemplo que, ainda que não tenha vencido a competição passada, conseguiu desenvolver uma carreira sólida fora da “casa mais vigiada do Brasil”. Esse interesse em esmiuçar o comportamento de pessoas colocadas em circunstâncias que desafiam a estabilidade emocional e o equilíbrio mental em um ambiente controlado, mediante estímulos arquitetados para os colocarem em circunstâncias precárias, diz muito sobre como os telespectadores comuns — aqueles que vivem em condições controladas por um sistema invisível para a maioria deles — que passam horas votando para o seu favorito, discutindo apaixonadamente o destino de vidas que são fuziladas nos “paredões”. A mesma paixão que falta na defesa de direitos sociais e na clareza do processo político é dirigida na consumação de objetivos imediatos, em uma espécie de catarse coletiva.

Mediante isso, fora da casa, grupos de interesses os mais vastos, operam como se fosse uma indústria paralela, mas bastante identificada com o “jogo” em que são simuladas vidas por um fio. A eliminação é lamentada como se fora uma morte real e a permanência com a alegria de um (re)nascimento. Neste ano, um dos possíveis vencedores apresentava um controle exemplar sobre o seu comportamento, usando argumentos que operavam nos enganos e falas comuns lançadas a esmo por seus adversários, sendo colhidas e trazidas para o centro das discussões. Bem treinado na profissão de ator, geralmente no papel de mocinho, manipulava com astúcia todas as situações, improvisando quando o seu comportamento falseado sofria algum reparo. Encontrou como principal adversária justamente uma moça rica, empresária e “influenciadora” acostumada desde menina a reconhecer pessoas dissimuladas. Ao se postar como vítima de perseguição, tentava trazer para si a simpatia de quem se sente humilhado no meio social. Sairia vencedor usando os mesmos expedientes que muitos políticos aprendem em cursos de “marketing”. Ou seja, foi eleito o preferido por ser um típico manipulador. O público o aprovava, reverenciando sua “inteligência” e habilidade em ser um bom jogador. Sua vitória seria uma antevisão do pleito mais importante do início deste milênio no Brasil?

Os outros dois participantes finalistas carregavam a similaridade de serem pretos. Assim como o outro, fizeram parte do Camarote. Exemplarmente, têm atividades que são aquelas nas quais normalmente alguém dessa origem racial se sobressai na Sociedade brasileira — esportiva e/ou artística. Mas afora isso, a sobrevivência na Casa do BBB se deu por angariarem a simpatia do público versus a antipatia por outros participantes. Vencer esse “reality show” competitivo, apesar de todo “trabalho” dos grupos de influência, demonstra o que perpassa por trás do que eu chamaria de forma discricionária de “inconsciente coletivo” brasileiro e aos seus efeitos, por menores que aparentam, equivaleriam às rachaduras na parede social do País — irreparáveis por décadas ainda, mas escamoteadas eventualmente por “jogos reais”.

Comemoração dos finalistas do BBB-22: os atores Arthur Aguiar, Douglas Silva e o atleta Paulo André

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / Scenarium / A Criança Que Eu Fui… Sou!*

A criança que eu fui… sou! Aos quatro anos (?)

A criança que eu fui sei que está aqui em algum lugar de minhas fibras corporais e frequências mentais. De vez eu quando, eu sonho a criança e, outras tantas vezes é a criança que sonha a mim. E ela me sonha um homem melhor… São os melhores sonhos que eu-ela-nós temos… No entanto, ainda que eu a deixe aflorar no adulto (eufemismo para um corpo velho) que sou, a tornar o meu olhar mais poético, quero preservá-la dos ataques da realidade insana que insiste se abater sobre nós. Tento recolhê-la a um canto de mim e peço a ela que se esconda. No máximo, observe. Mas como é curiosa e criativa, inventa(mos) versões fantasiosas sobre tudo o que nos rodeia. Tenho apreço e saudade dessas histórias. Porque mostra o que fui e sou de mais puro.

O menino contador de histórias era pobre, mas tão rico! Muito mais rico do que eu sou agora, ainda que consiga pagar todas as contas e possa comprar brinquedos de adultos como os que considerava impossível ter um dia. Porque para ele-eu-nós estava claro que viveríamos no limite dos gastos básicos, em nossa casa de piso de “vermelhão” e janelas de madeira, a puxar água de poço, a tomar banho de canequinha a base de sabão de côco, com água esquentada na laje pelo sol, a expulsar os cavalos que insistiam em comer a cerca de bucha, a cuidar de galinhas e patos.

O adulto tem consciência que deve manter a criança viva a qualquer custo! É uma luta inglória, pois se até o adulto mal consegue manter a sanidade diante de tantas solicitações… “Não seja infantil, Obdulio!” – é o que me dizem quando o adulto não sabe lidar com os assuntos “importantes”. Os assuntos que são grandes demais, segundo a avaliação de tantos, me causam estranheza. Cumpro as regras, obedeço ao ritual e, nesses momentos, me sinto falso, me traio… Mas são nesses momentos que o menino me salva… É quando vejo a criança surgir ligeira e suja de lama a correr pelos gramados-terrões recém-molhados-enlameados pela última chuva, a jogar bola, a empinar pipa, a sorrir contra o vento, a ouvir a voz de minha mãe – mais viva do que nunca! – a ralhar comigo… Nesses momentos, me torno um ser mais íntegro… Eu me sinto integral…

*Texto de Outubro de 2016, em crônica publicada pela Scenarium.

BEDA / Participam: Cláudia Leonardi / Alê Helga / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Darlene Regina

Projeto 52 Missivas / Eu Me Lembrei De Você, Em Mim / Memória De Sonhos Não Realizados

Dias desses, eu me lembrei de você, em mim… Mentira, eu lembro de você, de mim, de nós, todos os dias. E sabe o que é mais estranho?… Tenho saudade de nossos sonhos não realizados. Viveríamos à beira do mar, teríamos uma vida simples, criaríamos os nossos filhos, fossem eles adotados ou não. Formaríamos um vínculo eterno no tempo terrestre e além. Quando estava com você, sentia vontade de cantar. Músicas de Alceu Valença nos representavam. Lembra quando a conheci, numa tarde junto ao mar? Você olhava para o horizonte e quando cruzei com você, vi o azul do céu e do mar em seus olhos. Sem querer, falei baixinho ou apenas pensei, não sei: “la belle de jour…”. Você parece ter ouvido, sorriu e respondeu: “adoro essa música!”… Fiquei enrubescido… Você sorriu mais ainda: “você ficou vermelho! Que gracinha!”… E começamos a conversar. Percebi que seus olhos eram, na verdade, castanhos esverdeados, às vezes mais claros, às vezes menos, e que tinha a capacidade de resplandecer o sol, fundir o azul do céu e do mar, o verde da vegetação, avermelhar-se com os últimos raios do entardecer, como descobri ao ficarmos sentados em uma pedra, conversando, até anoitecer… Quando voltamos a nos encontrar, lhe cantei “Anunciação” porque a letra fazia todo o sentido. Na mesa do restaurante, eu me voltei assim que entrou pela porta. Brinquei: “eu escutei os seus sinais…” / “Sou tão barulhenta assim?” / “Não! O meu coração bateu tão forte que cheguei a ouvi-lo…”. Seus olhos furta-cores se expandiram e você me beijou. Ficamos juntos por maravilhosos dois anos, fazendo planos para o futuro, cantando músicas do Alceu, assistindo aos seus shows, saindo pela noite cantando “mar e sol… gira, gira, gira, gira, girassol…”, flores que teríamos no jardim de nossa casa à beira-mar, com as nossas roupas quarando no varal. Até que… algo aconteceu. Você parece ter despertado do nosso sonho. E disse que ele havia acabado. Simples assim… Não quis explicar, talvez não quisesse me magoar por dizer que não gostava mais de mim. Ou que se apaixonara por outro. Eu devia ter escutado as mensagens enviadas por seus olhares, ainda que a boca não se pronunciasse. Eles começaram a ficar nublados como a estação chuvosa. Mas do que valeria? A dor seria a mesma. Sei que tudo passou. Prefiro que seja assim. Será um sonho eterno, realizado somente em minha mente. Guardarei o seu olhar-sorriso-ladrão-de-corações em minha lembrança. Aquele sorriso que foi só para mim, aquelas cores que foram só minhas… Adeus, meu sonho!

Imagem: Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Participam:
Mariana Gouveia
Lunna Guedes