#Blogvember / Os Espinhos

Foto de A Mulher Do Padre, um filme dirigido por Dino Risi, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, de 1970.

“A carta foi escrita com os espinhos que ninguém plantou”, por Mariana Gouveia (As Estações) 

Não pude evitar me apaixonar por aquela bela mulher – mãe zelosa, ativa batalhadora de causas humanas, trabalhadora incansável que não deixava de oferecer o melhor para seus dois filhos – apesar da falta do marido que a deixou sem explicação alguma. Até que as amigas descobrissem que ele fugira com uma delas, vindo a morar em outra cidade. A ex-melhor amiga de Lucinda – Alexandra – já mantinha um caso com Carlos Alberto há alguns anos. O que o afastou definitivamente de Lucinda foi por considerar a mãe de seus filhos autossuficiente demais. Em conversa com Alexandra soube dessas reclamações de Carlos Alberto. “Comigo, ele se sente o homem da casa, mesmo porque fico apenas à disposição dele”. De fato, com Lucinda o tipo se sentia diminuído por ela bancar grande parte das contas da residência.

Lucinda conseguiu se diplomar em Administração de Empresas a duras penas. Mesmo grávida dos dois filhos durante o tempo do curso, conseguiu completá-lo com mérito. Com o canudo na mão, pôs em pé um plano que reunia pequenos negócios da região onde vivia, tendo mulheres à frente. A cooperativa foi um sucesso. Na época da Pandemia, implantou as vendas Online que a mantiveram em expansão. Apesar do declínio da Economia de maneira geral, as Filhas de Lilith se tornaram referência de qualidade e penetração mercadológica. No entanto, Lucinda nunca saiu do bairro que crescera. Católica, de frequentar as missas todos os domingos, não deixava de tomar a Eucaristia e confessar… comigo.

Eu me lembro de tê-la advertido quando me falou do nome que daria ao projeto da Cooperativa que era derivado de uma versão judaica da criação da mulher junto com o homem, não dela da costela dele, como na versão bíblica conhecida. Aliás, suas raízes fincavam em chão bem mais antigo. Ela me olhou através da tela vasada do confessionário com aqueles olhos que me abduziam e o sorriso que me fazia sorrir, explicando: “eu gosto de muita coisa do Cristianismo. Mas a força do mito de Lilith é o que mais se aproxima do que eu penso sobre a nossa existência neste planeta. Mas os motivos que eu tenho de frequentar a Igreja tem a ver com outros, além do sentido do congraçamento”.

Ao terminar de falar, Lucinda atravessou a tênue barreira que nos separava com a força de seu olhar e soube, naquele momento que ela me amava como eu a ela. Conversei com o meu confessor que me aconselhou a pedir transferência e deixar a Paróquia. Escrevi uma carta para Lucinda, falando de tudo o que sentia e que aquele sentimento era um impedimento para que continuasse o meu ministério sacerdotal. Completei que a carta fora “escrita com espinhos que ninguém plantou”, a não ser o Destino. Após escrevê-la, passei a noite acordado e por mais que tentasse encontrar em minha fé os motivos para continuar o sacerdócio, os olhos de Lucinda me iluminavam os pensamentos.

Fui falar com ela no escritório d’As Filhas de Lilith, do lado de sua casa. Ela me recebeu com aquele sorriso abrasador. A minha intenção inicial era o de entregar a carta, dizendo que só a lesse quando eu não estivesse mais presente. Mas diante dela, achei que merecesse um diálogo mais franco, sendo Lucinda um exemplo de coragem. Quando comecei a falar, ela ficou com os olhos marejados, enquanto mordiscava a sua boca sedutora. Quando disse que estava apaixonado por ela, estendeu as suas mãos e tocou as minhas devagar e invasora até espalmá-las.

– Padre… não, sem padre… Sérgio, eu também o amo! Sempre quis ser a mulher do padre! – rindo seu sorriso mais lindo.

– Lucinda, sou casado com a Igreja e você, com o Carlos Alberto, apesar de ele estar com a Alexandra… e…

Ela me interrompeu. Disse que o Carlão, como o chamava, tinha vindo com um papo de pensão, já que a Cooperativa estava fazendo sucesso. Nós nos separamos e assinamos um acordo em que ele concordou em receber um salário-mínimo por mês.

– É o pai dos meus filhos. Não poderia deixá-lo desamparado. Mas é jovem, pode muito bem trabalhar. Depois, eu me apaixonei por você desde que percebi seu entusiasmo pelos trabalhos devocionais. Meus filhos falam mais de você do que do pai. Eles o admiram e gostam de frequentar os cursos de música que a Paróquia dá junto com os profissionalizantes e alfabetização.

– E eu me apaixonei por você por sua entrega, coragem e alegria no auxílio às pessoas carentes.  Você é uma mulher maravilhosa, Lucinda! Eu queria…

– … me beijar?

Nesse instante, fui ao seu encontro atrás da mesa e a beijei… minha primeira vez entre todas as vezes que passei a beijá-la o mesmo beijo apaixonado. Perguntei:

– Quer ser mesmo a mulher do padre?

– Desde menina…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins

Missivas De Primavera / O Coração Apaixonado Pelas Paisagens Naturais

Mariana Gouveia, deste e d’O Outro Lado

Mariana,

se há alguém que observa as paisagens com o lado de dentro do coração, é você. O melhor é que partilha com quem a acompanha, o seu olhar. Não basta estar em meio a uma Natureza exuberante se o seu coração não falasse mais alto. Não duvido que ao vê-la passar, a beleza se ofereça a você para fotografá-la. É uma relação de amor que se consubstancia na amizade com um beija-flor. Chiquinho sente que você o ama e, através dele e seu bater de asas, os sons naturais, as cores exuberantes, a doçura da força da vida que explore em flores, plantas e seus segredos.

O calor que marca o lugar em que vive surge apenas cálido em nossas visões permeadas por suas imagens. As paisagens são particularizadas em detalhes porque sabe que um mundo se esconde nos cantos e recantos. A mesma luz do Sol que produz o subproduto humano da seca, ilumina a real fantasia. Mas é por suas palavras escolhidas que percebemos o poder do que nos é dado ver. Tudo ganha uma dimensão tanto espacial quanto mental que não desvendaríamos se não fosse a sua mão a nos conduzir. Mulher que consegue ser outras mulheres ao interpretá-las com a sua escrita – ou sendo essas mulheres a se expressarem – Marianas parece surgirem a cada leitura, ainda mais quando passeiam pela paisagem inóspita dos homens em sociedade. Criação nada mais que antinatural.

Que este domingo esteja a evidenciar mais e mais revelações para quem observa além do imediato, o que para os incautos são aparições muitas vezes indesejadas. Que a chuva se faça presente para dar de beber a todos os seres e expressões de vida. Que o abraço seja a sua medida mínima de contenção. Que a sua mente viaje pelo mundo até que nos alcance em nosso Scenarium. Que chegue o momento que testemunhemos as paisagens que enxerga na presença de seus olhos diante de nossos olhos. Por este momento, desejo que esteja bem entre os seus familiares, amigos, companheiros de outras espécies e outros reinos.

Abraço natural, ainda que distante!

                                                                                                                                 Obdulio

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Suzana Martins / Roseli Pedroso

BEDA / A Coisa Sampiana*

Em minhas incursões por São Paulo, eu não deixo de buscar, como perscrutador de nossos escombros e edificações, a “coisa sampiana”. Tento encontrar satisfação na descoberta do concreto no movediço e substância no transitório, feição da nossa cidade, tal qual a série das nuvens clicadas sobre ela. Ou do achado da beleza inesperada nas intervenções dos “spray-muralistas”, ou do uso da cor desbragada em rebeldia à uniformização na composição acidentada-acinzentada de nossos prédios, ou do negativo do negativo, uma nova versão do avesso do avesso do avesso. Ou até das pessoas desta cidade, expressão que são “do isolamento, do anonimato, do individual, do desértico, e, sobretudo, do formigueiro onde ninguém se considera formiga”.

Bendigo intervenções sobre o concreto e vejo com satisfação artistas que desenvolvem obras que ganham autonomia e passam a pertencer ao olhar de muitos, sendo partilhado e compartilhado – dor ou prazer que só o tempo dará a devida proporção e viés. Quantas vezes bendizemos ou amaldiçoamos uma ação do passado que no momento em que foi praticada não pareceu guardar tantas expectativas assim?

Quando alguém registra uma imagem, espera ter capturado o que viu e apreender a essência do que quer mostrar. Mas eis que a interferência da luz ou da iluminação artificial, do ângulo e da angulação, da mão e da manipulação, dos olhos e do olhar intercedem para inventar alguma coisa para além (ou exagerar) e para aquém (ou precisar) do que queria. Mesmo quando tentamos controlar os parâmetros e o entorno de sua produção, a obra pode fugir ao controle e assumir uma personalidade estranha ao autor e acabar apresentando uma proposição inesperada – uma criação rebelde ao criador.

Já aludi a essa característica “frankesteiniana” de algumas de minhas fotos ou escritos, como poderá ser de qualquer arte-artifício. Digo expressamente que a “coisa“, quando ganha vida, feito o ser criado pelo Doutor Frankenstein ou “O Moderno Prometeu” (como no título original do livro de Mary Shelley) pode não ser compreendida, mas para quem conhece a sua essência, é amada. O fato é que algumas imagens me impressionam pelo ocasional acontecimento. Porém, como o Prometeu original, por vezes traz luz a um tema querido para mim, o amor pelo monstro que coletivamente criamos – a cidade de São Paulo.

Compulsoriamente, o fotógrafo rebate o olhar sobre muros, paredes, casas, edifícios inteiros ou arruinados, becos e demais escaninhos da vida, mesmo quando não vemos o homem atuando, em cena. No entanto, naquele lugar, ele já interferiu. E outro homem interferirá, registrando-o. E outras pessoas interferirão, ao observar o registro. E a “criatura” principiará a mover-se. E nos movemos com ela. Através do olhar, caminhamos para todo o canto desta cidade multifacetada, apreciando o feio, o bom e o mau de seu espírito de concreto.

A cada registro que faço, cresce o meu interesse por ver mais do que é produzido pelas ações humanas, configurando uma busca na tentativa de desvendar o meu próprio sentimento, a noção de como vivo e do lugar em que vivo. A cada postagem, irrompe o desejo de intervir na criação, implantando um pedaço de mim na cria. Logo, vejo surgir palavrinhas intrometidas, que autonomamente perfilavam-se umas atrás outras, a construir sentenças independentes as quais entrego para talvez nunca mais voltar a ler desvinculadas daquela imagem, abandonadas de mim. Contudo, nem sempre intervenho. Mesmo adicto, abstenho-me de comentar sempre e apenas registro o meu gostar, esperando que outras pessoas entrem com as suas apreciações.

Porventura, quando alguma imagem se oferece a mim clemente, sou instado a comê-la e a regurgitá-la comentada. E passo a me sentir alimentado, para apenas aguardar que seja ofertada a próxima refeição. Não é incongruente essa condição mutante da obra composta de pedaços de corpos redivivos que passe a ser uma ótima refeição d’alma. Faz parte de sua existência icônica, mas nunca lacônica, antes, repercussiva, em ondas concêntricas a partir do momento que é generosamente arremessada ao lago virtual. Não sei se essa interferência pública desmensura ou desvirtua o caminho que as pessoas percorrem. Porém, talvez nada disso tenha importância, assim como a brisa morna que passeia entre os edifícios climatizados.

*Baseado em texto original de 2012

Participam do BEDA:

Mariana Gouveia / 

Lunna Guedes / 

Suzana Martins /

Darlene Regina /

Roseli Pedroso

Nós

ao revê-la tanto tempo passado
imensas distâncias espaciais
sem respirarmos
os mesmos ares e hálitos
o fogo quase esquecido
em ardência reacendido
as peles a queimarem próximas
pelo olhar
corpos que seguiram em devaneio
para o futuro presente apaixonado
o reencontro que confirmou
que somos viciados em nós
são liames amarras nós
que nos aprisionam em tramas
a vida como ela é dramas
beijos que prescindem da voz
abraços que nos invertem nos reinventam
toques que contam existências inteiras
histórias longas demais tanto quanto curtas são
entradas e saídas que se confundem
dimensões que se perpetuam
entremeadas umas às outras
energia consumida e realimentada
em átimos de segundo
recriação de universos paralelos
feito cristais estilhaçados belos
retemperados desesperados
porque nunca descansa o vício visgo
que nos matará feito moscas
presas na armadilha luminosa do amor.

Foto por cottonbro em Pexels.com

Luiza*

Registro de 1983, ilustrativa, da mesma época do pôster referido no texto.

“É muito estranho quando você encontra uma pessoa que fez parte do seu Passado, mas que nunca tinha visto pessoalmente” – enviei essa mensagem na noite de sábado, via Whatsapp, para o grupo formado por minhas filhas e mulher. Estava sonorizando uma festa privada de aniversário, em que havia a participação de algumas celebridades. Uma das minhas filhas, a Ingrid, perguntou a quem eu havia encontrado. Respondi: “Luiza Brunet – é muito mais atraente que muita mocinha!”. Ela respondeu: “Nossa! Deve ser, mesmo!”. Para comprovar, mandei uma foto que tirei discretamente. A Romy comentou: “Nossa! Muito ‘diva’, mesmo!”. Completou que a achava mais bonita que a filha (também modelo).

Um dos mandamentos de quem trabalha em eventos particulares é o de não divulgar imagens ou informações a respeito, principalmente quando apresenta restrições claras quanto a isso, como era o caso, ainda em se tratando de figuras públicas. Portanto, apesar de fazer jus à sua beleza, não a divulgarei aqui. Ali é mostrada a beleza da maturidade em plena forma.

Na sequência de mensagens, comentei que quando a Tânia visitou a minha casa, quando ainda éramos solteiros, viu em uma das paredes de meu quarto, um pôster de corpo inteiro de La Brunet, dessas que se veem em borracharia, com o dorso e as pernas à mostra, vestindo apenas a parte de baixo de um biquíni.

Apesar de pretender me mostrar um cara diferente, que não valorizava tanto a forma para além do conteúdo, fazia questão de ter àquele à vista. Lembro-me de ter comentado que me impressionava especificamente o olhar da modelo (não tão conhecida quanto se tornou depois) em pose relaxada e confiante. O rapaz sem experiência via naquela imagem a representação do poder da sedução. Carregava um olhar penetrante, que nos invadia e que parecia dizer: ”Vocês é que estão nus!”.

E era assim que me sentia – intimidado por parecer desnudado diante da bela mulher. Decorridos mais de vinte e cinco anos, lá estava a minha musa em carne e osso, tão perto do meu olhar. Fiz questão de me manter à distância, observando os seus movimentos, como agiria um “voyer” que de fato eu era quando a “conheci”. Mesmo porque, estava naquele ambiente apenas para cumprir as minhas funções profissionais.

Mesmo que pudesse, não o faria. Há sensações que devemos manter intactas no Passado, para encontrá-las sempre frescas quando vamos buscá-las em nossa memória. Conquanto a beleza física de Luiza Brunet seja facilmente constatada, ainda hoje, através de inúmeras postagens pessoais e jornalísticas, o que faço questão de manter indelevelmente em minha mente é impressão de profundidade d’alma causada pelos olhos escuros da típica mulher brasileira de tez morena dos Anos 80, a qual nunca passará.

*Texto de 2014