encontrados cada um por si a cada um de nós quisemos nos perder em olhares e fomos tão fundamente que ultrapassamos a interpretação das mentes que mentem desmedidamente quando se trata de paixão fechamos os olhos apagamos a luz tínhamos que nos unir em corpos que não nos dizem mentiras procuramos as nossas bocas nossas línguas encontrando as suas rotas exploramos desvãos e precipícios as permanências oscilantes do desejo de intensas a mais intensas tateando as reentrâncias protuberâncias e volumes por dedos-mãos, peles, pelos sede de beber líquidos experimentando o gosto agridoce do prazer em cálices e copos em urros e ais servidos à cama, parede, mesa, sofá, tapete, o chão pela química dos enfim mortalmente feridos, exangues de corpos presentes estirados e velados em silêncio à penumbra…encontrados cada um por si a cada um de nós quisemos nos perder em olhares e fomos tão fundamente que ultrapassamos a interpretação das mentes que mentem desmedidamente quando se trata de paixão fechamos os olhos apagamos a luz tínhamos que nos unir em corpos que não nos dizem mentiras procuramos as nossas bocas nossas línguas encontrando as suas rotas explorando desvãos e precipícios as permanências oscilantes do desejo de intensas a mais intensas tateando as reentrâncias protuberâncias e volumes por dedos-mãos, peles, pelos sede de beber líquidos explorar o gosto agridoce do prazer em cálices e copos em urros e ais servidos à cama, parede, mesa, sofá, tapete, o chão pela química dos enfim mortalmente feridos, exangues de corpos presentes estirados e velados em silêncio à penumbra…
Moro na Avenida São João. Vivo perto de tudo. Tenho árvores em meu jardim, de frente para a minha sala de jantar, de estar, de meu quarto, de meu lugar. Que muda de lugar. O mundo é meu. Pelas amplas janelas do meu olhar, observo o movimento das pessoas a passarem por mim. Elas não se importam comigo. Espero que não se importem por eu não me incomodar com elas…
Ver, rever, visto, revisto. Ser objeto de observação, observar. Ver verdadeiramente ou apenas passar os olhos sem se aprofundar. Vistas, certas imagens, ganham a dimensão de algo mais a depender de quem as vê. Carregadas de referências pessoais, ver algo é como se pudesse vê-lo para além da percepção imediata e restrita a esse algo — uma visão transcendente. Não vejo como possa ser de outra forma.
Bethânia e eu…
Uma coisa que me intriga é a visão dos outros animais em relação aos mesmos objetos e paisagens que vemos e como são interpretados, dentro de suas referências perceptivas. Que não se restringem apenas à visão, mas incorporam o olfato e o ouvido apurados, o que colabora para que apreendam de uma maneira mais completa o que apenas vislumbramos na superfície ou que valoramos por critérios idealizados. Essa riqueza perceptiva, fora de nosso alcance, é como se fosse uma overdose de vida. Todos os momentos são tão intensos em termos sensoriais que não seja de surpreender que durmam tão profundamente quando se sentem abrigados e seguros. (Periferia, em 2021)
Rua Santa Ephigênia, onde as antigas construções abrigam lojas de equipamentos de ponta em vários setores da tecnologia. É uma festa para os meus olhos, mas não nesse aspecto. Para mim, o que é precioso reside nas edificações… É comum aproveitar a abertura de algum portal do Tempo e viajar para o Passado. São breves instantes de percepção extra-sensorial em que capturo algum momento especial, testemunho a História a acontecer em décimos de milissegundos e volto a caminhar entre carros, pessoas e luzes de LED… (Voltando no Tempo, 2016)
A luz foi engolida por grossas camadas de nuvens escuras, repentinamente. O calor ameno deu lugar ao frio que se projetou por nossas peles desprotegidas. O ser humano vem a perceber, nesses momentos de humor ciclotímico do tempo, que é muito frágil diante do clima, diante da Terra. Será por inveja que queremos destrui-la? (São Caetano do Sul, 2015)
Observo do ponto que estou, no alto de um prédio, que o vento movimenta as nuvens como se fora ondas no mar, enquanto no recife de corais abaixo, pululam seres em suas fainas diárias de nadarem contra a corrente, em busca de alimento. (Comunidade de Paraisópolis, 2014)
Caminhando pelos calçadões do Centrão, costumo me perder em olhares por seus descaminhos confusionais de Tempo e Espaço. Assim como citei acima sobre a Santa Ephigênia, apesar de gostar de me sentir desconfortável por não estar onde estou, vez ou outra me sinto surpreendido por observar essas construções tão velhas quanto eu com um olhar novo. Neste caso, talvez seja pela fluídica árvore nova, a destoar do ambiente concreto. Depois de observar melhor, o edifício ao lado parece ter uma forma alternativa que só poderei confirmar ao voltar a vê-lo. Quanto ao prédio protagonista, é ele que sinto me observar por seus muitíssimos olhos. (Vista desde a vazia Rua Marconi, em 2021).
“Duque de Caxias, empunhando o seu sabre, cavalgando eternamente o seu cavalo. Conheci esse monumento ainda bem menino e ele continua por lá, impassível, rumo ao futuro.” — escrevi sobre essa imagem, em 2014. O monumento do Duque Caxias está estacionado na Praça Princesa Isabel. Ambos, são nomes de referência do Segundo Império. Enquanto a Redentora está sofrendo um cancelamento por parte do movimento negro, apesar de ter assinado a Abolição da Escravatura, a atuação de Caxias tem sido revisada como senhor da guerra. Guindado à condição de grande nome do Exército, talvez a sua fama de estrategista e honradez tenha sido convenientemente inflada ao logo do tempo para alimentar o herói. A praça em si, está ocupada por desvalidos, moradores de rua, drogados, pessoas que perderam a guerra contra o Sistema, escravizados pelo vício.
Interpretação de Romaria por Elis Regina, no show Transversal do Tempo, gravado ao vivo em 1978.
Eu tive a oportunidade de ouvir Romaria em sua primeira audição e senti uma comoção tão grande, que me vi na pele daquele romeiro da canção de Renato Teixeira. Foi por ocasião de um programa radiofônico da Jovem Pan*, chamado O Fino da Música, de 1977, interpretada por Elis Regina, que já era a minha cantora favorita, então. Foi uma verdadeira comunhão.
Quase ao final da apresentação, ao ressoar retumbante de um prato, no belo arranjo de César Camargo Mariano, já não podia controlar a minha emoção e verti algumas lágrimas sentidas. Assim, desbragadamente. Ali, também estava eu, ajoelhado e, da mesma forma não sabendo rezar, tentava enternecer a Santa mostrando o “meu olhar, meu olhar, meu olhar”… Aliás, comecei a me envolver logo aos primeiros acordes: “É de sonho de pó, o destino de um só…” — em crescente comoção. Talvez fosse um sinal da mudança de sentido que se prenunciava — de minha postura abertamente cética à transcendência espiritual como visão de vida…
Elis cantou várias canções que embalaram a minha imaginação e me fizeram compreender o quanto a música pode transcender o fato de ser muito mais que composições de frequências vibratórias que mexem com a nossa estrutura física. As músicas também carregam mensagens que nos elevam a alma, que nos fazem transbordar sentimentos profundos ou emoções rasas. Muitas nos arrastam para o prazer ou para a dor sentida-imaginada, alcançando, enfim, os recônditos mais discretos de nosso ser.
Vinte e cinco anos após esse momento, mais ou menos, tive o imenso prazer de sonorizar uma apresentação do próprio Renato Teixeira em um show, no qual ele mesmo cantou Romaria. Na primeira ocasião, ele fazia a segunda voz no refrão — “Sou caipira Pirapora, Senhora de Aparecida…” — na composição que o elevou como compositor ao primeiro time da MPB pela voz da Elis. Ah, as voltas que o mundo dá, nesta eterna Romaria que vivemos…
Com a morte de Elis em 1982, criou-se um vácuo no lançamento de novos nomes na MPB. Apenas alguns compositores, em comparação ao período em que ela esteve viva, conseguiram emergir do anonimato. Por algum tempo, eu cheguei a ter raiva dela por ter morrido tão estupidamente. Hoje, sabemos que estava depressiva há tempos e nós, seus admiradores, não conseguíamos perceber sua condição. Só nos resta a saudade…
*Durante alguns anos, desde os 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas de rádio aos finais de semana e durante a semana, logo de manhã e antes de dormir. A programação preferida se dividia entre a esportiva e a musical. Minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. No esporte, ouvia as narrações de Osmar Santos e Edemar Annuseck, com comentários de Orlando Duarte e Cláudio Carsughi; reportagens de Cândido Garcia e Fausto Silva (o hoje famoso apresentador dominical), além de outros nomes. O Show de Rádio, com os tipos criados por Estevam Bourroul Sangirardi e interpretados por ele e vários outros humoristas, como Serginho Leite. Na programação musical, aprendi muito com Zuza Homem de Mello e vibrei com o Fino da Música — shows com a participação de grandes nomes da MPB. Depois de cinquenta anos, o alinhamento da emissora com o atual (des)governo fez com que eu me afastasse de sua audiência. Um rompimento doloroso, porém necessário.
A metamorfose se deu, de início, pelo olhar… O movimento dela o paralisou. Como se fotografasse cada gesto, aprisionou dentro de si a evolução do casulo à borboleta – da flor ao céu – asas da imaginação…
Quis recuar quando suas vozes ocuparam o mesmo ambiente – palco de suas atuações… Percebeu que fluíam sonoras conversas de palavras entrecortadas, caladas…
As lacunas preenchidas de desejos perfeitos em suas incompletudes. Quebradas as barreiras – distâncias de centímetros-quilômetros – peles sem proteção, mentes despertas, liberta de atavismos e consequências, o imediato transformado em eterno, se reconheceram outros, os mesmos…
Ele, transmutado de Jekyll em Hyde, de homem em lobo, de mortal em vampiro, de Clark em Superman – todos e ninguém, vivia ausente de si… Passou a respirar o vácuo se não aspirasse o hálito da paixão…
Transformação irremediável, perigosa, instável, liberdade de viajante encarcerado, não trocaria o permanente desconforto do atual caos da criação do mundo pela antiga estabilidade da morte em vida…