o descaso distancia as pessoas como se vivessem em mundos diferentes não quero que esse descaso me abrace a ponto de viver longe de mim quantas vezes não me surpreendo em me rever diferente do que imagino ser? se eu perdoo qualquer um ao se sentir impróprio não devo me perdoar? o que sinto é uma tremenda compaixão pela fraqueza ou isso será capacidade de ser fiel à mim mesma? para isso acontecer fiz um caminho penoso mas muito simples não mentir para mim foi o primeiro passo mas não deixo de desejar estar com outro nele visto a fantasia como se nascesse com ela a minha pele a lavo e a perfumo estendo a camisola de seda que vestirei leve como o ar que respiro no quarto escuro é quando vejo melhor abraço a minha fantasia passearei com ela pela madrugada afora a de hoje é de estar com dois sei que farão o que me dará prazer luminescentes vibram ao meu toque
separo três taças de vinho levanto a camisola e os deixo tocar as minhas reentrâncias brinco com a possibilidade de me evitarem de meu braço se distanciar a minha mão não tocar o sino que me acordará para o gozo quero fluir em rios de aventuras meus brinquedos são melhores que homens preocupados em serem dominadores em troca de carinhos eu era estuprada e fingia orgasmo quase sempre
quase sempre respondia com beijos desencarnados salivados em seus paus desidratados logo queria que fossem embora que me deixassem só mais só do que quando me encontravam desisti de me entregar a estranhos seres morfologicamente machos instintivamente monstros preferi me tornar só minha…
A verdadeira medida de todas as coisas é a Inveja! Por sua percepção, sabemos o valor do que se deve querer… abrangendo o bem querer…
Pelo desejo de ter o que o outro tem: os objetos, os espaços, o ar, o respirar, os amores, os corpos, as vidas, as obras e as sobras.
Aquele que Inveja tem um objetivo a alcançar, um caminho a seguir, mesmo que seja o caminho de um outro que foi bem-sucedido antes.
O invejoso opera no ambiente de trabalho, na política, na escola, na família, nos relacionamentos pessoais… ele se alimenta do que deseja, e bebe a peçonha da competição com prazer, a defecar escárnios pelas pequenas conquistas alheias…
A Inveja mede o talento, afere o conhecimento, fere o discernimento, se apropria do avanço, copia o desempenho, favorece o sistema, valida o progresso material.
Sermos invejosos nos torna iguais… Nos abastece de fervor pela Pátria, pela terra, pelo valor de sermos maiores em bundas, em mamas, em caralhos, em dinheiro…
A Inveja nos beija a boca todos os dias… Esconde-se em nossas casas, nas salas, nos quartos, na arquitetura social… a Inveja se oferece em propagandas e pelas esquinas… Na arte, Na filosofia, No pensamento…
Para o nosso bem, somos criados invejosos. Crescemos estimulados a sermos outros. Somos instados a idolatrar o ter. Para nunca buscarmos a plenitude do Ser. A viver a sensação de estarmos em haver. Buscamos a Inveja para ser nosso patrão. Tornamos a Inveja o nosso melhor padrão. Invejamos a Inveja e ao outro a nos invejar…
Quem ama de paixão, sabe — antes de morrermos mil vezes — nos despedaçamos dez vezes mil… Quem permanece intacto em uma relação — sem perceber a falta de algum pedaço — não está a amar…
Cabeça, tronco e membros — nada escapa à desconstrução de nosso ser… Quando amamos, quem nos vê caminhar pelos lugares, apenas se ilude que ali se move alguém integral — a respiração foge dos pulmões ou falta o coração — que bate em outro peito…
Tocados pelo outro, enquanto o sangue circula fora do corpo, os olhos se perdem em cada nuvem que passa e as pernas seguem por ruas pelas quais passeiam o ser amado…
No auge da paixão é doloroso amar, porque não estamos onde estamos… Desconcentrados de nós, variamos de senso, contrariamos o consenso, o equilíbrio é penso, o desejo é imenso de estar no outro, com o outro, pelo outro, pelo com pelo peles unidas…
Quando nos perdemos em nós, destroçados e trocados de corpos e mentes, ganhamos todo o Universo — o Inferno e o Céu — destino incerto, a terminarmos como solitárias moléculas dementes ou a renascermos amorosas sementes…
Eu não acredito em alma gêmea. Ou melhor, não acredito que a nossa vida deva se fundamentar na busca de alguém com a qual venhamos a se identificar a tal ponto que nos dê prazer apenas por ser igual a nós. Considero que isso seja uma espécie de masturbação. Eu acredito no crescimento mútuo das pessoas pelo embate de ideias, pela diversidade de sentimentos, pela diferença de posturas, pelo confronto de mundos. Eu acredito tanto nisso que me permito ser o outro, vez ou outra. Cada vez mais… Chamaria isso de compaixão – quando nos colocamos completamente na situação que o outro ser está vivendo. Essa viagem para outro é perigosa, conquanto não tenhamos certeza total de quem sejamos (se é que a temos alguma vez). Enfim, essa transitoriedade deve ser buscada com cuidado para que não nos percamos no caminho.
Em uma brincadeira interna da Scenarium Plural, chamam de “Eu Lírico” o empreendimento de ser outros. Eu, meio que cainho de paraquedas, sugeri que seria igualmente um “Eu Rico”. Graças a essa a personalidade lírica, podemos cometer pecados, dentro da escrita, buscar experiências, fazer quase uma peregrinação extracorpórea para construir histórias nas quais viajamos. Assim é quando escrevo. É comum eu me colocar no lugar de alguém que permite se apaixonar na caça de outra pessoa com a qual se identifique.
Passo por altos e baixos em minha própria auto avaliação, mas creio que tenha um ponto fulcral, uma linha mestra que me conduz que me permita dizer: “esse sou eu”. E esse ser não consentiria ferir quem quer que fosse ao buscar aventuras para, um dia, se comprazer em se encontrar, ele mesmo, em outra pessoa. No entanto, aceito igualmente a possibilidade de que o indivíduo acredite que isso seja possível e tente empreender esse encontro. Eu me vigio em minha prisão ética, mas não quero deitar normas para o amor. Liberdade para os amores!
A apresentação pública que faço de mim é a de alguém que se identifica com a defesa do humanismo voltado para a transcendência, visando a proteção do ecossistema e o respeito aos outros seres que convivem conosco na biosfera. Fora dessa perspectiva, quem defende ideias diferentes me ofende profundamente. Cheguei a me imaginar como um antípoda ao que preconizei acima como exercício de compreensão daquele que se me opõe. Em tese, conseguiria fazê-lo. Eu os encontro em meu círculo familiar, entre colegas de trabalho e nas minhas redes sociais.
Estabeleci como elemento de desordem o “outro”. Conquanto o meu ponto elementar de desequilíbrio seja eu mesmo, quis alcançar àquele que me desorganiza externamente. Dizer simplesmente que “o inferno são os outros” não seria suficiente. Eu me pus a identificar quais falas e atitudes do outro quebram a minha homeostase. Ainda que passeasse por zonas sombrias do meu ser, ao olhar para o abismo tenho certeza de que voltaria à minha posição inicial. Suposição incrível para alguém que refuta por entendê-las como indício de loucura.
Seria mais fácil criar uma personagem que se colocasse como porta-bandeira do obscurantismo, do desconhecimento, da misoginia, da homofobia e do racismo; que fosse elitista, antidemocrática e entendesse o poder econômico como hegemônico, colocando-o acima da necessidade de atendimento às demandas sociais. Mas na vida real essa personagem já existe. Na verdade, foi eleita como representante incondicional de pelo menos um terço da população — que se amolda ao que seja conveniente no momento ou que simplesmente acompanha a manada — do país onde nasci e vivo. Percebi que defender o indefensável seria impossível. Ir contra as diretrizes que considero o melhor para a maioria das pessoas e para mim, me paralisou.
Tenho frescas em meus ouvidos as últimas notícias do atual desgoverno — o fogo a se alastrar por grande parte do território brasileiro; a mortandade pela Covid–19 de centena de milhar das pessoas menos protegidas pelo Estado; o desmonte da estrutura que manteve os índices sociais razoavelmente estáveis nos últimos anos, a exemplo do SUS e dos projetos de inclusão; o ataque direto à cultura, como o feito à CinematecaBrasileira— onde todos os funcionários especializados na preservação do importante acervo audiovisual nacional foram demitidos. Como é que conseguiria me colocar no lugar de alguém que defende práticas tão perniciosas, de viés fascista; que promulga por decreto o genocídio do brasileiro comum e o etnocídio que solapa a identidade cultural indígena?
Quando surgiu o movimento de extrema direita que assumiu o comando administrativo do Brasil, eu me surpreendi com a quantidade de defensores dessa visão de mundo que se opunha brutalmente à minha. Artistas com os quais trabalhava (principalmente, músicos) não deveriam se colocar em sentido inverso ao que era propagado pelo candidato? Assumiriam a faceta que propunha retrocessos políticos e agitariam bandeiras retrógradas em termos sociais?
Ser esse outro não é apenas olhar para o abismo, mas mergulhar na lama primordial da qual foi gerada a vida — eu me tornaria uma ameba. Não teria de onde retornar, a não ser depois de milhões de anos de evolução. Prefiro morrer para esta vida a reviver por inteiro o drama de nosso desenvolvimento: voltar a ser um primata que lutará pela vida na floresta; até vir a encontrar o monólito que me tornará o primeiro ser humano; inventar os instrumentos de sobrevivência da espécie; participar da luta pelos espaços; instaurar grupos homogêneos como plataforma de expressão coletiva; desenvolver civilizações; guerrear contra os inimigos; trucidar oposições; formar países; escravizar povos e estabelecer ideologias hegemônicas como forma de dominação do outro…
Será que não podemos aprender com o que já vivemos em nossa história e deixarmos de praticar ações perniciosas contra nós mesmos e contra os outros seres com os quais coabitamos? Ou estamos condenados a reviver todos os dias mesmos dolorosos ciclos até o final dos tempos — um déjà vu em moto contínuo?
Quase peço ao sol que antecipe em bilhões de anos a explosão que extinguirá os planetas ao seu redor, incluindo a nossa pequenina Terra. Porém, sei que é egoísmo da minha parte. Quem sabe as novas gerações modifiquem o nosso percurso atual e transformem Gaia em um planeta redentor?
Cena de 2001 – Uma Odisseia No Espaço – encontro do monólito pelos macacos.