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A Casa Do Sol

“Paê, para onde está indo o sol?”

“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol, em torno do qual giram outros tantos planetas como o nosso. E o Sol é apenas mais uma estrelinha entre milhões de outras na Via Láctea, uma galáxia. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto do Universo, que também parece estar se expandindo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.

“Pôxa, paê, isso eu sei! Sou o menor da escola…”.

 

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

Lunna Guedes

Notas Sobre Violência e Morte (2016)

Brasil registra o maior número de assassinatos da história em 2016; 7 pessoas foram mortas por hora no país…

Tenho postado aqui, no WordPress, meus escritos espalhados pelas redes sociais, principalmente pelo Facebook, além de textos – crônicas, contos, poemas – produzidos para a Scenarium Plural – Livros Artesanais, em livros autorais pessoais, coletivos e para a Revista Plural. Meu objetivo precípuo é o de montar um mosaico que busque definir minha trajetória como escritor. Uma tentativa de encontrar um norte, uma linha mestra que, acima de minhas convicções cambiantes, explicar para mim mesmo e, eventualmente para quem me lê, a realidade que nos cerca, pelo olhar de quem fui-sou. Talvez, por fim, identificar os caminhos pelos quais viemos a trilhar na atualidade-passado-futuro. Abaixo, mais um desses registros.

“A segunda-feira acordou duvidosa, mas logo mostrou a sua cara – fria e chuvosa. Saí para resolver problemas bancários e voltei a tempo de ouvir e ver o noticiário na TV – áudios vazados, estupros coletivos, acidentes automotivos fatais, um gorila assassinado…

Os áudios vazados demonstram mais do mesmo: o poder é buscado pelos supostos protagonistas, mas são os soldados do chamado “segundo escalão” que dão o tom da canção de cabaré que toca no antro dos nossos políticos profissionais. Nesses cabarés, que alguns também chamam de palácios, os personagens trocam de pares, enquanto as músicas interpretadas seguem o padrão do nosso sistema viciado. Ao final de cada dia, o resultado é que acabamos todos fodidos.

No episódio dos trinta e três contra uma, para além do descalabro moral da situação, a indigência de nossa sociedade se mostra em todas as suas piores facetas, do alarde dirigido pelos interesses de quem denuncia a “cultura do estupro” até as opiniões daqueles que desconfiam da história mal contada… Existiu um estrupo coletivo, como devem ocorrer vários iguais frequentemente, mesmo que não nessa dimensão, mas a desconfiança dos detalhes em torno do fato denuncia que o problema é bem mais amplo do que aparenta ser. Desconfiamos de tudo.

Esse não é apenas um processo que vem de cima para baixo, como igualmente no sentido contrário, que se espraia desde os atos mais comezinhos do cotidiano até as grandes negociatas. Somente quando encararmos o fato de que temos uma cultura da corrupção, poderemos enfrentar o problema em todas as frentes. A questão é estrutural. Há possibilidade de haja realmente uma cultura voltada para violentar as mulheres? Sim, há! Como também há uma cultura compartilhada para humilhar os homens, menosprezar os velhos, aviltar as crianças e usar a todos nós como massa de manobra econômica, ideológica, mental e espiritual.

Mais um acidente automobilístico matou alguém mais conhecido – um cantor sertanejo. Na edição do noticiário, vincularam o seu nome ao de outro, mais afamado, numa tentativa canhestra de reacender a comoção popular em torno do evento. Contudo, no final de semana prolongado, outro acidente, na Bahia, matou uma família inteira – pai, mãe e quatro filhos. Em uma tentativa de assalto, em São Paulo, com uma pedra atirada contra o vidro do carro por um grupo de bandidos de beira de estrada (como os que existiam na Idade Média europeia), um adolescente que iria visitar a família foi morto quase imediatamente. Ganharam pouco espaço, porque sentimos que tudo é tão prosaico, tão linear… Mais um indício de que estamos doentes.

Todavia, como a contrapor às más notícias brasileiras, chegou outra bem triste, vinda via satélite dos Estados Unidos, sucedida em circunstâncias limites. Para defender a vida de uma criança que caiu no fosso de um zoológico de Ohio, atiraram para matar o velho gorila, que parecia apenas querer guardá-la dos olhares alheios. As discussões em que se contrapunha a dúvida se deveriam ser usados dardos tranquilizantes na ação e a acusação feita à mãe do menino de estar desatenta no momento em que ele ultrapassou o gradil de proteção, são apenas circunstâncias subjacentes em relação à realidade de que nós retiramos um parente do ser humano do seu habitat e o gradeamos em um espaço exíguo, a cobrar ingressos para vê-lo, sem liberdade e acuado. A maior tristeza se dá porque não protegemos o nosso irmão em seu próprio ambiente natural. Na verdade, o estamos deixando sem um lugar para viver, caso voltasse. Cercá-lo em fossas e grades seria uma maneira de protegê-lo de nós… até decidirmos matá-lo.”

Nada Como Eu, Um Dia Depois Do Outro*

Nada Como Eu
Como se fosse um café…

Ana, sentada à mesa do restaurante, mexia distraidamente a colher em sua xícara de café. Fazia movimentos circulares de forma calma e complacente. Quando ergueu os olhos, avistou diante de si, Carlos, que se aproximara bem lentamente de sua mesa. Ao vê-lo, Ana sorriu de maneira enigmática, sem estabelecer se estava contente ou insatisfeita com a aparição inesperada do seu ex. Ainda com um sorriso indecifrável, pediu para Carlos se sentar. Agora, diante de si, estava aquele que a fizera chorar de raiva por algum tempo, desde que descobrira a sua lista de amantes, a começar por sua (agora também ex) melhor amiga.

Lembrou-se que parou de chorar quando notou que sentira um tipo de raiva diferente do que aquela que consideraria ser natural sentir por alguém que amasse verdadeiramente. Passou por um período de introspecção que a fizera perceber que o que sentia por Carlos era uma espécie de amor acomodado, uma amizade recheada de sexo eventual e nem sempre satisfatório. Dessa forma, mesmo sem o dizer explicitamente, o perdoara e também à sua amiga. Em verdade, passou a sentir que os dois haviam feito um favor a ela. Mas também esse dado não o revelara a ninguém. De fato, era a primeira vez que se encontravam depois do ocorrido. Todas as questões práticas da separação foram tratadas por advogados. Os dois não quiseram ter contato direto por algum tempo – ela, devido ao sentimento de ira, que não queria ver contaminar a relação dele com o casal de filhos adolescentes – e ele, pela vergonha de ter sido flagrado.

Sempre que chegava a ocasião da visita do pai aos filhos, Ana evitava encontrá-lo e Carlos, até então, havia respeitado a observação desse distanciamento. No entanto, como passara em frente daquele restaurante e tivesse percebido através da ampla janela a presença do rosto familiar junto a uma mesa de canto, estancara os seus passos por um instante e se flagrou surpreso de como a achou bonita com aquele semi-sorriso que pendia de sua boca. Parecia denunciar a expressão de uma pessoa que se sentia em paz, relaxada e até mesmo, ele pensou, satisfeita. Sentiu-se um pouco incomodado com a sua impressão e de impulso decidiu se aproximar para perguntar como ela estava. Logo que se sentou, foi o que fez.

– Estou bem! E você?

– Bem, também… Tem feito alguma coisa diferente, além do trabalho?

– Nada! Como um dia depois do outro no tempo em que vivíamos juntos…

– Você me parece estar tranquila e até feliz… Tem alguém especial em sua vida, atualmente?

– Que nada! Como um cara diferente depois do outro, mas não todos os dias…

Carlos ficou espantado diante dessa afirmação, principalmente pelo fato de que ela tivesse sido feita de forma tão natural e franca. Por seu tom de voz, Ana não pareceu querer ofendê-lo. Apenas ampliou o sorriso.

– Então, tá! Que bom que está bem! Adeus…

– Tchau! – respondeu Ana, vendo Carlos sair sem olhar para trás, enquanto ela fazia cumprir mais uma volta da colher em sua xícara de café. Como a dialogar com ela, exclamou em voz alta:

– Nada como um dia depois do outro…

 

*Texto de 2012, já lançado em uma das Revistas Plural, da Scenarium Plural – Livros Artesanais

Mã*

Mã

Mamães, eu desejo a todas vocês um dia em que possam usufruir do amor de seus filhos, estejam por perto ou distantes, fisicamente, o que não talvez não importe tanto, principalmente porque mães e filhos apresentam uma conexão umbilical, literal, durante a gestação, e espiritual, sempre.
Não conheço nenhum vínculo tão íntimo quanto o de uma mãe e seu filho. De certa forma, para confessar um sentimento menor, eu invejo esse poder incrível que vocês, mulheres, detêm. Quando as minhas filhas reclamaram por não ter o dia exclusivamente voltado para homenagearem a Tânia, brinquei que elas só eram suas filhas porque um dia eu decidira ser pai e formar família. Foi apenas uma tentativa canhestra para caber nesse amplo sentimento de gratidão e benção.
Porém, sempre haverá um porém, essa ligação natural também passa por ser construída e, portanto, pode ser destruída quando emoções efervescentes vêm a tona, conflitando os relacionamentos bastante fortes entre dois seres que se amam, mesmo quando não querem admitir.
Afora isso, os filhos têm dificuldade em aceitar que as mães sejam, também, mulheres, que carregam sonhos pessoais que fogem da alçada circunscrita a eles, seus filhos. Segundo essa postura, mães separadas de seus pais não poderiam ter desejos, não deveriam querer arranjar namorados, não precisariam de outra pessoa ocupando os seus pensamentos ou ter idéias que não sejam voltadas exclusivamente para eles. Onde já se viu?
Se ela vier a conseguir vencer as resistências, tenderá buscar para si alguém que igualmente pareça ser um bom pai, uma concessão ao fato de ser mãe, além de mulher. Por tudo isso e por muito mais, ser mãe é sofrer com todas as contradições, por ser a maior, por ser a melhor, por ser a total, por ser a absoluta definição do amor!
*Texto e foto de 2015