Bichinhos de pelúcia, bonecas, garrafas de água, canetas, álbuns, envelopes, cadernos e livros, bolsas, bolsinhas e bolsões, sacolas, enfeites, correntes, correntinhas, pingentes, brincos, pulseiras, óculos diversos, tênis, botas, sapatos, chinelos (calçados, tantos, que não sei como podem existir tantas variações), blusas, blusinhas, blusões, camisetas e “tops” (sim, eu sei o que são), calças, calções, calcinhas, lençóis, cobertas, almofadas, travesseiros e “pufs”, esparadrapos, “sprays”, pomadas, pílulas, pacotes de absorventes e remédios variados, controles da TV e do “vídeo-game”, aparelhos múltiplos e fios de aparelhos, fones de ouvido, caixas, caixinhas e repositórios dos mais diversos tipos, meias, meinhas e meiões, bonés e chapéus, roupas e roupões, pentes, escovas, pincéis de maquiagem, cabides, chicletes, uma xícara e um copo usados e uma barra de chocolate esquecida – tudo isso, perfeitamente dispostos no quarto de minhas meninas sobre as camas, móveis e cadeiras. Toda a aparente barafunda dos apetrechos femininos e outros apresentam a simetria da vida que acontece agora. Tudo, apesar da suposta bagunça, detêm um significado e um propósito. Antes, quando eu entrava nesse recanto de sono reconciliador ou de conversas caladas na noite, ficava contrariado. Dizia que não mais invadiria àquele mundo particular. Hoje, se o faço, é para somente perceber que tudo esteja em seu devido lugar, perfeitamente revirado, na expectativa do tempo que sentirei saudade de não as encontrar mais nele abrigadas – nossas filhas – meninas-mulheres que, um dia, ganharão o mundo. Então, nós, seus pais, encontraremos o quarto dos nossos amores, enfim, arrumado, mas vazio…
A decisão final foi tomada um dia antes, mas apenas na madrugada do dia 1º de Abril de 1964 – iniciou-se a movimentação das tropas para fora dos quartéis. O País amanheceu sob novas diretivas. As corporações militares, sempiternas entidades presentes no ao longo de nossa “democracia republicana”, assumiram o comando do governo – Golpe de Estado. Depois de vinte anos, o Brasil voltou a vivenciar outro regime de exceção, ainda que houvesse a promessa que fosse um expediente de breve duração. O pretexto usado pelos generais e almirantes de mar e ar era o de recolocar nos trilhos o trem institucional e impedir o eminente caos social. Depois de quatro anos, em 1968, com o Ato Institucional Nº 5, a Ditadura definitivamente foi sacramentada.
A discussão, que se acirra de tempos em tempos, entre “vencedores” e “vencidos”, ao denominar de “Contrarrevolução” ou “Golpe” o acontecimento que se deu no “Dia da Mentira” não foi a principal consequência desse episódio. Não foi mentira que grupos armados empreenderam ações para atacar o Regime, como não foi mentira que o Estado sob o comando das Forças Armadas prendeu, torturou, matou e fez desaparecer opositores do Regime. Não foi mentira que pessoas que pensavam diferente do estabelecido como padrão pelo Governo Central foram presas e exiladas. Não foi mentira que a Censura ganhou ares de Grilo Falante onipresente.
Não foi mentira que a serviço do combate aos soldados do sonho de uma América Latina unida sob o Socialismo, foram empregados agentes oficializados, aqueles tipos que sob qualquer bandeira se aprazem em executar, com requintes de crueldade, as piores atrocidades que um ser humano pode fazer ao outro. Meu pai relatou que durante os meses em que ficou preso passou pelo “pau-de-arara” e por aplicações de choques elétricos sob as unhas e no pênis. Normalmente realizadas a noite, essas sessões rasgavam o manto do silêncio com os urros de dor dos torturados, que ecoavam pelos corredores e celas dos outros “detidos para averiguação”. A tortura física de uns era a psicológica de outros. Denunciado por um companheiro de “atividades clandestinas”, que também foi “convencido” a entregá-lo, o tempo que meu pai passou na prisão causou a ruptura nos últimos liames de união familiar.
Desde que voltou do cárcere, o medo de que fosse buscado na calada da noite, o impediu que se sentisse tranquilo em nossa casa. Ele preferiu estabelecer outros esconderijos. Quando finalmente se sentiu à vontade diante das mudanças que ocorreram nos anos seguintes – Lei da Anistia, volta dos exilados, formação de novos partidos, eleições para cargos majoritários (exceto Presidência) – escolheu um quartel definitivo. Minha mãe, que sempre o acompanhou nas peripécias e incursões contra a Ditadura, foi deixada de lado. Meu pai se estabeleceu em uma base de retaguarda melhor para ele. Segura o suficiente para lançar a contraofensiva que viria um dia e veio, democraticamente, tendo a mim como aliado.
Sonho de chegada ao poder materializado, no entanto quem havia lutado contra o “status quo”, ao tê-lo nas mãos, se estregou paulatinamente às suas redes de sustentação-prisão. Para mim, seu filho, era uma derrota anunciada. Coloquei os meus receios, lembrando as denúncias que ele mesmo fizera em certo momento à direção do partido. Estranhamente, em outro, elas foram atenuadas ou esquecidas.
Decisões que tomou no âmbito familiar ajudaram a matar intimamente o meu antigo herói. Divergências mescladas a essas questões pessoais nos distanciaram a ponto de não nos reconciliarmos até a sua passagem, há um ano. Talvez tenha sido melhor que tenha ido antes que visse se avolumar a sombra de prenúncios de tempos soturnos, ao som de coturnos e gritos noturnos. Apesar de tudo, um dia eu amei aquele homem que acreditava na Revolução popular. Homem inteligente, deve ter sentido o que estava para acontecer. Quis fugir para o refúgio definitivo…
Hoje, Dia das Crianças, estou trabalhando. Mas mesmo que não estivesse na lida, não me faria falta. As minhas crianças cresceram. São adultas e independentes. Por estranho que pareça, apenas recentemente, me dei conta que minhas filhas deixaram de ser crianças. Obviamente que já há alguns anos havia percebido que isso havia acontecido, porém nunca havia admitido intimamente que crianças que possam ser chamadas de “minhas” haviam deixado de caminhar pelos pisos de casa.
Acho que o fato de ter cães em casa transferiram o cuidado que tínhamos com as filhas para esses seres que preenchem nossa convivência de amor “infantil”. O amor “adulto”, proporcionado por relacionamentos em que aquelas pessoinhas totalmente dependentes de nós nos obedeciam quase sempre e, quando não, eram por pirraça, hoje se baseia em outros quesitos. Discutimos assuntos de adultos de igual para igual, nem sempre com a maturidade necessária… de ambas as partes. Não são raras as ocasiões que nos dão “lição de moral”.
Com elas, conversamos sobre a vida, nossa família, amigos e relações interpessoais, que muitas vezes se sobrepõem às de pais e filhos. É normal ocorrerem críticas de parte a parte, que podem vir a desembocar em brigas mais sérias. Caras viradas, olhares desviados que duram o tempo necessário para prevalecer o amor mútuo e a volta da palavra trocada. Como as meninas têm seus assuntos pessoais que prescindem, em sua maior parte, da nossa participação, restam apenas nossa presença na casa vazia que não ecoam as suas vozes a chamar: “pai!… mãe!”…
Mulheres que variam de 23 a 29 anos, minhas filhas não pensam em casar, o que me alivia muito. Não que não quisesse netos. Caso quisessem ter filhos, não me oporia, contudo, casarem já é outra história. Admito até que netos viriam a renovar nossa vida com interesses diferentes, mas estamos tão ocupados com nossos próprios afazeres, que não sei como arranjaríamos tempo para isso. Antes, quem que passou dos cinquenta anos apenas esperava a chegada dos pimpolhos para lhes preencherem a vida. São novas épocas, com questões incabíveis anteriormente, com projetos pessoais a serem buscados pelos avós em potencial, como no nosso caso.
Não ajuda nada o atual panorama que vivemos, em que ter filhos envolve “questões de Estado”. Este Outubro, tem sido intenso. Além de eu estar renovando mais uma Primavera – pela quinquagésima sétima vez – este mês tem sido inédito pela manifestação de uma faceta da nação que já intuía, mas que ganhou clareza nestas eleições. Nosso povo, oriundo de misturas de credos, cores, preferências e origens étnicas, decidiu se orientar por uma bússola que determina um norte magnetizado na direção do latifúndio monocultural, em que expressões “diferentes” das “tradicionais” devem ser repudiadas, como se fossem responsáveis por suas íntimas contradições.
Beijo na boca pode vir a ser considerado crime. Andar de mãos dadas pode ser um ato político. Com grande risco de ver pessoas serem atacadas por preferências que supúnhamos ter superado quanto à liberdade de ação. Nesse estágio, apesar das diferenças pessoais quanto à visão do que consideramos individualmente os projetos mais apropriados para construir o País, temos como medida a Liberdade e a Democracia, acima de tudo. Fico muito feliz em perceber que, como pais, fizemos um excelente trabalho com as nossas crianças. Elas se batem e se colocam a favor das boas causas. Contra a volta de ideologias que fizeram tanto mal no início do século passado. Nossos netos, se vierem a nascer, merecem um mundo melhor…
Lançada em 1947, a linda canção do grande Dorival Caymmi nasceu de uma frase dita por seu filho Dori, então, novinho, quando viu o pai sair pela porta: “Estou de mal!”. O dito ficou martelando na cabeça do compositor e, ao final do dia, a canção estava pronta. Do mote inicial, construiu o sucesso reeditado por Gilberto Gil em 1979 que, inclusive, nomeou como Marina Morena a uma de suas filhas.
Apesar da beleza da melodia, a composição carrega algumas contradições em relação à visão do “politicamente correto” que frequenta nossos dias. Ainda que tenha objeção a normas que preconizam comportamentos uniformes, não posso deixar de observar preconceitos arraigados, sob aspectos aparentemente inocentes da nossa formação como Sociedade, revelados por sua letra. Ao lado da marcante e suingada interpretação de Gil, a imagem mental de um homem inconformado se impõe apenas porque a “sua” Marina pintou o rosto. Prossegue anunciando “eu já perdoei muita coisa, você não arranjava outra igual / Marina, morena, eu tô de mal…”.
Estamos falando de uma música composta há setenta anos antes, época em que a mulher era cobrada por qualquer comportamento diferente do que fosse considerado ideal – obediência e discrição. A interpretação de Caymmi dada à canção é mais contrita, demonstrando mágoa por Marina ter se pintado. Por trás do elogio – “você já é bonita com que Deus lhe deu…” – resiste implicitamente a contrariedade por ela querer chamar atenção ao se pintar. Eventualmente, deveria passar pela cabeça do homem que ele não seria suficiente para ela. Se Marina viesse a responder que se pintava para se sentir um pouco diferente ou mesmo mais bonita para ela mesma, isso não caberia em seu pensamento.
Caymmi, um dos maiores compositores da música brasileira, gostava de artes plásticas, foi pintor quando mais novo e teve contato com diversos intelectuais, artistas e escritores de meados do Século XX, como Jorge Amado. Inteligente e talentoso, ainda assim não escapou às determinismos sociais do período, em que a atuação da mulher se restringia a se casar e ser “dona de casa” como objetivo ideal. Quando canta “você sabe que quando me zango, Marina, não sei perdoar”, é mostrado um personagem irredutível em aceitar tamanha falta.
Setenta anos depois, outra Marina se coloca a frente de uma situação em que ousa ultrapassar os pressupostos estabelecidos ainda hoje em nossa sociedade. É candidata à presidência do País. Apesar de apoiá-la, antes não revelaria o meu voto nela. Mas como já declarei que não votaria em um em especial, entre todos, o que veio a gerar alguma repercussão, a favor e contra, incluindo alguns que privam do meu contato (normal, mesmo porque sou a favor da convivência de ideias contrárias) preferi ser taxativo. Colaborou, também o surgimento de uma foto que achei graciosa pelo enunciado, mas que suscitou minha reflexão: “Enquanto vocês ficam aí brigando entre Lula e Bolsonaro, a Marina está formando seu exército de clones” – via Instagram.
Por trás da imagem, há tanta coisa envolvida, que decidi detalhá-la. Nela, vemos Marina Silva (sobrenome-ícone-brasileiro), fazendo o “V” da vitória, em meio a um grupo de mulheres parecidas com ela, em pelo menos uma condição – a origem étnica – a mesma da maioria dos brasileiros: miscigenada, além do pequeno porte físico, a postura contida e o sorriso encabulado. Ela está entre homens e mulheres que fazem parte do grupo que representa, formado por pessoas que, como ela, nasceram em condições precárias de subsistência. O símbolo da vitória se justificaria por diversas razões, mas sobretudo porque ela chega a uma posição de protagonismo em uma eleição majoritária, mais uma vez.
Superada todas as vicissitudes pelas quais passou, como sabemos, não vejo quase nenhuma pessoa tão gabaritada quanto Marina, morena, para chegar à chefia do Executivo. Esta será a terceira vez que comparecerei à urna para referendá-la. Seu projeto me chamou a atenção desde o início pela defesa do meio ambiente e do saneamento básico como requisitos fundamentais para a melhoria das condições mínimas de saúde e bem-estar da população. Parece pouco ou simples. Se é, porque não realizam? Valorizar a Educação de base, incluindo a construção de creches, se é uma tarefa pequena, porque não é implementada? Além disso, seu programa de governo discorre com propriedade sobre as grandes e complexas questões que dizem respeito à administração do País. Para quem se interessar, acesse seu plano de governo: https://ep00.epimg.net/descargables/2018/08/15/fccc6c2f2fbf5bab0e94cc013a27e399.pdf
Ao mesmo tempo, avançou em questões que causava reservas junto a determinados setores “bem pensantes”, que a viam como messiânica, em uma tentativa de desconstrução feitas por antigos aliados. Retirada essa pecha um tanto preconceituosa, com cara de progressista, acho que aprendemos a lição quanto a não voltarmos a seguir tipos que se anunciam como “Salvadores da Pátria”. Nesse quesito, ela demonstrou buscar a colaboração de todos os setores da sociedade brasileira, como líder democrática que é.
Ao final, espero sinceramente que o “exército de clones” da Marina possa vencer, na sua figura, seus oponentes mais gritantes – o preconceito, a misoginia, a visão míope e a desconfiança quanto a capacidade dos brasileiros de superarem seus limites (visto por eles mesmos), apesar da pobreza material e mental reinante – imposta desde sempre pelo sistema cartorial patrocinado por aqueles que sempre viveram às expensas desta Nação.
Vivo que estou, tudo me inspira. Do amor à violência, tudo o que se manifesta como expressão humana me deita raízes e razões – a escrita como artifício e meio. No entanto, há temas que fico a respirar recorrentemente. Enquanto não consigo lhe revelar alguns dos mistérios – o que nem sempre o torna menos enigmático – volto a ele várias e várias vezes.
Os fenômenos naturais sempre me atraíram muito. Menino da cidade, antes de saber que havia o mar em mim, a partir dos oito anos de idade fui viver na Periferia, nos rincões quase rurais da Zona Norte do início dos anos 70. Esse afastamento do Centro, permitiu me relacionar com as questões climáticas para além do simples incômodo que pudessem provocar o frio ou o calor, a seca ou a estiagem. Na cidade vascularizada por riachos e rios, isso não deveria ser uma preocupação. No entanto, estando esses recursos encobertos por tampões ou cercados por muros e asfalto, sofremos com a escassez de água ou enchentes destruidoras. A chuva e o sol também são nossos aliados. Quando nos mudamos, não tínhamos água encanada. Ainda que possuíssemos um poço artesiano, usávamos a água da chuva para encher as tinas que colocávamos ao sol em cima da laje para esquentar para um banho morno, além de servirem para regar as plantas e lavar o quintal.
Chuva na Marginal Tietê.
Percebíamos a influência das estações nas plantas. Tínhamos várias árvores frutíferas e sabíamos as épocas em que cada uma frutificava. Bananas, brotavam o ano inteiro. Mangas, goiabas e abacates, sazonalmente. Plantávamos milho, feijão e cana. No inverno, a geada no verde dos morros provocava um efeito de riqueza prateada aos primeiros raios de sol inclinado.
A quem estas mangas querem seduzir?…
Sem a interferência de tantas luzes artificiais, no céu noturno, contemplava com reverência a majestosa grandiosidade do corpo alongado da Via Láctea a derramar o seu leite estelar. Durante o dia, as nuvens em céus de todos os tempos me encantavam, com as suas características particularmente volúveis, em formas e combinações. Os jogos de luz e sombra provocados pela dança retilínea do sol e esvoaçante dos corpos fluídicos costumava entreter o meu olhar em manhãs e tardes. Da mesma maneira, hoje deixo-me levar como a uma pipa ao sabor do vento. Crepúsculos e auroras são naturais símbolos de renovação.
Voo em direção ao ocaso…
Desde essa fase, iniciei mais profundamente o meu contato com os bichos, o que estimulou o desenvolvimento da minha empatia com os outros seres, ainda que não humanos. Fui criador de galinhas e patos. Sempre tive muitos cachorros, gatos e até uma porquinha já passeou como um animal de estimação – Priscila. Inteligente e vivaz, não me lembro de seu destino, muito novo que era. Ou procuro não lembrar. Fiquei dez anos sem comer carne…
Betânia, no andar de cima. Frida, abaixo. Donas do sofá.
As pessoas humanas formavam um grupo estranho para mim. Eu me identificava com os seus componentes em alguns aspectos, normalmente quando fugiam do padrão normal. Sempre fui amigo dos mais estranhos. Formávamos um grupo seleto. Estudantes tímidos, gostávamos de futebol, xadrez, dominó e música. Eu, particularmente, de História, Geografia e Literatura. E Cinema. Sonhava filmes. Sonhei Amarcord.
Somos filhos da Pátria!
Das criações humanas – casas, edifícios, templos, máquinas, instrumentos de comunicação, veículos de transporte, móveis, apetrechos, utensílios, roupas e tudo mais – sempre me fascinaram os casulos, grandes e pequenos, que perdurarão ainda algum tempo depois que nós nos formos. São monumentos à nossa arrogância diante da Natureza. Em torno delas, as cidades se reproduzem e se espalham em ruas, avenidas, praças, estádios – tudo o que torna habitável a sua vaidade.
Pátio do Colégio, ponto gerador.
Inspirado por minha convivência com São Paulo, seus habitantes e (des)caminhos, participo do grande concerto – vida que segue sem rumo aparente. Não sei como sobrevivi. Quando brincava de Índio e Cowboy, eu sempre preferi ser o Índio…