#Blogvember / Caixa De Joias

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Caminhando para o lado de dentro de Mariana Gouveia, leio – “Guardo-te na caixa dos segredos como se joia fosse… espio-te com lupas microscópicas”. Percebi o quanto essa frase se adequa ao meu comportamento contigo. Eu te preservei do mundo, como se fosse somente minha. Assim como tu faz parte do grande segredo que preservo do olhar mundano. Fiquei imaginando o quanto, mesmo sem nos conhecer, quem escreve pode nos alcançar em nossa intimidade.

Eu te vi crescer, perscrutei tuas jornadas, amizades, estudos, amores, teu desenvolvimento rumo à identidade livre de preconceitos. Eu te protegi de ações que te impediriam de ser quem quisesse ser caso ficasse sob o jugo da família de teu pai. Quando fugi da casa-prisão na qual queria nos guardar, lutei por teu futuro, por poder caminhar por tuas pernas, seguir tuas prioridades.

Quando neste ano lutamos juntas pelo bem do País, cantando, dançando, chorando para livrá-lo de mais quatro anos de um desgoverno a desviar de rotas sociais que nós ambas nos identificamos, soube que fiz o certo em deixar-te distante daqueles que estão do outro lado do muro do Apartheid que querem nos manter. Entre eles, teu pai. Fugi do Estado, mudei de identidade, trabalhei muito, me mantive discreta, te eduquei para ser livre, independente, franca, sincera, participativa, íntegra, amiga fiel, mas sei que é tua essa preciosa personalidade de grande mulher que acredita na igualdade na diversidade. Como é linda tua natureza pessoal!

Maria, esta pequena carta apenas lerás quando eu me for. Espero que entenda ao conhecer a tua origem e do quanto te amei para te guardar longe de tanto mal, da face horrível do ser humano dessa classe que se acha superior somente por ter mais dinheiro.

Um cheiro, meu amor!

Tua mãe, Mariana!

Participam: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins

#Blogvember / Aos Cuidados De Novembro

Sob os auspícios dos efeitos dos últimos dias de Outubro, Novembro chegou bipolar. Temperaturas frias, como deverá ser a tônica deste meio de Primavera e quente no ambiente político. Depois da onda à direita que dominou o País, Lula foi eleito Presidente da República em pleito dividido meio a meio. Em estradas federais, caminhoneiros bloqueiam a passagem de veículos, reunindo renitentes que não aceitam o resultado em que compareceram 120 milhões de eleitores dos 150 milhões aptos a votar. Desses 120 milhões, um quarto decidiu anular ou votar branco. Como já disse em uma postagem: “Esta eleição configurou a escolha entre duas pautas não apenas diferentes, mas praticamente opostas, espelhadas. Foi entre um projeto de quem está acostumado à barbárie e gostaria de torná-la institucional. De pessoas que patrocinam com o ideal de armar o povo não com o conhecimento, não com a igualdade na diversidade, não com o amparo aos desprovidos de moradia, alimento e oportunidade de crescimento social. Os isentos são tão perniciosos quanto os extremistas”.

Ontem, passei por minha foto em que apareço com cinco anos correndo pela grama de algum parque central de São Paulo. Nós morávamos no Largo do Arouche, no Edifício Coliseu. Tenho poucas lembranças desse tempo, bastante pontuais. Ao vê-la, me sobreveio foi a onda de inocência que envolvia aquele menino. Anos mais tarde, com uns 10 anos, a minha mãe, então ativa no auxílio ao meu pai na movimentação do Partido Comunista, clandestino, me perguntou se gostava mais da ARENA ou do MDB – os únicos partidos permitidos a existirem para simular um Estado democrático – para um discurso que, hoje eu sei, era para ser lido pelos que vivessem no Futuro. Eu respondi que preferia a ARENA, para horror de Dona Madalena. A Aliança Renovadora Nacional aglutinava os defensores do Golpe de Estado de 1964 realizado pelos militares, que preferiram nomeá-lo de Revolução. De fato, uma revolução que deu pleno sentido a uma frase de um livro que li chamado “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa: ”Se quisermos que as coisas continuem como estão, as coisas precisam mudar”. Do outro, o Movimento de Mobilização Democrática reunia o gripo dos opositores que não havia emigrado ou exilado à força para o Exterior. Vários outros, estavam presos ou “desapareceram” depois de terem sido torturados.

Sendo criança, o que influenciava a minha opinião era a massiva propaganda empreendida pelo Governo Militar incentivando o Patriotismo cego. Também corroborava a identificação com o Poder, um sentido umbilicalmente ligado ao Patriarcado. O tutor forte que dirige à salvo o inocente para um hipotético porto seguro. As manifestações dos que não reconhecem o resultado da eleição de 30 de Outubro são como crianças malcriadas, como a agravante de serem adultas. Carregam uma infantilidade perigosa, insufladas por um líder insensível, de postura mítica-messiânica. Essas pessoas não se importam em envolverem seus filhos pequenos num movimento de resistência a uma situação dada como insustentável, na esperança que o País seja levado a uma revolução composta dos “tiozões do pavê” – representantes da tradicional família brasileira – estimulados a abandonarem as suas posturas preconceituosas professadas em churrascadas, enquanto olham para as bundas das menininhas que têm a mesma idade suas filhas, e agirem à favor de uma luta armada.

Com a chegada da adolescência, com a experiência de ver o pai fugitivo ser preso e torturado nos porões do Ditadura, voltei o meu olhar para à esquerda Mas as contradições internas de pessoas também formadas no sistema predatório do Patriarcado, me fez relativizar cada vez os posicionamentos de um lado e outro e perceber que o Sistema Político brasileiro é corruptor e corrupto, derivado historicamente de um Brasil que cresceu à sombra da Escravidão que ainda hoje marca à ferro e fogo o gado que insiste em se manter unido em direção ao Matadouro. Aqueles que perceberam que era hora de mudar o sentido e desviaram para uma possibilidade de futuro sem o viés fascista que sempre fará parte de nossa gênese, mas que pode ter atenuada sua expressão, decidiram pela Frente Ampla Democrática, com Lula à frente. Também foi a minha escolha, assim como em 2018, quando a minha opção foi – por exclusão – em Haddad. Na época, escrevi um pouco antes da votação no Segundo Turno: “Se vencer Haddad, serei oposição. Se vencer Bolsonaro, serei resistência”. Na deste ano, votei francamente a favor de Lula que, com o seu belo discurso na noite da vitória, me fez acreditar que este país ainda possa caminhar no sentido de uma Democracia madura, de convivência de ideias antagônicas, mas longe de extremismos que separam uns e outros de forma violenta e vil.

Oremos e vigiemos…

Participam os autores:
Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

Careca

Nasci no início dos Anos 60. Vivi, garoto, a efervescência do movimento da Contracultura. Entre as miríades de transformações, esse tempo foi marcado pela rebeldia contra o Sistema Capitalista e da busca de filosofias que pregavam o desapego material. Uma das consequências visíveis foi alteração do modo de comportar-se, vestir-se e apresentar-se à Sociedade, influenciado pela postura Hippie de ser. Filosofias, roupas e badulaques à parte, no aspecto visual, o que mais me marcou foi o cabelo. Desde cedo, deixei os meus crescerem. Durante 40 anos, deixar o cabelo comprido servia como marca registrada de alguém que eu queria preservar e homenagear – o rapaz que queria mudar o mundo.

Desde os meados anteriores aos cinquenta, passei a cortar os cabelos bem rente. Não deixei de querer deixar um mundo melhor para os que vierem depois de mim. Tendo já criado as minhas filhas, as preparando para enfrentar o Patriarcado de cabeças erguidas, quero que os meus eventuais netos (os netos de qualquer um) venham a viver um planeta Terra mais equilibrado – ambiental, social e economicamente. A minha luta continua, mas não mais com o meus antigos e longos fios. Agora, careca, com a quantidade de cabelos cada vez mais reduzida e com o que resta embranquecido, continuarei a ostentar a minha rebeldia contra o Sistema. Ainda que esteja careca de saber que não verei um País melhor antes de morrer…  

O Arco Do Tempo

Eu, Humberto (meu irmão), Sr. Ortega (meu pai), Marisol (minha irmã) e Eustáquio (meu avô paterno), sentado.

desço os olhos para as linhas que desenham
rostos e paisagens em fotos de décadas
repassadas em cores e descores
cumpro o destino da flecha atirada por Chronos
personagens dos quais sou um
e mais nenhum
papai vovô irmãos
sonhos em desvãos
que nunca foram realizados
os meus indecifráveis
vivia fora do mundo aceitava
sem sorrisos que cedo morreria
quase obsessão aos 33 de Cristo
aos 40 de John aos 27 de Morrison
sempre haverá quem morra jovem
em cada uma das idades
aos borbotões a toda hora
ainda não foi a minha agora
se for antes dos 80 morrerei contente
não sei de amanhã vivo o presente
lembro que vovô me amava
me achava inteligente
antes de partir cuidei dele
banhava o ajudava a comer caminhar
pedi perdão porque sabia que não cumpriria
as suas ambições não queria ser homem importante
influente intendente industrial comerciante
buscava ser simples despojado pés no chão
me sentia desmembrado desmemoriado
de um passado que sabia existir
vidas passadas realidades não alcançadas
já entendia que o futuro não contava
mas ainda cultuava a esperança um país diferente
múltiplo raças misturadas riqueza distribuída
hoje morro todos os dias às vezes de hora em hora
a grandeza desmesurou-se em sentido contrário
nos apequenamos repugnantes ruminantes
de mentiras e contradições
dos templos ocupam-se os vendilhões
crenças transformadas em crendices
fé em feitiçarias em salões dourados
em palácios de mandatários
estamos nos finais dos tempos
mais um tempo de finais
no eterno ciclo de decadências
e de mercados baratos na venda de consciências…

Meu pai, eu e meu irmão, em Foz do Iguaçu, à caminho de Missiones (Argentina), onde vivia a minha avó paterna (1985)

Declaração De Voto

Há momentos em que devemos tomar uma decisão crucial. Ainda que exista dilemas a serem resolvidos, dúvidas a serem esclarecidas, posturas a serem aclaradas. Isso ocorre quando uma das posições se mostra tão absolutamente contrária ao que pensamos sobre o mundo que não há como deixar de optar pelo caminho oposto. Não será de olhos fechados ou uma dando carta branca sem discutir claramente todas as consequências das ações a serem levadas adiante que darei o meu voto. Mas sim para que retomemos o caminho da valorização da vida como patrimônio maior do País. Para que sejamos valorizadas em nossas origens e regionalidades, gêneros e identidades, dimensões e classes, direitos e deveres.

Sim, temos o dever de defender o direito de expressão, a liberdade de crença, de crer em si como pessoa humana ainda que não identificado com o gênero que nasceu, com o direito da mulher assumir o comando de seu corpo, das raças deixarem de ser estigmatizadas por terem justamente sofrido no passado o crime de prisão por gerações por causa da cor da pele. Ainda mais neste País em que a maioria de habitantes é composta por minorias sem condições de alcançar o desenvolvimento pessoal – por falta de educação, por falta de habitação, alimentação, saúde e paz.

Quando a arma de fogo se torna o símbolo de um governante, não há como acreditar nesse deus que ele diz falar em seu nome. Deus de sangue, ranger de dentes, vingativo e tendencioso. Que vê com desdém o adoecimento de dezenas de milhões e a morte de centenas de milhares de brasileiros. Banhar-se nas águas do Rio Jordão não faz de ninguém um crente. Ele representa o Mal quando defende a invasão de terras onde os mananciais de nossas próprias águas estão sendo envenenados. Quando incentiva que nossas florestas sejam derrubadas, que territórios de imensa diversidade biológica sejam arrasados, quando vê com menosprezo os povos originários e os que os defendem, sendo aniquilados. Já não bastou termos espoliados quem antes aqui vivia.

Parece que há uma sanha por extingui-los da face da Terra. Esse é um crime que não devemos permitir, por conta de vermos extinta a nossa humanidade. É primordial cuidarmos de nossa fauna, biomas e a qualidade de nosso ar. Devemos defender o aumento dos recursos em pesquisas, para tornar o Brasil líder em desenvolvimento de soluções para o mundo na área dos recursos naturais, sem devastarmos as diferentes expressões de vida nos mais de 8 milhões de quilômetros quadrados de nosso território – interior, litoral, planaltos, planícies, vales e montanhas.

Quero ver o povo feliz cantando e dançando. Quero ver a cultura popular elevada à condição de patrimônio em toda a sua riqueza e diversidade. Quero ter acesso às artes visuais, às plásticas, às tridimensionais, `musicais, às experimentais. Todas incentivadas como meios de alcançar o bem-estar da alma. Quero que o povo tenha direito ao lazer, à diversão, o direito de soltar a voz em nome do amor sem interdição de origem e destino. Por que demonizar o amor e colocar o ódio como linguagem do homem? Por que tornar a mulher um sinónimo de “fraquejada”, quando todos sabemos (mesmo aqueles que não confessam) que ela é a parte mais forte da sociedade? Que sem a mulher, a ideia de família como a conhecemos não existiria e a civilização não sobreviveria? Sem a mulher seríamos homens que reproduziríamos filhos à nossa imagem lhes dando números em vez de nomes – 01, 02, 03, 04… Psicopatas com psicopatinhas como apêndices.

No dia 1º de janeiro de 2023, quero ver Lula desfilar novamente pela Esplanada dos Ministérios no Rolls Royce devidamente desinfetado. Quero ver a pastora que desfila e registra em fotos para divulgação de uma marca de roupas em pleno féretro da Rainha Elizabeth II, sendo substituída por Janja. Quero ver a socióloga dançar livre, leve e solta como digna representante da mulher brasileira atuante e independente. Quero o velho com o coração de jovem no poder. Que velhacos já nos bastam os que estiveram e estão no comando desse desfile macabro da guerra contra a Ciência, o Conhecimento, o Saber, tendo prazer em desconsiderar os avanços que não lhes aprazem, como a urna eletrônica.

Esses sujeitos costumam se autodenominar como conservadores. São, de fato, retrógrados, que não admitem a modernidade. Mas o povo brasileiro já percebeu que a indigência política que vivemos tem que ter um ponto final. Hoje será dado apenas mais um passo. Até o final do ano, o Ignominioso Miliciano terá tempo de acionar a sua horda para tentar desequilibrar o nosso cotidiano. Fiquemos alerta – esse é o preço de mantermos a Democracia como nosso modelo de governo – a eterna vigilância.

2 de Outubro de 2022