BEDA / Loucura & Paixão

de pathos vem paixão
loucura é doença dizem
quando a mente parece mentir
a realidade mas a qual realidade
nos referimos?
é doentio acreditarmos que seja real
o que vivemos nestes dias
quando nos apaixonamos distorcemos
a realidade para o bem
enlouquecemos
e do mal esquecemos
o corpo padece de saudade
na distância
percebemos no ar a bondade
sentimos do amor a fragrância
a nos rodear em pulsações
de destrambelhados corações
doentes de bendições
quando a loucura é cura.

Apaixonada Pela Vida

quando a encontro fico na expectativa de voltar a mergulhar
em momentos de entrega e sedução
ela confessa que sem mim passeia de pés descalços
pelo chão da solidão
pede para que eu me deite e vem em minha direção
pronta para me abocanhar inteiro
ainda que seja apenas uma parte de mim primeiro
me deixa com o coração extasiado
meu pelo arrepiado
transcendo
e fico me sentindo sendo
mais do que sou
torno-me vivo aceso louco de paixão e desejo
quando a possuo
boca à procura da sua menina enveredo por caminhos
quentes vibrantes língua a bebê-la a sentindo plena
emoções profundas mas leves como uma pena
quando estou com ela permaneço fora do tempo
ainda que o meu relógio interno me chame para fora dela
porque provavelmente eu me perderia
e o meu espírito indeciso de mim se sentiria
em perigo de abandonar-me de vez para ir a norte de mim mesmo
e, por lá… ficar…

Foto por Polina Tankilevitch em Pexels.com

Mulheres Que Esperam

praça de alimentação de um shopping
famílias homens mulheres crianças
cães vez ou outra ladram
os sinos de avisos repercutem
sonoros agudos
pessoas falam alto
pensativos um ou outro dos presentes
permanece mudo ausente
do presente
muitas mulheres estão sós
esperam
olham pelo celular possíveis mensagens
a hora que passa nada pediram
intimamente pedem talvez que não se atrasem
ou mesmo que isso ocorra que venham
eu me intrometo em suas histórias
proponho alternativas viáveis
e poucas escapam de uma constante
esperam homens compromissados com outras
com deveres familiares
tentam fugir de suas prisões
uniões
que se esgarçaram
com o tempo buscam viver
novas emoções encontros com o furor juvenil
já envelhecidos se sentem remoçados
e quem os espera sabe disso
algumas conhecem as companheiras
possíveis amigas
mas se sentem apaixonadas não assumem
que sejam invejosas
mas estar com o objeto de desejo
as fazem se sentir poderosas
mas aqueles a quem esperam
são simplesmente homens
num mundo em que seu poder se desmorona
se comportam como seres sem honra
ou apenas escapar da rotina da lida
sentirem que estão vivendo novas sensações na vida
talvez nem gostam de quem venham a encontrar
porém querem se enganar
que ainda têm o poder
de brincar com os sentimento das mulheres
viver a emoção da conquista
quando sempre serão elas que se permitem
também brincam com a capacidade de seduzir
buscam conquistar novas possessões
num mundo utilitarista apenas
visitar outros corpos como turistas
não querem que eles se apaixonem
que fiquem pegajosos
grudentos ciumentos brincam com fogo
transformam ambos em um jogo
que se nisso ficassem não seria de todo mal
gozo prazeroso acima das leis patrimoniais
abaixo das obrigações sociais
para os outros mentirosos
pessoas de vida dupla
para si mesmos mulheres e homens portentosos
sem culpa…



Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com

09 / 12 / 2012 / Ausência Presente

de vez quando eu lembro de seus olhos furta-cor
muitas vezes eu a recordo sentindo dor
do corpo da alma do passado do presente do incerto futuro do amor
ao mesmo tempo elogiava o meu membro duro
que lhe trazia o prazer da fuga da vida fugaz enquanto mergulhava
no sentido do desejo puro
até que me disse sem pestanejar como se fosse vaticínio de cigana
que um dia tudo iria acabar quando decidi que era o momento
tempos depois revelou — você sabe que ainda poderia estarmos juntos
que a vida em equilíbrio precário devia ter seguido seu curso
que deveríamos estar no amando pelos cantos em pelo e pele
da cidade entre prédios e becos caminhos inusitados lugares
de esgares urros e gemidos onde todas vocês em si
se encontravam com todos os meus em mim
essa multidão ficou órfão de paixão num átimo
caminham a esmo em busca de outras bocas
em delírios sonhos e pensamentos
até perceberem que tentam voltar a se perder em nossas próprias bocas
nossos corpos nossos seres
e mesmo que na penumbra da luz indireta da tarde que esvai
é o que dizem a luz dos nossos olhares…

Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

18 / 04 / 2025 / BEDA / Se Não For Para Causar, Nem Me Caso*

Maria, figura esfuziante e autossuficiente, trazia o sol atrás de si onde quer que chegasse. Era desejada por homens e mulheres, mas não se prendia a ninguém. No trabalho, sorriso aberto, conseguia conduzir aos seus comandados com facilidade e seriedade. Ao chegar de sextas à noite, saia com um grupo de amigos, muitos, antigos colegas de escola. Todos a amavam. Quase todos a tiveram nos braços, mas sabiam que ela era quase um patrimônio da humanidade. Como conseguia equilibrar tantas emoções que provocava, era um mistério que nunca conseguiram desvendar. Ou se aceitava Maria ou se afastava para tentar nunca mais vê-la. Porém, tamanha a sua força atrativa, poucos a deixavam. Era fogo que aquecia.

José, recolhido e triste, enviuvara há pouco tempo, sem filhos. A sua personalidade plasmada em gesso sem acabamento, ganhou feições de grandiosidade de um deserto aberto. No entanto, sempre prestativo, era querido por muitos. Gostavam de tê-lo por perto porque era aquele que parecia concordar com tudo o que fosse dito, calado que era. Poderia se dizer que fosse uma figura decorativa, porém indispensável. Eficiente em suas funções de contador, não sabia contar quantas dores já sentira na vida, sensibilidade à flor da epiderme mais basal. Era gelo que não queimava de frio.

Ora, pois então, deu-se que um dia acabaram por se encontrar em uma tarde de outono, Sexta-Feira Santa. Maria, reservava um dia por semana para estar só ao sol – amigos estelares que eram. José, ainda que companheiro silente preferido de muitos, se sentia melhor quando confirmado em sua solidão tranquila. Ela, a buscar a luz por entre o arvoredo do parque; ele, a se sentir acolhido pela sombra oferecido pelas folhas – encontram, peito com peito, distraídos dos dois, absortos pela Natureza. Olhos nos olhos, antes da queda… ou quase, já que ele, em um movimento de insuspeita agilidade, a segurou nos braços. Fogo e gelo em pleno Horto Florestal. Desculpas recíprocas. O sorriso dela a queimar a pele dele. A profundidade do olhar dele a abarcar a energia dela.

Tão diferentes, que não se estranharam. Antes, curiosos por viajarem por terras tão distantes, se sentiram atraídos pela aventura de se conhecerem. Decerto, não era algo que faltasse a uma e outro. Ambos se sentiam completos, ao seu modo – uma, pela opulência; outro, pela falta. Perceberam que não precisavam trocar palavras ou gestos efusivos. Apenas o dançar suave de mãos e olhares, jogo de silêncios e risos sem motivos aparentes. Ela, em sua presença, brilhava ainda mais; ele, na dela, se aprofundava mais firmemente em sua segura e sólida guarida. Longe da multidão que os cercavam, no entanto, se reconheceram amantes de si para si. Já, naquele dia, o finalizaram em batismo de fogo e gelo. Queimaram e umedeceram os lençóis noturnos e, mais tarde, matutinos. Final de semana prolongado da Paixão.

Celulares religados, mensagens e chamadas perdidas os fizeram perceber que o mundo os queria por perto – familiares e amigos, carentes do corpo caloroso de Maria e da presença refrescante de José. Logo, perceberam que não queriam se separar, talvez não conseguissem. Ambos estavam surpreendidos pela força que os uniam, ainda que não precisassem o que fosse ou como denominar aquilo que sentiam. Talvez fosse amor, uma doença grave ou uma dependência psíquica e mental, vício imediato, feito crack. Decidiram revelar ao mundo entorno de um e de outro que, a partir daquele instante, estariam juntos… Quase em uníssono, se perguntaram, como se tivessem uma plateia a inquiri-los: “Até quando? ”… Quase que imediatamente, se responderam: “Não sabemos! ”… Riram gostosamente.

Feita a excursão por seus respectivos planetas, souberam que a aliança entre as partes não seria facilitada por seus habitantes. Seguiram em frente, alheios ao antagonismo – puro egoísmo de quem se acostumara a companhia constante de seres tão especiais. Com o tempo, a percepção de que ambos os lados não perderam uma amiga ou um amigo, mas ganharam outro, trouxe paz ao sistema solar.

A contrariar todas as expectativas e as suas próprias convicções pessoais, quiseram fixar um núcleo central. Um lugar de reconhecimento como sendo a casa do Sol e do Gelo. Um ponto de referência. Já que não precisavam casar, porque não casarem? Reuniram a turma e anunciaram o enlace. Com o seu jeito faceiro, ela completou: “ Se não for para causar, nem me caso! “… “ E quando será? “… “ Está a ser ”… E foram declarados: Vida e Paixão

Foto por Abraham Aguilera em Pexels.com

*Conto de 2017