24 / 03 / 2025 / Carta Ao Destino

Senhor Destino,
o dia amanheceu cheio de expectativas para tantos… Para mim, que estava me deslocando de minha zona de conforto, não. Eu aprendi… ou melhor dizendo, eu desenvolvi o costume de não ter nenhuma expectativa quanto certas questões que fogem do meu alcance. O meu comportamento é o de um passageiro de ônibus que pode apenas observar a paisagem enquanto se encaminha para o destino programado tendo ao volante um motorista profissional capacitado. É o que se espera.

No entanto, é comum me surpreender com o otimismo que as pessoas têm quando dizem que estarão em determinado lugar em determinada hora. Ao mesmo tempo, esperar que algo dê errado com o plano que estabelecemos para chegarmos a algum ponto, talvez seja um sintoma doentio de negatividade.

Milhões de pessoas se deslocam de lá para cá de forma quase automática. Não estão planejadas intercorrências em seus trajetos, suspeitas de atraso ou movimentos inesperados. E ainda bem!… Deve ser horrível viver na expectativa de malefícios. Mesmo assim, me assusto com os que têm certezas objetivas. É como se tivessem o dom da clarividência. “Tomarei tal transporte. Irei para tal lugar. Subirei as escadas da faculdade às 10h10. Me casarei dia tal, com tal pessoa, vestindo tal roupa”.

Como deve saber, por me ter em suas mãos, trabalho com eventos. Tenho que os agendar antecipadamente. Muitas vezes, meses antes. E até um ano antes. Como casamentos. Eu acho incrível essa convicção de algo que envolve planos de uma vida toda. É similar ao agricultor que prepara o terreno para colher no tempo adequado. Porém, assim como se espera que o clima colabore para o homem do campo, não se espera que uma paixão avassaladora desvie um dos noivos de seus planos.

De maneira quase antagônica, ao conhecer muitos dos meus possíveis caminhos, sabe que não pauto a minha vida pensado no Senhor, apesar de saber que tento controlá-lo ao palmar minhas atitudes diante das consequências que poderiam advir delas. Ainda que em determinado momento da minha vida, fui me deixando levar por minhas inclinações menos racionais e mais emocionais e instintivas. O Senhor sabe o que vivi e então nunca me senti tão vivo… Sim, vivi o melhor e o pior de viver, ainda que o melhor tenha sido tão bom que aceito o pior como uma espécie de prémio de valorização do melhor.

Apenas para não tergiversar mais, digo que prefiro estar na estrada e apreciar a viagem, à espera (sem esperar) de quando o encontre definitivamente. Tenho essa curiosidade, apesar de tudo, e não foram poucas as vezes que quase desejei fazê-lo mais cedo, confortavelmente instalado em minha casa. Talvez por curiosidade epistemológica, se bem que o objeto “morte” não seja inanimado, ao contrário. É ativo e efetivo em sua incrível capacidade de nos igualar a todos no mesmo estado dimensional.

Quando nos encontrarmos ao final (início) de tudo, espero conhecê-lo em todo o seu esplendor. Ainda que intua que seja apenas uma etapa. Espero que me desculpe se não…

Abraço!

Foto por Muffin Creatives em Pexels.com

20 / 03 / 2025 / Botox

Mulher na cirurgiã-plástica
faz um procedimento simples de infiltração
de Botox na face.
Recomenda-se que permaneça com o rosto em repouso
ao menos por dois dias.
“Posso namorar?”.
“É amor ou paixão?”.
“Paixão!”
“Se for paixão, então, não!”

Foto por Gustavo Fring em Pexels.com

13 / 01 / 2025 / Minhas Amantes

maria do arouche lembro pouco
cor de entardecer em dia fechado
babá gostava manipular meu saco
era muito novo ainda conectado
com vida antes de chegar ao útero
via fantasmas nos corredores
andava parapeitos
namorava amiga morte 
chama cama de estrelas
meu avô logo cortou nosso laço
engatei com maria da penha
cresci em liberdade peripécias
fazia tudo que queria
sem compromisso apenas gozo
não me importava mas amava
parece outra vida
deixei porque fui para longe
bárbara encontrei fiquei anos
achei nunca terminaria paixão
bater bolas contra a bunda
na parede na cama no chão
sonhava era santa
eu gritava entusiasmo feito gol
comi duas mesmo lugar
épocas diferentes não se conheceram
provaram minha torpeza
primeira nunca disse amor
segunda entreguei ao melhor amigo
altíssima alternativa cabelo à la garçon
conheci maria tenente
olhos verdes amedrontavam
nunca toquei sequer abraço
somente olhares lenço sujo sangue
ideal ilusão perfeição eternidade
somente entregou irrealização
nunca esqueci sempre amarei
era bonito atraía sem esforço
fiquei com duas anas
a santificada bem mais tempo
servia a muitos depois que deixei
ainda trepei muitos anos muitas vezes
outra ana loura sonhadora
disse gostava de mim
sou de ninguém de alguém sequer
pertenço a mim vivo apaixonado
maria maria noiva meu amigo
usei muito a língua
toques debaixo da mesa
deus ausente como navio negreiro
biologia estudo profundo casou
la bergman foi intenso durou verões
veros versos não comunicados
alcancei seu corpo debaixo avental
desilusão me jogou fora entulho removeu
tati e amiga quis as duas
na mesma casa não lembro
tanque velho nos fundos
bebi demais vomitei desmaiei
eternas amigas
refez história brilhou minha vida
pintura de mulher ensinou
nova posição bicicleta outra noiva
nunca a beijei 30 anos passados vi passar
não a chamei
augusta andrógina cheia
altos baixos travesti do centro
aos jardins comi da boca a bunda
noites infindas
vitória era inocente puta
jacaré cocou 7 vezes não pagou
vamos fazer neném?
paguei sempre às vezes só olhava
efigênia irmã mais rodada
velha não envelhecida
elixir da juventude atual virtual presencial
dá a todos os gostos versátil
sempre que posso como sem proteção
maria antônia antônimo passado conturbado
duas caras que se antepunham
hoje vive calmaria comi atrás
em palco plateia teatro
verediana angélica cecília amores livres
simultâneas especiais brigava com uma
encontrava com outra consolação
agitadas corcoveavam 
suava para satisfazer queria ser notado
elas não se importavam tinham
quem quisessem quando queriam
estranho estrangeira maria paulista
ama sem identificar despreza sem qualificar
retilínea beleza sem cor amo desamo
volto a amar amante inconstante ferina
amável indigna perfeita anomalia
amante infiel amo fielmente a sem nome
aprendi amar foder amar trepar amar lamber
amar bater amar puxar amar chupar
amar rápido amar lento amar alento
amar beber amar comer amar orar
amar chorar amar sorrir amar gritar
amar brigar amar voltar sem voltar amar
amantes de hotéis baratos abençoados por santos
centrais laterais três corações zardoz 
córregos regos monte carlo sempre haverá
são francisco finalmente total sentido
sem chance nascer outra vez
eterna paixão que se fez
sagrada porque acabou.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com






Poética

A Poesia tem um poder circular
Sanguínea, etérea, cíclica, cinética
Mística e concreta, razão e paixão
Inspiradora, desestabilizadora, transcendente
Nos mata e nos faz viver o amor
E, do prazer, o gozo, a dor
O preenchimento e o vazio
Nos exalta e nos falta
É e, em sendo, deixa de ser
Para no fim encontrar sentido
Sem direção, livre ou rimada
No começo de tudo, no nada…

Foto por Yaroslav Shuraev em Pexels.com