O Inverno anuncia tardes derramadas em delírios… Mal podemos perceber que o tempo seco nos arranca a umidade da pele arrepiada ao toque do frio…
Os olhos desejam que se torne espelho a beleza que se apresenta, enquanto vemos que a paixão do Sol pela Terra vertida em sangue…
É tarde, mas tão tarde! Porém, ainda não é noite. Ainda não sinto o açoite da escuridão que me parte!
distraído de mim me sinto no início dos tempos fuma a terra bruxuleiam as plantas dançam ao sabor dos ventos animalzinhos se escondem de predadores que se aproximam enquanto dragões expelem fogo antes da noite que se derrama…
em São José Dos Campos ainda há campos mais abertos a Via Dutra caminha em seu percurso até o Rio a cidade entardece em intenso movimento de autos e pessoas floresta de torres de energia substituem às árvores no horizonte o vento espalha as nuvens que desenham ramos imaginários em tons de amarelo abóbora rosa que serão devoradas por luzes artificiais logo mais…
quando entardece a suavidade enternece nossos olhos as cores se degradam à aproximação do fim do dia as casas erguidas sobre os montes invadem o horizonte interrompem o sonho de o mundo não tem fim…
as silhuetas desenhadas no quadro da tarde denunciam a cidade que o homem desanda a pintar em dor e pouca cor mais de perto o duvidoso perfil de linhas retas são recortadas nelas seres se adaptam em jaulas e aceitam a condição de animais…
há crenças mesmo para quem não crê em nada o que já é uma crença há quem acredite de acaso no amor que se transforma em caso quando o encontro se dá há quem não acredite no amor seria uma série de episódios esparsos envolvendo sinais ações visões versões de fatos afeições transitórias e fátuas os corpos não ajudam atrapalham quando se tocam reagem quimicamente os pelos se eriçam as peles se pelam de calor fulgor de fogo paixão querência desejo falta versus falta a se completarem as bocas respondem as línguas caladas mas ativas os sexos a buscarem satisfação os sentidos em explosão busca de sentido que perde sentido e direção as horas se perdem dos ponteiros não creio em acaso mas nele boto fé os dados sendo jogados à revelia de nossa sofreguidão se encontrando em linhas de aparentes paralelas contra todos os prognósticos dois corações começam a bater no mesmo ritmo desenfreado concorrendo para que um instante se torne eterno marcando memórias recorrentes mesmo que apartadas no tempo e no espaço viver é viver de lembranças encontros desencontros o amor um caso de acaso criado pelo destino de nossos egos tontos…
Não é pregação ou advertência — algo têm que morrer, ainda que na aparência, para outro renascer.
Digo com o coração pleno de paz: apenas os mais egoístas dirão que o amor se desfaz sem deixar marcas ou pistas.
Porque se há um sentimento que seja eterno é o amor porquanto não haja consentimento, mesmo que surja o rancor.
Eu sei que o que sinto é infinito, assim como os átomos que me compõe, como é efêmero o corpo que habito, como é perpétuo o universo-mãe.
Quebramos o espelho — foram sete anos de sorte, o perfume que se perdeu o reencontramos no 102, vivemos a entrega, as brigas, cortejamos a morte porque nada poderia ser deixado para depois.
Eu a manterei na lembrança ainda que sem as minúcias que tanto preza, mesmo que não tenha mais esperança… Vê-la mais uma vez, seria uma surpresa.
Porém você está em mim — sua voz, sua boca, olhos de esmeralda que passeiam em minha mente, sua linguagem pajubá, vertigem de leoa louca — alma de loura, cabelo gris e corpo de serpente.
A memória da areia branca, o braço rumo ao céu, a carta lida no metrô — que a fez perder a direção, os toques dos saltos no corredor do hotel e sapatos de naja — carinho por declarar sua paixão.
Quando você dizia que tudo terminaria, eu não previa, tão apaixonado, tão absorto em centros alternativos, que o tempo se esgarçaria, que o templo ruiria na rua da marquesa onde nos tornávamos deuses redivivos.
O meu desejo lhe pertence — é dona de um rei… Sinto pena que ele nunca mais possa colher da rosa a cor, a dor, o mel, o prazer que nunca imaginei… Já, o escritor, sei que nunca perderá a musa de verso e prosa.
*Poema-delírio de 2020 — tempo pandêmico Imagem: Lilith, a primeira mulher, entidade de origem judáica-mesopotâmica.
você diz que quer fazer a minha mente se perder a cada palavra expressa do seu desejo partes de mim respondem excitadas atinge o meu peito que arfa em comoção aguardada mas nunca esperada de tão rara abre um sorriso na minha cara e isso é mais do que sorte gosto de beijar como pelas ondas a areia e de ser beijado como pelo vento o mar em fluxo e refluxo de entrar e sair de me deixar e me encontrar seguir pela estrada aberta até aquela praia deserta onde nos deitaremos no arenoso manto o sal a nos santificar o sol a nos invadir em calor e luz nós mesmos a nos devassarmos a nos preenchermos de silêncio ofegante banhados de suor e alegria por estarmos vivos enfim serenos e plenos em nome da paixão do gozo e do corpo santo amém…
Eu me casei com uma enfermeira que é apaixonada pelo que faz. Com ela, pude aprender o quanto essa profissão pode ser um divisor de águas entre a vida e a morte. Saber que a minha esposa pode fazer a diferença na existência de muitas pessoas, ao exercer essa atividade essencial para a saúde pública, me deixou, desde sempre, orgulhoso.
Sem falar que a “minha” enfermeira é uma excelente profissional, que saiu de uma pequena localidade do interior do Rio de Janeiro – Arrozal, um distrito de Piraí – para chegar, depois de passar por Volta Redonda, a São Paulo e trabalhar em uma grande entidade como o Hospital Israelita Albert Einstein, nele permanecendo por vinte anos, até assumir um cargo no COREN-SP.
Depois de uma segunda passagem pelo Albert Einstein, decidiu diminuir o ritmo, mas continuou a trabalhar com dedicação e afinco em um hospital municipal da Prefeitura de São Paulo. Mal sabiam os doentes que chegavam àquele local a boa sorte que tinham em encontrar uma profissional tão gabaritada – o seu Curriculum Vitae preenche três ou quatro páginas apenas de cursos que realizou – além do carinho e atenção que dedica a quem atende.
Crianças, jovens, adultos e velhos puderam presenciar a mão visível do Bem quando houve a intervenção da Enfermeira Tânia Ortega naquele momento tão delicado em que se encontravam fragilizados por alguma doença.
Mas eis que a sagitariana, instada por companheiros de profissão, dada a sua influência entre os profissionais da Saúde, ampliou a atividade para além de sua atuação assistencial no hospital. Tornou-se aglutinadora de ideias em torno das quais busca melhorar as condições de trabalho dos enfermeiros, técnicos e auxiliares.
Com a chegada da Covid-19, percebeu que, por ela, mãe de família e por todos os que enfrentam a pandemia na linha de frente, que as condições e cuidados com os itens auxiliares no atendimento aos pacientes devem ser otimizadas. Como, por exemplo, buscar soluções para o aprimoramento dos EPI – Equipamentos de Proteção Individual – sugerindo, indicando, explicando, divulgando sobre a correta utilização dos materiais.
Devemos lembrar que a cada profissional afastado por infecção pelo novo coronavírus, muitos pacientes acabam por ficar sem cuidadores preparados para enfrentar a guerra contra o inimigo invisível do vírus, apesar do descaso com relação à Saúde Pública patrocinada por muitos governantes.
Casado com a Tânia, não tento competir com a sua paixão. Compreendi que meu apoio à sua luta se configura na contribuição que posso oferecer, ainda que ínfima, na luta contra um sistema que prioriza o lucro financeiro em detrimento da vida humana. Enquanto for possível, estarei ao seu lado para caminharmos para muito além da melhoria da saúde física e mental – para que igualmente transformemos o mundo um lugar de mais paz e amor.
*Texto de 2020, nos tempos tenebrosos da Pandemia. Participante do BEDA: Blog Every Day August