Vila Madalena / A Dani

O apartamento do casal ficava no limite aceitável pela Lei de Zoneamento para a construção de edifícios um pouco mais elevados. Do quinto andar, podia-se ver o casario ainda preservado de residências em boa parte da Vila Madalena. Célia vinha de família abastada, fazia curso de Direito na PUC e se encantou com a Fábia assim que a conheceu, quando acompanhadas das amigas, a viu cantar. Foi paixão à primeira vista. Entendi perfeitamente. Passaram a dividir o apartamento meses depois, há três anos.

Ficamos conversando por duas horas na sala do apartamento, enquanto ambas fumavam maconha e saboreávamos um bom vinho tinto. Relaxei bastante, principalmente porque, sendo pescador de temas e perfis, fui conduzido para as histórias que a jovem, uns dez anos mais nova que a Fábia, se dispunha a compartilhar, como se quisesse minha aprovação. Quando achei que não aconteceria mais nada, Célia disse que subiria ao apartamento da Dani, a Sacerdotisa e nos deixaria sozinhos. Ao perceber a minha expressão que eu adivinhei ser um tanto aparvalhada, riram, as duas.

Dada a minha natureza verborrágica, pensei em dizer qualquer coisa, mas fui calado com um beijo. Regredi décadas ao momento em que comecei minha caminhada pelo desejo e pelo prazer. Como um homem ridículo, quis assumir o controle do que acontecia, até me entregar aos descaminhos de outro ser desejante. Antropologia e Psicanálise à parte, eu me senti um ser poderoso ao ser conduzido por Fábia a um prazer indizível que misturava carne e alma. Senti que a voz, o canto, a arte que produzia era alicerçada em pilares para além do dom e do talento. Havia algo que a alimentava o espírito, transformado em corpo sensível e ampliado para além do encontro de genitálias. Eu me sentia como se fosse um iniciado em uma cerimônia de ritos tão antigos quanto a humanidade. O macho que foi programado a centrar a ato sexual no falo sentiu expandir o prazer para além da pele. Por um momento, congreguei com as forças da Natureza.

Uma hora depois, suado como que lavado de substâncias alucinógenas, foi difícil sair do estado do transe. O que fiz aos poucos. Como que abrindo os olhos pela primeira vez naquele lugar, perguntei (ou imaginei perguntar):

— O que aconteceu aqui?

— Eu também o estou amando…

Eu, que sempre relutei em dizer que amava alguém, até encontrar Ella, percebi que havia ultrapassado o tempo imediato e migrei para o tempo da minha alma. Sabia que a sensação de eternidade repercutiria aquele momento por minha existência afora. E o que acontecera comigo e a minha ex-parceira fora apenas um tipo de introdução à verdadeira consumação da paixão.

Pedi à Fábia que me indicasse a porta do banheiro, para me banhar. Ela me conduziu até ele e disse que gostaria de me observar ao me passar a toalha. Um tanto desajeitado, entrei no box não muito espaçoso. Eu estava ainda enlevado e ousei perguntar se Fábia não queria também se banhar comigo. Ela sorriu, entrou e me abraçou sob a água morna. Não sabia que hora da madrugada seria aquela, mas como a medição temporal passou a não importar, ficamos demorada e intimamente massageando os nossos corpos com água e sabonete com cheiro de erva doce. Um pouco de luz ultrapassava levemente as cortinas brancas quando terminamos e permanecêssemos nus sob uma coberta leve no amplo sofá. Abraçados, adormecemos.

Por volta das 9h da manhã, fomos acordados por Célia. Estava com sacolas de supermercado, trazendo frutas, pães, geleias, manteiga e requeijão. Ela beijou a namorada na boca e anunciou que trouxera o café da manhã. Além do sorriso encantador, estava acompanhada por outra mulher, mais ou menos da idade de Fábia. Era a Dani, segundo se anunciou. Descoberto, estava nu e surpreendentemente, priápico. Quando as moças perceberam, riram gostosamente.

— “Benza”, Deus, como dizia a minha avó! – exclamou Dani, brincalhona.

— Desculpa, gente! Faz tempo que isso não acontece isso comigo… – mal reparando onde e com quem estava.

— Aceito o elogio! – disse rindo, Fábia.

Como parecia um menino pego numa traquinagem, tentei colocar a cueca rapidamente. Percebi que a pus ao contrário e ri, no que fui acompanhado pela assistência.

— Vá com calma, meu bem! Tira a cueca e põe direito… – disse Fábia, completando:

— Guarda direito o que é nosso!

E ria, acompanhada das amigas. Relaxei, a retirei com calma, com o instrumento ainda em riste. Parecia que havia tomado a pílula azul, como na única vez que o fiz para apenas me masturbar. Com Fábia, segui a minha intuição e paixão. Não queria que fosse de outra forma, ainda que não esperasse tamanha profundidade de estímulos, emoções e sentimentos.

No café da manhã, mais descontraído, perguntei para Dani sobre o apelido de Sacerdotisa.  Ao que respondeu que não era apenas um apelido, mas um título, se é que poderia se chamar assim. Ela havia estudado na Inglaterra e no México. Viajara para o Egito e os Estados Unidos, tendo contato com todas as filosofias e práticas ligadas ao que poderia se chamar de Esoterismo, mas que os versados sabiam se tratar da verdadeira maneira de entender a Realidade.

O que as religiões ditas oficiais fizeram ao longo do tempo foi condenar e atacar às práticas sacerdotais antigas, as tornando marginais. Seus membros foram perseguidos e mortos. A sociedade capitalista incorporou e adequou essas religiões a um padrão mercantil que acabou por obliterar os ensinamentos ligados à espiritualidade, apesar de sempre sublinhar que fosse seu cerne. Os vendilhões dos Templos haviam vencido.

— Por outro lado, vivendo neste estado de coisas, em que o tempo acaba por se tornar a moeda mais valiosa que existe, ao dispor dele para sobreviver, eu o conduzo de uma maneira que possa utilizá-lo para ajudar a quem quiser os meus préstimos. É uma contradição em si, mas com a qual tenho que me conformar. Originalmente, me formei em Engenharia. Isso porque eu queria reconstruir o mundo, feito uma deusa redentora… – completou Dani, sorrindo com um canto da boca. Continuou:

Eu também me apaixonei por Fábia. Se estamos aqui, reunidos nesta pequena mesa, é por causa dessa deusa nua – nosso centro vibracional.

Voltei os olhos para ela. Fábia estava apenas de calcinha. Eu, mesmo, vestia apenas o meu “samba canção”. Não pude deixar de lembrar Caetano e cantar baixinho:

“Leitos perfeitos
Seus peitos direitos
Me olham assim
Fino menino, me inclino
Pro lado do sim…”.

Apenas então me dera conta que eu estava numa canção do imenso baiano: “Rapte-me, Camaleoa”.

Fábia, Célia e Dani se entreolharam, aparentando mútuo contentamento. Depois de um momento de silêncio, Dani revelou:

— Quando conheci Fábia, essa foi a primeira música que a ouvi cantar. Eu a chamei, desde então, de Camaleoa

Louca De Amor

A louca de amor
explode em fogo e paixão…
A sua alma fulgura
sob a pálida pele,
em retesar de músculos,
em irradiação do plexo,
em espalmar de membros e terminações…

Dos seus braços saem estradas 
para a perdição, 
apontadas por seus dedos anelados 
por bijuterias baratas…
Dos seus cabelos caem estrasses
da última apresentação…
De sua boca e língua 
recebo beijos em mim,
em partes de mim, 
para além de mim,
em meu ânima…

Enquanto o seu peito arfa,
de seus olhos borrados de rímel
irrompe o sol
a iluminar o quarto escuro…
Por suas pernas desço 
até às estrelas, 
de onde subo rumo a um caminho 
sem volta,
enquanto o planeta revoluciona…

Foto por G1 / Globo

25 De Janeiros Passados Presentes

Sobre Os Jesuítas (2019)

Este painel se encontra à esquerda do saguão de entrada da Casa de Portugal, na Avenida Liberdade. Mostra o jesuíta português Manoel da Nóbrega entre os gentios da terra, em postura de força impositiva, apesar de apresentar, humildemente, os pés descalços. Se visitarmos um estabelecimento oficial espanhol em São Paulo, lá encontraremos a figura do espanhol José de Anchieta, a catequizar os nativos dos Campos de Piratininga. Oficialmente, os dois jesuítas, pertencentes à Companhia de Jesus, foram os responsáveis pela fundação desta cidade que hoje completa 465 anos de nascimento, dada a inauguração da choupana que serviria de escola e moradia. Por uma confluência de fatores, São PauloSampa, para os íntimos — tornou-se o que é. Qualquer definição que se dê a ela, em pouco tempo deixa de ter sentido, pois a metamorfose permanente é seu único traço definitivo e definidor. Em São Paulo nasci, vivo e espero morrer, a saber que já fui muitos e serei outros tantos até o fim — quando dispersarei meus átomos por esta terra que me formou.

463 Anos (2017)

Nesta imagem, homenageio a minha cidade. Eu a produzi às 6h da manhã do horário de verão, ao passar pela Ponte da Freguesia do Ó. Quis captar a Lua, em sua fase crescente. Quase não conseguimos percebê-la. As luzes das Marginais roubaram a cena, separadas pela escuridão do leito do Rio Tietê. De forma indireta, é uma maneira de reunir símbolos importantes desta metrópole — um rio morto pela poluição, vias de locomoção que estão normalmente congestionadas, luzes que nos confundem em vez de revelar, a beleza dos astros, esmaecida pela fumaça. Contudo, não viveria em outro lugar…

Feliz aniversário, São Paulo! Pena que o nosso coreto esteja bagunçado… (2014)
Foto feita em movimento sobre a Ponte Pompéia — paisagem hoje alterada — de 2012

Como um paulistano típico pode homenagear a sua cidade? Talvez trabalhando, como estou fazendo hoje. Nesta imagem, feita dois meses antes, podemos ver o casarão da família e duas das chaminés que compuseram o complexo das Indústrias Reunidas Matarazzo, na Barra Funda, na avenida que leva o nome do seu patrono — Francisco Matarazzo — símbolo da riqueza que levou São Paulo a ser, para o bem e para o mal, esta cidade que amamos e odiamos, como ocorre em toda relação de paixão.

#Blogvember / As Algemas

não acredito em almas gêmeas
desdenho de quem queira encontrar iguais em outros
sou pelo confronto de corpos e ideias
de fluxos e refluxos de pensamentos díspares
cresço quando me encaram de frente 
batem nos meus preconceitos
reformulam meus preceitos
invadem minhas fortalezas
derrubando minhas defesas
me devorando por dentro enquanto quero comer
estranhas entranhas entranhadas
confesso não percebi o momento de nossas mãos algemadas
fujo quase sempre de entregas sem tréguas
me debato feito peixe que deseja respirar água
mas o que aconteceu conosco me deixou confuso
já não sei quem sou em você e você em mim
beijo a sua boca cor de carmim
e em vezes de palavras evoluo em gemidos
enquanto salivas se bebem bêbados de paixão
abraço seu corpo o meu corpo
invado a mim em si
refuto planos de permanência absoluta
luto enquanto planto a minha bandeira em território invadido
enquanto me incorpora calma e resoluta
anuncio o luto por minha morte renasço melhor
quando digo sim…

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

Participam: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Guedes

BEDA / Vestida De Mim

Ela dizia, sem pudor ou tentativa de não parecer ridícula, que se deu conta de que estava definitivamente viciada. A falta do que queria chegava lhe dar desconforto físico. Ansiava pelo momento em que teria a dose outra vez. A vertigem do toque, a embriaguez que a saliva lhe provocava, o cheiro do homem que a enlevava… o sexo que se extasiava em abocanhar…

Há impulsos que não podem ser contidos, aduzia, e quando percebeu a oportunidade que se apresentou, se jogou sobre mim como uma náufraga sobre um pedaço de destroço no meio do mar. Não importou estar casada com um bom rapaz, que lhe trazia equilíbrio, viver uma fase de estabilidade emocional ou estar com a carreira em progressão…

Arriscou tudo para estar comigo desde a primeira vez que me viu em uma festa de rua. Da atração á franca e escancarada aproximação bastou poucos dias. Eu, entre tímido e assustado, quase não ofereci resistência. Afinal, aquela mulher que me desejava tanto era bela, instigante… e confiante o suficiente para nós dois.

Desde o princípio, mal percebi o que estava acontecendo comigo… conosco… Estava fascinado pela entrega daquela moça. Ela me fazia alcançar gozos imensos e estados mentais em que se revelavam outros “eus” além de minha identidade reconhecível. Falava sem pudor que o meu esperma a preenchia de uma quentura cauterizante. Nunca havia imaginado que houvesse alguém que pudesse amar tanto! Uma amorosa paixão que me absorvia de corpo e alma.

Nunca me tive em alta conta. Jamais fui alvo de tantas atenções até que passei a ser olhado de forma insinuante tanto por mulheres quanto por alguns homens. Eu ainda não estava tão à vontade com o poder recém-adquirido, apesar de flertar de forma inconsequente, pois abandonava no meio do caminho qualquer aproximação mais séria… até que ela surgiu em minha vida de modo avassalador.

Comigo, revelou, ela se sentia uma mulher poderosa, uma fêmea conectada com a força propulsora do universo. Gostava de mergulhar em meus olhos, buscar a minha alma, sem vergonha de me invadir inteiro. Dizia que vivia vestida de mim, em estado de contínuo arrepio. Que pareciam ser contagiosos, pois passaram a ser constantes em sua presença. Ousávamos nos encontrar nas oportunidades mais inusitadas quando então ela se oferecia a mim para o embate de corpos, estando onde estivéssemos. Sem ensaios prévios, assim que nos encontrávamos, iniciávamos uma estranha dança no qual apenas nós ouvíamos a canção que nos conduzia, agarrados, em trocas de beijos apaixonados…

Na último encontro marcado, porém, decidi não aparecer. Fiquei a observando de longe. Ela insistiu ao celular por duas horas em frente ao restaurante em que comeríamos. Não obteve resposta. Não emiti nenhum sinal. Fiz parecer que havia desaparecido da face da Terra. Deve ter se dado conta que não sabia nada sobre mim – nome completo, endereço, conhecidos… Desmaiou em plena Avenida Paulista. Corri em sua direção, mas logo foi cercada por várias pessoas que a acudiram, sendo levada para o hospital. Soube que acordou meia hora depois, com soro sendo injetado no braço.

Ainda perplexa, procurou se acalmar e quase gritou de alegria quando viu um vulto se aproximar de sua cama no ambulatório. Engasgou o clamor na garganta quando percebeu se tratar de seu marido. Ensaiou um sorriso medroso e logo sentiu a serenidade de seu abraço… Chorou um choro sentido… Seu marido nada disse. Apenas a olhava com os olhos de seu amor calmo… Talvez soubesse de algo, mas não deu a entender.

Nunca mais dei notícias. Interrompi tão intenso romance por ter me acovardado diante daquele maremoto que me jogou de um lado para outro dentro da minha própria existência. Eu havia perdido o chão e voar não era para mim. Acomodado comigo mesmo, seguia regras auto impostas que o amor daquela mulher havia transformado em pó. Ao mesmo tempo em que me sentia poderoso por tê-la a meus pés, me percebia rendido à sua submissão. Mais um pouco e não conseguiria escapar ao vórtice do buraco negro da paixão. Cortei com uma faca afiada tamanho bem pela raiz.

Pelo resto dos meus dias, cada um deles, eu sei que me arrependerei da decisão que tomei. O fantasma roto do imenso amor a mim dedicado passeará pelas ruas sem charme da cidade de pedra a me assombrar pelas manhãs, tardes e noites… até o instante de meu último suspiro, quando soprarei o nome de meu único e total amor…

Foto por Enes u00c7elik em Pexels.com

Participam do BEDA: Suzana Martins / Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso